Depois do fim da 6×1, a luta por uma transição justa
O fim da escala 6×1 mostra que direitos trabalhistas se conquistam com organização e mobilização. A mesma força precisa alcançar as decisões sobre a transformação da economia para enfrentar a crise climática
Em 14 de janeiro de 1936, a Lei nº 185 instituiu o salário mínimo no Brasil. Até então, o contrato de trabalho era tratado como um acordo civil de prestação de serviços, e quem empregava não tinha obrigação de pagar um valor mínimo. A lei, regulamentada em 1940, no governo de Getúlio Vargas, chegou depois das greves das décadas de 1910 e 1920, por melhores condições de trabalho e estabeleceu que todo trabalhador teria direito a uma remuneração capaz de cobrir alimentação, moradia, vestuário, higiene e transporte. Noventa anos depois, em 16 de outubro de 2026, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional 141, que acaba com a escala 6×1, em que a pessoa trabalha seis dias seguidos para ter um dia de folga.
As duas datas pertencem à mesma história. No Brasil, os direitos trabalhistas foram conquistados com organização e luta coletiva, e cada conquista ampliou o que a sociedade passou a reconhecer como uma vida digna. O salário mínimo, o 13º salário e agora o direito a dois dias de descanso por semana resultaram de décadas de reivindicação. Essa trajetória não seguiu uma linha reta. Historiadores lembram que a lei de 1936, também serviu ao controle político do governo Vargas e, por muitos anos, valeu na prática sobretudo no Sudeste. Ainda assim, ela mostra que as relações de trabalho mudam quando trabalhadoras e trabalhadores se organizam para exigir essa mudança. É a partir dessa história que propomos olhar para a transição justa como uma nova trincheira de luta da classe trabalhadora.
Para quem atua com clima e trabalho, a conquista chama atenção pelo alcance que a mobilização atingiu. Uma pauta que começou com o vídeo de um balconista de farmácia no TikTok, Rick Azevedo, ganhou as redes com o movimento “Vida Além do Trabalho” e chegou ao Congresso pela proposta da deputada federal Erika Hilton. O que deu escala a essa mobilização foi a capacidade de ir além de quem já estava organizado. A pauta partiu de uma necessidade concreta, o tempo para descansar, cuidar da família e conviver, foi explicada em linguagem direta por quem vive essa rotina e se somou a uma reivindicação que o movimento sindical carrega há décadas. O engajamento se manteve vigilante até a votação. Grandes mudanças vêm acompanhadas de grandes mobilizações, e a virada histórica no segundo turno das eleições deste ano deu mais um exemplo da força de pautas ligadas à vida das pessoas.
O centro da disputa pela 6×1 foi o tempo de vida. Para quem trabalha, estavam em jogo a saúde, o cuidado com a família, o descanso e a convivência, para além dos efeitos da mudança sobre a produtividade. A reivindicação por descanso sempre esteve ligada às condições de trabalho e de vida que queremos construir.

Uma transição que já começou
A transição justa trata dessas mesmas condições, inserido num contexto mundial de mudança de paradigmas necessário para responder aos impactos na crise climática. O termo designa a transformação da economia rumo a uma economia de baixo carbono, com menos emissões de gases de efeito estufa, sem deixar trabalhadores e comunidades para trás. Falar em transição justa é falar de emprego de qualidade, renda, proteção social, direitos e participação das pessoas afetadas.
Essa transformação já está em curso. Para enfrentar a crise climática, é preciso reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e a economia global já se reorganiza em torno disso, com a expansão das energias renováveis e a eletrificação dos transportes. O Brasil faz parte desse movimento, e as mudanças já chegam ao trabalho em ritmos diferentes. Nas energias renováveis, a expansão acelerada e sem planejamento tem deixado de lado direitos trabalhistas e a qualidade do emprego. Na indústria, a eletrificação ameaça postos de trabalho se o país não desenvolver tecnologia e produção próprias. No petróleo e gás, a saída dos combustíveis fósseis exige uma mudança planejada a médio e longo prazo. Por isso, a garantia de direitos não pode esperar as décadas de luta que foram necessárias para acabar com a 6×1.
A crise climática deixou de ser percebida apenas como questão ambiental ou risco futuro. Na pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa, realizada por Aurora Lab e pela organização More in Common Brasil com 2.630 pessoas em nove capitais brasileiras, entre maio e setembro de 2025, 85% disseram que as mudanças climáticas já afetam suas atividades diárias, e o aumento do custo de vida foi o efeito mais citado, por 53%. Entre os entrevistados, 93% concordam que a sociedade precisa mudar a forma de produzir e consumir, e 67% acreditam que essa mudança pode gerar mais oportunidades de trabalho. A dúvida está na distribuição dos benefícios: 45% acreditam que as desigualdades podem diminuir com a transição, e 40% esperam que elas aumentem ou se mantenham. O que está em disputa é como e para quem a transição será feita.
