Consumidor trabalhador - Le Monde Diplomatique

SOCIEDADE CONTEMPORANÊA

Consumidor trabalhador

por Laurent Cordonnier
1 de junho de 2011
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E o consumidor vai ao supermercado, enche o carrinho, fica na fila do caixa; monta seu kit de móveis, instala seu decodificador de TV, ativa sua conexão de internet; procura a referência da conexão da torneira do banheiro, aprende a usar programas de computador, lê manuais…Laurent Cordonnier

Folga não é necessariamente descanso. Já sabemos que, quando o trabalhador – e a trabalhadora, em especial – não está “no trabalho”, ele continua a labutar, porque o tempo gasto em tarefas domésticas ultrapassa o usado no trabalho remunerado.1 Mas prestamos menos atenção ao fato de que ele consome e, como consumidor, muitas vezes trabalha de graça para as empresas ou governos… para terminar, justamente, o trabalho. Ele lê revistas de consumidores, faz pesquisas na internet, organiza seus projetos, reserva suas passagens de trem; vai ao supermercado, enche o carrinho, fica na fila do caixa; monta seu kit de móveis, instala seu decodificador de TV, ativa sua conexão de internet; procura a referência da conexão da torneira do banheiro, aprende a usar programas de computador, lê manuais… e volta alguns dias depois ao serviço de suporte de vendas, quando não ao balcão de reclamações.

Se o consumidor trabalha, pode-se dizer que ele faz isso porque quer. Participar da produção de bens de consumo seria uma forma agradável de fazer horas extras, que não são pagas diretamente, mas na verdade economizam o salário (permitindo comprar mercadorias mais baratas que estão inacabadas). Para quem é corajoso e aprecia o “faça você mesmo”, essa oferta de trabalho voluntário tem também a vantagem de não estar exposta ao risco de desemprego. É um daqueles casos excepcionais, como o de Robinson Crusoé em sua ilha, em que basta querer trabalhar para encontrar um emprego. Alguns até defendem que esse trabalho benévolo é o grau de autonomia que nos é oferecido, a oportunidade de não sermos consumidores passivos. A figura do trabalhador manual hábil, do amador entusiasta, da pessoa competente em consertar coisas, do “Consumidor Atuante”, está sempre pronta para aparecer em cena.

O consumidor-trabalhador achará, no entanto, difícil admitir – porque seu trabalho é também o de “positivar” esses momentos –, mas esse grau de autonomia não é, realmente, opção sua. Tal como seu vizinho, ele leva seus sapatos ao sapateiro, remove sua bandeja de fast-food, preenche páginas de informações pessoais no momento da compra on-line, passa as manhãs de sábado nas lojas tentando encontrar um armário de rodinhas que não é mais fabricado… Mesmo que ele venha a desfrutar a “liberdade” – uma ideia que alguém colocou em sua cabeça – de reservar sua passagem de trem pela internet, de pijama, sentado confortavelmente em sua cama, para sua viagem de negócios do dia seguinte, ele sabe, talvez lá no fundo, que não está usando seu tempo livre para ir pescar. O trabalhador ainda ousará, às vezes, admitir que não tem muita escolha, as filas são longas nas bilheteiras da estação… Pois é desenvolvendo todo tipo de alternativa desagradável para o consumidor que, este, finalmente, achará mais conveniente fazer o serviço ele mesmo. O manejo cuidadosamente calculado das filas nos correios, na Previdência Social, no supermercado é certamente uma das artes consumadas da gestão neoliberal, que consiste em transformar o comportamento de repúdio do consumidor em uma marcha heroica para a liberdade de escolha.

