Em Dacar, restaurantes chiques e favelas - Le Monde Diplomatique

UMA METRÓPOLE AFRICANA EM MUTAÇÃO

Em Dacar, restaurantes chiques e favelas

por Sabine Cessou
5 de novembro de 2014
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Engarrafamentos sem fim, imóveis vertiginosos crescendo com força total, especulação imobiliária… Dacar se transforma em grande velocidade. A capital do Senegal, que deve acolher a Cúpula da Francofonia no final de novembro, torna-se uma metrópole, com suas tradicionais zonas abandonadas e sombriasSabine Cessou

“Dacar mudou incrivelmente, a cidade está irreconhecível!” Modou Lo, “um que veio da Itália”, como é chamado aqui, não colocava os pés no Senegal há doze anos. Emigrado para Milão, esse técnico de 34 anos está de volta à casa dos pais, numa rua empoeirada da periferia de Guédiawaye, ao norte da capital. Ele redescobre sua cidade: “Peguei o táxi na hora de pico e passei duas horas nos engarrafamentos. Não tenho mais referências para encontrar os lugares. Tudo mudou… As casas têm um ou dois andares, ou mais!”.

São 15 horas. No quintal de casa, Lo prepara os três copos rituais de chá verde com os amigos, tendo ao fundo o som do rádio e balidos de carneiros. O emigrado pergunta sobre as novidades. Birame, de 32 anos, professor de inglês, está desempregado. Ele não tem nenhuma ilusão com os planos do novo prefeito de Guédiawaye, eleito em junho de 2014: “É Aliou Sall, irmão do presidente Macky Sall, um jornalista saído não se sabe de onde. Ele vai enriquecer e tudo ficará como está: uma única escola pública para toda a região de Guédiawaye, cortes de água, de eletricidade, falta de trabalho e o problema do transporte… As pessoas lutaram contra o nepotismo, mas ei-lo de novo à nossa porta”.

A cidade nova de Guédiawaye foi criada a 18 quilômetros da capital durante a descentralização de 1972 para realojar as pessoas que viviam nas favelas do bairro administrativo de Plateau. Essa periferia à beira-mar, transformada em um dos quatro departamentos da região de Dacar em 1996, cresceu a ponto de contar hoje com 286 mil habitantes.

Isso acontece porque a capital do Senegal se estende em todas as direções. Os imóveis crescem como cogumelos, brancos, amarelos ou rosa, por vezes cobertos de ladrilhos, transformando as antigas estradas em grandes bulevares. Capital da África Ocidental Francesa a partir de 1902, ela fazia parte, com Saint-Louis, Gorée e Rufisque, das “quatro comunas” às quais o colonizador atribuiu um status à parte: seus habitantes eram cidadãos franceses, representados por um deputado na Assembleia Nacional. Na época da independência, em 1960, ela tinha apenas 300 mil habitantes, nem 10% da população atual. Hoje, ela é sufocante, apesar da brisa marinha que sopra sobre a península. Com mais de 3 milhões de habitantes, um quarto da população do Senegal, a metrópole está saturada. Essa cidade “macrocéfala” onde bate o coração do país, segundo as palavras de seu prefeito, Khalifa Sall (homônimo sem laço de parentesco com o presidente), está envolvida no movimento de explosão urbana que afeta todo o continente (ver boxe).

A novíssima Agência Senegalesa de Promoção Turística deseja fazer de Dacar um hub do “turismo de negócios e de congressos”. Com 1,7 milhão de passageiros em 2012, o aeroporto da capital é o segundo ao sul do Saara, depois do de Johannesburgo. Ele será substituído em 2015 com a abertura do Aeroporto Internacional Blaise Diagne, que ambiciona ser uma plataforma regional do transporte aéreo.

No caminho dessa nova infraestrutura, atravessamos Diamniadio, um vilarejo decretado polo urbano pelo ex-presidente Abdoulaye Wade (2000-2012), a fim de desafogar a capital. Situada a 35 quilômetros de Dacar, essa cidade-cruzamento acolherá no final de novembro a Cúpula da Organização Internacional da Francofonia (OIF) num novo centro de conferências.

Dacar tornou-se uma das dez cidades mais caras do continente, segundo o escritório ECA Internacional. Em torno do atual aeroporto, em Yoff, Ouakam, Ngor e no bairro chique de Almadies, os terrenos são vendidos a preço de ouro e o cimento corre à solta. Todos aqueles que podem, operadores econômicos ou particulares, constroem habitações para alugar por 150 a 1.500 euros, o que lhes permite fechar as contas no final do mês. No Plateau, congestionado de manhã e à noite, a especulação imobiliária não arrefece. A crise da Costa do Marfim, de 2002 a 2011, provocou o afluxo de funcionários internacionais, de ONGs e de expatriados vindos de Abidjã.

