VALORES DEMOCRÁTICOS

Democracia em crise com a ascensão da extrema-direita

Os valores democráticos estão muito distantes de serem concretizados não só no Brasil, mas em praticamente todo o mundo. Enquanto houver pessoas passando fome e vivendo em vulnerabilidade alimentar enquanto outras poucas enriquecem mais a cada ano, o plano democrático está falido nesse contexto

A relação entre a democracia e a extrema-direita é um tanto excludente, uma vez que esse sistema político, para proteger o capitalismo e as suas desigualdades sociais, maneja uma gestão autoritária e violenta contra a população. Tanto a direita como a extrema-direita defendem a estrutura capitalista e sua classe dominante – a burguesia -, maior beneficiária desse modelo de governo. Assim, a desigualdade é vista como natural num processo de disputa constante por ascensão econômica, o que gera a falsa ideia de que o esforço individual é suficiente para subir na pirâmide social por meio da meritocracia. Esse malabarismo ideológico é o que aliena a classe trabalhadora, levando-a a defender o próprio sistema que a oprime diariamente.  

Neste pequeno artigo, serão discutidos os seguintes tópicos:  

1) Democracia segundo a visão materialista-histórica;  

2) Valores da extrema-direita;  

3) A democracia burguesa no Brasil.  

Por fim, as conclusões irão refletir sobre a distância entre democracia e a (extrema)-direita.  

Democracia segundo os materialistas 

O termo “democracia” é um tanto problemático de ser definido, pois depende de qual perspectiva se está partindo. Considerando a análise materialista na conjuntura discursiva, pode-se concluir que os valores democráticos estão muito distantes de serem concretizados não só no Brasil, mas em praticamente todo o mundo.  

Edilson Rodrigues/Agência Senado

A análise materialista embasa-se no processo histórico em consonância com a produção discursiva sobre esses eventos. Dito de outro modo, o materialismo histórico analisa de maneira crítica os eventos de cada época e também a situação social nesse processo. Portanto, a democracia estará pautada, neste item, por meio dessa visão teórica. 

No século XIX, Karl Marx apresentou estudos sobre as contradições do capitalismo (este que transformou as pessoas em produtos numa equação desigual em relação aos donos dos meios de produção). E essa estrutura estaria sustentada pela ideologia propagada aos trabalhadores, isto é, a inversão da realidade. Desse modo, os trabalhadores aceitariam a sua submissão aos capitalistas, sendo explorados e recebendo uma ínfima parte do seu trabalho como pagamento. 

Intelectuais como Louis Althusser, Michel Pêcheux e Pierre Bourdieu, na França, continuaram a crítica sobre os processos de dominação capitalista, depois de Marx. No Brasil, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Milton Santos, Florestan Fernandes e Jessé Souza também abordaram, em seus estudos, as profundas desigualdades sociais que o Brasil tem e mantém por meio de suas políticas com as quais a classe dominante sustenta seus privilégios. Esse cenário não mudou praticamente nada em 2025. 

Nessa perspectiva, se há privilégios para uma pequena camada social em detrimento de uma maioria que padece, não se pode falar de democracia. Isto é, a instituição democrática numa visão materialista está relacionada ao bem-estar material dos indivíduos. De acordo com o geógrafo Milton Santos, em As Cidadanias Mutiladas, a democracia só se concretiza à medida que atinge a totalidade do corpo social, isto é, quando os direitos chegam a todos os cidadãos. Portanto, enquanto houver pessoas passando fome e vivendo em vulnerabilidade alimentar enquanto outras poucas enriquecem mais a cada ano, o plano democrático está falido nesse contexto. 

Para concluir este item, a visão materialista considera a democracia como liberdade material para toda a população, mesmo que persistam algumas diferenças sociais. Essas diferenças não seriam tão discrepantes como ocorre hoje pelo mundo, em que há poucos no topo na pirâmide e a grande maioria em situação de vulnerabilidade social. Todos, numa sociedade democrática, teriam acesso aos bens essenciais de maneira gratuita: educação e saúde. A moradia também não seria um problema, pois o trabalho não faltaria e seria pago com um salário justo o suficiente para manter a casa, a alimentação e o lazer de uma família. E os que exercessem funções melhor remuneradas teriam um padrão de vida sem grandes luxos, pois suas posses não seriam dezenas de vezes superiores às demais. Tudo isso manteria um equilíbrio social, um Estado próspero, com leis aplicadas a todos e, de fato, democrático.   

