Mídia francesa: Confinados na matrix - Le Monde Diplomatique Brasil

UMA NOVA CONDIÇÃO PARA O GÊNERO HUMANO?

Confinados na matrix

Edição 155 | França
por Denis Duclos
1 de junho de 2020
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Contagens diárias macabras, vizinhança tóxica, previsões apocalípticas, imagens mórbidas em sequência: protegida pelo combate à Covid-19, a mídia organizou o terror sanitário para uma população francesa tratada como uma criança pequena. Interlocutores únicos de uma audiência confinada por dois meses, ela acabou por construir uma realidade

Meses de doença e confinamento levaram populações inteiras a depender cada vez mais da mídia para se informar, refletir, discutir e trabalhar. Embora a distribuição da imprensa escrita tenha sido prejudicada pelas medidas de confinamento, raramente seu consumo foi tão grande: jornais, cadeias clássicas de rádio e televisão, vídeos na internet, redes sociais, informações 24 horas, fóruns e videoconferências – o planeta midiático zumbe como uma colmeia gigante, trocando mensagens sem parar. Em que direção atos e pensamentos estão sendo estimulados ou influenciados? Difícil responder, mesmo filtrando milhares de referências temáticas do Google Notícias em cinco meses.1 Menos em um aspecto: a mídia mundial foi sem dúvida uma produtora do acontecimento, impondo-lhe um sentido intolerável e o alinhamento da maioria dos Estados a uma mesma política sanitária de exceção.

Apresentando-se como o coro de um teatro trágico, posicionado entre o público e os profissionais para lhes comunicar suas posturas mútuas, a informação globalizada colocou frente a frente duas forças principais: cientistas e autoridades de um lado, povos e “pacientes” do outro. Mas, ligados e submetidos à nova condição eletrônica do gênero humano, público e atores não estão confinados juntos na cela de uma mesma instância midiática?

Uma de suas manifestações mais espetaculares não escapou a ninguém: as curvas, mapas e gráficos relativos à epidemia, as ordens de confinamento, de quarentena e de fechamento de fronteiras, que cativaram e nutriram diariamente o conjunto da mídia do planeta. Esses infográficos – por meio dos quais se produz a realidade (e não o contrário), a ponto de a estratégia mundial de combate à Covid-19 chamar-se “achatamento da curva” – constituem agora, na superfície do “planeta” da mídia, analogias sanitárias dos boletins de meteorologia ou dos pregões da Bolsa, interpretadas em tempo real e depois discutidas nos programas de debate.

 

Uma tecnociência idealizada

Baseados em números parciais, tendenciosos e fragmentários, esses indicadores de RO (número médio de pessoas infectadas por um portador do vírus), taxas de mortalidade, quantidade de doentes, de óbitos, de pacientes recuperados etc. chamam continuamente uma atenção inquieta. A comparação internacional se mostra ainda mais eloquente quanto à impossibilidade de um saber exaustivo. Perguntamo-nos se as incessantes batalhas de números publicados sobre a inclusão ou não de determinada categoria de óbitos têm por alvo (compreensível) evitar a vergonha de um resultado “pior” que o do vizinho. Pode-se esperar então que os “planetas” midiático e sanitário se fundam para criar os instrumentos de uma leitura universal imediata de todos os dados seguros de contágio e morte.

Sobre a propagação do vírus, a mídia evita divulgar informações que ponham em questão a doutrina governamental e a necessidade de confinamento – por exemplo, a hipótese de um menor impacto da epidemia em países quentes e úmidos, ou sobre populações jovens ou isoladas do fluxo comercial. Mas a desconfiança só oferece um consolo limitado: é preciso também tranquilizar, insistir nas esperanças que nascem no seio da população e nas promessas das indústrias farmacêuticas. Os jornalistas enaltecem passivamente as regras sempre virtuosas (ao que parece) do “método científico”, que conduzirão à descoberta do remédio “enfim infalível”. Ignoram de bom grado a parte cada vez mais importante da fraca replicabilidade das experiências e dos protocolos de prova ou, ainda, a não confiabilidade de numerosos testes positivos ou negativos.

A expectativa versátil do coro midiático se depara aqui com um paradoxo: ela alimenta a crença em uma tecnociência idealizada, mas, ao mesmo tempo, fustiga aqueles que nos enganaram com anúncios prematuros ou que contestam a farmacologia oficial. A suspeita de charlatanismo acompanha, como uma sombra, a fé tecnófila. Pressiona os pesquisadores, que também precisam de liberdade (para se enganar e mudar de ideia), não importa a urgência da encomenda.

