Contra o Estado assassino e a degradação da vida

32 anos da chacina de Acari

Contra o Estado assassino e a degradação da vida

Acari | Rio de janeiro
por Fábio Araújo e Fábio Mallart
26 de julho de 2022
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Confira entrevista com Aline Leite, filha de Vera Lúcia Flores, uma das Mães de Acari, e irmã de Cristiane Leite de Souza, desaparecida desde 26 de julho de 1990. Entre outras questões, Aline mostra como o Estado, em suas múltiplas dimensões, não assassinou apenas a sua irmã, mas também, por meio de todo o sofrimento decorrente da não resolução do caso, a sua própria mãe, estendendo a morte para os familiares dos mortos

A entrevista abaixo foi realizada com Aline Leite, filha de Vera Lúcia Flores, uma das Mães de Acari, e irmã de Cristiane Leite de Souza, desaparecida desde 26 de julho de 1990. Ao longo de nossa conversa, Aline, que à época da chacina tinha 7 anos de idade, discorre sobre os desdobramentos do caso, a luta das Mães de Acari e os efeitos para a sua geração, que continua a conviver com o desaparecimento de seus entes queridos: eu estou há 32 anos esperando uma certidão de óbito. Entre outras questões, nossa interlocutora – a quem agradecemos por partilhar as suas dores e lutas –, nos mostra como o Estado, em suas múltiplas dimensões, não assassinou apenas a sua irmã, mas também, por meio de todo o sofrimento decorrente da não resolução do caso, a sua própria mãe, estendendo a morte para os familiares dos mortos.

Todavia, se o Estado acredita que a batalha pelo sepultamento desse, e de outros tantos casos, está vencida, Aline é a personificação de que o combate ainda não acabou. Ao citar uma frase de Lygia Fagundes Telles, a nossa interlocutora demonstra que está de pé: não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas.

Vera Lúcia Flores, em Manifestação das Mães de Acari, na Candelária, em 2007 (Foto: Fábio Araújo)

***

 

Em audiência pública realizada recentemente sobre o caso Mães de Acari, você afirmou: “Eu não sei dizer quem sou eu, Aline, sem o caso Acari, não sei distinguir o que seria da minha vida sem o Caso Acari…”. Após 32 anos, o que significa conviver com essa história?

Desde sempre, eu tenho problemas, sou acompanhada por psicólogos. Tudo isso depois do caso Acari, tudo isso depois dos sete anos de idade. Antes disso eu não tinha nenhum problema. Eu chegava a desmaiar, e aí diziam: “é hipoglicemia”; “ ela não tomou café”. Tinha sempre alguma coisa porque a gente tinha que colocar alguma desculpa. E aí, fui me entendendo durante todo esse processo, todo esse tempo, que é grande demais, que eu completei agora, dia 3 [de julho], 40 anos. Eu poderia estar falando aqui com o meu coração menos aflito, sabe? Com o meu coração menos aflito porque jamais deixaria de pensar naquela dor que aconteceu há 30 e tantos anos atrás, mas eu não estaria tão indignada, ainda, com o Estado. Então, depois do falecimento da minha mãe, a gente ainda ouvia algumas pessoas na minha família dizendo: “ela faleceu de diabetes, ela faleceu de…”. O Estado não veio com a arma e botou na cabeça dela. Ela não desapareceu como a minha irmã. Mas a minha mãe sofreu! Desde que eu me entendo por gente, eu estou totalmente destruída emocionalmente. Eu não sei realmente distinguir a Aline antes e depois, porque aquela memória que eu tinha antes é muito curta. Depois disso é que a gente vai criando as memórias. E aí a gente vai formando, eu realmente não tenho o que dizer. Eu poderia ter tido mais oportunidades, apesar de ser moradora de favela, negra, se não tivesse acontecido aquela tragédia lá atrás. A gente teve que sair de onde morava, porque eu com 7 anos, 8 anos já era assediada! Assediada! Como se fosse uma mulher… Assediada! Minha outra irmã não estaria hoje vivendo nas drogas, nas ruas…

