Empreender enquanto se cuida é grande desafio das mães periféricas
Nenhuma mulher deveria precisar transformar a ausência de direitos e de políticas de cuidado em uma demonstração permanente de resiliência
Quando falamos em empreendedorismo, ainda é comum associá-lo à inovação ou ao sonho de abrir o próprio negócio. Mas essa narrativa está longe de representar a realidade de milhares de mães que vivem nas periferias brasileiras. Para muitas delas, empreender é a resposta possível diante da ausência de oportunidades formais de trabalho e da urgência de garantir o sustento da família.
Nas periferias, esse desafio é potencializado pela falta de redes de apoio, pela dificuldade de acesso a creches, pela baixa oferta de empregos compatíveis com a rotina de cuidado e pelas desigualdades sociais que atravessam esses territórios. Não por acaso, muitas mulheres encontram na informalidade uma alternativa para seguir em frente.
É o chamado empreendedorismo por necessidade, que surge para preencher lacunas que deveriam ser supridas por direitos básicos, como emprego, renda e proteção social. Essas mulheres criam alternativas para enfrentar um sistema que, diariamente, inviabiliza suas trajetórias e negligencia suas necessidades.
E fazem isso mobilizando diferentes “Ias”. Não é apenas a Inteligência Artificial, que hoje amplia possibilidades para os pequenos negócios. Há também uma inteligência muito anterior às tecnologias digitais: a Inteligência Ancestral. É ela que reúne criatividade, capacidade de improviso e o famoso “borogodó” de quem aprendeu, historicamente, a transformar escassez em oportunidade.
No entanto, reconhecer essa capacidade não significa romantizar a sobrecarga. Nenhuma mulher deveria precisar transformar a ausência de direitos e de políticas de cuidado em uma demonstração permanente de resiliência.
O estudo Children and Gender Inequality: Evidence from Denmark [Filhos e desigualdade de gênero: evidências da Dinamarca] mostrou que, mesmo em um país com políticas de licença parental, o impacto da chegada dos filhos sobre a trajetória profissional continua recaindo de forma desproporcional sobre as mulheres. A maternidade, portanto, não pode ser tratada como uma questão exclusivamente privada quando seus efeitos alcançam renda, trabalho e autonomia econômica.
Essa discussão se torna ainda mais urgente quando olhamos para as mães que empreendem nas periferias. Oferecer apenas capacitação para gestão, vendas ou organização financeira não é suficiente se essas mulheres continuam precisando escolher entre participar de uma formação e cuidar dos filhos.

Qualquer estratégia que pretenda fortalecer o empreendedorismo feminino precisa incorporar o cuidado como parte da equação. Isso significa pensar em espaços seguros para as crianças durante atividades de formação, redes comunitárias de apoio, acolhimento, acesso à alimentação, saúde e condições para que essas mulheres tenham tempo para desenvolver seus negócios.
O cuidado não pode continuar sendo tratado como uma responsabilidade invisível que cada mulher precisa resolver individualmente antes de acessar uma oportunidade. Ele precisa ser compreendido como parte da infraestrutura necessária para a autonomia econômica.
Ao longo dos anos, a convivência com mulheres empreendedoras das periferias me mostrou que, muitas vezes, não falta disposição, criatividade ou capacidade para construir negócios. Faltam condições para que essas habilidades possam se desenvolver sem que o peso do cuidado recaia exclusivamente sobre elas.
Fortalecer o empreendedorismo periférico, portanto, exige ir além do discurso sobre capacitação. É necessário discutir quem cuida enquanto essas mulheres trabalham, estudam, empreendem e constroem seus próprios caminhos.
Quando o cuidado deixa de ser uma questão individual e passa a ser entendido como responsabilidade coletiva, ampliamos não apenas as possibilidades econômicas das mães, mas também as perspectivas de futuro de suas famílias e comunidades.
Ivan Gomes Barbosa é diretor de Relações Institucionais e Captação de Recursos do Instituto DiverCidades.

