Da nova guerra fria à Sputnik V: o discurso de Putin

POPULISMO E CRISE

Da nova guerra fria à Sputnik V: o discurso de Putin

por Grupo de Pesquisa Discurso
15 de outubro de 2020
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Este trabalho faz parte da segunda fase da série “A análise dos discursos sobre a pandemia da Covid-19” produzida pelo Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)”. Nesta fase nos detemos na análise dos principais porta-vozes nacionais e internacionais dos discursos negacionista e científico. No presente artigo trazemos a análise política de um dos principais porta-vozes internacionais do discurso científico sobre a pandemia: Vladimir Putin, presidente da Rússia

A pesquisa tem por objetivo analisar como a normalidade estabelecida pelas relações de poder dominantes é alterada pelo acontecimento pandemia Covid-19 e a disputa de discursos que surge a partir da suspensão da formação hegemônica vigente. Assim se levam em consideração as narrativas que se formam a nível nacional e internacional a partir das falas, performances significativas e decisões políticas de autoridades e instituições chaves.

O estudo dessa disputa mostra a existência de dois discursos mestres, o negacionista e o científico [1], que articulam com ênfases diferentes dois polos temáticos: a sustentabilidade da economia e a sustentabilidade da vida. Isto posto, neste artigo se pretende caracterizar um dos principais porta-vozes internacionais do discurso científico: Vladimir Putin, presidente da Rússia.

 

Presidente forte, Rússia forte

Vladimir Putin (Vladimir Vladimirovitch Putin) advogado, ex-agente da KGB e, posteriormente chefe da FSB (a mais importante das agências que sucederam a KGB na Rússia pós-soviética). Em 1999, foi nomeado Primeiro-Ministro pelo então Presidente Bóris Yeltsin. Eleito presidente em 2000, permaneceu no cargo até 2008, quando foi sucedido por Dmitri Medvedev, que o nomeou Primeiro-Ministro. Em 2012, foi mais uma vez reeleito e se mantém no poder atualmente.

No imaginário nacional de seus apoiadores, a figura de Putin está associada com a do líder que, após o período tão conturbado de Yeltsin, recuperou a economia e o conceito de gosudartvennost (estadismo; configuração estatal forte). Sua popularidade é em grande medida fruto do alto crescimento econômico, mas também do seu papel de governante forte e capaz de solucionar os problemas que tem contribuído na reconstrução da identidade nacional russa (SEGRILLO, 2016)[2].

Em geral é lido pelo Ocidente e pela oposição nacional como um líder autoritário de um governo pouco transparente. Ainda é muito presente no ideário internacional a visão da Rússia como um mal a ser combatido. Em parte, pois a discrepância entre o padrão ocidental e a forma como o Estado russo se coloca gera desconfiança (MIELNICZUK, 2020)[3]. Dentre essas diferenças, destaca-se por exemplo, que na psique russa, em geral, há uma visão mais orgânica da relação Estado e sociedade, em que o fortalecimento do Estado é o meio pelo qual a sociedade pode florescer, e não necessariamente esse fortalecimento é associado ao potencial de repressão (SEGRILLO, 2016).

Nesse sentido, para entender mais a fundo os principais antagonismos que cercam a figura de Putin e seu discurso é preciso pensar a questão identitária que aflige o país: Seria a Rússia um país europeu, asiático, um misto desses dois ou nenhum dos dois? Esse debate se dá principalmente entre três escolas: o ocidentalismo, o eslavofilismo e o eurasianismo, e reflete na política nacional e externa.

A classificação de Putin em uma dessas três categorias é controversa, mas para fins desta análise usaremos a definição de Segrillo, que entende Putin como um ocidentalista moderado, que entretanto é também um político pragmático e um gosudarstvennik (aquele que acredita que a Rússia deve ser e ter um Estado forte). De forma que, o primeiro antagonismo que se evidencia é com a figura de Yeltsin, um ocidentalista mais explícito, representante de uma política liberal e associado à estagnação econômica. Já o segundo antagonismo se dá com as democracias liberais ocidentais.

No entanto, isso não significa que Putin seja um antiocidental a priori, pelo contrário. Na verdade, tem se mostrado um grande defensor da cooperação internacional. Mas agora como líder de um país economicamente mais forte que a Rússia dos anos 1990 de Yeltsin, Putin se oporá firmemente quando entender que os países do Ocidente estão buscando subjugar os interesses do Estado russo (SEGRILLO, 2016).

É a partir desses antagonismos que se torna possível uma análise do discurso de Putin em meio a pandemia da Covid-19, e entender onde ele se localiza dentro do espectro negacionista à científico. E como essa análise perpassa também a questão geopolítica, refletindo uma disputa de narrativas. Tendo em vista que, no caso da Rússia o antagonismo a nível nacional é pautado em grande medida por essa questão da identidade nacional que, por sua vez, reflete um antagonismo externo.

Pois se por um lado, em meio à essa crise epidemiológica e a conjuntura de um pleito que possibilita a Putin se manter no poder até 2036, é justamente a ideia de eficiência e estabilidade que tenta ser reforçada pelo governo — em seus pronunciamentos o presidente enfatiza que sua prioridade é a vida, a saúde e a segurança da população e tem advogado fortemente pela cooperação no cenário internacional. Por outro, a oposição nacional e os rivais geopolíticos vão tentar frisar a falta de transparência, o autoritarismo e ainda apontar para uma certa ambiguidade nas medidas adotadas por Putin para lidar com a Covid-19.

Tudo sob controle

Considerando o campo discursivo acerca da pandemia da Covid-19, é possível delimitar dois discursos mestres na disputa política: o negacionista e o científico, que se articulam dando diferente ênfase a dois pólos temáticos: a sustentabilidade da vida e a sustentabilidade da economia. Esses discursos que tomam forma para além de apenas palavras, englobam as práticas discursivas expressas em falas, documentos, performances e decisões de diversos atores políticos e sociais em nível nacional e internacional.

Nesse sentido, entendemos Putin como um porta-voz do discurso científico. Tendo como base para a análise as transcrições disponíveis no site oficial do Kremlin, em sua versão em inglês, de quatro pronunciamentos feitos pelo presidente russo à nação entre os meses de março e junho, reuniões com membros do governo russo e autoridades internacionais ao longo do período da pandemia e a fala do presidente Putin na reunião do G20, além de declarações feitas em entrevistas concedidas por Putin à TV estatal.

