Contra o comunismo e o neoliberalismo - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA/EUA

Contra o comunismo e o neoliberalismo

por Walter Benn Michaels
1 de novembro de 2010
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O Tea Party é financiado por bilionários como David Koch, que alega fazer parte do povo apesar de ter sua conta bancária bem rechada. Ainda que tais declarações antirricos pareçam absurdas, os discursos de seus membros têm conseguido despertar mais interesse que a ladainha dos partidos Republicano e DemocrataWalter Benn Michaels

Qual é o inimigo mais perigoso dos Estados Unidos? No verão passado, a questão suscitou uma animada polêmica entre duas vedetes da direita americana. Bill O’Reilly, que apresenta um dos programas mais assistidos da Fox News, insistia na resposta esperada, a Al-Qaeda. Durante a administração George Bush filho, o choque de civilizações estruturava a visão de mundo dos conservadores americanos. Ao abordar um tema como a imigração ilegal, seu temor era que partidários de Osama bin Laden se esgueirassem entre os manobristas de hotéis em Chicago ou fossem trabalhar nos frigoríficos de Iowa. Mas o colega e rival de O’Reilly, Glenn Beck1, defendia, na Fox News, uma perspectiva mais insólita: não são os mujahedins (guerrilheiros islâmicos) que “estão tentando destruir o nosso país”, mas “os comunistas”. Para Beck, assim como para os ativistas de direita do Tea Party, dos quais ele é próximo, o terrorismo representa uma ameaça muito menos preocupante que o socialismo.
Mas a tese do perigo vermelho evoca mais a Guerra Fria do que os anos após o 11 de setembro. Sua reciclagem é surpreendente partindo de um jornalista que pertence à geração dos baby boomers. Beck ainda não havia nascido em 1963, quando o secretário de Agricultura do governo Eisenhower, Ezra Taft Benson, comentando a promessa do líder soviético Nikita Khrushchev de conquistar a América para o socialismo, assegurava que um dia – ou seja, hoje, de acordo com Beck, que frequentemente cita o discurso – o país acordaria sob o jugo do Kremlin. O bloco soviético entrou em colapso, mas os seguidores do Tea Party não deixaram de tentar desmascarar os comunistas infiltrados no Partido Democrata. Na lista dos best sellers da Amazon.com, o ensaio político mais procurado é O Caminho da Servidão, do economista ultraconservador austríaco Friedrich Hayek. Pode-se até ouvir um radialista famoso, Rush Limbaugh, apelando para a vigilância contra espiões “comunistas” que “trabalham para Vladimir Putin2”.
Por que o comunismo? E por que agora? Ao contrário da fobia contra o Islã, que usa como pretexto os milhares de americanos mortos pelos muhajedins, o anticomunismo de hoje não se baseia em nenhum elemento concreto. Não só não houve bolcheviques nos aviões que atingiram o World Trade Center, mas, além disso, não há praticamente nenhum comunista em todo os EUA e, mesmo na ex-URSS, eles são apenas um punhado. De fato, se há um ponto de convergência entre Vladimir Putin e Barack Obama, é o entusiasmo compartilhado por aquilo que o primeiro-ministro russo chamou, em Davos, de “o espírito da livre iniciativa”. No entanto, como o antissemitismo sem judeus, o anticomunismo sem comunistas desempenha, hoje em dia, um papel crucial no discurso da direita, especialmente no seio daquela antineoliberal.
O próprio caminho percorrido por Beck sugere, em parte, o como e o porquê desse anacronismo: ele é um claro desdobramento do neoliberalismo, que chegou à maturidade com o colapso do comunismo e que, confrontado com a Grande Recessão, prospera fazendo reviver um fantasma desaparecido. Segundo seus biógrafos, seus pais se divorciaram devido ao estresse causado pela recessão do fim da década de 1970. Nos anos 1980, quando começou no rádio, ele aproveitou a intensa disputa por audiência trazida com a desregulamentação das comunicações. Seus sucessos e seus fracassos coincidiram com a fragmentação crescente da indústria audiovisual, cada vez mais sujeita às exigências do mercado. Além disso, antes de embarcar em suas primeiras cruzadas políticas, Beck ficou conhecido pelo refinado senso de marketing pessoal3. Para seus críticos, os pontos de vista conservadores que ele martela sem cessar revelam mais seu desejo por lucro do que uma convicção profunda.
