DESIGUALDADE SOCIAL

Desinformação se torna o novo marcador social da desigualdade

Em países marcados por desigualdades históricas como o Brasil, a falta de acesso à informação confiável deixou de ser um dado neutro 

Tradicionalmente, desigualdades sociais são analisadas a partir de marcadores como renda, raça, gênero e território, que se combinam e se intensificam quando sobrepostos – como descreve Kimberlé Crenshaw ao tratar da interseccionalidade. Hoje, porém, um novo elemento se soma a esse quadro: a circulação desigual de informação confiável. A desinformação passa a funcionar como um novo marcador social, redistribuindo riscos e aprofundando vulnerabilidades históricas.  

Em países marcados por desigualdades históricas como o Brasil, a falta de acesso à informação confiável deixou de ser um dado neutro. Ele passou a definir quem está mais exposto a riscos, quem toma decisões com menos proteção e quem enfrenta mais obstáculos para exercer plenamente a cidadania. 

Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta a desinformação como o principal risco de curto prazo para as democracias. Ainda assim, seus impactos não se distribuem de forma homogênea. Em favelas, quilombos e territórios indígenas, narrativas falsas circulam em contextos atravessados por exclusão digital, precariedade no acesso a serviços públicos e ausência histórica de políticas de comunicação. Nessas condições, a desinformação interfere diretamente em decisões sobre saúde, segurança e direitos, aprofundando desigualdades já existentes. 

Essas dinâmicas aparecem nos resultados preliminares da pesquisa Territórios Digitais, desenvolvida pelo projeto GriôTech, iniciativa do Instituto Peregum, do Observatório GERATE e da Mozilla Foundation. Os achados foram apresentados em uma conferência internacional promovida pelo European University Institute, dedicada a compreender e enfrentar as desigualdades digitais – o que evidencia a relevância global de um problema vivido cotidianamente em territórios locais. 

O estudo analisa a circulação de informação em dois territórios tradicionais brasileiros: o Quilombo Santa Rita do Bracuí (RJ) e a Aldeia Multiétnica Filhos da Terra (SP). Os dados revelam um paradoxo. Embora redes como WhatsApp e Instagram sejam as principais fontes de informação, a confiança nelas é limitada. Em vez de consumo passivo, observa-se vigilância ativa: governança interna, consulta a lideranças comunitárias, agentes de saúde e espaços presenciais. Em contextos de crise de autoridade, nesses territórios a credibilidade se constrói pela autoridade da proximidade, baseada em vínculo, escuta e pertencimento. 

Outro achado relevante diz respeito à percepção sobre inteligência artificial. Em territórios historicamente vulnerabilizados, a IA desperta sentimentos ambíguos: medo de controle da informação e de ampliação das desigualdades, mas também curiosidade sobre seu potencial educativo. Não se trata de atraso tecnológico, mas de uma consciência crítica moldada por experiências recorrentes de exclusão. 

 

Crianças olhando o computador
Foto: Chetan Soni/ONU

Dados do Cetic.br (TIC Domicílios 2025) ajudam a dimensionar esse cenário. Cerca de 64 milhões de brasileiros relataram ter ficado sem pacote de dados móveis ao menos uma vez nos últimos três meses, sobretudo usuários de planos pré-pagos, mais comuns entre as classes D e E. A conectividade segue instável e desigual, intensificando os riscos da desinformação. 

Esses territórios, no entanto, não são passivos. Desenvolvem estratégias próprias de resistência informacional: redes de cuidado, governança, segurança coletiva e o fortalecimento do papel das mulheres como mediadoras de confiança. O enfrentamento da desinformação exige mais do que soluções técnicas. Requer políticas públicas que reconheçam o território como dimensão central da comunicação e da democracia. 

 

Marcelle Chagas do Monte é pesquisadora da Mozilla Foundation, mestre em Comunicação pela UFF e coordenadora da Rede de Jornalistas Pretos. Atua com desinformação, justiça informacional e territórios e é idealizadora da pesquisa Territórios Digitais. 

 

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