ENTREVISTA

Escrever para sair do não-lugar: Tieko Irii e a construção da identidade nipo-brasileira em conversa sobre o livro ‘As ruas sem nome’

Na obra, a escritora e artista nipo-brasileira confronta racismo, gênero e diáspora ao resgatar histórias invisibilizadas e sua trajetória em busca de identidade e pertencimento nos anos 80 e 90

Em As ruas sem nome (Editora Patuá, 2025), a autora e artista visual paulistana Tieko Irii mergulha em uma narrativa autobiográfica que atravessa três gerações de imigrantes japoneses, tecendo um painel histórico e emocional sobre deslocamento, silenciamento e a busca por identidade. A obra, que começou com a descoberta da autobiografia secreta de seu pai, Hisashi Irii, expande-se para discutir racismo, estereótipos e as complexidades de ser uma mulher nipo-brasileira em um país marcado por hierarquias raciais e sociais.

Crédito: Divulgação

A autobiografia do pai – um jovem que fugiu de casa no Japão pós-guerra e perambulou pelo país devastado antes de emigrar para o Brasil – tornou-se o ponto de partida para a autora investigar suas próprias raízes, mas o livro não se limita à saga familiar. Tieko cruza sua trajetória com reflexões sobre a herança cultural japonesa e brasileira, o mito “perigo amarelo”, da “minoria modelo” e do soft power japonês contextualizando como esses construtos sociais moldaram sua vivência. A obra, estruturada em quatro partes, alterna trechos da autobiografia do pai com relatos pessoais, desde sua infância em São Paulo até sua temporada no Japão no final dos anos 1980, onde buscou, sem sucesso, um senso de pertencimento.

Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes de se dedicar à As ruas sem nome, sua primeira obra autobiográfica. Abaixo, ela fala sobre o difícil processo de revisitar as histórias de família e construir uma obra que fala tão íntima sobre a sua história e sobre sua ancestralidade.

Crédito: Pedro Ivo

Em As ruas sem nome, você mergulha em uma narrativa autobiográfica que atravessa três gerações de imigrantes japoneses. Como você decidiu escrever esta história?

Um dia minha terapeuta sugeriu que eu fosse pedir para meu pai contar a sua história. Gosto de pensar que o embrião do livro nasceu nesta tarde, na velhice do meu pai. Sua vida era envolta em mistérios e segredos, que ele nunca havia contado a ninguém, nem mesmo para minha mãe. Os japoneses são muito reservados e imaginei que ele não me contaria nada. Para minha surpresa, ele me ofereceu uma cerveja e começou a contar toda a sua saga, desde a infância até o momento que ele decidiu vir ao Brasil. Fiquei estarrecida e compreendi o seu silêncio. Uma história cheia de tragédias familiares, imposições sociais, transgressões e muita coragem.

Após a sua morte, fui ajudar a minha irmã a decidir o que faríamos com os seus pertences e para minha surpresa descobri um calhamaço de papel no fundo de sua gaveta. Fiquei pasma! Depois de nossa conversa, ele decidiu colocar no papel toda a sua história. Acho que foi um acerto de contas com o passado.

No final da pandemia, a Beth sensei, professora de japonês do meu filho, me ligou, perguntando se eu havia publicado a autobiografia do meu pai. Eu respondi da mesma forma quando lhe perguntei por que ele manteve sua história em segredo: “Quem se interessaria por isso? É triste demais”. A Beth insistia que era importante a transmissão das histórias dos imigrantes japoneses para os descendentes e fiquei com essa pulga atrás da orelha. Na época em que eu descobri a biografia, eu pedi para ela fazer a tradução do manuscrito, mas foi a sua mãe, dona Rosa, que conseguiu entender a letra do meu pai e fez a tradução. No entanto, o texto tinha apenas 25 páginas, achava que era muito pouco para se transformar em um livro. Eu precisava de mais material para dar continuidade ao projeto e uma amiga me sugeriu que eu escrevesse sobre a minha história, que tinha muitos pontos em comum com a do meu pai.

As ruas sem nome foi uma mistura de um chamado, mas também fruto de um engano. Quando eu já estava na metade do livro, eu me dei conta que a tradução que a dona Rosa fez era muito menor que a quantidade de páginas do manuscrito e resolvi fazer uma nova tradução, com um tradutor profissional, o Jefferson Teixeira, que fez um trabalho maravilhoso, trouxe a poética da escrita do meu pai. A tradução contava com mais de 80 páginas. Na verdade, eu não precisava ter escrito o livro, só a parte dele bastaria, mas era tarde, eu já estava completamente imersa no livro.

Crédito: Arquivo pessoal

O que te motivou a seguir neste projeto e escrever As ruas sem nome?