Por isso, a transição justa precisa ser assumida como projeto de justiça climática e equidade, capaz de articular os impactos que trabalhadoras e trabalhadores já vivem com o debate sobre o tempo e o valor do trabalho. Falamos em direitos, proteção e participação de quem trabalha. Direitos para que os novos empregos sejam iguais ou melhores do que os empregos dos setores mais poluentes. Se a mudança ampliar desigualdades ou deixar trabalhadoras e trabalhadores desprotegidos, a transição vai encontrar resistência. Proteção, com renda e requalificação, sustentada por políticas públicas e mecanismos capazes de atravessar ciclos políticos e econômicos. Entre os entrevistados da pesquisa, 67% atribuem ao governo a responsabilidade de proteger trabalhadoras e trabalhadores diante das mudanças climáticas. E participação, porque direitos e proteção só se garantem quando quem trabalha influencia as decisões sobre os rumos da transição e compartilha seus benefícios.
Quem trabalha nos setores mais afetados já formula caminhos. Em 2025, ao longo de três meses, os Laboratórios de Futuros, espaços de escuta, diálogo e cocriação de propostas que realizamos com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a Federação Única dos Petroleiros (FUP), a Federação Regional dos Urbanitários do Nordeste (FRUNE) e a Confederação Nacional dos Urbanitários (CNU), reuniram cerca de 120 trabalhadoras, trabalhadores e dirigentes sindicais de óleo e gás, metalurgia e transportes e geração de energia. As propostas que saíram desses encontros, sobre formação, emprego e política industrial, estão reunidas em três cadernos setoriais publicados por Aurora Lab. Entre elas estão um plano nacional de transição energética justa, salvaguardas para quem trabalha em projetos de energia renovável e programas de qualificação profissional para as novas tecnologias. Essa experiência desmonta a ideia de que trabalhadores seriam resistentes a medidas para enfrentar a crise climática. Uma transição justa precisa ser construída com quem vive essas mudanças no trabalho. Há acúmulo, debate e propostas. Faltam espaços em que essas contribuições sejam levadas em conta.
A mobilização contra a escala 6×1 mostra o que acontece quando trabalhadoras e trabalhadores ocupam o centro de um debate. Na agenda climática, eles podem cumprir o mesmo papel, como porta-vozes que traduzem a transição para a vida de quem trabalha e como formuladores dos caminhos para realizá-la.
A transição não é apenas tecnológica. Ela envolve o modo de produção, e uma agenda que coloque as pessoas no centro e fale de emprego, renda, tempo e qualidade de vida pode dar ao debate climático o alcance que a pauta da 6×1 conquistou. Para isso, a participação precisa ser efetiva. Os espaços de diálogo sobre a transição precisam funcionar, ouvir a população e vir acompanhados do compromisso de governos e empresas de incorporar às decisões as contribuições de quem trabalha.
A sociedade que se mobilizou pelo fim da 6×1 e nas eleições deste ano tem legitimidade para cobrar esse compromisso. Assim, como o fim da 6×1, a transição justa é uma pauta sobre o futuro do trabalho. A mobilização que levou ao fim da escala mostra o caminho para tratar a transformação da economia como pauta de direitos, tão concreta quanto o salário e o descanso. Em 1936 e em 2026, foi a organização de quem trabalha que definiu o alcance das conquistas. As escolhas sobre a transição estão sendo feitas agora, e a presença de trabalhadoras e trabalhadores nelas desde o início pode fazer da economia de baixo carbono também uma economia de trabalho digno, renda e qualidade de vida.
Luz González é diretora de Redes e Parcerias de Aurora Lab.
Referências
AURORA LAB; MORE IN COMMON BRASIL. Clima, Trabalho e Transição Justa. Pesquisa quantitativa e exploratória com 2.630 pessoas em nove capitais brasileiras (Belém, Brasília, Fortaleza, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), realizada entre maio e setembro de 2025. São Paulo: Aurora Lab, jun. 2026. Disponível em: https://aurora-lab.org/pesquisa-clima-trabalho-e-transicao-justa/. Acesso em: 30 out. 2026.
AURORA LAB. Propostas de trabalhadoras e trabalhadores para uma transição energética justa: metalúrgicas e metalúrgicos. Laboratórios de Futuros. Disponível em: https://aurora-lab.org/biblioteca/. Acesso em: 30 out. 2026.
AGÊNCIA BRASIL. Lei do salário mínimo, que faz 90 anos, organizou relações de trabalho. Brasília, 14 jan. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-01/lei-do-salario-minimo-que-faz-90-anos-organizou-relacoes-de-trabalho. Acesso em: 30 out. 2026.
ALMA PRETA. Erika Hilton protocola PEC contra escala 6×1 na Câmara dos Deputados. 25 fev. 2025. Disponível em: https://almapreta.com.br/sessao/politica/erika-hilton-protocola-pec-contra-escala-6×1-na-camara-dos-deputados/. Acesso em: 30 out. 2026.
CENÁRIO ENERGIA. MME define composição do Fórum Nacional de Transição Energética para o biênio 2025–2026. 31 jul. 2025. Disponível em: https://cenarioenergia.com.br/2025/07/31/mme-define-composicao-do-forum-nacional-de-transicao-energetica-para-o-bienio-2025-2026/. Acesso em: 30 out. 2026