A partir dos quais destacamos três elementos que se tornaram pilares das performances do presidente russo: 1) Valorização da imagem de eficiência e estabilidade; 2) A questão econômica que não entra como um dilema entre vida x economia, mas sim como forma de garantir a segurança dos empregos e da renda; 3) Disputas geopolíticas

O início das medidas de contenção à Covid-19 na Rússia datam desde o primeiro dia em que a OMS recebeu o aviso da China de que havia um novo vírus, tendo impressionado representantes da OMS porque não se tratava da adoção de uma medida única, mas todo um complexo que se expandia[4]. A vigilância epidêmica e o autoisolamento teriam colocado a Rússia um passo à frente da epidemia. Essa abordagem proativa é enfatizada ao longo das falas de Putin, sendo segundo ele sendo um dos principais motivos que permitiu que o país salvasse milhares de vidas. Tendo inclusive afirmado em uma reunião com membros do governo em 17 de março que está tudo sob controle[5], frase amplamente divulgada entre seus opositores como símbolo de uma postura relativizante. No entanto, é interessante notar que na mesma fala ele aponta o potencial de alto risco da situação, cita as medidas para conter a propagação do vírus adotadas até então e anuncia os próximos passos. Dando a entender, no geral, que uma situação desafiadora se desenrola em outros países (principalmente na Europa à época), porém, este não seria o caso da Rússia, mas que não estariam imunes ao risco, e parece reconhecer a dimensão da crise global.

Vladmir Putin em reunião (Crédito: Presidência da Rússia)

Performance 1: O Prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin (à esquerda da foto), tradicional aliado de Putin, que em meio à crise epidemiológica causada pela Covid-19 passa a ter um protagonismo ad hoc. Os mais críticos apontavam que a princípio ele liderava o combate ao vírus, enquanto Putin aparentava estar um tanto quanto ausente e com uma postura ambígua em relação ao enfrentamento da pandemia. Crédito da Imagem: Presidência da Rússia

A partir daí é possível perceber uma ligeira mudança no tom das falas, que pode ser associado ao alerta feito pelo prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin no dia 24 de março. Ele diz que uma situação séria está se desenrolando[6], dado que não se teria precisão do número de casos e que eles estariam aumentando rapidamente. Até aquele período a Rússia tinha registrado 495 casos do vírus e uma morte, números bem menores do que os países europeus.[7] Sobyanin atribuiu o problema da subnotificação a uma baixa quantidade de testes disponíveis e ao fato de que muitos dos cidadãos russos que retornaram de países mais afetados pela pandemia teriam se isolado em casa sem serem testados.[8]

Diante desse contexto, no qual Sobyanin expõe que a situação na Rússia como sendo mais séria do que se pensava a princípio[9], Putin faz um pronunciamento à nação no dia seguinte (25 de março). No qual volta a enfatizar a crise global, mas já destaca que é objetivamente impossível impedir que ela se espalhe pela Rússia, ainda que as medidas de precaução tivessem ajudado a diminuir a velocidade de propagação e a taxa de incidência[10]. Nessa mesma performance, deixa claro que a maior prioridade são a saúde, a vida e a segurança dos cidadãos e anuncia medidas de combate ao vírus — que vão desde declaração de feriado nacional remunerado à taxação de fortunas, passando pela renovação automática de benefícios sociais pelos seis meses seguintes, medidas de proteção às pequenas e médias empresas etc. Faz ainda um apelo de que os russos não contem com a sorte e com a ideia de que isso não vai acontecer com eles, como é o costume da cultura, mas que ouçam e sigam as recomendações dos especialistas. Chama atenção para a necessidade de que todos trabalhem juntos para superar a crise, cada um fazendo sua parte, e enaltece a solidariedade do povo russo como pilar de sua resiliência.

Já no que diz respeito a atuação da Rússia no cenário geopolítico nesse contexto, pode se destacar o pronunciamento feito na reunião do G20 no dia 26 de março, como indicativo das diretrizes adotadas a princípio. Putin aponta que a crise atual é mais grave da que a de 2008, afirma a necessidade de se manter a troca de informações confiáveis e reitera que o desemprego é um dos principais problemas a serem enfrentados[11]. Defende a cooperação internacional para se superar a crise e critica fortemente a política liberal de cada um por si. Sugere ainda a criação de um fundo especial para lidar com a pandemia e a criação de corredores verdes para as cadeias de suprimento, pede a suspensão das sanções econômicas e que a OMS garanta assistência aos países africanos. Finaliza dizendo que essa é uma questão de vida ou morte, uma situação puramente humanitária e que precisa ser enxergada para além de todas as rusgas políticas.

Crédito: Presidência da Rússia

Performance 2: O Presidente Putin é conhecido por seu estilo de se fazer presente pessoalmente em todas as situações. Em março ele visitou hospital de Moscou para pacientes com Covid-19, usando um traje de proteção e máscara de gás. Agradeceu aos profissionais de saúde e ressaltou que o país tem tradição em medicina. Crédito da Imagem: Presidência da Rússia

Uma vez superado o problema de subnotificação e tendo se tornado o país que mais faz testes no mundo, o governo decidiu não adotar uma estratégia única para todo o país, principalmente dada a sinalização que a situação estaria mudando e se desenvolvendo de forma diferente em diferentes regiões da Rússia, considerando suas particularidades geográficas e demográficas[12]. Sendo assim, optaram por uma abordagem mais flexível, concedendo maior autonomia às autoridades regionais para permitir que elas escolham as táticas que melhor lhe cabem, atuando de forma coordenada com o governo federal e as autoridades epidemiológicas.

Além disso, a Rússia tem ocupado um papel de destaque na corrida pela descoberta da vacina e medicamentos contra o coronavírus. Quatorze centros científicos federais russos estão trabalhando em uma vacina para a Covid-19. Já tendo sido registrado três novos medicamentos para combater ao vírus[13] e foram os primeiros a registrar uma vacina, esta que foi desenvolvida no Instituto Gamaleya de Epidemiologia e Microbiologia, em Moscou. Planeja-se e dar início a vacinação em massa em outubro, começando pelos profissionais de saúde e professores. Em pronunciamento no dia 23 de junho, Putin acrescentou a importância de que a vacina seja acompanhada do cumprimento de todas as medidas sanitárias e preventivas, além de ressaltar o papel fundamental desempenhado pelo sistema de saúde nesse processo[14].

No mais, às vésperas de uma votação popular que permitiria mudanças na Constituição russa, nesse mesmo pronunciamento à nação o presidente recapitulou a jornada do país durante o período pandêmico e compartilhou sua visão do futuro. Ele frisa, no que parece ser uma resposta às críticas ocidentais, que a Rússia e a sociedade russa não estavam confusas, mas, pelo contrário, como aconteceu mais de uma vez em sua história, se uniram por uma clara compreensão da situação, entendimento da ameaça real e o fato de que só se pode derrotá-la se lutarem juntos e que a vida é de suma importância[15]. Para ele, agir com base nesses valores tem sido a chave para conseguirem responder a esse desafio de enorme complexidade. Ao tratar sobre a crise econômica global, dá indícios de acirramentos das tensões geopolíticas ao dizer que os processos de globalização e integração passam por uma difícil prova e os países líderes estão fazendo sua escolha em favor da independência tecnológica e industrial[16].