Eu estou há 32 anos, completos no dia 26 de julho, esperando uma certidão de óbito! De morte presumida. Como que eu vou trazer minha irmã, que está numa situação degradante, de drogas, e vou colocar ela em que casa? Em que lugar? Porque eu não posso deixá-la dentro da minha casa porque ela vendeu tudo na casa dela, vendeu tudo o que tinha! Não que eu tenha nada para vender aqui, mas toda a minha situação… toda a situação de risco, de violência, de tudo. O Estado faz isso, com que a gente acredite que a minha mãe morreu, sim, de diabetes. Mas e a minha irmã, morreu de quê? A minha irmã Cristiane [desaparecida] morreu de quê? Para os outros adolescentes da mesma chacina, o desaparecimento forçado, na certidão de óbito veio escrito: “Chacina de Acari, Julho/1990”. É exatamente assim que é a certidão de óbito. E por que? Onde estavam os outros? Por que só quatro familiares, quatro jovens, tem essa certidão?

Na época, era aquela história de “não tem corpo, não tem crime”. Só que e agora? O que mudou até agora? O que foi feito? Nada! Eu gostaria de entender o que foi feito pra que a gente pudesse refletir, queria estar assim diante de uma autoridade pra que eu pudesse dizer. Eu quero entender quando vai chegar a certidão de óbito.

Certidão de óbito de Rosana Souza Santos, filha de Marilene, obtida em 2011 (Acervo Rede Contra a Violência)

Até hoje não houve nenhuma medida reparatória?

Nenhuma! Nenhuma! É exatamente isso, nenhuma medida. Só se cogitou algumas medidas recentes quando o caso começou a tramitar internacionalmente e quando foi obrigado, pelo projeto de lei [que visa à implementação das medidas sugeridas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, CIDH][1]. Eu lembro que quando a minha mãe e a Marilene foram lá para o exterior, que deu aquele boom, fizeram viagens internacionais, encontraram o presidente da França. E agora, essa movimentação acontecendo em torno do caso. É mais essa esperança, mas a sensação que eu tenho é que a gente ainda vai passar mais algum tempo. Eu não gostaria de estar falando isso, mas eu não vejo que até o final do ano estaremos inaugurando o memorial em Acari. O que eu ia falar também é das medidas de não repetição, sobre o quanto eu acho importante. Porque assim… quantas chacinas aconteceram? Vigário Geral, Candelária, olha o tanto de chacinas que poderiam ter sido evitadas. Porque está acontecendo a todo momento. Desde aquela época, a gente sabe dos Cavalos Corredores, que nada mais eram do que policiais, ex-policiais, como se fossem os milicianos hoje. E até hoje tem gente que acha que a minha mãe faleceu de diabetes.

O Estado, além de matar, busca controlar discursivamente o significado das mortes, de forma que as pessoas não reconheçam a violência de Estado como violência de Estado. Pois é! E é tão mais louco, porque eles fazem a gente, familiares, pensar assim também. Estou fora dessa caixa, mas talvez eu seja uma das poucas, dessas tantas famílias, nós somos em 10 famílias, tem dois desaparecidos que são da mesma família. Hoje, eu, por exemplo, privaria minha mãe de estar em alguns lugares muito mais pesados. Ela estaria viva ainda! Porque ela faleceu bem nova. Mas, certamente, ela continuaria indo e não seria eu…não teria ninguém pra impedir porque ela era persistente.

Algumas mães já morreram, mas o caso continua “andando” e a geração mais nova vai sendo demandada a se envolver no caso. Como que é isso?

É difícil, sabia? Porque a gente tem que parar com esse negócio de que todo mundo tem que ser militante. Nem todo mundo é militante de ir para a frente do Ministério Público, nem todo mundo é militante igual era a minha mãe. Eu batia palma, eu ia com ela! A gente ia! Minha irmã mais nova também, não sabia nem o que estava fazendo lá, mas ficava segurando os cartazes em frente à Candelária, já com os outros assassinatos, com outras mães. A gente já participava, ajudando, buscando informações daquela chacina. A minha mãe dizia: “agora vai começar, acontece um aqui e agora vai começar um atrás do outro”. E era verdade!

A matança está cada vez mais intensa, uma chacina atrás da outra…

Cada vez mais. Só acontece algo se a gente conseguir com que os moradores investiguem. Que sempre haja um celular para filmar, que sempre se consiga produzir provas porque, senão, não acontece nada e acabou.

