Um papa chamado Francisco
Francisco procurou ser o menos formal possível, começando por sua residência após a eleição: escolheu residir na casa de hóspedes Santa Marta, em vez de morar no Palácio Apostólico, tradicionalmente a residência dos papas. O que estava nas entrelinhas da decisão? Desconfiança de quem o rodearia?!
No mês passado publiquei no Le Monde Diplomatique Brasil um opúsculo sob o título: Nasce um clima de conclave. Muitos pensaram que havia uma ‘torcida’ pela morte do Sumo Pontífice, em especial vinda de minha parte, pensamento totalmente equivocado, mas na verdade existia uma forte e evidente possibilidade que os dias do papado de Francisco estavam findando. Dessa maneira, faz necessário recordar que nesses doze anos aconteceram mudanças significativas e importantes na Igreja, que só foram possíveis pela coragem e comprometimento do primeiro papa jesuíta e argentino da história.
Desde sua primeira aparição pública, quebrando protocolos internos da liturgia do momento, já mostrava uma ruptura ou nova postura diante do que era considerado “normal”. Jorge Mario Bergoglio, nem apontado pelas mídias em 2013 como “papabile”, esquecido e preterido pelo seu conterrâneo, o Cardeal Leonardo Sandri, nos veículos de comunicação na época, surpreendeu antes mesmo de aparecer na sacada: o nome Francisco, até então nunca utilizado por um Pontífice. Desde o início enfatizou que o nome se dava por conta do santo de Assis, para evitar outras interpretações com outros “Franciscos” (como de Sales, ou Xavier, ou outros inúmeros canonizados pela Igreja) que afastassem o compromisso ali firmado – a opção pelos pobres, um desejo de reforma interna e novos caminhos a se seguir. E realmente: alguns prelados logo de cara tentaram correlacionar a “Franciscos” que não fossem o de Assis, certamente com medo do que poderia acontecer. Todavia, o próprio Pontífice confirmou o motivo e a inspiração na escolha de seu nome.
Assim como o santo de Assis, Francisco se preocupou com a natureza: em 2015 escreveu sua encíclica Laudato Si, na qual critica o desenvolvimento irresponsável e o consumismo da sociedade contemporânea, fazendo um apelo pela unificação global para preservar o meio ambiente e se atentar nas mudanças e alterações climáticas. Durante a encíclica faz um apelo, um convite urgente a renovar o diálogo sobre a modo de como está sendo construído o futuro de nosso planeta, tomando dolorosa consciência das conseqüências causadas pelo descaso com a natureza. Foi o primeiro papa a falar diretamente sobre a ecologia e os impactos do consumismo desenfreado nos dias atuais.
Francisco procurou ser o menos formal possível, começando por sua residência após a eleição: escolheu residir na casa de hóspedes Santa Marta, em vez de morar no Palácio Apostólico, tradicionalmente a residência dos papas. O que estava nas entrelinhas da decisão? Desconfiança de quem o rodearia?! Poderia até ser, mas o que se tornou evidente foi seu desejo de proximidade com o povo, com o “baixo clero” (padres, em especial) e também um movimento de desmistificação da pessoa do Papa. Lembro que em 2016, visitando a paróquia São Lourenço fora dos muros, o pároco me disse que: “todas as paróquias de Roma poderiam levar seus fiéis para participar de uma missa semanal com o Papa em Santa Marta”. Fiquei assustado e perguntei como se dava o processo. “Temos uma espécie de escala. Nela agendamos uma visita. Selecionamos uma lista com um número de paroquianos e levamos”, afirmou o padre. Esse movimento prova que Francisco, no fundo, gostaria que o vissem como um “pároco”, ou um “bispo com odor de suas ovelhas”, se afastando gradativamente do clericalismo e carreirismo que gira ao redor do papado. Inclusive, seu papado foi marcado por duras críticas internas com relação ao assunto.
Sua coragem reformadora se embasou na proposta do próprio santo de Assis: “Vá e restaura minha Igreja.” Começou pelo tema da ecologia, passou pela discussão da acolhida aos “demonizados” casais de segunda união, e surpreendeu ao tocar, sem o julgamento costumeiro, sobre a comunidade LGBTQIA+. “Quem sou eu pra julgar?!”, disse aos jornalistas no vôo de volta da Jornada Mundial da Juventude no Brasil, em 2013, ao ser indagado sobre sua postura na questão. “O catecismo diz que não se deve marginalizar essas pessoas, elas devem ser integradas à sociedade. Devemos ser irmãos”, continuou. Essa afirmação repercutiu imediatamente, consolidando sua imagem de tolerante e conciliador, mas não caiu tão bem no alto clero. Conservadores e tradicionalistas questionaram a postura do papa, sugerindo que este se tornava “conivente com o pecado e contra os mandamentos da Igreja”. Francisco nem ligou.