  

Eficiência e Proatividade – Os marcos do discurso científico de Putin

 

Assim sendo, tendo como referência a análise política de discurso desenvolvida por Laclau (2007) e Mouffe (2014)[17], metodologicamente utilizaremos neste artigo a proposta do enquadramento (Frame analysis) implementada por Errejón Galván (2012)[18], que nos permite analisar o discurso de Putin a partir de três marcos específicos: 1) Marco do diagnóstico, no qual se identifica o problema principal; 2) Marco do prognóstico que apresenta a solução do problema, traça a fronteira que delimita os outros — o eles — e estrutura a identidade do nós; 3) Marco de motivação, que através da moralização dessa fronteira juntamente com retomada de um passado histórico e de elementos centrais do programa político convoca seus seguidores a ação para superar os problemas.

 

 

Desse modo, identificamos no marco do diagnóstico que a dimensão apresentada como o problema no discurso de Putin é o desenrolar da crise da Covid-19, uma ameaça externa que se apresenta, e inicialmente vêm afetando principalmente outros países, e torna-se um problema global. O caráter de injustiça da pandemia está relacionado à ameaça que representa à saúde, vida e segurança da população. Além de ser também um risco para a economia global como um todo, um problema maior do que o que foi a crise de 2008, no qual o desemprego é uma das principais preocupações.

No marco de prognóstico, o que se destaca como a dimensão vencedora que articula o nós é o fato da Rússia ter se adiantado à crise, aprendendo com a experiência de outros países, tendo sido capazes de ganhar tempo ao tomarem prontamente medidas de precaução em níveis federais e locais. Nas práticas discursivas, chama-se atenção também para o sistema de saúde russo que teria mostrado sua eficácia frente a emergências e sua competência para rapidamente aumentar sua capacidade. No cenário internacional, defende-se que a abordagem multilateral seria o ideal. A fronteira que traça o antagonismo é com aqueles países que têm enfrentado uma situação desafiadora, principalmente Europa e EUA, que precisaram adotar medidas emergenciais desesperadas — diferentemente da Rússia, onde estão trabalhando com tranqüilidade e se recuperando dessa situação do coronavírus com confiança e perdas mínimas. Outra diferença que frisa em relação aos EUA é de que no contexto estadunidense o interesse político partidário está acima do interesse da população[19]. No plano econômico, repudia aqueles que defendem uma abordagem liberal de cada um por si, criticando principalmente a manutenção de sanções econômicas em um momento como este. Nesse sentido, as falas que melhor simbolizam esse discurso seriam: Em geral, a situação [na Rússia] está sob controle e As vidas e a saúde de nossos cidadãos são a nossa principal prioridade.

Já o marco de motivação traz a dimensão de moralização através da oposição entre uma sociedade russa que sabe a importância de proteger a si, a seus familiares e amigos e é liderada por um governo eficiente contra aqueles que politizam a crise e não a tratam como uma questão humanitária. A reconstrução histórica que perpassa o discurso traz a solidariedade como um valor fundamental da sociedade russa e um pilar de sua resiliência, essas qualidades já permitiram superar muitas dificuldades, como em uma grande e boa família. Por fim, o programa de ação traz medidas de contenção da propagação do vírus (fechamento de fronteiras, isolamento social, feriado nacional remunerado por mais de um mês…); reforço e ampliação de benefícios sociais como forma de manutenção da renda; medidas econômicas de apoio à pequenas e médias empresas; mudanças na política bancária; aumento da capacidade hospitalar; fomento de pesquisa para desenvolvimento de vacina e medicamentos; autonomia regional para tomada de certas decisões, considerando a diversidade do território; valorização da cooperação internacional, através do qual se destacou a necessidade de um plano de ação do G20 para estabilizar as economias e recuperar a confiança do mercado, bem como, da suspensão de sanções e criação de corredores verdes para cadeias de suprimentos, além da troca de informações confiáveis entre os países.

Vladmir Putin (Crédito: Presidência da Rússia)

Performance 3: O Dia da Vitória (9 de maio) é o feriado laico mais importante da Rússia, data em que se celebra a vitória sobre os nazistas no que chamam de Grande Guerra Patriótica. Durante todo o dia diversas celebrações acontecem no país e ao redor do mundo, dentre elas destacam-se: A marcha do Regimento Imortal, na qual as pessoas carregam fotos de seus familiares que participaram da Segunda Guerra Mundial; A parada militar em que desfilam milhares de soldados e centenas de veículos militares; E a tradicional queima de fogos ao fim da noite. No 75º aniversário da Vitória, o evento do Regimento Imortal foi realizado remotamente, online.

Vladmir Putin discursa para militares (Crédito: Presidência da Rússia)

Por sua vez, a parada militar só foi ocorrer mais de um mês depois, em 24 de junho. E apesar da pandemia de Covid-19 e dos 7.000 novos casos[20] de infeção sendo registrados diariamente naquela semana, o desfile foi acompanhado de perto pelo público. Em seu pronunciamento no dia, Putin disse que é impossível imaginar o que teria acontecido ao mundo se o Exército Vermelho não resistisse em sua defesa, e não fez menção à Covid-19, reforçando a afirmação feita no dia anterior de que a Rússia já teria passado pelo estágio mais perigoso da pandemia. Crédito das Imagens: Presidência da Rússia

 

 

A construção política do eles no discurso de Putin para a disputa hegemônica apresenta como ponto nodal a politização do vírus, no sentido de usá-lo para politicagem. Por exemplo, no caso dos EUA, que estariam enfrentando problemas maiores porque os interesses político-partidos são colocados acima dos interesses da sociedade como um todo. Ou ainda, a postura adotada pela Arábia Saudita em meio a queda do preço do petróleo por conta da pandemia, ao adotar medidas unilaterais a fim de eliminar a competição e desestabilizando o mercado global. Sendo assim, fazem parte dessa cadeia de equivalência ainda a abordagem de cada um por si, atribuída ao liberalismo e isolacionismo característico dos países ocidentais, e incompatíveis com uma solução da crise atual. Soma-se a isso a manutenção de sanções econômicas neste momento e falas de descrédito a OMS. E ainda, no âmbito nacional, os críticos que se associam aos rivais externos. Em suma, o principal conteúdo moral negativo do eles seria não tratar a pandemia como uma questão puramente humanitária, e que, portanto, precisaria ser vista para além de todas as cascas políticas.

