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VOLTA ÀS AULAS

Educação em falta: só culpa da pandemia?

por Luiz Fernando Leal Padulla
4 de abril de 2022
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Nunca tivemos tantos casos de indisciplina e falta de empatia entre os jovens e adolescentes. Seria apenas culpa da pandemia e dos anos em que ficaram sem o convívio social? Sinceramente, acredito que não.

Após o retorno às aulas de forma presencial em sua totalidade, a defasagem no aprendizado se fez notável, afinal, ao mesmo tempo que a chamada geração Z é digital, não são capazes de se concentrar e usufruir do ensino remoto. No entanto, o que mais chama a atenção de nós educadores vai além disso. Nunca tivemos tantos casos de indisciplina e falta de empatia entre os jovens e adolescentes.

Conversando com outros educadores, a falta de interesse e respeito estão acima do normal. Um professor de Educação Física, por exemplo, relatou que as brigas durante as atividades estão constantes, em clara demonstração de intolerância e falta de senso coletivo.

Mas a pergunta que faço é: seria apenas culpa da pandemia e dos anos em que ficaram sem o convívio social? Sinceramente, acredito que não.

Tudo isso é reflexo também da sociedade, das famílias que seguem o roteiro imposto pela heteronormatividade, sendo que a grande maioria é incapaz e despreparada para serem considerados pais e mães. O comportamento dos filhos mostra que a função familiar não foi – e não é! – exercida nas casas, reforçando o que há tempos vínhamos notando: a falta de atenção e educação dos genitores delega todas essas funções única e exclusivamente para as escolas e educadores.

Não à toa começaram a dar nome ao estresse apresentado pelos pais e mães durante esse período: “burnout parental”.1 Incrivelmente alegam que o ambiente familiar se tornou prejudicial e estressante. Junte tudo isso e questione: estariam essas pessoas realmente preparadas para seguir a “lei social” de constituição familiar?

Não estou colocando a culpa nesses genitores, mas a pergunta deve ser feita. Afinal, essas crianças, uma vez geradas, carecem de atenção, cuidados. Estão tendo isso?

Soma-se a isso os efeitos e sequelas deixados pela Covid-19, o que inclui a redução do cérebro, incluindo as áreas de raciocínio, perda de memória, falta de atenção, ansiedade, depressão, e o estrago é ainda maior.2

Um adicional a tudo isso: uso excessivo de aparelhos eletrônicos. Pesquisa divulgada em 2019 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil,3 mostra que um quarto dos jovens brasileiros consideram que ficam muito tempo conectados e não conseguem controlar muito bem esse período na frente das telas, desencadeando efeitos especialmente mais danosos nas duas primeiras décadas de vida. Isso quando não vemos pais e mães ofertando telas para bebês e crianças “ficarem quietos”.

Estudo de Rocha et al.4 apontou que cada hora de uso de dispositivos eletrônicos diminuiu consideravelmente a capacidade de comunicação, de resolução de problemas e de sociabilidade dos pequenos. Nos mais jovens, circuitos cerebrais geram verdadeira dependência química dos dispositivos eletrônicos.

Fisiologicamente, também não se pode descartar a influência negativa que as telas exercem no comportamento do sono, uma vez que a luminosidade inibe a produção de melatonina, importante hormônio indutor de sono. Com ele prejudicado, todo o equilíbrio fisiológico (homeostase) é comprometido, incluído – voilá! – a capacidade de aprendizagem, e consumo excessivo de alimentos pela inibição de outros hormônios produzidos durante o sono que nos fornece a sensação de saciedade – a leptina e grelina –, além do próprio hormônio de crescimento e outros mais fundamentais para o fortalecimento do próprio sistema imunológico.5,6,7

E tem mais: associa-se a tudo isso a ingestão de alimentos ultraprocessados, que aumentam em 45% os casos de obesidade entre os jovens,8,9 além de produtos contaminados com excesso de agrotóxicos, o caos no desenvolvimento das crianças e adolescentes está completo. Problemas esses que não ficarão restritos a essa fase da vida, mas acarretarão impactos no desenvolvimento e no próprio futuro da sociedade, afinal, além da discriminação, deve-se atentar para problemas de saúde, afastamentos nos trabalhos…

culpa
(Créditos: Unsplash)

Enfim, como diz o ditado, o buraco é mais embaixo.

