Entre o mal do americanocentrismo-imperialismo e a esperança do povo
O americanocentrismo-imperialismo se apresenta como a única solução, como o único salvador, quando na realidade, está sendo a raiz de todos os males, como é possível que, sendo tão poderoso, não tenha conseguido resolver esses problemas em mais de um século de história por se mesmo?
Golpes americanocentrista-Imperialistas no Haiti
O Haiti sofreu cinco grandes golpes de Estado ao longo de sua história, orquestrados por potências imperialistas na tentativa de minar o processo revolucionário e o povo haitiano. O primeiro golpe ocorreu após a Revolução de 1804, quando o imperialismo francês impôs uma enorme dívida externa à Revolução Haitiana e bloqueou a nação recém-formada e abolicionista, um exemplo para o mundo. O segundo golpe aconteceu com a intervenção do imperialismo norte-americano ou americano-cêntrico em 1915, como parte de seu plano estratégico para o Caribe e em sua trajetória para se tornar a superpotência do mal que se tornaria nas décadas seguintes.
O terceiro grande ataque ao povo haitiano ocorreu com o golpe de Estado e as longas ditaduras dos Duvalier, de 1957 a 1986, com o objetivo de suprimir a revolução de 1946 iniciada por Jacques Roumain, Jean Price-Mars, J. S. Alexis e muitos outros, que construíram o movimento afro-marxista, o movimento indígena e o movimento da Negritude, entre outros. A quarta grande agressão foi a incorporação de mecanismos neoliberais, como o MICIVI, de 1993, até a MINUSTAH, em 2004, que derrubaram Jean-Bertrand Aristide duas vezes. A quinta grande afronta está acontecendo atualmente com a formação do Grupo Core, seguindo a mesma lógica do MICIVI e do MINUSTAH, e a formação de grupos armados pela Embaixada dos EUA e pela CIA – ou seja, imperialismo americanocentrista.
Interferência americanocentrista-imperialista atual no Haiti
Atualmente, movimentos sociais haitianos como Tèk Kole Ti Peyizan Ayisyen, PAPDA, MPP, MPMKP, Brigada Dessalines, UNO, CERCLE JANIL e MODEPA, juntamente com a visita da delegação internacional do Movimento ALBA, denunciam a inação do Conselho Presidencial de Transição (CPT) em relação à profunda crise de segurança. O Movimento Camponês Papay (MPP), representado por Jean Baptiste Chavannes, denuncia o projeto neocolonial-neoliberal do CPT e sua missão antidemocrática e servil de alterar a Constituição de 1987 por meio de um referendo. Argumentam que o governo provisório serve subservientemente apenas aos interesses imperialistas-americanocentrista dos Estados Unidos e à sua perspectiva americana, ambos inteiramente responsáveis pela situação no Haiti.
Por outro lado, a Plataforma

Haitiana de Defesa de Alternativas ao Desenvolvimento (PAPDA) denuncia que o dinheiro, as armas e as munições fornecidas às gangues provêm diretamente do americanismo, ou seja, do imperialismo estadunidense, enquanto o Estado haitiano está legal e cinicamente proibido de adquirir armas. Tudo isso faz parte da mesma estratégia para enfraquecer o povo e subjugar o Estado. Trata-se de uma política global de agressão dos Estados Unidos, que no Haiti se manifesta na ascensão de gangues criminosas armadas, em conluio com a extrema-direita e o fascismo, tanto no Haiti quanto em todo o continente.
Por exemplo, no Haiti, elas ocupam locais estratégicos, como a maior usina hidrelétrica em Péligre, no centro do país, responsável por 30% da eletricidade. Também atacaram o hospital universitário de Mirebalais. Prolongados e devastadores cortes de energia afetam residências e hospitais, interrompendo a vida cotidiana e o tratamento de pacientes. As autoridades não investigam, muito menos punem, os responsáveis. A coalizão criminosa Viv Ansanm (Vamos Viver Juntos), o Talibã haitiano e mais de 400 gangues também incendiaram maquinário pesado pertencente à Polícia Nacional Haitiana (PNH) como parte de uma campanha planejada para desacreditar as principais instituições, que são cúmplices.
Estima-se que mais de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas pela violência e mais de 34 mil foram deportadas da República Dominicana nos últimos meses, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Essas são estratégias criminosas de imperialismo e americanismo-centrismo, que corrompem todas as instituições por dentro, impedindo a participação popular em sua formação e a realização de eleições livres, ao mesmo tempo que bloqueiam a possibilidade de a sociedade haitiana se fortalecer com ajuda externa em saúde, educação, assuntos militares, tecnologia, etc., e, simultaneamente, orquestram forças externas como o Quênia e tantas outras contidas, por exemplo, na MINUSTAH e no Core Group, impedindo qualquer tipo de reparação ou punição por todas as injustiças cometidas.
Nesse contexto, o americanocentrismo-imperialismo se apresenta como a única solução, como o único salvador, quando na realidade, está sendo a raiz de todos os males, como é possível que, sendo tão poderoso, não tenha conseguido resolver esses problemas em mais de um século de história por se mesmo? Quando se realiza uma investigação mínima sobre os fenômenos emergentes, eles aparecem como as principais causas, e a mídia hegemônica, com a lógica da montagem, desinforma (mais um direito humano violado), distorce, oculta, dissuade e faz com que a vítima pareça estar se auto culpando.
Uma solução anapolítica viável para o americanocentrismo-imperialismo
Esta é uma situação de profunda crise, cujos efeitos são múltiplos, mas cuja causa raiz é singular: o imperialismo-americanocentrismo. A solução é complexa, mas sua causa raiz também é singular: o povo haitiano decidindo e resolvendo seus próprios assuntos. De acordo com os movimentos sociais haitianos, enquanto o povo for atacado e intencionalmente excluído da vida política, a crise se aprofundará. A economia destrutiva, americana-cêntrica, de morte e dominação prefere gastar somas exorbitantes destruindo nações (necroeconomia) em vez de estabelecer relações éticas de benefício mútuo em uma economia da vida, uma bioeconomia de viver e deixar viver.
A solução anapolítica (política popular verdadeiramente democrática) significa política com a participação direta das comunidades, grupos étnicos, do povo e da sociedade civil, sem interferência estrangeira, em todos os níveis e abordando todos os problemas sociais. A verdadeira liberdade democrática popular reside nesta possibilidade, que é plenamente viável, cessando-se de atacar e matar o povo (os povos) e cessando-se de inventar macroproblemas sem solução aparente.
Carlos Francisco Bauer é argentino, historiador, antropólogo, filósofo, doutor sob orientação de Enrique Dussel e coorientado por Alberto Parisí. Convidado para a sessão de trabalho presidida por Fidel Castro intitulada “Fidel Castro com os Intelectuais: Pela Paz e pelo Meio Ambiente”, Havana, Cuba. Professor da Universidade Federal de Integração Latino-Americana (UNILA-Brasil).