A pequena cidade do tempo das independências africanas não é mais que uma sombra dela mesma. Ela parecia mais viva, mas também mais elegante, mais intelectual e talvez mais autêntica para os jovens que moravam nela nos anos 1970 e 1980… Essa geração cultiva também certa nostalgia, como Pape Samba Kane, ex-diretor do jornal satírico Le Cafard Libéré. “Hoje”, escreve, “Dacar move-se aos trancos sobre as riquezas, o tilintar vazio, o reflexo efêmero como o dos cromados de carros GMC, o brilho vulgar como os grossos óculos de sol até os palcos de televisão, os grandes imóveis construídos a golpes de malas abarrotadas de dinheiro. Essa Dacar do falso, do dinheiro caído do céu, dos moradores de Abidjã vestidos com jeans justos, essa Dacar dos restaurantes chiques, mas sem alma convive com uma outra, o reverso da mesma medalha, esse underground de ontem transformado em mainstream hoje, com seus esquemas, suas encrencas.”1

 

Projetos imobiliários de alto padrão

A capital cintila, com suas faculdades (70 mil estudantes para uma cidade que conta com 48,6% de habitantes com menos de 18 anos), a ilha de Gorée, o Instituto Fundamental da África Negra (Ifan), a sede do Banco Central dos Países da África Ocidental (BCEAO), suas conferências internacionais, sua Bienal de Arte, mas também sua cultura. Os moradores de Dacar se fazem notar, como é o caso da jovem estilista Adama Ndiaye, que organiza em várias cidades a Black Fashion Week. “Alguém que foi criado aqui tem uma estética muito mestiçada, o cinema e as influências que vêm de toda parte, orientais, americanas e africanas”, observa Omar Victor Diop. Esse fotógrafo de 33 anos expõe pelo mundo seus retratos de artistas e jovens engajados da sociedade de Dacar.

O outro lado da moeda: um terço da população de Dacar vive abaixo do limite da pobreza (contra uma taxa nacional de 46,7%, segundo as cifras oficiais). Oitenta por cento da atividade econômica nacional se concentra na vasta zona industrial que se estende para o leste, do porto de Dacar (o nono maior da África) até a cidade de Rufisque, ao longo da Baía de Hann. A capital atrai os moradores do campo o tempo todo, mas também cidadãos da Guiné, do Mali e do Níger. Os recém-chegados se instalam a cada ano nas favelas de placas e chapas onduladas ou alugam quartos nas periferias de Pikine e Guédiawaye. Na estação das chuvas, no final de agosto, inundações atingem essas duas zonas populares e superpopulosas. Moradores e poderes públicos se põem então a bombear a água estagnada, o que agrava os riscos de paludismo e cólera… A Baía de Hann, a zona mais poluída do Senegal, é objeto desde 2009 de um programa governamental de saneamento.

Como se gera essa urbanização galopante? Difícil compreender claramente, já que os níveis de decisão são múltiplos, numa administração calcada no governo francês. Desde 1996, Dacar está dividida em dezenove comunas de distritos. Vários planos de urbanismo se chocam entre si, enquanto a questão exige urgência: Dacar deverá ter 5 milhões de habitantes em dez anos. Khalifa Sall, o prefeito socialista eleito em 2009, denuncia o “ato III” de uma descentralização começada em 1990 e que neste ano transferiu competências dos prefeitos de distrito, sobretudo para os mercados. Pela falta de recursos, os projetos lançados pela cidade estão “a ponto de ser congelados”, inquieta-se, ao mesmo tempo que critica a concorrência que existe entre o governo central e a prefeitura na gestão desse tipo de caso.

Projetos imobiliários de alto nível se propagaram nestes últimos anos na estrada de Corniche, privatizando praias e barrando a vista do Oceano Atlântico. A associação SOS Litoral processa na justiça o grande hotel Terrou-Bi, que confiscou a antiga “praia das crianças” e agora cobra dos que querem frequentá-la. A cantora Aby Ndour, uma das irmãs do célebre Youssou Ndour, não poderá construir um restaurante em Fann-Résidence, numa rotatória que é também um dos últimos espaços verdes desse bairro à beira-mar. Presidente de honra do SOS Litoral e da ordem dos arquitetos, Pierre Goudiaby alertou o presidente do distrito de Fann quando a cantora enviou bulldozers, em agosto, para fazer a terraplenagem da praça pública. O ex-prefeito tinha lhe concedido todas as autorizações, que lhe foram então retiradas… “É uma aberração, mas ela tem todos os papéis necessários e se encontra perfeitamente dentro das regras! Os prefeitos, como há dinheiro a ganhar, distribuem seja lá o que for e tomam decisões que não compreendem”, lamenta Goudiaby, que é também ligado ao ex-presidente Wade e dono do grupo de construção Atepa (“o construtor”).