 

Cadeia de equivalências do eles

 

Por sua vez, a construção política do nós no discurso tem como principal demanda priorizar a vida, a saúde e a segurança da população, através de medidas que possibilitem o isolamento social sem maiores riscos a manutenção dos empregos e da renda. Ou seja, a questão econômica não entra como um dilema entre Vida x Economia, mas sim como forma de garantir o bem-estar da população[21]. Tais fatores se articulam ao redor da eficiência e proatividade do governo como ponto nodal.

 

Cadeia de equivalências do nós

No que tange ao tom adotado nas práticas discursivas, no âmbito nacional, assumem um caráter científico a partir da valorização dos especialistas e de suas recomendações. Mas também tem um cunho emocional muito forte, por exemplo nas alusões ao país como uma grande família e o apelo para que se cuidem e cuide-se dos que amam. E ainda ao descrever esse período como um momento de mudanças drásticas, ansiedade e medo, mas que apesar de tudo é também um tempo de esperança e gratidão aos amigos e até mesmo estranhos que não falharam frente às dificuldades, e de orgulho por aqueles que mostraram suas melhores qualidades[22].

 

Já no âmbito internacional, o tom do discurso é pragmático, enfatiza a ideia de que se trata de uma questão humanitária, cuja solução para lidar com a crise é a cooperação e, portanto, as divergências políticas devem ser deixadas de lado.

(Crédito Presidência da Rússia)

Performance 4: Putin em videoconferência com o Primeiro Ministro, Mikhail Mishustin. Este tipo de reunião se tornou o padrão do Kremlin nos últimos meses. Mishustin, foi diagnosticado com Covid-19 no final de abril. Crédito da Imagem: Presidência da Rússia

Infodemia

Não estamos apenas lutando contra uma epidemia; nós estamos lutando contra uma infodemia, declarou o Diretor-Geral da OMS Tedros Adhanom Ghebreyesus em fevereiro.[23] A Covid-19 veio acompanhada por um enorme aumento no volume de informações, algumas verdadeiras e outras não, que tornam difícil encontrar fontes e orientações confiáveis quando se precisa[24]. Nesse contexto, essa abundância de informações chamada de infodemia, é exacerbada pela escala global da crise, seus desdobramentos geopolíticos e a crescente relevância das redes sociais.

Ao contrário da postura adotada por Trump ou Bolsonaro, não se percebe nas falas de Putin uma política de desvalorização das mídias tradicionais, até porque alguns dos principais veículos de comunicação são vinculados ao governo — ainda que existam importantes veículos independentes. No que diz respeito às mídias sociais, Putin não tem perfis pessoais nas redes sociais, há apenas contas oficiais do governo cuja administração não é feita por ele.

Agora quando pensamos na questão da repercussão de Fake News, há dois grandes desdobramentos que afetam o país. O primeiro deles tem uma faceta geopolítica e diz respeito às alegações de que a Rússia estaria usando a internet para espalhar desinformação como parte de um esforço mais amplo de desacreditar o Ocidente e desestabilizar internamente seus inimigos[25]. Em meio a pandemia, os EUA acusaram a Rússia de espalhar informações falsas sobre a Covid-19 — inclusive uma teoria da conspiração de que o coronavírus seria uma arma biológica criada pelo governo estadunidense —, com a intenção de semear a discórdia e desgastar as instituições e alianças do Estados Unidos, um movimento dito como clássico da doutrina russa na guerra da informação. O governo russo diz que as acusações são deliberadamente falsas.

Ainda no que diz respeito às Fake News, mas agora no âmbito nacional, a Rússia aprovou novas leis que punem de forma mais dura pessoas que compartilham esse tipo de conteúdo por conta da pandemia, podendo chegar a 5 anos de prisão. Em meio a descrença inicial quanto aos números oficiais divulgados, a medida é apontada pelos críticos como uma forma de silenciar a oposição.

Czar Putin?

Para pensar as possíveis alterações nas relações de força na política nacional russa em vista do acontecimento pandemia, é preciso recuperarmos a classificação de Putin como um ocidentalista moderado e ter em vista que, nos últimos tempos, já vinha ocorrendo uma inclinação maior para o pragmatismo e a ideologia gosudarstvennost. Tendências essas que parecem ter sido agravadas pela pandemia, se considerarmos seus últimos pronunciamentos.

Nesse sentido, cabe considerar ainda que desde a anexação da Crimeia, o núcleo político ao redor de Putin tem trazido nomes que buscam essa maior assertividade em relação aos interesses nacionais. Como por exemplo, os ministros Sergei Lavrov, das Relações Exteriores, e Sergei Shoigu, da Defesa. Enquanto o agora ex-Primeiro-Ministro, Dmitri Medvedev, passou a ser figurante na administração russa até sua renúncia em janeiro de 2020, após o anúncio da ampla reforma constitucional no país (MIELNICZUK, 2016).

Reforma esta que para além de “zerar” a contagem de mandatos de Putin, permitindo que caso queira possa tentar mais duas reeleições, traz um amplo rearranjo do sistema de governo. Trata-se de um conjunto de 200 emendas constitucionais, dentre as quais destaca-se que: caberá a Duma, e não mais ao presidente, a escolha do primeiro-ministro, e este por sua vez escolherá os ministros. No entanto, o presidente passaria a ter uma maior margem de manobra em caso de conflito entre o Legislativo e o Executivo, podendo fazer em uma moção de censura ao Governo sem necessidade de aprovação do parlamento. O texto traz alusões ao povo como espinha dorsal do Estado, e trechos com um caráter conservador como ênfase à família tradicional e menção a fé em Deus como um legado da cultura russa, bem como salienta a ideia de um passado triunfal. Por fim, as reformas passam ainda pelo aspecto econômico, como garantia de salário-mínimo e reajuste anual da aposentadoria. [26] [27] [28]

O plebiscito sobre essas Emendas à Constituição, inicialmente previsto para 22 de abril, foi adiado por dois meses por conta da pandemia e dividido em sete dias para evitar aglomerações, mas tendo 1º de julho como o último e principal dia de votação. As propostas foram apresentadas como um conjunto, cabendo ao povo russo votar sim ou não para o todo, a Comissão Central Eleitoral anunciou que o projeto foi aprovado com 78% dos votos sendo favoráveis às mudanças. Críticos apontaram anomalias no processo e acusam a existência de uma ampliação artificial dos dados de comparecimento.[29]

Não obstante, segundo diretor-geral do instituto de pesquisas independente Levada Center, sediado em Moscou, Lev Gudkov, o resultado do pleito sugere que a resistência social ao poder de Putin é extremamente fraca e apesar das nuances legais das emendas aprovadas não estarem claras para todos, em suma é um indício suficientemente claro da extensão do mandato presidencial, ele aponta para a possibilidade de uma presidência vitalícia de Putin.[30]