Na mesma época que a Beth sensei me ligou, o meu filho mais velho relatou um episódio de xenofobia do tipo “Volta para China”, por conta de certas narrativas de que a Covid era um vírus chines. A minha filha me relatou que sentia um preconceito velado na escola e fiquei impressionada que os meus filhos ainda passassem por situações de racismo até hoje, como eu mesma havia vivido há meio século atrás. De alguma forma eu vivo numa bolha, mas passei a refletir sobre as situações de racismo do tipo recreativo que eu vivia esporadicamente em qualquer círculo que estivesse, mesmo de amigos próximos, que era desagradável como sempre. Percebi que normalizamos esse tipo de atitude para não criar uma situação desconfortável. Por fim, uma paciente jovem asiática da minha terapeuta sentia que havia poucos conteúdos que a representassem. Nesse momento decidi escrever o livro e comecei a resgatar a história da minha família materna no Brasil e a minha própria trajetória como uma asiática nipo-brasileira.

Ao longo da pesquisa, fui convidada para fazer parte de um coletivo de Escritoras Asiáticas Brasileiras e descobri que a maioria das autoras passavam por isso de diversas maneiras, seja porque tinham o fenótipo amarelo ou eram mestiças, estas sofriam preconceito até dentro da comunidade japonesa e fui percebendo o quanto era importante escrever o livro.

Tendo em vista toda essa história familiar e esse mergulho em si mesma, o que este livro representa na sua vida?

Muitas pessoas se referem ao livro como um processo de cura, mas eu não gosto de usar esse termo, parece uma coisa muito pessoal, de autoajuda. A escrita é uma ferramenta terapêutica importante, mas não existe “cura” para nossas angústias, pelo menos foi o que senti quando acabei o livro. O livro me deu muitas respostas, mas também levantou outras perguntas. Acho que aprendi muito, tive de ser muito honesta, mergulhei em lugares muito profundos e dolorosos. As coisas que mais me lembrava eram as que mais queria esquecer: as situações de bullying, racismo, estereótipos, falta de pertencimento, fetichização e abusos. Havia também muitas lacunas, a memória é falha e movediça e essa é a beleza da literatura, a possibilidade de completar a experiência e criar algo novo. Transformar experiências e sentimentos indizíveis em linguagem. Somos palavras em busca de sentido para dar uma aparência de destino ao caos da vida, como diz a Rosa Monteiro.

Sem dúvida, foi um processo de transformação, muitas fichas caíram, tive muitos insights, chorei muito, mas eu acho que o que mudou foi ampliar a minha percepção em relação a mim mesma e a minha relação com o mundo. Durante a pesquisa fui descobrindo o quanto a história, a cultura, a sociedade, a ancestralidade, o saber, o não saber nos amálgama e determinam a pessoa que sou hoje. É bom saber.  Saí do meu exílio, da solidão de achar que a minha história era só minha, que faço parte de uma história coletiva. Me ajudou a sentir que faço parte do mundo. Somos frutos da história, mas também protagonistas da nossa história.

O livro é uma história de desejos, desejados por mim e por todos que vieram antes de mim. A tentativa de descobrir o que nos move.

Como a maternidade te impulsionou na sua trajetória artística e na elaboração de As ruas sem nome?

Em 2012, me sentia esgotada, estava com dois filhos pequenos e priorizei os cuidados da família. Fui me afastando do meu trabalho de diretora de arte de filmes, mas não imaginei como seria difícil manter essa nova posição de sujeito. Abandonar meu ofício e tudo que me definia como pessoa para vestir a capa da invisibilidade materna não foi fácil. Ser dona de casa me dava a impressão de não ser nada. A maternidade em si é destituída de valor mercadológico. Para compensar essa falta de ser, eu comecei o trabalho de ateliê, meu plano B. Eu desenhava nas horas vagas do emprego vitalício de mãe. Aos poucos fui abrindo espaço. Eu precisava sentir que estava produzindo algo. Eu precisava manter minha chama acesa. Perseguir o meu caminho. No final da pandemia, eu atendi o chamado da Beth sensei e eu acabei fazendo uma outra reviravolta na minha vida, comecei a escrever, uma coisa que jamais pensei em fazer na minha vida.

Dizem que quanto mais negamos o nosso destino mais vamos ao encontro dele.  Não tem nada a ver com um destino glorioso, mas o que é determinado pela nossa própria história e pelas nossas escolhas. E por isso temos que atender os chamados. O futuro não está na nossa frente, carregamos ele nas nossas costas. Eu fui uma pessoa que neguei minhas origens por conta do bullying que sofri quando eu era criança. Me afastei de todos os estereótipos da garota japa, boazinha submissa, a gueixa. Queria ser a mais brasileira possível. De alguma forma foi uma violência comigo mesma, fui muito transgressora, uma rebelde sem causa. Me diverti também. Mesmo quando fui para o Japão em busca de minha identidade, não encontrei esse lugar de pertencimento. E agora acabei de publicar um livro sobre ancestralidade. Se não tivesse atendido ao chamado da maternidade, não teria o mesmo olhar para essas questões. Eu acho que o que moveu até hoje foi a falta. Foi a rejeição. O não lugar e a recusa desse não lugar. A negação de minha origem e todas as escolhas que fiz a partir disso. Então, eu acho importante que a gente esteja sempre muito atento para ouvir os chamados.

