Elogio às revoluções - Le Monde Diplomatique

Liberdade, igualdade, fraternidade

Elogio às revoluções

por Serge Halimi
5 de maio de 2009
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Revoltas populares deixam na história e na consciência humana uma marca indelével, mesmo quando fracassam ou são desonradas. Elas encarnam o momento, tão raro, em que a fatalidade se insurge, e o povo toma a dianteira

Já se passaram 220 anos da Revolução Francesa, mas seu corpo ainda se mexe. E isso apesar do próprio François Mitterrand ter convidado Margaret Thatcher e Joseph Mobutu para o enterro, durante as cerimônias do bicentenário, vinte anos atrás.

O ano da comemoração foi também o da queda do muro de Berlim, e Francis Fukuyama aproveitou o momento para anunciar o “fim da história”, ou seja, a eternidade da dominação liberal sobre o mundo e o fim das possibilidades da revolução.

Mas a crise do capitalismo questiona novamente a legitimidade das oligarquias no poder. O ar parece mais leve, ou mais pesado, de acordo com as preferências. Evocando “os intelectuais e os artistas que clamam pela revolta”, o jornal Le Figaro se aflige: “François Furet parece ter se enganado: a Revolução Francesa não acabou”.1

Outrora tida como expressão de uma necessidade histórica (Marx), como expressão de uma “nova era da história” (Goethe), de uma epopeia iniciada pelos soldados da Revolução cantados por Victor Hugo (“Víamos esses pés-descalços marcharem, soberbos, sobre um mundo fascinado”), a Revolução passou a ser vista apenas pelo sangue nas mãos. De Rousseau a Mao, uma utopia igualitária, terrorista e virtuosa, teria pisoteado as liberdades individuais, engendrando um monstro frio: o Estado totalitário. Depois a “democracia” triunfou, regozijando-se, pacífica, de mercado. Herdeira também de revoluções, mas de outra ordem, à inglesa ou à americana, mais políticas que sociais, revoluções “descafeinadas”.2

Na Inglaterra, um rei fora decapitado. Mas como a resistência da aristocracia foi menos vigorosa do que na França, a burguesia não achou necessário fazer uma aliança com o povo para assentar sua dominação. Nos meios abastados, tal modelo, sem “pés-descalços” nem “sans-culottes”, parecia mais interessante e menos arriscado que o da Revolução Francesa.

Laurence Parisot, presidente do patronato francês, não trai o sentimento de sua base ao confidenciar a um jornalista do Financial Times: “Adoro a história da França, mas não gosto muito da Revolução. Foi um ato de uma violência extrema em virtude do qual ainda sofremos. Ele obrigou cada um de nós a escolher um lado”. E disse ainda: “Nós não praticamos a democracia com tanto sucesso quanto a Inglaterra”.3

Abastados x proletários

“Escolher um lado.” Esse tipo de polarização social é lamentável quando, ao contrário, o melhor seria se todos se mostrassem solidários às suas empresas, a seus patrões, à sua marca – mas permanecendo cada um em seu devido lugar. Pois aos olhos daqueles que não as apreciam muito, o principal problema das revoluções não é a violência, um fenômeno tristemente banal na história, mas a agitação da ordem social, coisa infinitamente mais rara, que intervém no momento de uma guerra entre abastados e proletários.

Em 1988, em busca de um argumento arrebatador, o presidente George H. Bush repreendeu seu adversário democrata, Michael Dukakis, um tecnocrata perfeitamente inofensivo: “Ele quer nos dividir em classes. Isso funciona para a Europa, mas não é para a América”. Classes, na América! Dá para imaginar o horror que tal acusação pode causar.

No momento em que a situação da economia americana parece exigir sacrifícios tão desigualmente repartidos como o foram os benefícios precedentes, o atual locatário da Casa Branca resolveu desmobilizar urgentemente a cólera popular: “Uma das lições mais importantes para se tirar desta crise é que nossa economia só funciona quando estamos todos unidos”, declarou Obama. “Nós não temos por que ver um demônio em cada investidor ou empresário que tenta ter lucro.”4 Como já era de esperar, Barack Obama não fará a revolução.

