Digitalização e inteligência artificial na economia criativa
A inteligência artificial é uma oportunidade para ganhar produtividade e reduzir custos, mas existe o risco de perda de empregos, desafios relacionados com os direitos de autor, dentre outros
Qual o impacto da digitalização e do uso da inteligência artificial nos serviços criativos, incluindo oportunidades, desafios e implicações políticas? Como o Brasil está aproveitando a digitalização e a inteligência artificial para aumentar a competitividade dos serviços criativos?
O foco da décima primeira sessão da Reunião Plurianual de Especialistas sobre Comércio, Serviços e Desenvolvimento (UNCTAD/ ONU), que ocorreu em Genebra, foram as discussões acerca das tendências do comércio internacional e o impacto da digitalização e da inteligência artificial nos serviços criativos, incluindo oportunidades, desafios e implicações para as políticas. A reunião proporcionou uma oportunidade para os especialistas trocarem pontos de vista e boas práticas sobre novas e emergentes questões relacionadas com o comércio de serviços criativos.
Trazemos aqui os principais apontamentos do texto de referência elaborado pela UNCTAD, Comércio de serviços criativos[1], que joga luz no crescimento da economia criativa nos países em desenvolvimento, apontando as tendências do setor, que incluem a transformação digital da economia criativa, impulsionada pelo uso de recursos de inteligência artificial, oferecendo o potencial de remodelar a produção, distribuição e consumo de trabalhos criativos.
Os países em desenvolvimento, como o Brasil, precisam superar o fosso digital para aproveitar as vantagens da utilização da inteligência artificial nos serviços criativos. As exportações globais aumentaram para 1,4 trilhão de dólares em 2022, demonstrando a contribuição significativa do setor para o comércio internacional. As economias em desenvolvimento estão reforçando sua presença no comércio de serviços criativos, mas as economias desenvolvidas continuam a liderá-la, representando 80% das exportações em 2022.
Tendências globais: comércio internacional de serviços criativos
A economia criativa está crescendo rapidamente, apresentando oportunidades de desenvolvimento econômico, especialmente nos países em desenvolvimento. As indústrias culturais e criativas respondem por 3,1% do PIB global e 6,2% de todo o emprego[2]. Pesquisa da UNCTAD abrangendo principalmente economias em desenvolvimento mostra as diferenças significativas entre países: nas economias para as quais existem dados disponíveis, a economia criativa contribui com 0,5–7,3% do PIB e emprega 0,5–12,5% da força de trabalho.
Uma das principais tendências na economia criativa é que um aumento nos serviços digitais pode impulsionar o seu crescimento, como demonstra a figura 1, abaixo:

A digitalização sustenta modelos de negócios emergentes, como o do streaming e das plataformas digitais, aumentando a gamificação em vários setores, como turismo e património cultural, e ampliando as colaborações entre setores, como entre as indústrias de game, música e cinema.
Os mercados criativos, incluindo os serviços criativos, são altamente concentrados e têm diversas características que impactam a concorrência. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 2023, seis estúdios de cinema foram responsáveis por quase 90% das bilheterias e três grandes gravadoras responderam por quase 80% do mercado de música.
As ferramentas digitais e a inteligência artificial podem transformar significativamente os serviços criativos. Seu uso permite a criação de conteúdos inovadores e uma análise de dados eficiente pode ajudar a melhorar o acesso e a acessibilidade dos serviços criativos. No entanto, a garantia de qualidade em relação a conteúdo gerado por IA, possíveis vieses de algoritmo e a necessidade humana de supervisão colocam desafios que exigem soluções transparentes e auditáveis[3] para preservar a diversidade cultural e prevenir a apropriação cultural.
A inteligência artificial é uma oportunidade para ganhar produtividade e reduzir custos, mas existe o risco de perda de empregos, desafios relacionados com os direitos de autor, dentre outros.
Nos serviços culturais, a inteligência artificial pode ser usada em galerias de arte e exposições virtuais, no apoio a mostras digitais imersivas e na distribuição global. Nas artes cênicas, a inteligência artificial pode ser usada para apoiar pesquisa e tradução de textos, sugerindo roteiros e coreografias. Além disso, a inteligência artificial pode ajudar a apoiar o processo de produção, como através da elaboração de projetos para submissão à financiamento; pode ajudar a aumentar a eficiência dos custos do projeto ao longo do processo produtivo, e pode contribuir na criação cenográfica.
No que diz respeito aos desafios, o impacto no emprego é uma questão fundamental. Importante enfatizar que pesquisas recentes mostram que a inteligência artificial generativa compete com empregos mais qualificados (“trabalhadores do conhecimento”/knowledge workers)[4]. No entanto, mostram também que os serviços criativos podem ser mais resilientes à automação – enquanto o risco da automação na economia global é de 14%, entre empregos relacionados às áreas criativas e cultural, é de 10%.[5]
Também existem assimetrias no uso da inteligência artificial em serviços criativos se considerarmos o estágio de desenvolvimento de um país. Atualmente, as tecnologias que sustentam a inteligência artificial são produzidas principalmente em países desenvolvidos, que, juntamente com a China e a Índia, são líderes no índice global de inteligência artificial, que mede talento, infraestrutura, pesquisa e capacidade de desenvolvimento.[6] Em termos de regiões, o primeiro país da América Latina na lista é o Brasil, que ocupa a 39ª posição.