No mais, dada a crise epidemiológica críticos apontam que Putin tem deixado para o prefeito Sobyanin e o recém-nomeado primeiro-ministro, Mikhail Mishustin, o papel de anunciar as decisões mais controversas. Postura essa que seria um pouco diferente do seu já tradicional perfil de show up, mas ajudaria a manter a imagem de solucionador dos problemas. Sendo esse o caso ou não, a pandemia como acontecimento parece não ter causado grandes prejuízos ao capital político de Putin a nível nacional. A adoção do discurso científico e a recuperação estável do surto da Covid-19, fez com que os índices de aprovação de Putin retornassem aos níveis pré-pandemia.[31]

(Crédito: Presidência da Rússia)

Performance 5: Presidente Putin votando no plebiscito a respeito das Emendas à Constituição. Chama atenção que ele aparece já sem máscara, enquanto a maioria das pessoas ao entorno usam. Crédito da Imagem: Presidência da Rússia

Considerando que a reeleição para um quarto mandato presidencial é vista como fator de descrédito à democracia russa, é interessante perceber que segundo a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a principal razão para que Putin se prolongue no poder está mais associada com a falta de alternativa reais de candidatos, do que com as alegações de fraudes eleitorais feita pela oposição.

E nesse sentido, alguns pontos chamam atenção por dificultarem essa mobilização da oposição, como por exemplo, medidas que condicionam as manifestações públicas à aprovação de autoridades locais, entraves legais a candidaturas ficha suja e inclusive requisitos novos incluídos na Emenda à Constituição recém aprovada, tais quais a necessidade de estar morando na Rússia por mais de 25 anos e a inexistência de uma outra nacionalidade que não russa.

Nas eleições de 2018, a oposição ao Putin era formada por um espectro político que ia de comunistas à nacionalistas, mas em uma configuração que se mantém quase a mesma durante esses últimos vinte anos, e que somados não chegaram a 20% dos votos. Sendo assim, é sintomático que o atual presidente tenha obtido 80% dos votos válidos, enquanto o ativista anticorrupção Alexey Navalny[32], barrado pela lei de ficha limpa, não tenha ultrapassado o patamar de 5% de intenções de votos nas pesquisas de opinião.

Em suma, as críticas da oposição, muitas vezes em sintonia com a percepção ocidental, são a de um projeto de um Czar Putin, alegações de um regime autoritário, corrupto e ineficiente. Um projeto mais compromissado com a manutenção do poder e da imagem de inabalável do que com a forma adequada de lidar com a crise que se desenrola. E ainda que o governo estaria privilegiando a luta por protagonismo russo no cenário internacional do que as adversidades no âmbito nacional.

Por sua vez, o discurso científico de Putin parece apelar para o patriotismo e vai ao encontro de propostas que antecedem a pandemia. No pronunciamento que fez na véspera do último dia de plebiscito, declarou que o voto não era apenas alterações em normas jurídicas, mas votar sobre o país onde querem viver, com educação e saúde de ponta, um sistema confiável de proteção social e um governo eficaz que preste contas ao povo, um país para o qual têm trabalhado e que gostariam de transmitir aos filhos e netos. E completou dizendo que a soberania da Rússia depende da responsabilidade e do sincero sentimento de patriotismo e preocupação pelo país, bem como do respeito pela história, cultura, idioma e tradições, além das lembranças das conquistas e realizações dos antepassados.[33] Isto posto, no âmbito nacional, a pandemia parece não ter alterado as correlações de forças, mas garantido a manutenção desses antagonismos em seu nível pré-existente. Quanto a alcunha de czar, Putin recusa, já tendo declarado que não é a realidade, já que trabalha todos os dias, e não reina.

  

Nova Guerra Fria, Novo Sputnik

No que diz respeito a situação da Rússia no sistema internacional, a pandemia da Covid-19 parece ser um catalisador para o acirramento das tensões com o ocidente. Nos últimos anos, alguns episódios já davam sinais do estremecimento dessas relações ao afetarem diretamente os interesses russos, dentre eles podemos destacar:

 Primeiramente, as Revoluções Coloridas, que foram encaradas pelas elites políticas russas como um sinal da ameaça ocidental. De acordo com o governo, esses fenômenos deviam-se ao fato do ocidente se aproveitar da vulnerabilidade de países em transição para o capitalismo e com pouca tradição democrática para estimular o levante da sociedade civil contra o Estado. Tendo como objetivo derrubar líderes que colocassem em risco seus interesses. Nesse sentido, gerou um receio de que o mesmo pudesse acontecer com Putin (MIELNICZUK, 2016).

Ademais, em 2011, irromperam demonstrações populares contra o processo eleitoral para o parlamento que havia garantido maioria ao partido de Putin, Rússia Unida. Na época ele ocupava o cargo de primeiro-ministro e pretendia se candidatar nas eleições presidenciais no ano seguinte. Putin acusou a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, de atiçar a oposição após ter questionado a credibilidade da votação.

Para além disso, a atual situação nos mercados globais de energia, um setor vital para a economia russa, é também um ponto importante de preocupação. A redução de demanda dessas commodities por conta da pandemia e a subsequente guerra de preços entre Arábia Saudita e Rússia levou a uma queda do preço do barril de petróleo para abaixo de US$ 0.[34] Após a ruptura no diálogo entre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e a Rússia a respeito dos cortes na produção de petróleo propostos em março, Putin declarou que a Rússia sempre favoreceu a estabilidade de longo prazo no mercado de petróleo e a consideração pelos interesses dos produtores e consumidores. Nunca tentando inflacionar os preços, mas também querendo evitar preços muito baixos. E enfatizou, a Rússia considera necessário unir esforços. Não tendo iniciado a dissolução do acordo OPEP+ e estando sempre prontos para chegar a um acordo com os parceiros, no formato OPEP+, e dispostos a cooperar com os Estados Unidos nessa questão[35].

Em abril, as negociações incentivadas por Trump levaram Rússia e Arábia Saudita e os demais produtores aliados da OPEP+ a chegar a um acordo para a redução da produção de petróleo.[36] Por conta desse acordo, a produção da Rússia para o ano inteiro será 10% menor em 2020 do que foi em 2019. De acordo com o Ministro da Energia da Rússia, Alexander Novak, em declaração feita em 2 de setembro, Moscou espera que a OPEP+ reaja à recuperação da demanda de petróleo, que agora atingiu 90% dos níveis vistos antes da pandemia.[37]

No mais, outra questão que chama atenção em relação ao papel da Rússia no cenário internacional é o acirramento de tensões entre Rússia e OTAN no contexto da Guerra Civil Síria. A atuação dessas duas forças nesse cenário parece apontar para um contexto de intransigência militar e de reafirmação de antagonismos. Sendo assim, parece razoável supor que a opção de Putin por reforçar esse viés estatista tende a se manter também nesse sentido. (MIELNICZUK, 2016)

Alguns autores, como Mielniczuk, têm apontado que de certa forma o Ocidente teria colaborado para o fortalecimento da imagem de Putin por conta da maneira como as intervenções no Oriente Médio aconteceram. Enquanto para os Estados Unidos e Europa os ataques serviram como uma demonstração da força russa, entre a população a atividade militar na Síria serviu como forma de resgate da autoestima de grande potência e reforçou o papel de protetor exercido por Putin.