Tornando-se um trabalhador, o consumidor descobre a produtividade. Que vergonha se ele não tiver a destreza suficiente para parecer um ás do caixa rápido. Ele vai sentir na nuca a respiração silenciosa e irritada dos clientes na fila. O imperativo da produtividade o persegue até quando sai de férias, quando ouve, encantado, as instruções da recepcionista da companhia aérea para sua autorreserva que irá, eventualmente, eliminar o próprio trabalho dela. Aos poucos, porém, ele recebe algumas pequenas recompensas que lhe trarão a alegria de enfim ter alcançado a conformidade: os caixas rápidos não lhe metem mais medo; ele pilota com virtuosismo os terminais automáticos da empresa ferroviária; sabe finalmente atualizar a licença de seu antivírus. O consumidor certamente ganha competência. Mas, para fazer disso algo totalmente positivo, seria necessário esconder o fato de que esse tipo de qualificação – inegavelmente importante, pois sua ausência poderia torná-lo inviável, social e economicamente – é apenas uma chave que abre e fecha todas as portas de uma prisão… sem nunca se ver a luz do dia.

Em última análise, de que se ocupa o consumidor – como é que ele se torna cada vez mais um trabalhador? Ele está ocupado esvaziando com uma pequena colher o oceano de destroços de uma sociedade que teremos de chamar um dia de “sociedade da pane”. Tudo o que funciona, tudo o que pode ser feito sem muita dificuldade, tudo o que é regular (normal, rotineiro, repetitivo), tudo o que “vai bem”, que “flui”, em suma, tudo o que é suscetível de sucesso fácil tem sido confiado a autômatos (tecnológicos ou de procedimento). Mas em um mundo em que o registro da ação humana foi reduzido, de forma mortal, pelas operações técnicas, confiar a melhor parte (as ações que produzem) às máquinas é morrer antes do tempo.

A sociedade de serviços não tem se tornado o recipiente, muitas vezes lucrativo,2 sempre bastante mórbido, dessa economia de pane? Uma economia que faz que as oportunidades de encontro, intercâmbio e troca de palavras se realizem em torno do fracasso: nos balcões de serviço ao consumidor, no guichê de reclamações, no pronto-socorrodo hospital, na delegacia, ou seja, onde quer que se forneçam as soluções para colocar de volta nos trilhos de um protocolo automatizado uma situação que foge das normas, um caso difícil, um mal-entendido, aquilo que escapou por um momento. Os funcionários que trabalharam durante todo o fim de semana encontram na segunda-feira, no emprego, os náufragos do protocolo: aqueles para quem o tratamento de antibióticos não funcionou (os pacientes curados raramente retornam para cumprimentar o médico), os que perderam sua correspondência, o viajante que teve sua bagagem extraviada no aeroporto, os analfabetos que “não compreenderam direito” os termos do contrato de empréstimo ao consumidor, um inquilino que não paga o aluguel há três meses…

Marcadas com o selo do fracasso, do fiasco, da má sorte, as oportunidades que nos são dadas para “restaurar algo de humano em tudo isso” se transformam em amargura, desconfiança, queixas e protestos vazios. Sentimo-nos então quase apaziguados quando todas essas respostas, como a descarga de agressividade que acabamos de lançar no sistema de telemarketing de nosso provedor de internet, são capturadas de forma higiênica e retificadas por uma salva de boas maneiras formulada também automaticamente: “Obrigado por sua confiança, Sr. Robinson; a empresa Quesabeoquefaz lhe deseja uma boa noite!”.

A ambição de automatizar os excessos do sistema pode ser nosso novo Eldorado. Começamos a sonhar, imperceptivelmente, com coisas que poderiam funcionar “realmente bem”. De repente passamos a sentir a satisfação narcisista de nos reconhecer nesse universo de causalidades implacáveis, dissimulando cada vez menos nosso entusiasmo tecno-cool. Como dizia André Gorz, “a mente, que se torna capaz de funcionar como uma máquina, se reconhece na máquina capaz de funcionar como ela – sem perceber que na verdade a máquina não funciona como o espírito, mas apenas como o espírito que aprendeu a funcionar como uma máquina.”3

Laurent Cordonnier é economista e mestre de conferências da Universidade Lille-I. Autor de Pas de pitié pour les gueux (Nenhuma piedade para os miseráveis), Paris, Raisons d’Agir, 2000 e de L’Economie des Toambapiks, Raisons d’Agir, Paris, 2010.



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