Entre o vazio e o espelho: Renato Amado fala sobre ‘Nonada’, romance que mergulha na finitude e nas contradições humanas
Autor carioca e doutor pela Brown University reflete sobre o processo de escrita, a solidão contemporânea e o machismo estrutural em seu novo livro, publicado pela Editora Cajuína
Em Nonada, o escritor Renato Amado constrói uma ficção inquietante sobre o que significa existir – e se relacionar – em um mundo mediado pela distância. O romance acompanha Galeano, motorista de aplicativo e ex-atleta radical que, ao observar uma mulher de outro continente através de um telescópio, inicia uma relação marcada por ausência, desejo e contradição. Ambientado em uma Terra plana e descomunal, o livro combina ficção científica, existencialismo e crítica de gênero para refletir sobre o esgotamento do presente e as formas de afeto possíveis em meio à solidão.
Com prefácio da professora Leila Lehnen, da Brown University, Nonada é também um retrato simbólico do homem contemporâneo – entre a ternura e o machismo, a lucidez e o desamparo. Nesta entrevista, Renato fala sobre as inquietações que deram origem ao livro, seu olhar sobre as relações humanas e a decisão de trocar a estabilidade da carreira jurídica por uma vida inteiramente dedicada à literatura.
Renato Amado é escritor carioca, doutor em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Brown University (EUA) e mestre em Literatura Brasileira pela UERJ. Formado em Direito pela PUC-Rio, deixou uma carreira de dez anos como advogado da Petrobras para se dedicar integralmente à literatura e ao ensino. Lecionou língua, literatura e cultura brasileira em universidades norte-americanas e coordenou o programa de português da University of Arkansas. Fundador da Editora Flâneur e do coletivo multiartístico Caneta, Lente & Pincel, publicou contos em antologias e romances que exploram a solidão, o desejo e as contradições humanas. Nonada é seu segundo romance.
Confira abaixo a entrevista na íntegra com o autor:
O que te levou a escrever Nonada e mergulhar nessa reflexão sobre a finitude?
Lido pessimamente com a nossa finitude. Decidi trabalhar isso em um romance, como forma de me ajudar a sobreviver ao nosso absurdo. Escrever Nonada foi uma maneira de colocar em perspectiva o incômodo que a morte me causa e transformar essa angústia em uma narrativa que, de algum modo, me colocasse em melhores termos com a nossa condição.
A história se passa em uma Terra plana e gigantesca, onde o contato entre continentes é raro. Como surgiu essa ideia de um planeta expandido e isolado?
Eu queria criar um espaço que fosse uma metáfora das nossas distâncias emocionais. Vivemos hiperconectados, mas afetivamente isolados. Essa Terra plana e mil vezes maior que a nossa representa o tamanho do abismo entre as pessoas. Além disso, havia uma questão prática: queria evitar que o protagonista e que a mulher com quem ele se conecta em outro continente por meio de telescópios, tivessem algum meio de comunicação facilitado pela tecnologia. Nesta terra expandida não existem cabos submarinos ou satélites que permitiriam esta comunicação.
Galeano, o protagonista, é um homem comum, frágil, mas que também reproduz comportamentos machistas. Como foi construir um personagem com essas contradições?
Galeano não é um misógino, mas reproduz um machismo estrutural que afeta todos ou quase todos. Ele é, em muitos aspectos, um espelho. Há nele gestos de ternura e fragilidade, mas também marcas profundas da socialização masculina. O livro tenta dar conta desse conflito – e não resolvê-lo.
A relação entre Galeano e Seiryu acontece à distância, através de um telescópio. Que tipo de reflexão você quis provocar sobre o amor e a presença na era digital?
O telescópio é uma metáfora para o desejo frustrado de presença. É uma relação marcada pela mediação, pela impossibilidade do toque, e isso reflete a maneira como nos relacionamos hoje: olhando, projetando, desejando – mas raramente convivendo.

O livro traz uma atmosfera melancólica, mas também momentos de lirismo e humor sutil. Como foi encontrar esse tom na escrita?
Eu queria que Nonada fosse um livro breve e denso, em que o silêncio tivesse tanto peso quanto as palavras. Ele trata, acima de tudo, da condição humana. Diante dela, temos duas opções: nos lamentar ou rir da nossa própria desgraça. A narradora é irônica, dá conta do riso. O protagonista, melancólico, representa o lamento.