Mas se as últimas três décadas nos ensinaram alguma coisa é que o marketing é uma política em si mesmo. Para Beck e seus milhões de simpatizantes, não é ao triunfo do capitalismo que devemos atribuir nossos problemas atuais, mas à volta do comunismo. Evidentemente, são “os imigrantes e socialistas”, e não os sauditas vindos de avião, que estão precipitando esse retorno. O mesmo raciocínio está presente nas reuniões do Tea Party, durante as quais os ânimos se agitam contra a “Obamacare” (a reforma do sistema de saúde, penosamente obtida pelo presidente dos Estados Unidos) e a suposta “socialização” da medicina. “Eu tive de explicar, educadamente, que era o Estado que lhes fornecia sua assistência médica”, observa o senador republicano Inglis, “mas eles não queriam entender nada4”. Essa cegueira é facilmente explicada. Por um lado, os adeptos do Tea Party afirmam que o Medicare e a seguridade social estão em processo de colapso. Por outro, não veem que a privatização desenfreada e a falta de recursos é que levaram essas agências à beira da falência. O que eles querem, em outras palavras, é que se proteja tanto o neoliberalismo (suprimir o Obamacare) como o socialismo (não perder o Medicare).
Claramente, não existe um grama sequer de comunismo na cobertura médica estabelecida pela administração Obama e muito menos na legislação sobre imigração. Na verdade, ao contrário dos militantes do Tea Party, os economistas da Escola de Chicago assimilam as fronteiras abertas ao livre comércio. Eles consideram que não é a imigração, mas o “controle da imigração” que é semelhante a “uma forma de planejamento socialista”. Os liberais também argumentam que, a partir de uma perspectiva estritamente econômica, a imigração ilegal é muito menos suspeita de comunismo, visto que “responde às forças do mercado de uma maneira mais satisfatória que a imigração legal” e “beneficia tanto os trabalhadores irregulares que querem trabalhar nos Estados Unidos como os empregadores que estão à procura de uma força de trabalho flexível e barata5”. Nesse sentido, quando Beck entoa um dos slogans prediletos do Tea Party: “Sim à imigração, não à imigração ilegal”, ele se opõe mais ao neoliberalismo do que ao comunismo. Em suma, o que o Tea Party considera a mais grave ameaça ao capitalismo nada mais é do que capitalismo…
Ninguém pode conceber, naturalmente, o apoio à imigração ilegal. Tal afirmação seria também contraditória, pois a coerência deveria ser reivindicar a abertura legal das fronteiras. Mas uma situação absurda, em seu princípio, pode muito bem fazer sentido na política. Assim, a administração de George W. Bush, como a de Barack Obama, conduziu uma política de imigração com o objetivo de fornecer aos empregadores mão de obra barata e, ao mesmo tempo, condenar essa mesma força de trabalho, em razão da sua ilegalidade que determina, por sua vez, seu custo barato.
A concentração maciça de riqueza nas mãos dos mais ricos não é estranha à maneira americana de gerir a imigração. Onde o fechamento das fronteiras limitou o aumento das desigualdades, a nova mobilidade do capital e do trabalho levou ao efeito oposto. Assalariados cada vez mais nômades, capitais cada vez mais móveis e a desregulamentação, que acelera seus movimentos, caracterizam esse neoliberalismo que, retomando a fórmula de David Harvey6, erigiu a “crescente desigualdade social como pedra angular de seu projeto”.
Portanto, não é surpreendente que as reações de ansiedade se multipliquem nos Estados Unidos, pelo menos entre as categorias de trabalhadores cujo acesso à riqueza nacional continua a diminuir. Nos primeiros anos da administração Reagan, os pobres e a classe média, que compunham 80% da população, recebiam 48% do rendimento nacional, agora não chega a 39%.