Os avisos das autoridades sobre a limitação da liberdade comum seguem uma orientação midiática similar à das cifras, mas de outra maneira. Suscitam ainda mais as paixões e controvérsias, inspiradas pela divergência de interesses legítimos, mas também por análises opostas do acerto (ou do erro) das políticas públicas. Isso se aplica, por exemplo, à ardente disputa sobre o rastreamento das populações. Quanto ao debate entre “imunização de rebanho” (defendida principalmente nos países do norte da Europa) e “isolamento”, a mídia se exalta, talvez por causa da suspeita de irrealismo da primeira opção e do receio de que ela possa alimentar, como na Suécia, a preferência, não pela economia à custa da vida, mas pela liberdade à custa da saúde pública.

No caso das decisões que se impõem como ordem jurídica, política ou militar-policial a toda uma população (estado de emergência, confinamento), admitem-se de início suas justificativas oficiais, espalhadas por todo lado, como o famoso “achatamento da curva” para “não sobrecarregar o atendimento”. Em seguida, uma dúvida prudente é insinuada pelos computadores e câmeras. Ao mesmo tempo que acompanha a política, a mídia aceita cada vez menos a hesitação e a “cacofonia” dos políticos. E isso enquanto, supostamente, se reconhece o caráter positivo do desacordo na democracia, pois ele modera um ativismo histérico que pode se revelar mais catastrófico que a própria doença.

Já o debate sobre a eficácia real das políticas de prevenção exibe às vezes uma atitude precipitada. Assim, a publicação, em 22 de abril, de um estudo segundo o qual o confinamento teria evitado pouco mais de 60 mil mortes foi prontamente retomada pelo governo francês e pelo conjunto da imprensa – sem que esperassem, dessa vez, a confirmação de outros pesquisadores.2 Não se diz o mesmo dos efeitos sanitários deletérios do confinamento, observados em grande escala em países como a Índia e, de maneira mais difusa, no mundo ocidental.

Como se ninguém ousasse mais exprimir hoje o que parecia evidente ontem, nenhum jornalista achou útil lembrar estas palavras de Jean-Claude Ameisen, imunologista de renome (que, no entanto, era bem conhecido da mídia), criticando já em 2007 a aplicação em nível internacional de “medidas de distanciamento social que acentuam o isolamento das pessoas, correndo-se assim o risco de colocar as mais frágeis em situações dramáticas e provocar sua morte independentemente da infecção pelo vírus da gripe”.3 O passado só volta à tona muito devagar e de maneira seletiva, para dar apoio equívoco às posições preferidas: fotos de pessoas, em 1918, mascaradas sob pena de prisão,4 arquivos exumados contando a repetição de quarentenas ao longo dos séculos etc.

A solidão do político obrigado a tomar decisões e a assumir uma responsabilidade excessiva lança-o numa espiral de medidas urgentes (como Olivier Véran, ministro francês da Saúde, que declarou em 24 de março a propósito do confinamento: “Durará enquanto tiver de durar”), às vezes inadequadas, e de defesas autoritárias (obstinadas ou falsamente impostas pela situação) de seus atos, ao preço da marginalização do debate. Mas, quando o erro não pode mais ser disfarçado, vozes se levantam de todos os lados e a própria mídia começa a participar do drama. A encenação do desastre (“a epidemia assassina” é cíclica, afrouxar o confinamento será “pior”, o colapso é iminente) forja um consentimento oriundo do medo. Essa angústia não parece, entretanto, provocar uma reavaliação orgânica da sociedade-mundo. Bem ao contrário, alimenta uma lassidão já nostálgica, piedosa, adepta da “volta” a uma normalidade perdida, que se deve merecer mediante uma disciplina social e higiênica da qual todos serão guardiões.

À reclusão forçada, opõem-se os contatos “humanos” e “compassivos”: a mídia homenageia os cuidadores e relata as manifestações de solidariedade da parte do público. Mas, também aí, o “negativo” surge sem demora: se nos blindamos de virtude editorial para recriminar as manifestações de xenofobia contra os asiáticos (ou os africanos na China), denunciamos de bom grado as pessoas “que não respeitam as proibições” ou os reincidentes que se recusam a exibir seus atestados, nova encarnação de uma marginalidade individualista e perigosa. Para censurar apressadamente o vizinho que tosse diante de nós ou corre sem máscara, apoiamo-nos em notícias desagradáveis: daí a ânsia de delatar, que lembra a ocupação nazista. No entanto, as redes sociais e outros espaços de expressão do público (as antigas “cartas dos leitores”) regurgitam de posições extremas, indicando aonde a mídia, momentaneamente hesitante, talvez vá parar amanhã: rejubilando-se com os programas de localização dos amigos contaminados, com o passaporte imunitário ou com a multiplicação de atestados.

