De volta ao bem comum
A reflexão realizada neste texto indica alguns caminhos essenciais na perspectiva de se construir a verdadeira socialização da vida e da felicidade humana em comunhão com a natureza, o que seria a essência da Casa Comum do Papa Francisco
A maior tragédia do atual modelo social humano se deu com o aparecimento do princípio da verticalização nas relações humanas, estabelecendo-se diferenciações entre considerados superiores e inferiores, isto pela cor da pele, condições sociais, locais de residência ou história do grupo social – trata-se de um agir social que constrói fronteiras na socialização da vida e do viver em comum.
Esta realidade se constitui de uma construção histórica da sociedade humana, desde os primórdios, porém, o advento da modernidade, a qual chega com a retórica da redenção humana, agravou ainda mais esta realidade. Isto é, com a consolidação das relações capitalistas e da sociedade burguesa na modernidade, ganha ênfase a expressão da individualidade, ou seja, ao distanciamento da coletividade, o pensar apenas em si. A partir deste entendimento, o “se dar bem na vida” está condicionado ao sucesso pessoal e ao insucesso da outra pessoa.
Com este proceder, constrói-se um entendimento peculiar de liberdade. Isto é, tem origem algo muito sério em prática atualmente: o entendimento de que liberdade está condicionada à ação das individualidades e não às relações sociais. E algo ainda pior: a minha liberdade está condicionada ao meu sucesso pessoal e ao insucesso da outra pessoa. A vida se constitui de uma permanente disputa, quer ser no trabalho, no trânsito, na escola…
Mas algo também muito sério constituindo-se fronteiras da socialização humana diz respeito à relação deste com a natureza. Com o advento das relações capitalistas e da tecnologia, o mundo natural passa a ser considerado inferior e simplesmente objeto de exploração do ser humano. Em nome do ser racional, a beleza da natureza e a sua linguagem passaram a ser desconhecidas e desconsideradas.
Então, como se construir o entendimento de que o bem-estar humano não acontece no contexto da individualidade, mas do viver em comum? Quais caminhos se apresentam para a construção de laços de socialização da vida e da felicidade humana em comunhão com a natureza?
Caminhos da socialização da vida e da verdadeira felicidade humana em comunhão com a natureza

Sim, é possível se construir um novo modelo social com foco na socialização da vida e da verdadeira felicidade humana em comunhão com a natureza. A ideia da Casa Comum do Papa Francisco, inspirado em São Francisco de Assis e Clara, constitui-se de um lindo trilhar rumo a este novo modelo social na perspectiva da construção de uma verdadeira felicidade humana.
A felicidade humana não se constrói na ação da individualidade, mas sim no viver em comum. Neste sentido, Papa Francisco propõe algo significativo como trilha da busca da verdadeira felicidade humana: a comunhão do meu eu com a outra pessoa e com a natureza, o que ele designou como Casa Comum. Ao pensar a Casa Comum, o Pontífice não se dirigiu simplesmente ao grupo social que pratica o seu credo, ele se dirigiu a todas as pessoas do mundo, independentemente do credo ou até independentemente se tem credo ou não – a Casa Comum do Papa Francisco abriga o humano sem qualquer distinção.
O habitar na mesma Casa Comum, para Francisco significa, antes de tudo, romper com o preceito burguês da acumulação de capital sem se pensar no bem comum. Segundo o Papa, o desinteresse pelo bem comum é instrumentalizado pela economia global para impor um modelo cultural único. Essa cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos.
Assim, a proposta da Casa Comum do Papa Francisco, conforme Leonardo Boff no seu livro intitulado Habitar a Terra Qual Caminho para a Fraternidade Universal?, desloca o centro: de uma civilização técnico-industrialista, dominadora, consumista e individualista, para uma civilização fraterna, solidária, da preservação e do cuidado de toda a vida.
É bom lembrar que a perspectiva do iniciar a construção dos caminhos da nova Casa Comum o Papa Francisco, em maio de 2019, promoveu um grande movimento intitulado “Economia de Francisco”, envolvendo jovens economistas, ativistas, movimentos populares e toda a sociedade na perspectiva de se firmar um pacto de transformação da sociedade inspirado na Economia de Francisco e Clara. Reconstruir a Casa Comum seria reconstruir a Casa que é a Igreja, a sociedade, as instituições, mas principalmente o meio ambiente.