A sua mãe e as outras mães investigaram muito por conta própria?

Muito! Tem a história da retroescavadeira…eu tenho que falar pra sempre disso na minha vida. Elas foram para Magé, lá no sítio mesmo. Disseram que havia ossos, possivelmente de pessoas, e pediram que as mães fossem para lá porque aconteceria uma perícia. Chegando lá, tinha uma retroescavadeira, uma dessas de obra, gigante, aquela amarela assim. Minha mãe e a Marilene, tem reportagem delas, com a mão na cabeça. A reportagem…eu me lembro de ver ao vivo isso na televisão. Elas com as mãos na cabeça, no alto desses morros de terra que tiravam, assim, essa terra, elas lá em cima e pedindo que pelo amor de Deus para pararem. É um absurdo, essa era a perícia! Era a perícia que eles iam fazer! Ai depois, eles alegaram que eles não tinham o material necessário.

Imagem retirada do inquérito policial do caso

Por isso estavam usando uma retroescavadeira?

Por isso que eles estavam usando…eles iam achar o quê? Claro, não acharam. Ai, disseram: “ah, eles deram os corpos para os jacarés”. Acabou o assunto.

Eles inventavam histórias para justificar a falta de resultado das investigações?

Exatamente. Ano após ano, assim, eles ficavam fazendo isso. E aí, quando minha mãe começou a trabalhar no Centro Brasileiro de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente, ela começou a ajudar outras mães. Porque chegavam muitas mães, como chegam até hoje, mães de vítimas de violência. Não acaba! E quando minha mãe trabalhava no Centro Brasileiro, ligavam para lá, porque sabiam que a minha mãe estava lá e diziam: “olha pela janela, você vai ver sua filha, sua filha vai entrar no Banco Itaú daqui a meia hora”. Minha mãe ia lá e pedia as imagens da câmera, horário tal…olha como mexiam com o psicológico da pessoa. Ela olhava e via o cabelo da minha irmã, o corpo, achava que era ela: “olha ela, é ela mesmo que tá entrando! Pelo amor de Deus, é ela”. Olha o terror psicológico que faziam. E era quem? Era um outro cidadão? Era uma pessoa de trote? Não era!

 Quem fazia isso? A Polícia?

Isso! Eles que, na verdade, não eram eles, o Estado, mas eram os criminosos mesmo. A polícia, os Cavalos Corredores.

Quando você diz que: “as pessoas acham que minha mãe morreu de diabetes…”, no limite, você está nos dizendo que o Estado não matou apenas a sua irmã, mas, em certa medida, por tudo o que aconteceu, sem nenhuma solução para o caso, acabou matando a sua mãe.

Sim! E foi matando aos poucos porque minha mãe foi ficando com essa doença. Minha mãe era uma pessoa muito forte, assim, fisicamente, ela era forte. Minha mãe foi perdendo muito peso e, até então, não tinha essa doença diagnosticada. Ela foi perdendo muito peso porque ela andava o dia todo, ela se alimentava muito mal. Ela estava em busca disso tudo, dessa loucura que foi 1990 na vida delas, na vida de todos nós. A minha mãe foi se debilitando, mas, assim, não foi muito rápido. Em 1993, 1994, 1995 ela não estava ainda desse jeito. Ela foi nessa de perder peso e isso foi antes de diagnosticar a doença, o que só aconteceu nos anos 2000. A minha mãe, psicologicamente foi ficando muito debilitada. O meu pai se ausentou, colocou a culpa na minha mãe. O machismo, né? O meu pai na época culpou a minha mãe por minha irmã ter ido para aquela excursão, em Magé, alegando que ela tinha algum namorado que pudesse estar na vida errada. Que nada! Ele já tinha era outra família! Ele só queria essa oportunidade para sair. Então, olha os maus tratos. A minha mãe foi maltratada o tempo todo. Ela ficou sozinha com os quatro filhos para sustentar, para fazer isso tudo e para ir atrás do quinto, que é a minha irmã que desapareceu. Que foi morta pelo Estado!

Primeiro, o Estado desapareceu com a sua irmã, a Cristiane. A sua mãe, por causa de todo esse sofrimento, também foi morta pelo Estado. Há também a sua irmã, que após o caso está com essa questão relacionada às drogas. E você começou falando dos seus problemas psicológicos. Então, na verdade, são múltiplas vítimas de um mesmo caso.