Ultimamente não é raro vermos o conceito de Nova Guerra Fria ser utilizado por jornalistas, acadêmicos e políticos para se referir a atual situação do cenário internacional. Desde 2014, há uma crescente represália dos EUA à Rússia, isolando-a, a princípio pela anexação da Crimeia e, posteriormente, por conta das acusações de interferência russa nas eleições americanas de 2016. Concomitantemente, toma forma a guerra comercial entre China e os Estados Unidos. E ao que parece, a resposta a um inimigo comum tem aproximado Pequim e Moscou.

Essa nova aliança não surpreende, nos últimos anos a China se tornou a principal parceira comercial da Rússia. Sob a iniciativa da nova Rota da Seda, o comércio entre os dois países tem crescido em diversos setores. De acordo com o Observatório da Complexidade Econômica, a Rússia ampliou suas exportações de petróleo, carvão, fertilizantes e peixe congelado para a China nestes últimos anos. Além disso, essa parceria promoveu a estabilidade do rublo e do yuan, como forma de diminuir a dependência do dólar.[38]

Em meio à crise causada pela Covid-19, a aliança sino-russa parece se fortalecer tanto quanto o antagonismo com os EUA. Após Trump se referir repetitivamente ao coronavírus como vírus chinês, Putin em conversa telefônica com Xi Jinping elogiou as ações consistentes e eficazes dos parceiros chineses para estabilizar a situação epidemiológica no país, enfatizando que as acusações contra a China seriam contraproducentes.[39] Em conversas mais recentes, os presidentes expressaram firme apoio mútuo na proteção da soberania, evitando qualquer interferência externa nos assuntos internos e garantindo a supremacia do direito internacional[40].

 E é nesse contexto de Nova Guerra Fria que surge a Sputnik V, a vacina russa contra o coronavírus, a primeira registrada no mundo. O registro do imunizante produzido pelo Instituto Gamaleya de Moscou foi anunciado em 11 de agosto. Na ocasião, Putin agradeceu a todos aqueles que trabalharam na criação da vacina, disse ser um passo muito importante para o mundo. Afirmou que ela atua de forma bastante eficaz, formando uma imunidade estável e, enfatizou, passou em todos os testes necessários. O presidente revelou ainda que uma de suas filhas participou da fase de testes, informou que ela se sentia bem e estava com os anticorpos altos.[41]

 

(Crédito: Ministério da Saúde da Rússia)

Performance 6: Rússia ganha corrida pela vacina e é a primeira a registrar o imunizante. Mas a comunidade internacional olha com desconfiança a rapidez do processo e a falta de transparência. Crédito da Imagem: Ministério da Saúde da Rússia

Se por um lado, o mundo viu com desconfiança a notícia da Sputnik V — dúvidas sobre a eficácia da vacina russa surgiram aos montes dada a possibilidade de que a pesquisa pudesse ter pulado fases de testes para acelerar o processo e pela falta de transparência dos resultado -, por outro, pairava a questão de que em meio a disputa de narrativa geopolítica, haveria nessa desconfiança uma tentativa de tirar o mérito do pioneirismo russo, de forma análoga ao que aconteceu à época da corrida espacial.

A publicação do dia 4 de setembro de uma das principais revistas científicas do mundo, The Lancet, parece pôr fim a esse impasse. O relatório divulgado refere-se às fases 1 e 2 dos testes, e assegura que todos os voluntários desenvolveram anticorpos e não apresentaram efeitos adversos.[42] Comprovando também a capacidade de gerar uma resposta imunológica duradoura do organismo devido a particularidade da aplicação feita em duas etapas. Segundo os cientistas do Instituto Gamaleya, essa é a primeira de uma série de publicações sobre a Sputnik V em revistas científicas, estando previsto para entregar em setembro os dados completos dos testes da vacina em animais. Já os primeiros resultados dos testes clínicos da terceira fase, que será iniciada já após o registro da vacina, com a participação de 40 mil voluntários, devem ser publicados em outubro ou novembro.[43]

A campanha de vacinação em massa começa entre os voluntários russos em outubro, um mês após o início da produção em larga escala. De acordo com o Ministro da Saúde, Mikhail Murashko, nesse primeiro momento a prioridade será dos profissionais de saúde e professores e acrescenta que a vacinação será totalmente voluntária. Espera-se que a partir de 1º de janeiro de 2021 a Sputnik V esteja disponível para a população geral. Nesse meio tempo, outros centros científicos russos estão trabalhando em outras vacinas contra a Covid-19 e algumas já perto da fase de registro, segundo Murashko.[44]

Apesar da desconfiança inicial, o Ministério da Saúde russo declarou que em torno de 20 países solicitaram mais de 1 bilhão de doses da vacina Sputnik V. No Brasil, os testes da vacina russa devem começar no Paraná em outubro, com dez mil profissionais de saúde voluntários, após a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Já em 12 de agosto, logo em seguida do anúncio do registro da Sputnik V, o governo paranaense firmou um acordo com Moscou para o desenvolvimento da vacina.[45]

Sendo assim, é possível afirmar que nesse contexto a Sputnik V adquire um caráter polissêmico e, portanto, pode ser entendida como um significante vazio. De acordo com a definição proposta por Laclau (1996)[46], trata-se de uma prática discursiva que devido à sua universalização perde seu significado exato. Na prática articulatória da cadeia de equivalências, esse elemento do discurso adquire novos sentidos e passa representar bem mais do que seu conteúdo específico. Nesse caso, a vacina, no âmbito nacional, representa garantia na melhoria da saúde e abre caminho para retomada da economia. E é ainda um motivo de orgulho que alimenta o patriotismo. Já internacionalmente, aponta para o avanço russo e sua relevância no sistema internacional nessa Nova Guerra Fria. Torna-se também um símbolo do compromisso com a solidariedade global, e nisso se aproxima da China — e de certa forma, ao mesmo tempo, concorre com ela.

 

Considerações Finais

Com base nos materiais analisados, é possível perceber que as performances do presidente russo, Vladimir Putin, estão alinhadas com o discurso científico. Durante a trajetória do país na pandemia em curso, suas falas e decisões traziam como prioridade a vida, a saúde e a segurança da população. O que não significa que a questão econômica não tenha sido considerada, mas a articulação entre esses dois campos não foi tratada como uma escolha entre um e outro. E sim, a partir da ideia de adaptação da economia ao período de crise e a busca por restabelecer a confiança do mercado global.

