FUTEBOL

Democracia corinthiana: passado e futuro

A Democracia Corinthiana convida à reflexão sobre como construir, atualmente, mecanismos de representação efetiva capazes de conciliar profissionalização e participação democrática.

Na abertura da Copa do Mundo, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, do Partido Democrata Norte Americano, citou publicamente Sócrates Brasileiro e a Democracia Corinthiana, exaltando a luta deste movimento contra a Ditadura opressiva que se instalava no Brasil.

A Democracia Corinthiana, experiência que durou de 1981 a 1984, sob a liderança de Sócrates, Wladimir, Casagrande e Biro-Biro, deixou um legado conceitual que ainda desafia o modelo dominante de gestão esportiva. “Um homem, um voto”: a premissa era simples, inovadora e poderosa. Cada trabalhador do clube, do jogador ao roupeiro, tinha igual peso nas decisões coletivas. Era democracia real, exercida dentro de uma instituição sem a mediação do capital.

A questão que emerge quatro décadas depois não é apenas como financiar a atividade futebolística, mas qual projeto democrático desejamos para instituições que mobilizam milhões de pessoas, produzem identidade coletiva e ocupam espaço central na vida pública. Mais do que uma lembrança histórica, a Democracia Corinthiana convida à reflexão sobre como construir, atualmente, mecanismos de representação efetiva capazes de conciliar profissionalização e participação democrática.

A Lei das Sociedades Anônimas do Futebol (Lei n. 14.193/2021) foi louvada quase com unanimidade pela imprensa esportiva e por analistas de mercado. Pesquisadores do Observatório Social do Futebol[1], da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, registraram que as SAFs iniciaram sua trajetória no Brasil com respaldo amplo da comunidade do futebol “em um ambiente político favorável e de baixo nível de questionamento e ponderação”, revestido de pretensa neutralidade técnica no processo de empresarialização dos clubes.

Foto: Divulgação/Corinthians

Este revestimento de neutralidade técnica é, ele mesmo, um posicionamento político. A linguagem da gestão profissional, da governança corporativa e da transparência financeira funcionou como mecanismo de legitimação técnico jurídica que desarmou possíveis resistências políticas e naturalizou a transferência de controle de instituições centenárias para estruturas societárias regidas pela lógica do lucro.

O problema não é a modernização administrativa em si, necessária para qualquer instituição que queira ser eficiente. O problema é o que se perde na implementação de uma estrutura empresarial, gerida por interesses financeiros, para entidades esportivas que, apesar de participar de grande movimentação financeira, representam expressões da cultura popular.

O que se perde, precisamente, é a centralidade da dimensão coletiva de fins sociais e culturais, que cede espaço a uma lógica em que o poder político decisório se orienta pela rentabilidade e pela valorização econômica dos ativos, deixando, em muitas das vezes, escanteado o interesse da massa de torcedores.

A experiência brasileira recente demonstra que a transformação dos clubes em SAF não eliminou os problemas que justificaram sua criação. A promessa de solução automática para a crise financeira mostrou-se excessivamente simplificadora e de resultados práticos pífios.

Casos como os de Botafogo, Vasco da Gama e Atlético Mineiro evidenciaram desafios relacionados à dependência de investidores, disputas pelo controle societário, judicialização e instabilidade institucional. Paralelamente, o elevado endividamento permanece como realidade administrativa das SAFs. A principal lição que fica é que a alteração da natureza jurídica não é condição exclusiva para a instauração de governança, responsabilidade fiscal e eficiência.

Mas seria equivocado concluir que o modelo associativo, por si só, garante democracia real. Há uma patologia igualmente grave, e temerariamente silenciosa, que corrói os clubes que mantiveram a forma jurídica de associação: a centralização oligárquica do poder sob o manto formal da participação.

Clubes com dezenas de milhões de torcedores no Brasil convivem com colégios eleitorais de alguns milhares de sócios efetivos com direito a voto. A desproporção é estrutural e raramente acidental. Grupos políticos que se perpetuam no poder têm pouquíssimo incentivo para ampliar o universo de participantes.

Ao contrário: um colégio eleitoral pequeno, homogêneo e relativamente controlável é, do ponto de vista de quem já governa, um ativo político. Ou seja, ampliar o número de sócios com direito a voto significa introduzir incerteza, diversidade e, eventualmente, alternância real de poder.