 

Um conselho que não se reúne há trinta anos

Muitos se perguntam de onde vem o dinheiro que permite erguer tantos imóveis. Em seu último relatório, o Grupo Internacional de Ação contra a Lavagem de Dinheiro na África Ocidental (Giaba) lembra que o Senegal não é poupado do tráfico de cocaína entre a América Latina e a Europa. O documento preocupa-se com um “desenvolvimento explosivo do setor imobiliário, especialmente em Dacar e nas zonas turísticas, que não é compatível com as realidades econômicas do país”.2

“Não queremos o dinheiro da droga!”, exclama Goudiaby, conhecido por seus grandes projetos pela África. Ele desenhou o novo Grand Théâtre, erguido perto da estação – uma construção imponente da época colonial – com financiamentos chineses. Também assinou a estátua da Renascença Africana, um monumento – de estilo muito contestado – de 52 metros erguido por uma empresa norte-coreana em troca de vários hectares de terra… “Na época de Senghor”,3 queixa-se ainda o arquiteto, “havia um conselho nacional de urbanismo duas vezes por ano, que reunia todo mundo, do presidente aos bombeiros. As coisas eram claras: Senghor dizia que o ministro do urbanismo era ele. Esse conselho não se reúne há trinta anos. Resultado: cada um faz o que quer!” Mesmo o bairro chique de Almadies, onde moram celebridades como Goudiaby e o cantor Youssou Ndour, não escapa à bagunça. “Nosso amigo Mimran [um bilionário francês que trabalha com açúcar], para não ter de dar seu nome, viu assim um imóvel de oito andares surgir na frente de seu jardim, o que cria um pouco de desordem”, prossegue o arquiteto.

Pontos foram marcados na gestão dos transportes urbanos, com a construção de trevos rodoviários e de vias expressas sob a presidência de Wade, por ocasião da Cúpula da Organização da Conferência Islâmica (OCI) em 2008. Mas nem sempre tudo foi bem pensado: o túnel escavado sob a estrada de Corniche privou os comerciantes do vilarejo artesanal, que se encontra diante do mercado de peixes de Soumbedioune, de uma via de acesso fácil para os turistas…

Se fossem canalizados, a energia e o espírito de iniciativa de seus habitantes poderiam ser um dos pontos fortes da gestão urbana da capital. “Dacar é composta de grandes vilarejos”, salienta o arquiteto Bécaye Blondin Diop. “Podemos ainda vê-los por lugares, em Yoff, Ngor ou Soumbedioune. Os planos de urbanismo devem levar em conta um estado de espírito de morador de vilarejo, mas também as necessidades das pessoas. A valorização de todo o litoral norte resta a ser feita em mais de 100 quilômetros, de Yoff a M’Boro, com projetos que não sejam apenas elitistas.”

BOX

Um continente de moradores urbanos

Até 2040, a maioria dos africanos estará morando em cidades. Segundo as projeções, os citadinos deverão passar de 400 milhões (em 2009) a 1 bilhão até essa data. A proporção dos moradores do campo seria levada na mesma época de 60% a 40%. Em 2025, Lagos (Nigéria) e Kinshasa (República Democrática do Congo) deverão se tornar a 11a e a 12a maior cidade do mundo, com respectivamente 18 milhões e 14 milhões de habitantes, ultrapassando Los Angeles e Pequim.1 Décima quinta cidade do continente em população, Dacar deverá ver a quantidade de seus habitantes crescer em 130 mil pessoas por ano durante a próxima década e pode abrigar 5 milhões de habitantes a partir de 2025.

Em consequência, a capital senegalesa tornou-se uma das dez cidades mais caras do continente. Os aluguéis e o preço do metro quadrado vão às alturas: até 1.500 euros nos imóveis novos. Esse montante equivale ao do bairro central de Deux Plateaux, em Abidjã (Costa do Marfim), e representa mais que os 1.200 euros do metro quadrado na cidade de Nairóbi (Quênia) ou dos 1.300 euros em Lagos (Nigéria). As cidades mais caras são Luanda (Angola), com 1.700 euros o metro quadrado, e Johannesburgo (África do Sul), com 1.850 euros.

1         ONU-Habitat, “L’état des villes africaines 2014. Réinventer la transition urbaine” [A situação das cidades africanas 2014. Reinventar a transição urbana], Nairóbi, 2014.

Sabine Cessou é Jornalista.

 



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