Em quais termos? - Le Monde Diplomatique

A DERROTA DA ESQUERDA

Em quais termos?

por Sidney Jard
17 de fevereiro de 2016
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É preciso retomar posições históricas da esquerda democrática e trazer para a agenda decisória temas que são “tabus” para a direita reacionária: redistribuição de renda e riqueza, reforma agrária, direito à cidade, controle social dos meios de comunicação, auditoria da dívida pública, taxação das grandes fortunasSidney Jard

“Estamos condenados a perder e, portanto, devemos perder segundo nossos próprios termos.”

Ernest Hemingway

 

 

Sob o título “A esquerda latino-americana em pane”, a edição de janeiro de 2016 do Le Monde Diplomatique Brasil reuniu um conjunto de artigos que nos leva a refletir sobre os atuais desafios do sindicalismo, dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda no continente latino-americano. No caso brasileiro, a julgar pelas recentes experiências da Argentina e da Venezuela, e a proximidade das eleições municipais, entre as escolhas mais difíceis está aquela de definir “em quais termos” estaríamos dispostos a reconhecer uma eventual derrota do projeto econômico, político e social colocado em prática no país nas últimas décadas.

Considero-me um homem de esquerda, comprometido com o princípio da igualdade e o método da liberdade, nos termos da célebre e irredutível distinção entre esquerda e direita proposta pelo filósofo italiano Norberto Bobbio. Nestes mesmos termos, também considero um eventual fracasso das forças progressistas que governaram o país nos últimos anos uma derrota da esquerda brasileira, da esquerda latino-americana e da esquerda democrática em todo o mundo ocidental.

Assim sendo, espero que – como na epígrafe de Ernest Hemingway – se a derrota for inevitável, que esta seja em nossos próprios termos, com o nosso próprio projeto e com o nosso próprio programa. As derrotas fazem parte do jogo democrático: “amas a incerteza e serás democrático”; nos ensina o cientista político polonês Adam Przeworski. Como nos tempos de guerra, nos tempos de paz as derrotas só são humilhantes quando definidas pelos termos impostos pelos adversários.

O ano de 2015 foi indigno para a esquerda brasileira. Um ano em que nos colocamos de joelhos diante dos inimigos e aceitamos passivamente a imposição de suas condições de rendição. Já na primeira batalha, voltamos nossas armas para aqueles que nos deram retaguarda e disparamos sem piedade contra acidentados, doentes, desempregados e viúvas do nosso modesto sistema de seguridade social. As primeiras vítimas do “giro político”.

Desorientados sob o fogo amigo dos seus próprios comandantes, o clamor “às armas” do presidente da principal central sindical do país ecoou falso entre aqueles que assistiam, ainda atordoados, o recém-reeleito governo de esquerda colocar em prática políticas econômicas de direita. Mesmo para os militantes mais aguerridos, não fazia muito sentido a lógica pseudo-dialética de defesa de um governo de esquerda que ministrava receituário de direita para evitar que a direita mesmo o fizesse, diga-se de passagem, muito provavelmente, com mais coerência e competência.

Se o projeto político social progressista iniciado em 2003 estava condenado à derrota, não seria melhor deixar que a própria direita reacionária decretasse o seu fim? Não seria mais honrado estarmos novamente nas fileiras da oposição defendendo o legado de um governo de esquerda que não havia se prostrado às condições impostas pela direita? Não seria mais digno quatro anos de resistência entrincheirada na busca de uma nova vitória do que quatro anos de capitulação humilhante à “crônica de uma morte anunciada”?

Nos termos de rendição impostos em 2015 não perderemos apenas o governo, perderemos a convicção em um projeto alternativo de esquerda para o país. Quantas décadas levarão para novamente nos apresentarmos com legitimidade aos trabalhadores, aos jovens, aos negros, às mulheres, a todas as minorias políticas que foram traídas na esperança depositada em um novo projeto econômico, político e social para o Brasil? Com que postura nos colocaremos diante do povo brasileiro, se diante de uma das mais graves crises da história recente do país – econômica, política, social e moral – nos acovardamos e respondemos com desemprego e retração das políticas de proteção social, justamente quando estas últimas são mais urgentes?

Os recentes anúncios de avanço na agenda conservadora das reformas previdenciária e trabalhista, prontamente apoiadas pelos mesmos partidos que articulam o impeachment da presidenta da República, são um equívoco político que distanciará ainda mais o governo dos movimentos sociais organizados, abrindo caminho para a vitória não apenas eleitoral, mas política e ideológica dos conservadores.

É preciso retomar posições históricas da esquerda democrática e trazer para a agenda decisória temas que são “tabus” para a direita reacionária: redistribuição de renda e riqueza, reforma agrária, direito à cidade, controle social dos meios de comunicação, auditoria da dívida pública, taxação das grandes fortunas, imposto sobre a herança.

Apenas com estas bandeiras somos capazes de efetivamente nos diferenciarmos dos governos de centro e de direita. Sem elas somos meros reféns da agenda conservadora de imposição dos custos da crise sobre os trabalhadores, sobre os pobres, sobre aqueles que legitimaram (e ainda legitimam) a nossa permanência no poder e que, consequentemente, devem ter suas demandas contempladas na agenda decisória de um governo democrático-popular.

Enfim, o ano de 2015 nos deixou uma amarga lição: não se pode vencer com um programa de esquerda e ser derrotado com um projeto de direita. Sejamos capazes de assumir o risco da derrota, mas que esta seja em nossos próprios termos, com as nossas próprias bandeiras. Não vale a pena, mais uma vez, sermos derrotados e humilhados com o projeto e com o programa dos adversários nas mãos. Sendo inevitável, que “a derrota dos vencidos seja a vergonha dos vencedores”. Não a sua glória.

Sidney Jard é Cientista político e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), é autor de Companheiros servidores (UFABC/Fino Traço, 2013) e Reforma da Previdência em perspectiva comparada (Fapesp/Humanitas, 2007), entre outros trabalhos.



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