Valores da extrema-direita 

A extrema-direita é a ideologia que está organizada em volta de uma combinação de valores que reproduzem um caráter autoritário, supressor e hierárquico da sociedade. A centralidade dessa ideologia está no nacionalismo escancarado, ou seja, é construída uma ideia de nação que se vê ameaçada por outras etnias ou culturas que não estejam representadas no perfil de sua classe dominante. Ademais, outro valor que está interligado com o anterior é a xenofobia, que remete à discriminação de pessoas que vêm de outros países, estipulando-se políticas anti-imigratórias. 

Ela também está embasada na moralidade tradicional. Consiste na defesa dos valores morais conservadores como gênero, família e religião, o que provoca a rejeição das temáticas progressistas como o feminismo, o direito LGBT e o direito das minorias em geral. Além disso, o populismo é frequentemente utilizado como estratégia para levar ao povo discursos populares com a finalidade de atingir o máximo de pessoas possível por meio do medo e de lógicas questionáveis. E por fim, o elitismo hierárquico, que justifica a desigualdade como algo natural e que é dever do Estado proteger os privilegiados.  

Em síntese, os valores que compõem a extrema-direita moldam-se na exclusão, na ultravalorização da pátria, no medo e na autoridade central cujo objetivo é manter uma ordem social rígida e hierárquica. 

Pierre Bourdieu apresentou que a linguagem é uma forma de poder, sendo não apenas um modo de comunicação, mas também de dominação simbólica, ou seja, o valor do que é dito não procede apenas do conteúdo, e sim, de quem diz e para quem é dirigido. Dessa forma, entende-se que os discursos realizados por esses políticos populistas são moldados de acordo com a intenção que desejam transmitir à sociedade. Diversas vezes esses indivíduos subvertem sua linguagem oficial e apelam a uma maneira de falar “do povo” e, como consequência, atraem diversos apoiadores. É nesse ponto que o nacionalismo entra em ação na ideologia da extrema-direita, devido aos discursos sobre a imagem da identidade que se espera dessa nação.  

Assim, o poder simbólico se expressa na extrema-direita pela criação de uma nova autoridade de discurso guiada por seu carisma e pela identificação simbólica do eleitor. Além do fato de que as figuras políticas não apresentam apenas informações, mas constituem uma modelação da realidade social em que autorizam certos valores e incriminam outros (como religião ou questões sexuais). Portanto, o discurso político é exercido como um instrumento de dominação simbólica muito mais ativo e violento quando dominado pela extrema-direita.     

A democracia burguesa no Brasil  

Em sua obra O Poder Simbólico, Bourdieu (1989, p.12) apresenta a noção de burguesia, que consiste em: 

“A classe dominante é o lugar de uma luta pela hierarquia  dos princípios de hierarquização: as frações dominantes, cujo poder assenta no capital econômico, têm em vista impor a legitimidade da sua dominação quer por meio da própria produção simbólica, quer por intermédio dos ideólogos conservadores os quais só verdadeiramente servem  aos interesses dos dominantes […] ameaçando sempre desviar em seu proveito o poder de definição do mundo social que detêm por delegação; a fração dominada (letrados ou “intelectuais” e “artistas”, segundo a época) tende sempre a colocar o capital específico a que ela deve a sua posição, no topo da hierarquia dos princípios de hierarquização.” 

De acordo com esse excerto, compreende-se que a burguesia possui maior poder aquisitivo e, por isso, vê-se no direito de comando e de dominação sobre outros grupos, no sistema capitalista. Para isso, manipula a informação para iludir a classe trabalhadora com o objetivo de que os mais pobres não se rebelem. Como consequência, acentua-se ainda mais a disparidade de renda e de poder entre esses dois grupos dentro da sociedade.  

Na democracia burguesa, em que há “eleições livres” e pseudoliberdade à população, a direita controla os meios de comunicação, o sistema educacional e a religião para manter a população alienada. Quando essa estrutura começa a apresentar problemas por meio de manifestações e revoltas da classe trabalhadora, entra em cena a extrema-direita em nome do nacionalismo e como uma força contra a crise instaurada. Louis Althusser descreve que o Estado se utiliza de aparelhos ideológicos para alienar a população e mantê-la domesticada. Se essa manipulação não for suficiente, o Estado apresenta os aparelhos repressores por meio do exército e da polícia. É a história se repetindo… Quanto mais próximo da extrema-direita, mais longe da democracia uma nação está.  