“A revolução é antes de tudo uma ruptura. Aquele que não aceita essa ruptura com a ordem estabelecida, com a sociedade capitalista, não pode aderir ao Partido Socialista”, dizia François Mitterrand em 1971. Desde então, as condições para a adesão ao Partido Socialista (PS) se tornaram menos draconianas, uma vez que não desencorajaram nem o diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, nem o da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy.

A ideia de uma revolução regrediu também em outros lugares, mesmo dentro das formações mais radicais. A direita se apossou da palavra, aparentemente ainda portadora de esperança, para fazer dela sinônimo de restauração, da destruição dos direitos sociais conquistados a duras penas contra a “ordem estabelecida”.

A violência das grandes revoluções é, apesar de tudo, algo que reprovamos. Muita gente se ofende com o massacre dos guardas suíços, por exemplo, quando da tomada do Palácio das Tulherias em agosto de 1792, ou com o da família imperial russa em julho de 1918, em Escatimburgo, ou com o massacre dos oficiais do exército de Tchang Kai Tcheck, liquidados após a tomada de poder pelos comunistas chineses em 1949. Mas melhor seria que não se tivesse ocultado a fome durante o Antigo Regime por trás dos bailes em Versalhes, e dos dízimos extorquidos pelos padres. Ou as centenas de manifestantes pacíficos de Petrogrado, massacrados no “domingo vermelho” de janeiro de 1905 pelos soldados de Nicolau II; ou os revolucionários de Cantão e de Shangai arrastados ainda vivos para as caldeiras das locomotivas, em 1927. Sem mencionar a violência cotidiana da ordem social que pretendíamos, em outros tempos, colocar abaixo.

O episódio dos revolucionários queimados vivos não marcou somente aqueles que se interessam pela história da China, ele é conhecido também pelos milhões de leitores da A Condição Humana, de Malraux. Pois, durante décadas, os maiores escritores e artistas formaram coro com o movimento operário para celebrar as revoluções, o futuro que clama por dias melhores. O que incluía o relato das tragédias, das ações da polícia política, o culto à personalidade, o nepotismo, campos de trabalho forçado, execuções.

Irrupção da violência

Há 30 anos, no entanto, não se fala mais nisso, o que é até recomendável para se ter sucesso na universidade, na imprensa e para brilhar na academia. “Aquele que diz revolução diz irrupção da violência”, explica o historiador Max Gallo. “Nossas sociedades são extremamente frágeis. A maior responsabilidade daqueles que têm acesso à palavra pública é prevenir contra essa irrupção.”5 Furet avaliava que toda tentativa de transformação radical era totalitária ou terrorista, que “a ideia de uma outra sociedade se tornou quase impossível de ser pensada”. Sua conclusão: “Estamos condenados a viver no mundo em que vivemos”.6 Um destino como esse concordava com as expectativas de seus leitores, em geral protegidos das tempestades por uma existência agradável de jantares e debates.

A fobia das revoluções e seu corolário, a legitimação do conservadorismo, trouxeram à tona outras vozes além daquelas de Gallo e Furet. Basta pensar nas escolhas dos meios de comunicação, incluindo o cinema. Há 30 anos eles tentam afirmar que, fora da democracia liberal, não se encontra nada senão regimes tirânicos e a conivência entre eles. A relevância dada ao pacto germano-soviético foi muito maior do que a outras alianças antinaturais, como os acordos de Munique e o aperto de mão entre Adolf Hitler e Neville Chamberlain. O nazista e o conservador comungavam, ao menos, no ódio aos setores populares. E o mesmo medo de classe inspirou os aristocratas de Ferrare e os mestres das forjas de Ruhr quando resolveram apoiar a chegada ao poder de Mussolini e do Terceiro Reich.7 É permitido relembrar isso também?