O resultado é uma democracia de procedimento, mas não de substância. Há eleições, há estatutos, há assembleias. Mas as decisões que importam, sobre patrimônio, sobre a identidade do clube, são tomadas por grupos pequenos, recrutados por cooptação e mantidos por redes de lealdade pessoal e troca de favores. O torcedor comum, aquele que lota o estádio, que faz o clube arrecadar milhões de reais, permanece fora do jogo institucional.

Os números tornam essa assimetria palpável. No Corinthians, menos de cinco mil associados têm direito a voto nas eleições presidenciais de um clube que mobiliza cerca de trinta milhões de torcedores em todo o país.

Há, entretanto, clubes internacionais que indicam o caminho da profissionalização com participação dos torcedores: Benfica[2], Barcelona[3], Sporting[4], Porto[5] e Bayern de Munique[6]  demonstram como a participação democrática ainda é um meio de legitimação das gestões desportivas, que devem ser profissionais.

O símbolo da Democracia Corinthiana, Dr. Sócrates, deixou registrado com precisão o núcleo conceitual do projeto por ele liderado. Em coautoria com Ricardo Gozzi, escreveu: “Não se poderia falar em Democracia Corinthiana, por exemplo, se apenas os cartolas tivessem voz, ou se fosse dado mais espaço a este ou aquele grupo”[7].

O critério era político, não econômico: cada indivíduo valia um voto, independentemente do que possuía ou representava financeiramente.

A Democracia Corinthiana não pode ser reduzida a uma memória afetiva, a uma camisa retrô ou a um slogan conveniente. Ela foi (e continua sendo) uma interpelação política direta ao modo como o futebol é governado no Brasil. Seu legado não autoriza nem a submissão dos clubes à lógica exclusiva do capital, nem a manutenção de associações capturadas por grupos pequenos, fechados e autorreferentes. Foi uma experiência política que demonstrou que eficiência e participação não são conceitos antagônicos. Décadas depois, o debate ainda sobrevive, mas a materialização ainda dependerá de muita luta coletiva e da politização dos torcedores.

Por isso, falar hoje em Democracia Corinthiana exige coragem para enfrentar tanto o mercado quanto as oligarquias internas. Exige recusar a ideia de que modernizar é vender a alma do clube. Exige também recusar a fantasia de que votar em colégios eleitorais restritos, controlados e excludentes seja suficiente para representar milhões de torcedores.

A Democracia Corinthiana não terminou. Ela permanece como tarefa. E, no Corinthians, essa tarefa não é nostalgia: é dever histórico.

 

Fábio Prudente Netto é advogado e Pós-graduado em Direito Desportivo.

Hicham Said Abbas é advogado e Mestre em Direito Comercial.

 

[1] ALVIM, Vinicius Borges; SANTOS, Irlan Simões; FERREIRA, Jonathan; FORMAGGINI, Victor; TOPFER, Isabella; ESPÍNDOLA, Matheus; AVILA, Murilo; SABINO, Rafael. Painel das SAFs — Casos Gerais: Relatório do Observatório Social do Futebol nº 6. Rio de Janeiro: FCS/UERJ, 2026. Disponível em: https://observatoriosocialfutebol.org/relatorio-painel-das-safs-casos-gerais/

[2] Disponível em: https://pt.euronews.com/2025/11/09/agora-sim-benfica-bate-recorde-mundial-de-votantes-em-eleicoes-de-um-clube

[3] Disponível em: https://www.jn.pt/desporto/artigo/benfica-supera-barcelona-e-estabelece-um-novo-recorde-mundial-de-votantes/18017697

[4] Disponível em: https://www.correiodamanhacanada.com/sporting-bate-recorde-de-votantes-em-eleicoes-presidenciais/

[5] Disponível em: https://www.fcporto.pt/pt/noticias/20240428-pt-factos-e-numeros-de-uma-eleicao-historica?utm_source=chatgpt.com

[6] Disponível em: https://fcbayern.com/en/club/company/teaser-stockholder
https://fcbayern.com/en/news/2025/08/information-on-2025-fc-bayern-munchen-ev-annual-general-meeting

[7] SÓCRATES; GOZZI, Ricardo. Democracia Corinthiana: a utopia em jogo. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.

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