São várias vítimas! Eu não sei o que o Estado fez, eu sei o que o Estado não fez de lá pra cá. O que eu gostaria que fizesse é outra história. Por isso que quando eu falo lá na audiência pública, eu falo da desresponsabilização do Estado, porque é mais do que responsabilizar. Na verdade, a impunidade faz com que eles só se desresponsabilizem, não têm responsabilidade até hoje. Essa impunidade vivida ao longo dos anos faz com que eles se desresponsabilizem. Eu gostaria dessas medidas de reparação para além do caso, sabe? De coisas simples como essa: que eu não ficasse em ter o que comer.

Na época que ocorreu o caso a sua mãe trabalhava?

Trabalhava. Ela saía, às vezes, de barriga vazia, porque tinha um monte de gente pra alimentar, uma casa cheia. Ela ia para a Cinelândia, e nessa época, 1990 e pouco, o caso estava no auge, acontecendo de tudo e a gente não tinha ajuda do Estado, ajuda de nada. Se a lei funcionasse, a gente gostaria que tivesse realmente uma lei que a gente pudesse abraçar e que o Estado pudesse abraçar esses familiares. Porque as pessoas ficam com o psicológico abalado. Quer dizer, com o psicológico destruído. Abalado estão as pessoas anos depois. Quando ocorre, você fica destruído. A história da militância é essa. A militância vai além disso, sabe? Vai além de você ir para a frente dos lugares, com bandeiras. Claro que a gente pode militar de outras formas, construindo. Eu não pude fazer nada em Acari. Na época, eu tive que sair de lá porque os bandidos estavam em cima de mim. Eu fazia cursos em Acari. Lá onde, hoje, é o Espaço Cultural Mães de Acari era o Centro Cultural Areal Livre e eu fazia cursos lá, mas eu já não podia mais pisar lá. Eles me deixavam fora da favela e eu ia embora para casa. Fui assediada de todas as formas! De todas as formas! Eu era adolescente e eu tinha esse espaço não só para circular, era uma forma de ter oportunidades porque aqui do lado de fora eu não tinha.

A Marilene e a Vera [duas das Mães de Acari] já se conheciam?

Não, elas se conheceram através da luta! Da dor! Eu me lembro que alguém chegou lá em casa com o Jornal O Povo, mostrando, e a Marilene e a minha mãe se encontraram logo naquele dia, um dia depois, acho, já para começar as buscas. Disseram que fulano disse isso, e lá iam elas atrás de informações. E batendo perna dentro da favela para ir atrás daquilo que queriam, que precisavam, que buscavam. Para obter informação, até porque não se dizia nada, se esperassem até hoje, nada teriam. Porque a gente não saberia até hoje. O caso só teve alguma repercussão, só deu esse boom, quando elas foram lá pra fora e a Danielle Mitterrand pediu para que o Brasil tomasse providências. E agora de novo com o caso tramitando na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Até hoje, nos documentos que chegam pra nós, os nomes das pessoas estão errados. Quando chegam as coisas, chegam assim: “Cristiane Souza Leite”. É Cristiane Leite de Souza. Assim, esse, pelo menos, está apenas trocando o sobrenome. Você faz uma dedução ali de que é para a sua irmã, entendeu? Que você é responsável por aquela pessoa. Você é o responsável da família ali. Como fica a saúde mental?

Como é o seu estado de saúde hoje?

Então, sou tratada há 20 e poucos anos de depressão. Grave, severa, com tentativas de suicídio. O fato de eu morar em um apartamento que tem grade foi a minha salvação, por isso eu posso estar falando com vocês aqui hoje, senão eu tinha me jogado. Por diversas vezes! Tomei cartelas e cartelas, centenas de cartelas [de medicamento] e fui parar no hospital. Chegava lá, tinha que fazer lavagem e ficar internada. Me trato em Del Castilho, no Centro de Referência. O Centro de Emergência, era a minha segunda casa, agora eu frequento o outro, que é o da Gamboa. Lá, agora, eu acho que também é um Centro de Referência. E aí, agora, passando por muitos outros psiquiatras, eles dizem que é transtorno bipolar.