 

A baleia de Jonas

Sabe-se bem o que dizer das instituições de cuidados para idosos, cujo pessoal, em condições de trabalho muito perigosas, simplesmente “fugiu”, abandonando-os (na Lombardia, mas também na França). Na França de 1918, não se falava nos jornais do número crescente de pessoas que se recusavam a morrer em nome do bem coletivo (evocadas por Stanley Kubrick em Glória feita de sangue). Contudo, o mero fato de as famílias colocarem (às vezes, à força) seus idosos nessas instituições de “solidão assistida”, que contribuem com quase 50% para as estatísticas de mortalidade por Covid-19, constitui um tema tão intimidador que gera um silêncio eloquente, para o qual a mídia, constrangida, contribui.

Toda essa gama de opiniões e contradições tende, afinal, a ultrapassar a linha de desinformação encomendada. Forma-se, antes, uma trama global de percepções midiatizadas do real, que passa a coexistir com nossa sociedade-mundo. Um ilustrador evocaria aqui um cardume gigantesco de peixes cintilantes envolvendo a Terra, com cada um se orientando em todos os sentidos individualmente, mas dando meia-volta ao mesmo tempo.

Certamente, já emerge do conjunto da mídia, visto em detalhe, uma onda de questionamentos sociais em profundidade, recortada pelo contraste expresso, quando do movimento dos “coletes amarelos”, entre “o fim do mês e o fim do mundo” – o conflito latente entre a necessidade de renda imediata e a da “sobrevivência” do futuro antropoceno. Os artigos críticos que sugerem correções consideráveis a fazer no regime econômico permanecem evasivos, quando não circunscritos à mídia “engajada” ou que divulga os engajamentos – indulgentes ou excessivos. Também quanto a estes últimos, estamos ainda longe de propostas políticas globais, suscetíveis de serem articuladas pelas classes políticas, que em toda parte parecem confusas e solapadas em sua própria razão de ser.

No momento, a erupção interminável de intervenções parece querer demonstrar que o grande acontecimento não é talvez a pandemia em si. Para além dos estados de emergência e dos planos governamentais para a saída da crise, haveria agora alguma coisa insuperável nos confins de nossas vidas, ligada ao triunfo supranacional das baronias da internet: democratas ou não, estaríamos confinados no planeta mídia sem poder escapar!

E isso como se, em última instância, a sociedade-mundo enfim se impusesse a nós conscientemente, com tanto mais poder esmagador quanto, à semelhança da baleia de Jonas, ela nos teria engolido e dissolvido a todos com seus sucos algorítmicos, fortes ou fracos, resistentes ou ávidos de poder, anarquistas ou obcecados pela ordem, passivos ou criativos.

Essa descoberta ora em curso não é, em si, negativa. Uma “reaproximação social” será também necessária para nossa saúde mental e física, após o estado de isolamento de emergência. Mas estamos avisados de que a moderação se sucede frequentemente ao descomedimento e que, tão logo a tal “normalidade” retorne em volta e dentro de nossas telas, nós recairemos rapidamente na sonolência tecnologicamente governada e midiaticamente assistida, esquecendo nossas resoluções angustiantes de autêntico desconfinamento, interno e externo.

 

Denis Duclos é antropólogo.

 

1 Este texto se baseia na coleta e análise de milhares de artigos e vídeos em língua francesa, inglesa, italiana e espanhola publicados na internet entre 1º de janeiro e 11 de maio de 2020.

2 Cf. Jonathan Roux, Clément Massonnau e Pascal Crépey, “Covid-19: One-month impact of the French lockdown on the epidemic burden” [Covid-19: impacto de um mês do lockdown francês sobre o fardo da epidemia], 22 abr. 2020.

3 Jean Claude Ameisen, “La lutte contre la pandémie grippale: um lévier contre l’exclusion” [A luta contra a pandemia gripal: uma alavanca contra a exclusão], Esprit, Paris, jul. 2007.

4 Cf. “In the 1918 flu pandemic, not wearing a mask was illegal in some parts of America. What changed?” [Durante a pandemia de gripe de 1918, não usar máscara era ilegal em algumas partes dos Estados Unidos. O que mudou?], CNN, 5 abr. 2020.



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