Lacunas e desafios nas políticas públicas relacionados à crescente digitalização das indústrias criativas incluem a proteção dos direitos de propriedade intelectual, especialmente os direitos autorais. A digitalização colocou desafios às regulamentações e políticas existentes sobre direitos de propriedade intelectual. Tais regulamentações podem não abordar adequadamente novas questões, como propriedade intelectual no mundo digital, distribuição online e conteúdo gerado pelo usuário. Adaptar as regulamentações ao cenário digital em evolução requer colaboração entre os diversos players da indústria, especialistas em questões jurídicas, especialistas em tecnologia e outros.
Além das questões de governança relacionadas ao tema, somam-se os desafios para treinamento e o preparo dessa força de trabalho para lidar com as questões técnicas, éticas e sobre a segurança de dados no uso da IA.
São necessárias políticas transversais para reduzir o fosso digital relacionado à competências e infraestrutura, para que os países em desenvolvimento possam explorar o potencial do uso da inteligência artificial em serviços criativos. Iniciativas e políticas relacionadas à digitalização e ao uso de inteligência artificial em serviços criativos, segundo pesquisa da Unctad.
A Indonésia está capitalizando ferramentas digitais e tecnologia de inteligência artificial para promover a economia criativa, enfatizando o turismo de base comunitária, o desenvolvimento de talentos na área digital e apoio ao ecossistema. A Estratégia Nacional de Inteligência Artificial tem um plano abrangente para integrar tecnologias de inteligência artificial em vários setores, incluindo indústrias criativas, para estimular a inovação e a competitividade.
A Jamaica, no âmbito do projeto “Modelo de negócios em animação caribenho”, fomenta a colaboração entre estúdios no Caribe em uma plataforma virtual, dando um passo significativo rumo à cooperação regional e ao aumento da competitividade global dos estúdios de animação.
O Japão criou um grupo de estudo para examinar a relação entre tecnologias de inteligência artificial e direitos de propriedade intelectual, visando aumentar a compreensão e fornecer orientação sobre questões jurídicas relacionadas à inteligência artificial no processo criativo.
A Malásia introduziu “Diverse 22 Makyung” no Metaverso, um projeto de eventos online que combinam artes cênicas tradicionais com tecnologias digitais, como realidade aumentada e realidade virtual, enfatizando, assim, a sinergia entre herança cultural e inovação digital e abrindo novos caminhos para a expressão criativa.
As Ilhas Maurício adotaram a realidade aumentada através de uma aplicação dedicada que oferece um método inovador de envolvimento com o extinto pássaro dodô no Museu de História Natural. Na Plataforma Virtual Mauritius Expo, artistas locais podem apresentar seus trabalhos, demonstrando o empenho das Ilhas Maurício na integração de tecnologias digitais no setor criativo.
A República da Coreia está abordando questões de direitos de autor associadas à utilização de inteligência artificial através da elaboração de um guia dedicado, destinado a esclarecer e mitigar os riscos jurídicos para os criadores, titulares de direitos autorais e usuários de conteúdos gerados por inteligência artificial, sublinhando a importância das estruturas jurídicas na era digital.
O Reino Unido e a Irlanda do Norte apoiam a integração da inteligência artificial nas indústrias criativas através de investimentos significativos, como o programa ponte de inteligência artificial de £ 100 milhões, que apoia empresas em setores prioritários, incluindo as indústrias criativas. O Governo também está investindo £ 50 milhões na próxima fase do programa de clusters de indústrias criativas, apoiando o setor a fim de maximizar os benefícios da tecnologia de inteligência artificial.
Nos EUA, o Poder Legislativo do estado da Califórnia aprovou e o governador Gavin Newsom sancionou recentemente uma dezena de leis voltadas à regulação da IA[7]. Entre elas, destacam-se duas leis ligadas à cultura, a primeira delas regula o uso de imagem ou voz de artistas pela IA apenas por meio de contrato assinado, garantindo inclusive o direito do artista de aprovar a obra criada e cobrar o valor que lhe for conveniente para quaisquer possíveis réplicas digitais. E a segunda garante o direito do artista junto aos herdeiros, caso a obra seja explorada comercialmente.
Considerações finais
Alcançar o potencial econômico dos serviços criativos exige uma melhor compreensão das operações de indústrias cada vez mais globais e políticas e abordagens inovadoras para enfrentar os desafios trazidos pela digitalização e pelo uso da inteligência artificial. Gestores públicos precisam acompanhar os novos desenvolvimentos tecnológicos e rever os quadros regulatório e de políticas públicas, de forma a aproveitar as oportunidades dos serviços criativos.
Algumas das principais prioridades em termos de políticas públicas certamente são a proteção dos empregos, proteger e fazer cumprir os direitos de propriedade intelectual, particularmente direitos autorais, adaptando e atualizando regulações e diretrizes relativas à concorrência e garantir a proteção do consumidor.
Alessandra Meleiro é Pós-doutorado junto à University of London e Professora do Bacharelado em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos e do Mestrado Profissional em Mídias Criativas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
[1] Trade in creative services (unctad.org)
[2] https://www.unesco.org/reports/reshaping-creativity/2022/en.
[3] https://www.europarl.europa.eu/thinktank/en/document/IPOL_BRI(2020)629220.
[4] https://www.ilo.org/publications/generative-ai-and-jobs-global-analysis-potential-effects-jobquantity-and.
[5] https://www.oecd.org/publications/the-culture-fix-991bb520-en.htm.
[6] See https://www.tortoisemedia.com/intelligence/global-ai/.
[7] See https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/