Há uma fala sua na audiência pública sobre o caso, realizada na Câmara dos Deputados, que você começa citando uma frase da Lygia Fagundes Telles: “Não cortaremos os pulsos; ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas”. Se, por favor, você puder comentá-la…

Eu acho que é realmente muito linda essa frase! E eu acho que assim: se o Estado está pensando em vencer a gente pelo cansaço, acho que a gente já deu provas em 30 e tantos anos que a gente não vai desistir, a gente não vai desistir! A gente, eu falo, são as Mães de Acari, que é a minha mãe, que não está aqui pessoalmente, mas está aqui em força, quando me faz vir aqui para falar. Eu sou de uma religião de matriz africana, que é o Candomblé, e eu estou vindo de lá hoje. E só por isso eu estou aqui, sabe? Só por isso eu estou aqui. Eu passei o fim de semana lá para que eu pudesse estar aqui hoje. Eu queria dizer para vocês que foi muito importante eu estar aqui hoje porque eu consegui. Na sexta-feira passada [quando havia sido marcada a primeira entrevista], eu não fui ninguém. Aliás, a semana toda eu não fui ninguém. Eu queria confessar para vocês que eu fiquei quatro dias sem tomar banho, sem escovar os meus dentes! Eles querem acabar de toda forma com a gente, sabe? E quando eu falo da militância, também é muito difícil, porque eles cobram muito que a gente tem que estar nos lugares! Hoje, houve um ato simbólico, muito importante, que é do menino Maicon, de dois anos, de Acari, sabe? O caso desse menino foi considerado auto de resistência. O menino estava com um fuzil na mão. Será possível? Com dois anos de idade?

Então, acho que essa frase: “Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas”, é sobre o menino Maicon. A gente vai costurar, sabe? A gente vai costurar porque essa é a força que a gente tem, do pai do Maicon, de tantas outras mães, pais, familiares, que vêm fazendo com que essa ferida fique menor, que ela não sangre tanto. Porque ela vai continuar sangrando, a gente não vai conseguir dar pontos para que ela um dia permaneça fechada, de maneira alguma. A gente vai ver sempre aquela cicatriz e ela parece que vai estar sempre abrindo, aquele pontinho. Sabe quando o médico diz assim: “não, agora, tem que cicatrizar aberto mesmo, não tem mais como dar ponto”. Sabe? A sensação é essa! 32 anos! A sensação é essa! Agora não tem mais como dar ponto. Não tem. Tudo o que o Estado fizer agora, se fizer, colocar o memorial em Acari, reparar dando uma indenização de 100, 200, 300 mil, não traz a minha irmã de volta. Não traz a minha irmã que está nas drogas e eu não vou conseguir pagar nunca uma clínica para que ela melhore. Eu não vou conseguir reparar todos os danos que tive! A gente não consegue. A gente não consegue. Então, costurar, eu acho que essa frase me marcou demais nesse dia também. (…) a gente segue costurando essas duplas feridas. E eu acho que essa palavra “costurar” é justamente isso, são essas as costuras. É você vindo com a linha aqui, é o outro Fábio ali com a pergunta. É o Nicodemos [Carlos Nicodemos, advogado que acompanha o caso]. Mas vai ter sempre esse pontinho ali, aquele abertinho ali, que não vai fechar! Estamos sempre com aquela cicatriz enorme e ficamos sempre lembrando daquilo, ficamos sempre lembrando.

[1] Para mais informações: https://www.oas.org/pt/cidh/jsForm/?File=/pt/cidh/prensa/notas/2022/098.asp. Acesso em 25 jul. 2022.

 

Fábio Araújo é sociólogo e editor do Radar Covid-19 Favelas – Fiocruz.
Fábio Mallart é sociólogo e pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ). É integrante da equipe  Radar Covid-19 Favelas – Fiocruz.

 

Leia os outros artigos do especial 32 anos da chacina de Acari

 


Este especial é uma parceria Le Monde Diplomatique Brasil e Radar Covid-19 Favela – Fiocruz, cuja equipe é composta por  Fábio Araújo, Marina Ribeiro, Fábio Mallart, Larissa França, Raimundo Carrapa, Emerson Baré, Mariane Martins, Luciene Silva e Paulo Roberto Ribeiro.



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