Seus diálogos entre Galeano e os passageiros do Uber são retratos precisos do Brasil contemporâneo. Como esses fragmentos se conectam à trama principal?
Eles são o contraponto do olhar telescópico de Galeano. Enquanto ele tenta enxergar o inalcançável, essas conversas o aterrissam no cotidiano, no caos urbano, nas microviolências e banalidades. São espelhos do país e do próprio personagem.
O título Nonada remete a um “quase-nada”, uma presença esquiva. O que essa palavra significa para você dentro da obra?
Nonada é o vazio e o espaço entre as coisas. É o que sobra quando tudo o mais se dissolve. Quis que o livro tivesse esse caráter rarefeito, em que o sentido nunca está dado, mas sugerido.
Você tem formação em Direito e uma carreira consolidada antes de se dedicar integralmente à literatura. Como foi essa transição?
Eu fui advogado concursado da Petrobras por dez anos, até decidir largar tudo e me dedicar à literatura e à vida acadêmica. Foi um salto no escuro, mas também uma libertação. A escrita sempre foi minha forma de estar no mundo.
Que papel a sua experiência acadêmica, especialmente o doutorado na Brown University, desempenhou na sua escrita?
A Brown foi fundamental para ampliar meu olhar sobre a literatura brasileira e as teorias contemporâneas. Estar em outro país me fez repensar o Brasil, nossas contradições e nossa linguagem. Além disso, o volume brutal de leitura a que fui exposto sem dúvida foi fundamental para promover uma consolidação da consciência literária.
O prefácio de Leila Lehnen destaca a metáfora do amor atravessado por mediações. Como foi a troca com ela e o impacto desse olhar sobre o livro?
A Leila foi minha professora durante o doutorado. Uma professora que só se contenta com a excelência. Sabia, portanto, que ela se debruçaria sobre o livro e escreveria um prefácio primoroso. Ela captou as diversas dimensões do livro. O destaque que ela deu aos amores mediados na era dos celulares abriu uma porta que está influenciando muito positivamente a fortuna crítica da obra.
Você mencionou que Nonada é seu mergulho definitivo na escrita criativa. O que muda para você a partir deste livro?
Desde a publicação deste livro sou escritor acima de qualquer outra coisa. Minhas principais ocupações atualmente são a promoção de Nonada e a escrita do meu próximo romance.
A ficção científica aparece aqui de forma simbólica e poética. Quais são suas referências no gênero?
As principais referências para obras de ficção científica vêm da ciência. Tenho fascínio por ciência, sobretudo astrofísica. Já consumi vasto material sobre o tema, de diversos tipos. De livros sobre temas específicos, como buracos negros, a textos mais gerais sobre o universo, passando por séries, cursos para leigos… Cheguei até a participar, como ouvinte, de um curso de astronomia da Brown University.
Com relação à ficção científica propriamente dita, minhas principais referências estão no cinema. 2001: Uma Odisséia no Espaço e Interestelar são as principais, com a companhia de clássicos como Solares e filmes independentes mais recentes, como Oxigênio e Europa Report.
Há uma crítica social sutil no livro, especialmente nas conversas de Uber. Até que ponto o Brasil contemporâneo influenciou a construção dessa distopia?
Apesar de o tema principal do livro ser a condição humana, portanto atemporal, eu escrevo a partir de um tempo e de um lugar específicos. O espírito do tempo se infiltra. As conversas no Uber existem, sobretudo, para revelar facetas do Galeano. Uma forma de retratar alguém é mostrar como ele reage a crenças de sua época. Portanto, se escrevo o livro de países (EUA e Brasil) em que há hipocrisia, machismo, fundamentalismo religioso, esses temas entram no livro porque moldam o ar que respiramos. A reação do protagonista a esses elementos nos conta muito sobre ele. E serve como crítica sutil a algumas manifestações culturais contemporâneas, as quais, sendo um homem do nosso tempo, não teria como me furtar a abordar.
O que o leitor deve esperar – ou não esperar – ao entrar em Nonada?
Deparar-se com sua finitude e com o machismo estrutural que carrega dentro de si.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.