Nesse caso, vamos além. Léon Blum, ao teorizar brilhantemente sobre sua recusa a uma revolução de tipo soviético, foi qualificado por um de seus amigos como “blanquismo ao molho tártaro”, em referência à doutrina do revolucionário socialista Louis-Auguste Blanqui (1805-1881). Uma figura tão respeitada pelos defensores da virtude como Blum refletiu sobre os limites de uma transformação social na qual o sufrágio universal seria o único talismã. “Nós não temos muita certeza de que os representantes e os dirigentes da sociedade atual, no momento em que sentirem seus princípios gravemente ameaçados, não saiam da legalidade”, preveniu, em 1924.

De fato, transgressões desse gênero não faltaram desde então, do pronunciamento de Franco em 1936 ao golpe de Estado de Pinochet em 1973, sem esquecer a derrubada de Mossadegh, no Irã, em 1953.

O chefe socialista Blum sublinhava que “a República não foi proclamada na França em virtude do voto legal, segundo as normas constitucionais. Ela foi instalada pela vontade do povo que se insurgiu contra a legalidade existente”.

Invocado para desqualificar outras formas de intervenção coletiva (como as greves nos serviços públicos, consideradas como uma tomada de reféns), o sufrágio universal teria se tornado o alfa e o ômega de toda ação política. As questões que Blum colocou a esse respeito continuam atuais: “O sufrágio é uma realidade de fato hoje? A influência do patrão e do proprietário não pesa sobre os eleitores, com a pressão do poder do dinheiro e da grande imprensa? Todo eleitor é livre ao emitir seu voto, livre pela cultura de seu pensamento, livre pela sua independência como pessoa? E, para liberá-lo, não seria preciso uma revolução?” Ele considera, entretanto, que o veredicto das urnas desbaratou as pressões conjuntas dos patrões, do poder do dinheiro e da imprensa em três países europeus – Holanda, França e Irlanda, países em que a maioria decidiu recusar a nova Constituição europeia, de corte neoliberal. Por essa razão, ninguém o levou em conta.

“Nós perdemos todas as batalhas, mas éramos nós que tínhamos as melhores canções.” A observação, cujo autor seria um combatente republicano espanhol buscando asilo na França após a vitória de Franco, resume, a seu modo, o problema dos conservadores e sua lancinante pedagogia da submissão.

Dito de maneira simples, as revoluções deixam na história e na consciência humana uma marca indelével, mesmo quando fracassaram, mesmo quando foram desonradas. Elas encarnam o momento, tão raro, em que a fatalidade se insurge, em que o povo toma a dianteira. Por isso sua ressonância universal. Pois, cada um à sua maneira, os rebeldes do Potenkim, os sobreviventes da Grande Marcha, os barbudos de Sierra Maestra, ressuscitaram o gesto dos soldados revolucionários franceses, como sugeriu o historiador Eric Hobsbawm. “A Revolução Francesa revelou o poder do povo de tal maneira que nenhum governo jamais será autorizado a esquecer que um exército improvisado de combatentes não treinados foi vitorioso diante da poderosa coalizão formada pelas mais experimentadas tropas de elite das monarquias europeias.”8

Parênteses revolucionário

Não se trata somente de uma “lembrança”: o vocabulário político moderno e a metade dos sistemas jurídicos do mundo se inspiram no código que a Revolução inventou. E quem pensa no “terceiro-mundismo” dos anos 1960, pode se perguntar se uma parte de sua popularidade na Europa não veio do sentimento de reconhecimento (no duplo sentido do termo) que engendrou. O ideal revolucionário, igualitário e de emancipação do Iluminismo parece renascer no Sul, em parte graças a vietnamitas, argelinos, chineses e chilenos que tiveram seu aprendizado no Velho Continente.

O Império se enlameava e as antigas colônias pegavam o bastão. A revolução continuava. A situação atual é diferente. A emancipação da China ou da Índia – e a afirmação de ambas na cena internacional – suscitam aqui e ali curiosidade e simpatia, mas não remetem a qualquer esperança “universal” ligada, por exemplo, à igualdade, ao direito dos oprimidos, a outro modelo de desenvolvimento, à preocupação de se antecipar às restaurações conservadoras nascidas do saber e da distinção.