Nesse sentido, outro pilar de seu discurso é a reafirmação da eficiência e proatividade, características que tradicionalmente já são trabalhadas como sinônimo de seu governo. Presidente Forte, Rússia Forte, foi o slogan de sua campanha em 2018 e parece simbolizar bem sua imagem no ideário nacional. No decorrer dos últimos meses, enfatizou-se muito que a Rússia, apesar da situação difícil, estava lidando com tranquilidade com tudo isso. Graças às medidas tomadas prontamente em nível federal e regional, a partir do que aprenderam com a experiência dos outros países e, devido ao robusto sistema de saúde, teriam conseguido sair desse cenário com perdas mínimas. O pioneirismo no registro de uma vacina contra a Covid-19 é outro fator de peso.

Além disso, ao mesmo tempo se falava na importância de construir a confiança entre o Estado e as empresas. Vangloria-se de não ter se visto um aumento de preços, apesar do que estava acontecendo nos mercados globais de commodities, energia e financeiros. Houve flutuações imprevisíveis e, ocasionalmente, pânico. E ainda assim, teria se conseguido evitar uma queda acentuada do rublo que, em seguida, voltou ao nível anterior à crise. Isso foi crucial para proteger as receitas e poupanças individuais. E enfatiza que a previsibilidade e estabilidade da moeda nacional não foi criada artificialmente ou sob comando, mas se deve às bases sólidas da economia russa. Segundo Putin, nem todos os países conseguiram obter resultados macroeconômicos semelhantes, o que também se aplica ao mercado de trabalho. Ao contrário de muitos, ainda que o desemprego tenha aumentado, conseguiu se evitar um salto dramático[47].

Esses argumentos remontam também ao apelo à soberania e ao patriotismo como valores fundamentais. Em meio a esse acontecimento que abre espaço para a suspensão da hegemonia no sistema internacional, a Rússia parece buscar voltar a ocupar o lugar de potência, o lançamento da Sputnik V, e todo o seu peso enquanto prática discursiva, pode ser um indicador desse pré-futuro, ajudando a balança de poder a pender para a aliança entre China e Rússia. Em um cenário que muito se assemelha com o pior pesadelo de Zbigniew Brzezinski, um dos maiores pensadores da geopolítica estadunidense: Uma aproximação da China e Rússia, unidas não por ideologia, mas por queixas complementares, seria a maior ameaça aos interesses americanos, uma reminiscência do desafio uma vez apresentado pelo bloco Sino-Soviético, embora desta vez a China provavelmente seria o líder e a Rússia o seguidor[48]. Nessa Nova Guerra Fria, que une esses dois países contra os Estados Unidos como um inimigo em comum, a Covid-19 age como um propulsor ao tornar ainda mais semelhantes o eles de Moscou e Pequim.

 

Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Jorge O. Romano, Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Érika Toth Souza, Juana dos Santos Pereira, Larissa Rodrigues Ferreira, Myriam Martinez dos Santos, Pamella Silvestre de Assumpção, Vanessa Barroso Barreto, Thais Ponciano Bittencourt, Liza Uema, Paulo Augusto André Balthazar, Annagesse de Carvalho Feitosa, Eduardo Britto Santos, Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro, Daniel S.S. Borges, Juanita Cuellar Benavídez, Renan Alfenas de Mattos e Ricardo Dias são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil.

 

[1] Metodologicamente, ao longo do texto, colocamos em itálico palavras ou significados tanto expressos nas práticas discursivas dos porta-vozes como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

[2] SEGRILLO, A. de O. Europa ou Ásia? A questão da identidade russa nos debates entre ocidentalistas, eslavófilos e eurasianistas. 2016. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

[3] MIELNICZUK, F. Quo vadis, Putin? Revista Insight Inteligência, n.º88, 2020. Disponível em: https://insightinteligencia.com.br/quo-vadis-putin/

[4] SPUTNIK. OMS destaca medidas tomadas pela Rússia no combate ao coronavírus. Sputnik, 2020. Disponível em: https://br.sputniknews.com/russia/2020032615377526-oms-elogia-russia-por-medidas-de-combate-do-coronavirus/

[5] KREMLIN. Meeting with Government members. Official Internet Resources of the President of Russia, 17 mar. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63001.

[6] KREMLIN. Meeting on measures to fight coronavirus spread in Russia. Official Internet Resources of the President of Russia, 24 mar. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63053

[7] OSBORN, Andrew; BALMFORTH, Tom. Moscow‘s coronavirus outbreak much worse than it looks, Putin ally says. Reuters, Moscou, 24 mar. 2020. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-russia/moscows-coronavirus-outbreak-much-worse-than-it-looks-putin-ally-says-idUSKBN21B2F3.

[8] Ibid., nota 6.

[9] Ibid, nota 4.

[10] KREMLIN. Address to the Nation. Official Internet Resources of the President of Russia, 25 mar. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63061.

[11] KREMLIN.G20 Summit. Official Internet Resources of the President of Russia, 26 mar. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63070.

[12] KREMLIN. Address to the Nation. Official Internet Resources of the President of Russia, 02 abr. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63133.

[13] EFE. Rússia registra terceiro medicamento para combater novo coronavírus. Notícias UOL, 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2020/07/08/russia-registra-terceiro-medicamento-para-combater-novo-coronavirus.htm

[14] KREMLIN. Address to the Nation. Official Internet Resources of the President of Russia, 23 jun. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63548.

[15] Ibid., nota 11.

[16] Ibid., nota 11.

[17] LACLAU, E. La Razón populista. Buenos Aires :Fondo de Cultura Económica. 2007.  MOUFFE, C. Agonística. Pensar el mundo políticamente. Buenos Aires: Fondo da Cultura Económica. 2014.

[18]  Em seu trabalho sobre análises do movimento socialista na Bolívia, Galván faz essa articulação que propomos aqui entre a análise política do discurso e a proposta metodológica de marcos interpretativos. Cf.: GALVÁN, I. E.: La lucha por la hegemonía durante el primer gobierno del MAS en Bolivia (2006-2009): un análisis discursivo. Madrid: Universidad Complutense, tesis de doctorado, 2012. Como outro exemplo, dessa metodologia ver também Paixão e razão: Os discursos políticos na disputa eleitoral de 2018. Jorge O. Romano (Org.) – São Paulo: Veneta, 2018. Disponível em: https://diplomatique.org.br/wp-content/uploads/2019/03/livropaixaoerazao.pdf

[19] KREMLIN. Interview with Rossiya TV channel. Official Internet Resources of the President of Russia, 27 ago. 2020. Disponível em:http://en.kremlin.ru/events/president/news/63951.