Além da televisão, o rádio, a religião e a escola; a internet é um palco de disputa ideológica. A esquerda, enfrentando o Estado burguês, busca regulamentar a liberdade expressada nas redes com o objetivo de propiciar um espaço mais democrático. O que na verdade, não vai ocorrer, já que, como nos outros meios de comunicação, há investimentos muito altos da classe dominante para propagar suas ideias capitalistas. Mesmo com essa percepção político-social, a extrema-direita não aceita essas regulamentações e desafia as leis dos países com o discurso da liberdade irrestrita. 

Bourdieu revela a democracia burguesa como um cenário aparentemente livre, em que o indivíduo possuiria poder de escolha; entretanto, na realidade, essa falsa democracia determina a coerção das classes subjugadas e induz seu poder de forma discreta, quase imperceptível através de mecanismos simbólicos. Sob essa perspectiva, a falsa sensação de liberdade e de livre arbítrio é adotada por grande parte da sociedade, pois os dominados são bombardeados pelos aparelhos ideológicos da classe dominante. 

O geógrafo Milton Santos, em sua obra O Espaço do Cidadão, explica que os meios de comunicação de massa formam a opinião pública, desse modo, são instrumentos de poder e criam consenso onde deveria haver debate. Logo, a mídia é um meio de dominação simbólica que torna os indivíduos conformados e alienados. Por meio dessa dominação administrada pela burguesia, ocorre a naturalização das disparidades sociais e a legitimação de atos e de governos antidemocráticos. Um exemplo disso é um número expressivo de pessoas pedindo intervenção militar no Brasil nos últimos anos.  

No contexto de 2025, a questão da desigualdade social brasileira é um tópico alarmante. Dados indicam que 5% mais ricos concentram 51,5% da renda total dos brasileiros. Ademais, o Observatório Brasileiro das Desigualdades apontou que mais de 7,5 milhões de brasileiros vivem com apenas R$150,00 por mês e que 170 milhões (80% da população) viveram com renda mensal de até R$ 3.000,00 em 2023 (PNAD). 

Esses dados reforçam a realidade que se encontra o Brasil. A desigualdade torna esses indivíduos vítimas da insegurança alimentar. Essa massa de mais de 80% da população é a que mais sofre os impactos da desigualdade climática e tem menor acesso à saúde. Além de presenciar maior violência, seja dentro ou fora de seus domicílios, e também tem menor acesso à educação e à cultura. 

O Brasil continua sendo o país do futuro nos discursos populistas e midiáticos, no entanto, a violência e a desigualdade sempre foram presentes, persistindo até os dias de hoje, independentemente dos governos que passaram pelo Planalto Central. Ainda que alguns governos tenham possibilitado um pouco mais de acesso do que outros, a lógica capitalista e da subserviência do Estado à Burguesia não foi quebrada. Desse modo, a democracia burguesa (isto é, só para os burgueses) continua perpetuando exploração e desigualdades cada vez mais profundas.  

Enquanto o controle das mídias populares estiver a serviço de proteger um grupo parasita e que se importa apenas consigo mesmo, nem a informação será democrática. Basta observar a pouca (ou nada) diversidade de posicionamentos ideológicos na TV aberta, nos grandes jornais e nas mídias alternativas patrocinadas. Basicamente, a esquerda questionadora dos valores capitalistas não está presente em nenhum desses.  

Com o avanço da extrema-direita pelo mundo, espera-se mais coerção, menos empatia, mais violência simbólica (e física) e mais discursos de ódio. E como consequência, estarão todos mais longe de um país (e de um mundo) em que as necessidades do coletivo serão a prioridade. E estarão cada vez mais perto da exploração sem limites com a finalidade de manter no topo da pirâmide pessoas que poderiam ficar gerações sem trabalhar e cujo patrimônio jamais vai acabar; diferentemente da fome do povo, que só aumenta.     

 

Victor Hugo da Silva Vasconcellos é doutor em letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e também doutorando em estudos linguísticos pela Universidade da Coruña. Além de pesquisador, é professor particular de língua portuguesa e linguística. 

Giulia Fernandes Binelli é graduanda de relações internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 

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