Espanha, novidade sob o sol - Le Monde Diplomatique

CRISE NA EUROPA

Espanha, novidade sob o sol

por Raúl Guillén
1 de julho de 2011
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“Não é uma crise, é uma farsa!”, gritavam os “indignados” madrilenses. Após o fim do acampamento da Puerta del Sol, o movimento continua. Quaisquer que sejam os resultados, as semanas que acabam de passar são testemunhas de um despertar p/ a política de numerosos participantes: “Nós estávamos dormindo, agora acordamosRaúl Guillén

Domingo, dia 12, desmontamos o acampamento de [Puerta del] Sol e partimos de maneira festiva, deixando um ponto de informação permanente na praça. Damos seguimento aos trabalhos nos bairros, continuamos a nos reunir nos locais públicos e, claro, mantemos as assembleias de Sol. Eis a proposição.” São 21 horas, terça-feira, 7 de junho de 2011, e cerca de 2 mil pessoas ouvem o moderador da assembleia geral de Puerta del Sol – a “Porta do Sol”, uma praça central da capital espanhola. Uma vasta barraca foi montada com lonas para evitar, como ocorreu na véspera e na antevéspera, que a chuva perturbe o desenrolar do evento. No centro está a equipe de moderadores. Como se podia imaginar, a proposta não obtém unanimidade logo de início. Rodadas de falas são iniciadas, no começo limitadas a três para cada posição.

Os primeiros a falar são a princípio contra. Eles destacam a ausência de propostas concretas – “Vamos partir sem que nada tenha sido obtido” – ou o efeito que a partida teria sobre os acampamentos de outras cidades espanholas. Em seguida é a vez dos que são a favor da partida, insistindo sobre o fato de que o movimento atingiu um nível suficiente de organização para não precisar mais do acampamento, que desgasta as forças. As posições parecem irreconciliáveis, e novas rodadas de falas se sucedem. Apesar de o grupo contrário à partida ser uma minoria, aqui as decisões são tomadas por consenso.

Atrás dos moderadores está o grupo chamado facilitador, que tenta sintetizar todas as intervenções em uma nova proposta. Uma pessoa se encarrega de preparar a ata da reunião. A assembleia se prolonga durante quatro horas. É mais de meia-noite e a tensão é palpável. A equipe dos moderadores tenta encorajar todo mundo: “Vamos! Coragem, que já estamos concluindo. Lentamente, é que vamos longe”. Finalmente, uma nova proposta é lançada. “Ao que já foi dito, adicionamos: aqueles que querem continuar a acampar vão se constituir em um grupo itinerante que continuará apoiando o movimento, por exemplo, nas assembleias de bairro.” Silêncio. Levantar o acampamento foi objeto de discussões intermináveis sem que se chegasse a um acordo. Mas dessa vez, quando as mãos se levantam, não há mais nenhuma voz discordante. “Conseguimos enfim chegar a um consenso!”, proclama o moderador, e ouve-se, então, nada mais além de aplausos.

 

“Impossível desligar, eu sonho com isso”

Desde 15 de maio (data que batizou o movimento), assembleias gerais como essa, que reúnem até 6 mil pessoas, aconteceram todos os dias na Puerta del Sol e seus arredores. Vera, de 28 anos, faz parte da comissão de dinamização das assembleias. “Impossível desligar, eu sonho com isso à noite”, conta ela. “Aprender a realizar as assembleias deu um trabalho enorme, sobretudo as grandes. Discutimos muito para saber se deveríamos ou não continuar a tomar decisões por consenso, mas essa é a base de tudo o que ocorre aqui. Aprendemos alguma coisa todos os dias. Uma moça que foi observadora internacional em Chiapas dá ideias muito boas. Amanhã, dois colegas da Minga de Resistência Social e Comunitária da Colômbia vão participar da reunião. É isso que faz que se venha às assembleias de Sol: o fato de ver gente ouvindo uns aos outros e tentando realizar alguma coisa.”