 

POR TRÁS DOS PANOS
A indignação demonstrada por Glenn Beck e o Tea Party é, contudo, curiosa. Eles geralmente pertencem à categoria dos 20% dos americanos mais ricos, para quem o neoliberalismo não foi um mau negócio7. De fato, a imigração ilegal foi uma das fontes de sua prosperidade. Se estamos acostumados com a ideia de que os pobres briguem entre eles, não estamos nem um pouco acostumados a ver os ricos protestando – e na rua! – contra as políticas responsáveis pela sua prosperidade.
Mas esse fenômeno é incongruente apenas na aparência. É certo que a parte da riqueza nacional devolvida aos 20% mais ricos tem continuado a crescer ao longo das últimas três décadas, o que é uma boa notícia para uma força política que santifica as desigualdades. A má notícia, porém, é que esse aumento beneficia, principalmente, o topo da cadeia. Em 1982, o 1% mais rico dos americanos recolheu 12,8% da riqueza nacional quando, em 2006, ele absorvia 21,3% – quase o dobro. Ao mesmo tempo, a fatia do bolo reservada aos 20% mais prósperos passou de 39,1% para “apenas” 40,1%. Assim, quando veem a imigração como uma ameaça, os integrantes do Tea Party não estão totalmente equivocados: seus simpatizantes percebem vagamente que as desigualdades estruturais que sustentam o seu modo de vida atingiram um nível que está além de seus interesses. O capitalismo criou vencedores e agora está ameaçando torná-los perdedores.
Essa situação criou um simulacro de antielitismo ainda mais desconcertante do que o que estávamos acostumados na política dos EUA. Em geral, os milionários do Partido Republicano conseguiam parecer mais próximos do povo que aqueles do Partido Democrata, vestindo botas de cowboy, ao criticar o aborto e falando incessantemente de Jesus8. Mas este ano, como mostraram as primárias realizadas em Nova York, Delaware e Alasca, Jesus não é mais suficiente. Assim, não foi só graças à sua fé cristã que a candidata do Tea Party, Christine O’Donnell, superou seu rival republicano no Estado de Delaware. Diretora da Aliança do Salvador para a vinda do Verdadeiro Ministério, uma seita evangélica que prega a abstinência sexual e eliminação da masturbação, o que lhe permitiu triunfar foi seu discurso inflamado contra a classe dirigente. “As elites não nos entendem, elas nos tomam por tolos. Mas nós somos o povo!”, exclamou recentemente, sob uma chuva de aplausos. Depois, atacando os democratas ricos na esteira dos republicanos ricos, ela criticou o ex-candidato à presidência John Kerry, acusado de tentar sonegar os impostos devidos sobre seu novo iate, de US$ 7 milhões. “Eu nunca tive um emprego superbem pago, nem veículo pago pelo Estado. Eu nunca procurei esconder meu iate para escapar do Fisco e tenho certeza de que a maioria de vocês também não.”
Certamente, o fato de Christine O’Donnell chamar a atenção dos eleitores zombando dos políticos ricos não significa que ela faria melhor se colocada em seu lugar, no evento improvável que ela fosse eleita. O Tea Party é financiado por bilionários como David Koch, cuja mais recente contribuição para os interesses de “nós, o povo”, foi demitir 118 funcionários na Carolina do Norte. No entanto, mesmo se julgarmos um absurdo as declarações antirricos do Tea Party e não compartilharmos de sua aversão à imigração, o fato é que os ressentimentos que exalta são mais interessantes politicamente que os refrãos dos partidos Republicano e Democrata.
O Bureau Federal do Recenseamento acaba de anunciar que 44 milhões de americanos vivem abaixo da linha da pobreza, enquanto 1% da população controla metade da riqueza produzida pelo país. Um partido que contestasse os privilégios dos ricos sem culpar os pobres por sua miséria, certamente, abriria uma nova página na história política dos Estados Unidos.

Walter Benn Michaels é professor da Universidade de Illinois, em Chicago, Estados Unidos. Autor de The trouble with diversity, how we learned to love identity and ignore inequality (O problema com a diversidade, como nós aprendemos a amar a identidade e ignorar a desigualdade), Nova York, Metropolitan, 2006.



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