Se o entusiasmo internacional que a América Latina suscita é maior, é por causa da sua orientação política, ao mesmo tempo democrática e social. Há 20 anos, uma determinada esquerda europeia justifica a prioridade que dá às demandas das classes médias teorizando sobre o fim do “parêntese revolucionário”, sobre o desaparecimento político das categorias populares. Os governos da Venezuela e da Bolívia, ao contrário, remobilizam estas classes populares, provando-lhes que seu destino histór
ico não está selado, que, em suma, a luta continua.

As revoluções são raras, por mais que continuem sendo desejáveis. Elas supõem a existência de, ao mesmo tempo, uma massa de descontentes prontos para agir, um Estado cuja legitimidade e autoridade sejam contestadas por uma fração de seus defensores habituais (em razão de imperícia econômica, descuido militar ou divisões internas que o paralisam e em seguida o desconjuntam) e, enfim, a preexistência de ideias radicais que colocam em questão a ordem social, extremamente minoritárias no começo, mas às quais poderão se somar todos aqueles cujas antigas crenças ou lealdades foram desacreditadas.9

A historiadora americana Victoria Bonnell estudou os operários de Moscou e de São Petersburgo às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Como se trata do único caso em que esse grupo social foi ator principal de uma revolução “exitosa”, sua conclusão merece ser reproduzida: “O que caracteriza a consciência revolucionária é a convicção de que as suas demandas só podem ser atendidas pela transformação das instituições existentes e pelo estabelecimento de outra organização social”.10 O que nos diz que essa consciência não aparece espontaneamente, sem uma prévia mobilização política e agitação intelectual.

É o que se vê neste exato momento. A demanda dos movimentos sociais é primeiramente defensiva. A intenção é restabelecer um contrato social considerado violado pelos patrões, proprietários de terra, banqueiros e governos. O pão, o trabalho, a moradia, os estudos, um projeto de vida, não se trata ainda de um “futuro radiante”, mas a “imagem de um presente despido de seus aspectos mais dolorosos”.11

Apenas depois, quando se torna patente a incapacidade das esferas dominantes de cumprirem as obrigações que os legitimam no poder, e quando seus privilégios aparecem com toda clareza, por vezes é colocada uma questão para além dos círculos militantes: a de saber “se os reis, os capitalistas, os padres, os generais e os burocratas conservam ainda alguma utilidade social”.12 Só então se pode falar em revolução. A transição de uma etapa à outra pode ocorrer rapidamente – dois anos em 1789, alguns meses em 1917 – ou não ocorrer nunca.

Há cerca de dois séculos, milhões de militantes políticos e sindicais, historiadores e sociólogos, examinaram as variáveis que determinam a questão: a classe dirigente está dividida e desmoralizada? Seu aparelho repressivo permanece intacto? As forças sociais que aspiram à mudança estão organizadas e são capazes de se entender? Em nenhum lugar tais estudos foram mais abundantes do que nos Estados Unidos, onde se buscava frequentemente compreender as revoluções, todas as suas consequências, tudo com o intuito de melhor esconjurá-las.

A confiabilidade desses trabalhos se revelou… aleatória. Em 1977, por exemplo, a maior preocupação era com a “ingovernabilidade” das sociedades capitalistas. Por contraste, perguntava-se: por que a URSS é tão estável? As respostas variavam: ora uma preferência dos dirigentes e da população soviética pela ordem e pela estabilidade; ora uma socialização coletiva, consolidando com isso os valores do regime.

A natureza não cumulativa dos problemas a serem resolvidos dava ao partido uma margem de manobra; os bons resultados econômicos contribuíam para a estabilidade buscada; um progresso do nível de vida; o status de grande potência etc.13

O cientista político de Yale, Samuel Huntington, à época já imensamente célebre, concluía assim esse rol de índices concordantes: “Nenhum dos desafios previstos para os próximos anos parece qualitativamente diferente daqueles para os quais o sistema soviético já ofereceu resposta”.14
Todos sabem como a história termina.

 

*Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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