[20] AP. Parada Militar do dia da vitória reúne milhares na rússia. G1, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/06/24/parada-militar-do-dia-da-vitoria-reune-milhares-na-russia.ghtml

[21] KREMLIN. Meeting with regional heads on countering the spread of the coronavirus. Official Internet Resources of the President of Russia, 28 abr. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63288.

[22] Ibid., nota14.

[23] OMS. Munich Security Conference. OMS, 2020. Disponível em: https://www.who.int/dg/speeches/detail/munich-security-conference

[24] OMS. Coronavirus disease 2019 (COVID-19). Situation Report-86, 2020. Disponível em: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200415-sitrep-86-covid-19.pdf?sfvrsn=c615ea20_6

[25] BROAD, W.J. Rússia de Putin dissemina há anos nos EUA fake news sobre ciência. Folha de São Paulo, 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/russia-de-putin-dissemina-ha-anos-nos-eua-fake-news-sobre-ciencia.shtml

[26] BONET, P. Reforma constitucional de Putin concentra poder e privilegia “família tradicional”. El País, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-10/putin-controla-a-cozinha-da-reforma-constitucional.html

[27]SIMMONS, A.; KANTCHEV, G. Rússia aprova reforma que pode manter Putin até 2036. Valor Econômico, 2020. Disponível em:

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/07/02/russia-aprova-reforma-que-pode-manter-putin-ate-2036.ghtml

[28] BERSHIDSKY, L. Putin indica que mudará de cargo mas seguirá no poder. Valor Econômico, 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/01/16/putin-indica-que-mudara-de-cargo-mas-seguira-no-poder.ghtml

[29]DW. Russos aprovam reforma que pode manter Putin no poder até 2036. DW, 2020. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/russos-aprovam-reforma-que-pode-manter-putin-no-poder-at%C3%A9-2036/a-54019390

[30] SIMMONS, A.; KANTCHEV, G. Rússia aprova reforma que pode manter Putin até 2036. Valor Econômico, 2020. Disponível em:

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/07/02/russia-aprova-reforma-que-pode-manter-putin-ate-2036.ghtml

[31] De acordo com os dados do Instituto Levada Center, houve uma baixa no índice de aprovação que passou para 59% no auge da pandemia em abril e maio. Em agosto, o número saltou para 66% , retornando aos níveis pré pandemia. Ver: https://www.levada.ru/2020/08/26/odobrenie-institutov-vlasti-25/

[32] Alexei Navalny ficou conhecido por expor a corrupção no partido Rússia Unida de Putin, apelidando-o de partido dos vigaristas e ladrões. Em 2011, foi preso após protestos contra suposta fraude eleitoral do partido Rússia Unida nas eleições parlamentares, foi detido novamente em julho de 2013 sob a acusação de peculato, e disse que sua prisão se tratava de uma perseguição política. Em 2018, tentou a candidatura à presidente, mas foi impedido por causa de condenações anteriores por fraude em um caso que ele novamente denunciou ter motivação política. Após convocar protestos não autorizados, foi condenado mais uma vez em julho de 2019, enquanto preso adoeceu e relatou que achava que tinha sido envenenado. Ainda no ano passado, sua Fundação Anticorrupção foi oficialmente declarada um “agente estrangeiro”. Recentemente, veio descrevendo a votação sobre as reformas constitucionais como um “golpe” e “violação da Constituição”. Agora em agosto, foi hospitalizado sob a suspeita de que tenha sido envenenado. O Kremlin rejeita qualquer insinuação de que a estivesse por trás do ataque. Ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53850207

[33] KREMLIN. Address to the Nation. Official Internet Resources of the President of Russia, 30 jun. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63584.

[34] E-INVESTIDOR. Tudo o que você precisa saber sobre o preço negativo do petróleo. Estadão, 2020. Disponível em: https://einvestidor.estadao.com.br/investimentos/petroleo-zero-tudo-saber#:~:text=Nesta%20segunda%2Dfeira%2C%20o%20pre%C3%A7o,de%20petr%C3%B3leo%20dispon%C3%ADvel%20no%20mundo.

[35] KREMLIN. Meeting on the situation in global energy markets, 03 abr. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63145.

[36] KRAUSS, C. Oil Nations, Prodded by Trump, Reach Deal to Slash Production. The New York Times, 2020. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/04/12/business/energy-environment/opec-russia-saudi-arabia-oil-coronavirus.html?searchResultPosition=22

[37] PARASKOVA, T. Russia Wants OPEC+ To React To Oil Demand Recovery. OilPrice.com, 2020. Disponível em: https://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/Russia-Wants-OPEC-To-React-To-Oil-Demand-Recovery.html

[38] BBC. Como aproximação ‘sem precedentes’ entre Rússia e China materializa pesadelo dos EUA. BBC, 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48561016

[39] KREMLIN.Telephone conversation with President of People’s Republic of China Xi Jinping, 8 mai. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63326.

[40] KREMLIN.Telephone conversation with President of People’s Republic of China Xi Jinping, 8 jul. 2020. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/63621.

[41] SPUTNIK. Presidente russo Vladimir Putin anuncia registro de 1ª vacina contra COVID-19. Sputnik, 2020. Disponível em: https://br.sputniknews.com/russia/2020081115936189-presidente-putin-anuncia-registro-de-1-vacina-da-russia-contra-covid-19/

[42] CARTA CAPITAL. Vacina russa contra Covid-19 gerou imunidade sem efeito colateral, diz The Lancet. Carta Capital, 2020. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/saude/vacina-russa-contra-covid-19-gerou-imunidade-sem-efeito-colateral-diz-the-lancet/amp/?__twitter_impression=true

[43] SPUTNIK. The Lancet publica resultados dos testes clínicos da vacina russa Sputnik V. Sputnik, 2020. Disponível em: https://br.sputniknews.com/sociedade/2020090416030764-the-lancet-publica-resultados-dos-testes-clinicos-da-vacina-russa-sputnik-v/

[44] THE MOSCOW TIMES. Russia to Start Mass Deliveries of Coronavirus Vaccine Next Month. The Moscow Times, 2020. Disponível em: https://www.themoscowtimes.com/2020/08/31/russia-to-start-mass-deliveries-of-coronavirus-vaccine-next-month-a71285

[45] SPUTNIK. Brasil deve começar a testar vacina russa Sputnik V em um mês. Sputnik, 2020. Disponível em: https://br.sputniknews.com/brasil/2020090416031488-brasil-deve-comecar-a-testar-vacina-russa-sputnik-v-em-um-mes/

[46] LACLAU, Ernesto. Emancipation (s). Londres, Verso, 1996.

[47] Ibid., nota 11.

[48] BRZEZINSKI, Zbigniew. The grand chessboard: American primacy and its geostrategic imperatives. Basic books, página 55, 2016.

 



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