E para nós, educadores e educadoras, que vivenciamos tudo isso, é mais uma tarefa a ser cumprida além de darmos conta do aprendizado: lidar com conflitos e carências familiares. Jamais nos absteremos de tais tarefas – ainda que nem todas sejam exclusivamente de nossa competência – mas o fato é que estamos esgotados física e emocionalmente. E é só o começo do ano!

Durante esses dois anos que tivemos que nos reinventarmos, ora com aulas on-line, ora com aulas híbridas, sendo cobrados e até mesmo policiados por pais e mães que vigiavam nossas aulas e procuravam qualquer fala para distorcer e nos acusarem de doutrinação, não tivemos tranquilidade. A luta contra o negacionismo científico, por exemplo, era vista como doutrinação. A prática da educação libertadora e crítica, igualmente. Isso sem falarmos no medo constante da contaminação pela negligência de alunos e alunas que insistiam em não seguir normas de segurança básica – como o uso das máscaras, por exemplo.

A pandemia que poderia ter nos ensinado a sermos mais empáticos, não passou de mais um triste momento da humanidade. Esperávamos que a sociedade mudasse para melhor, revendo suas atitudes; que profissionais como nós fossem finalmente valorizados. Mas não. As pessoas parecem não ter aprendido absolutamente nada. O egoísmo segue firme e forte.

E a falta da educação parece ter sido negligenciada em sua totalidade nas casas e imputada, mais uma vez, às escolas. Como ensinar noções básicas de cidadania e vida em sociedade quando a família tradicional falha em suas obrigações? Como exercer mais essa função sem o devido reconhecimento e a constante perseguição dos genitores? Seria essa uma geração perdida, com traumas futuros que sabe-se lá como deverão enfrentar?

Tempos ainda mais difíceis estão por vir.

 

Luiz Fernando Leal Padulla é professor, biólogo, doutor em Etologia, mestre em Ciências e especialista em Bioecologia e Conservação. Autor do blog e do canal no Youtube “Biólogo Socialista” e do podcast “PadullaCast”. Recentemente publicou o livro Um irritante necessário. Instagram: @BiologoSocialista.

 

Referências bibliográficas

1 Pandemia ‘não é hora de ser supermãe ou superpai’, diz especialista em ‘burnout parental’. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57521876

2 Maior pesquisa brasileira sobre efeito da Covid-19 no cérebro indica problemas neurológicos mesmo em quem teve sintomas leves. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2022/03/14/maior-pesquisa-brasileira-sobre-efeito-da-covid-19-no-cerebro-indica-problemas-neurologicos-mesmo-em-quem-teve-sintomas-leves.ghtml

3 TIC Kids Online Brasil – 2019 Crianças e adolescentes. Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisa/kids-online/indicadores/

4 ROCHA et al. 2021. Screen time and early childhood development in Ceará, Brazil: a population-based study. BMC Public Health, volume 21: 2072. Disponível em: https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12889-021-12136-2

5  SHERWOOD, L. Fisiologia Humana – das células aos sistemas. São Paulo: Cengage Learning. 2011.

6 SHOCHAT et al., 2014. Functional consequences of inadequate sleep in adolescents. Sleep Medicine Reviews, 18: 75-87. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23806891/

7 SCHIMIDT et al., 2015. The relations between sleep, personality, behavioral problems, and school performance in adolescents. Sleep Medicine Clinics, 10: 127-133. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26055859/

8 Risco de obesidade é 45% maior entre adolescentes cuja dieta é baseada em ultraprocessados. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/risco-de-obesidade-e-45-maior-entre-adolescentes-cuja-dieta-e-baseada-em-ultraprocessados/38105/

9 NERI et al. 2022. Associations Between Ultra-processed Foods Consumption and Indicators of Adiposity in US Adolescents: Cross-Sectional Analysis of the 2011-2016 National Health and Nutrition Examination Survey. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2212267222000338#



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