A história dessa explosão de política participativa é singular. Em um contexto marcado por um desemprego em massa (44,2% na faixa dos 16-25 anos em abril de 2011, segundo a Eurostat), pela perda dos direitos sociais, pelos planos de austeridade em matéria de saúde e de educação, pela precariedade crescente do trabalho, pelo confisco das moradias por causa de hipotecas não pagas – comandadas por bancos socorridos paradoxalmente com dinheiro público –, uma plataforma cidadã lança, principalmente via redes sociais, um chamado para manifestação no dia 15 de maio.

Anunciando sua independência em relação a partidos, sindicatos e organizações políticas, o movimento obtém um sucesso inesperado: milhares de pessoas se mobilizam em cerca de cinquenta cidades espanholas. Sua palavra de ordem, “Democracia real ya” (“Democracia real já”), resume bem o sentimento geral em relação à conivência entre poder político e poder econômico, cuja expressão mais gritante é a corrupção.1 “Eles não nos representam” é um dos motes mais ouvidos durante os protestos.

Encorajadas pelo sucesso e, sem dúvida, pelo exemplo da Tunísia e do Egito, duzentas pessoas decidem então, independentemente do chamado originário, acampar na Puerta del Sol até as eleições regionais e municipais do domingo seguinte, dia 22 de maio. A repressão policial (violentos choques ocorrem no final da manifestação) e a condenação política dos que são apresentados como “antissistema” não enfraquecem o movimento. Pelo contrário… Em apenas dois dias lonas azuis cobrem a praça, alto-falantes são instalados sobre a estátua equina de Carlos III, próximo ao gerador de eletricidade. Algumas tábuas e uma “cozinha” aparecem − inicialmente destinada a armazenar algumas doações não monetárias (dinheiro não é aceito), ela se transforma rapidamente em uma cantina popular.

Quanto à água, enchem-se garrafas de 5 litros na caserna dos bombeiros da área. Seja qual for a necessidade – material de escritório, de construção, medicamentos para a enfermaria, refeições ou roupas –, ela é escrita em um painel e publicada na página da internet reservada para isso. Uma empresa cede três banheiros químicos, e vizinhos colocam seus toaletes à disposição dos manifestantes. Uma pequena cidade nasce na praça mais central de Madri.

 

“É a primeira vez que desço na rua”

Em uma das mesas de informação, Borja, desempregado de 31 anos, explica a três jovens que acabam de chegar com suas mochilas o funcionamento do acampamento: “De um lado temos as comissões que se encarregam da organização do acampamento e do movimento do 15M [15 de Maio], da cozinha, da assistência jurídica, da preparação das assembleias, da infraestrutura etc. Temos também os grupos de trabalho que discutem as propostas adotadas por consenso sobre as questões ligadas à política, à economia, ao meio ambiente, à saúde, à educação, à cultura, à imigração e tudo o que pode parecer importante. As comissões e os grupos de trabalho estão abertos a todos, e geralmente se reúnem à tarde, nas praças e ruas do bairro. Além disso, uma assembleia geral é realizada todos os dias no grande espaço vazio que deixamos. É lá que as decisões são tomadas. Talvez seja melhor assistir às assembleias e observá-las nos primeiros dias, para vocês se familiarizarem”.

Na Puerta del Sol e nos arredores, as assembleias coexistiram durante quatro semanas com os turistas, as mesas dos bares e restaurantes, as lojas das grandes cadeias comerciais e os bares de tapas. De fato, basta andar cem metros para sair do que a mídia batizou rapidamente de “Spanish revolution” (“a revolução espanhola”) e entrar de vez na Madri de todos os dias, das pessoas que pegam o metrô para ir trabalhar ou fazer compras.

Carlos, um dos advogados que apoiam os manifestantes no plano jurídico, conta como foi sua participação na vida política até então (interrompido de vez em quando por um chamado telefônico na linha instalada na praça para que as comissões possam comunicar-se entre elas). Com 62 anos, ele é doutor em Direito, advogado e professor universitário. Com exceção de algumas manifestações contra a ditadura de Franco, ele confessa: “É a primeira vez que participo de uma mobilização política e é a primeira vez que desço na rua. Vim porque me identifico com os princípios defendidos aqui: engajamento apartidário, denúncia da corrupção e de nossa absoluta falta de soberania, visto que os governos não passam de agentes comerciais do poder financeiro e econômico”.