Como mulher asiática e nipo-brasileira, você acredita que existem estereótipos sobre o que deve ou não escrever?

A nossa experiência, como mulher asiática, é atravessada por um contexto de racialização, idealização e fetichização que faz parte do racismo da sociedade brasileira, do patriarcado e do colonialismo, que dividiu o mundo em raças, cores e territórios.  Além do recorte de gênero, no qual não somos homens, somos mulheres, e pior, não somos brancas, somos amarelas, portanto, fora da universalidade. Todas nós, seja lá a cor, somos tradicionalmente silenciadas pelo patriarcado, no nosso caso muitas vezes respondemos inconscientemente aos estereótipos e as idealizações que são feitas sobre nós e sobre nossos corpos, não só na sociedade brasileira, mas também dentro da colônia japonesa.

O mito da democracia racial brasileiro não existe, composta por brancos, pretos e indígenas, não somos percebidos como totalmente brasileiros, mas temos que ter cuidado com nosso lugar de fala, devido a ascensão social dos japoneses. Nesse caso partimos de outro lugar e somos colocados em lugares que nos embranquecem, que ampliam ainda mais as diferenças que compõem as cores desse cenário. Entramos nesse jogo que procura apagar ou hierarquizar as minorias invisibilizadas, inclusive no espectro amarelo, no qual os japoneses estão no topo da cadeia.

Por outro lado, o racismo nos coloca em caixinhas bem definidas, tira a nossa singularidade. Não podemos reforçar os estereótipos negativos ou positivos, mas desmistificar a ideia que somos dóceis e submissas ou a objetificação e a hipersexualização de nossos corpos ligadas ao mito da gueixa. A outra é sobre o mito da minoria modelo e da meritocracia. No qual somos honestos, trabalhadores, esforçados, inteligentes e roubamos as vagas da USP. Isso causa um enorme sofrimento para os que não se encontram nessas caixinhas. Não necessariamente, somos inteligentes, gostamos de matemática. Ou somos ricos.  Esse tipo de idealização nos tira da humanidade, nos tira o direito de falhar, mudar e de não saber. Não nos dá o direito de sermos o que quisermos ser.

O que é o não-lugar da autora asiática e brasileira? Para você, o que significa a representatividade?

Quando comecei a minha pesquisa sobre o livro eu me surpreendi, com a quantidade de pensadores, intelectuais, artistas e pessoas dentro e fora da academia, nas redes sociais, debatendo questões sobre racismo anti-amarelo, representatividade, feminismo asiático, movimentos asiáticos amarelos lgbtqia+, grupos de homens amarelos, debatendo a experiência de ser asiático no Brasil. Fiquei surpresa com o interesse dos jovens sobre o meu livro. Diferente de mim, que neguei minhas origens, eles partem de um outro lugar, partem da ancestralidade e querem ser aceitos exatamente pelo que são: asiáticos amarelos.

A identidade é muito importante para que grupos se organizem politicamente em busca de seus direitos.  A representatividade, sem dúvida, é importantíssima para as gerações futuras. Eu sou um exemplo disso, eu só me senti autorizada a escrever quando eu li Eu também sou brasileira, da Marilia Kubota, onde ela conta sua história como uma asiática amarela.

Ao mesmo tempo, as pessoas se surpreendem quando dizemos que sofremos racismo, no máximo, acham que são “brincadeirinhas”. O racismo humilha, tira o nosso lugar e a nossa singularidade e não podemos aceitar isso. Acho que o mais importante foi o momento que começamos a nos perceber como asiáticos amarelos nesses últimos anos e todos os atravessamentos que sofremos. Não é uma questão sobre “Olha como sofremos”, mas o que fazemos com isso. Não somos brancos, não somos brasileiros e nem somos o Japão.

Vivemos em uma espécie de limbo, um não lugar, que pode ser um “entre” duas culturas, onde podemos caminhar e ser um lugar de muita potência

O bonito é que os jovens partem da ancestralidade como um lugar de origem e não como um fim, diferente da época em que a colônia era fechada. Somos feitos de múltiplas camadas. A gente sabe o perigo de se fechar em um clã ou uma tribo e excluir o outro. A ideia de pertencimento é a base do conservadorismo e do fascismo. Por isso a arte, o cinema, a literatura é o lugar onde podemos ir pelas frestas, questionar o centro e criar um espaço de escuta.

Como fazer com que as pessoas se interessem por nossas histórias?  Quem pode representar o Brasil em Cannes? O filme Amarela, concorreu ao melhor curta de ficção, é uma história sobre nós. Por que isso é importante? Mais do que representatividade, eu acredito na importância de espalhar as nossas histórias e sermos capazes de ouvir a histórias de um “outro”, seja branco, preto, amarelo, marrom ou cor de rosa. Todos nós sofremos, a vida não é fácil e é muito mais que tudo que discutimos até aqui.  Assim poderemos construir um mundo com mais alteridade, respeitando as diferenças e as singularidades de cada um.

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

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