Também a publicação do Serviço Franciscano de Ação Social (SEFRAS) intitulada Economia de Francisco e Clara, contribui com muita clareza o entendimento do que se constitui Casa Comum proposta pelo Papa Francisco. Algumas ideias fundamentais contidas na publicação: a construção de uma ecologia integral que reconheça as relações humanas, sociais, ambientais, políticas e econômicas; o desenvolvimento integral aliado ao cuidado da criação, com participação da população pobre nos processos de construção das políticas sociais e econômicas; a promoção de alternativas anticapitalistas, isto porque o capitalismo se constitui de um sistema econômico cujas leis geram exclusão e desigualdades; a negação do modelo neoliberal, a versão atual do capitalismo, o modelo econômico que mata e desmata; considerar-se que tudo está interligado, inclusive as soluções para a crise socioambiental, social, econômica, distributiva e política; valorizar as potencialidades das periferias – nas periferias germinam experiências revolucionárias que brotam das lutas emancipatórias, dos movimentos sociais, das comunidades de base, dos povos originários, das articulações populares; inserir no centro das relações sociais a vida em sua diversidade e dignidade, na construção de uma sociedade mais igualitária onde negras e negros, povos originários e demais grupos sociais oprimidos tenham seus corpos respeitados e direitos garantidos; a garantia da territorialidade; por uma economia solidária que proporcione a emancipação humana, o direito à terra, ao teto, ao trabalho.
Os caminhos indicados por Francisco e Clara implicam em rever o próprio preceito de verdade e de cientificidade originada com a racionalidade moderna associada ao preceito da objetividade. Necessário se faz atribuir-se racionalidade à própria subjetividade humana na perspectiva de se visualizar um caminho de construção de um novo modelo social com assento nas relações afetivas entre os seres humanos e destes com o mundo natural. Assim, é possível e necessário se construir um novo conceito de verdade com assento na subjetividade, atribuindo-se racionalidade ao afeto, ao amor, à socialização entre o ser humano e deste com a natureza.
A linguagem da natureza e o viver na Casa Comum
Entende-se que a natureza não se distingue simplesmente no exercício da produção econômica, mas na interação com o ser humano por via da expressão da sua própria linguagem. Portanto, o mundo natural não se distingue do ser humano, mas com ele se alia e se conjuga. Não cabe então ao ser humano explorar de forma destrutiva a natureza. Portanto, se existe uma nova verdade, esta deve ser associada intrinsecamente entre o ser humano e a natureza. Conforme Ailton Krenak, no seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, não tem significado habitar a terra sem a comunhão entre os seus seres. Não se percebe onde tem alguma coisa que não seja natureza.
Humberto Maturana e Francisco Varela, no livro A Árvore do Conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano, comungam explicitamente esta ideia da necessária da junção da ação amável entre o ser humano e a natureza por uma simples razão: o poder da linguagem e da socialização que esta dispõe. Explicitam ainda estes autores que não é possível explicar a grande dificuldade de poder atingir um desenvolvimento social harmônico e estável, em qualquer parte do mundo, através do vazio de conhecimentos do ser humano sobre a sua própria natureza
Portanto, a reflexão realizada neste texto indica alguns caminhos essenciais na perspectiva de se construir a verdadeira socialização da vida e da felicidade humana em comunhão com a natureza, o que seria a essência da Casa Comum do Papa Francisco, como: a superação da relação vertical na sociedade humana e desta com a natureza; a construção da relação de igualdade entre o ser humano e o meio natural; o rompimento do preceito burguês da individualidade como raiz da felicidade e bem-estar humano; o rompimento do preceito capitalista da acumulação individual de riquezas e do ser associado ao ter.
Para uma nova razão do mundo na perspectiva da busca da socialização da vida e da felicidade humana em comunhão com a natureza, muito propícia se faz a lição histórica de São Francisco de Assis, com a irmandade do ser humano com o meio natural, na busca de se compreender e identificar a linguagem da natureza, dos animais – o que os pássaros têm a dizer com o seu lindo cantar? O que nos revela a profunda expressão de beleza manifestada pelas plantas e flores?
Lindomar Wessler Boneti é mestre em Sociologia, doutor em Sociologia pela Université Laval – Québec (Canadá), pós-doutor em Ciências da Educação pela Université de Fribourg – Suíça, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Autor de diversos livros, dentre eles, “Uma pedagogia para o viver em comum – Direitos e deveres dos seres humanos e das comunidades” (PUCPRESS).