Após algumas horas na Puerta del Sol, Carlos, como muitos outros, vai para casa descansar e cumprir com suas obrigações profissionais. Apesar de seu perfil não ser o mais representativo dos participantes no 15M – em geral mais jovens e em situação de precariedade –, ele ilustra bem uma de suas características mais marcantes: sua capacidade de atrair ativa e maciçamente para a ação política setores da sociedade que nunca tinham se mobilizado antes.

Isso não quer dizer que as mobilizações tenham nascido espontaneamente. Ao contrário, elas são continuidades de movimentos preexistentes, como JuventudSINfuturo (“Juventude sem futuro”), que também respondeu ao chamado de 15 de maio. Originário do meio estudantil, suas reivindicações não se limitam ao espaço da universidade, mas tentam atingir setores mais vastos, como comprova um de seus motes: “Sem moradia, sem emprego, sem aposentadoria. Sem medo”. Opositores das leis visando controlar as trocas e o download na internet também se uniram à mobilização. Habituados a ações-relâmpago de hacktivismo, como ataques contra servidores, eles lançaram uma iniciativa chamada “nolesvotes” (“não vote neles”), que entra em sintonia com as palavras de ordem do 15M.

 

Todos esses grupos têm o propósito de desafiar as instituições em vigor e, para isso, encorajam formas de participação descentralizada, horizontais e, no caso do hacktivismo, opostas à legislação vigente. A Puerta del Sol também reuniu militantes apaixonados ou não pela internet, pelas afiliações políticas ou sindicais mais fortes, assim como pessoas que tinham se mobilizado em outras ocasiões: contra a guerra no Iraque ou, mais recentemente, contra o processo de Bolonha (que reformou o ensino superior na Europa). É possível encontrar igualmente indivíduos vindos de movimentos sociais, sejam ecologistas, grupos ligados a centros sociais autogestionados, coletivos culturais e de educação popular, de ajuda aos imigrantes, de feministas, de trabalhadores sociais etc.

No acampamento, o esforço para se dissociar de toda organização preexistente e o grande número de participantes implicam certa mistura de grupos, que tendem a se organizar sobretudo por afinidades profissionais. Por exemplo, os jornalistas profissionais se orientam para a comissão da comunicação e trabalham com aqueles da mídia alternativa ou com pessoas interessadas. Por outro lado, os grupos de trabalho se compõem tanto de especialistas quanto de indivíduos comuns, que se sintam interpelados, a título pessoal, por um tema ou outro.

 

Continuidade das mobilizações

Ao final de quatro semanas de ocupação do espaço público, uma retirada em direção às redes virtuais provoca protestos ou é percebido como uma derrota. Após o desmantelamento do acampamento de 12 de junho, a preocupação é manter um calendário de ações. No programa: manifestações, como as de 19 de junho contra o Pacto pelo Euro, que reuniu mais de 200 mil pessoas na Espanha, ou a “marcha popular dos indignados”, que partiu de Valência para chegar a Madri, em 23 de julho; protestos, como as caçaroladas – concertos de panelas – em frente às prefeituras e atos para impedir o confisco das moradias.

A longo prazo, todas as esperanças estão concentradas nas assembleias populares dos bairros e na continuidade do trabalho iniciado na Puerta del Sol. Trata-se também de poder coordenar as cerca de vinte cidades espanholas em que movimentos similares foram iniciados e continuam (como em Barcelona, onde a sede do governo regional foi bloqueada, para protestar contra as medidas de austeridade).

Numerosos obstáculos já aparecem no horizonte, seja o endurecimento da repressão policial ou as dificuldades de mobilização por longos períodos, para objetivos que podem parecer distantes. Mas quaisquer que sejam os resultados, as semanas que acabam de passar são testemunhas de um despertar para a política de numerosos participantes, sob um modo de funcionamento pouco convencional. “Nós estávamos dormindo, mas agora acordamos. Praça ocupada”, indica a placa comemorativa que o movimento decidiu adicionar à estátua equina do rei Carlos III, sem pedir autorização a ninguém, a exemplo de tudo o que foi feito na Puerta del Sol.

Raúl Guillén é jornalista em Madri.



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