Outra ação concreta foi o documentário Francesco, lançado em outubro de 2020 pelo cineasta americano Evgeny Afineevsky, onde afirma que os gays têm direito a uma família e que isso deve ser protegido por lei. Em entrevista a uma revista espanhola, o pontífice respondeu a críticas por ter recebido, em audiência semanal no Vaticano, transexuais. “Não me preocupo que me critiquem por eu receber transexuais na audiência geral (…). Mas elas são filhas de Deus! Ele ainda te ama do jeito que você é. Jesus nos ensina a não estabelecer limites”, afirmou o Pontífice.

O longa Amén. Fracis responde, dirigido por Jordi Évole e Màrius Sanchez, lançado em 5 de abril de 2023, apresentou uma conversa de mais de uma hora entre o Papa e dez jovens, quase todos afastados da Igreja, que o questionaram sobre as principais preocupações da geração atual em relação às posições sobre identidade sexual, feminismo, migração, abusos sexuais e outros temas polêmicos para a Igreja. A única exigência de Francisco: ser em espanhol. Destaco dois momentos: o primeiro de uma menina chamada Celia, que se apresenta como pessoa não-binária, e indaga-o se há espaço para a diversidade sexual e de gênero na Igreja. “Deus não rejeita ninguém, Deus é Pai. E eu não tenho o direito de expulsar ninguém da Igreja. Meu dever é sempre o de acolher. A Igreja não pode fechar a porta a ninguém”, afirmou categoricamente. Em outro momento, Juan, um rapaz, incomodado pela angústia, diz a Francisco que foi abusado repetidas vezes por uma pessoa do Opus Dei. O papa ficou visivelmente entristecido. Francisco se comprometeu a rever o caso e expressou seu pesar por todos os atos cometidos contra crianças e jovens, e afirma que tem lutado para que os abusos não caiam em prescrição. Seriamente, afirma: “Não quero que isto caia em prescrição”.
O tema dos abusos foi bastante combatido por Francisco. Em sua Carta Apostólica Como uma Mãe Amorosa, reafirmou a missão em proteger e cuidar. Tornou, assim, mais explícitos os cânones do Direito Canônico que regulam os “motivos graves” que podem levar à remoção dos bispos que negligenciam os casos de abusos sexuais cometidos por padres contra crianças e adolescentes. Isso surtiu um bom efeito. Inúmeros bispos e padres foram obrigados a renunciarem de seus ofícios ou expulsos por conta da conivência com os abusos. Em 2018, por exemplo, no Chile, 34 sacerdotes e dois bispos foram expulsos por conta de escândalos relacionados ao tema. A “tolerância zero” com o tema reforçou o compromisso tomado por Francisco, ascendendo um alerta máximo também nas casas de formação – os seminários, no cuidado formativo dos jovens e na admissão destes no seminário. Porém, há muito ainda a se fazer.
Sobre o clero, nos deparamos internamente com uma polarização evidente. De um lado os apoiadores das reformas de Francisco; do outro, setores conservadores e tradicionalistas que, reportando ao papado anterior de Bento XVI, advogam em favor da missa em latim, no rito antigo, num retorno às tradições estéticas e no fortalecimento da Igreja como poder monárquico e civil. Para estes, o papa, dessa forma, deve ser visto como um príncipe, um rei, com a delegação máxima de decisões internas e externas ao mundo, como foi feito durante muitos séculos. O sonho dessa ala em rever um Pontífice vestindo “Tiara Papal” ou outros sinais externos de poder e grandeza supera qualquer demanda ou problemática do mundo contemporâneo. A crise, para tradicionalistas e conservadores, está no abandono e esquecimento dessa postura tradicional. Realmente, Francisco optou e foi até o fim pelo oposto à essa postura, todavia isso não saiu barato: foi acusado de heresia, desleixo, e até mesmo de marxista. O mais curioso: na imensa maioria dos casos, pelos próprios católicos tradicionalistas e conservadores, que sempre pregaram aos ventos um amor incondicional ao papa (menos a Francisco, pelo jeito).
Em doze anos de papado vimos muitos acontecimentos. Restituir a moral e confiança no Banco do Vaticano, até então atitude impensável, foi também prioridade. Debates sobre a Amazônia e sobre a preservação do meio ambiente foram feitos; discussões sobre uma maior participação de leigos e leigas, nos âmbitos decisivos da instituição, foram levantadas; pensar diretrizes na atuação dos padres e bispos no atendimento pastoral, nos dias atuais, foram feitas, às vezes à exaustão. Francisco denunciou poderes ditatoriais e genocidas. Participou e foi decisivo em diversos tratados que pediam a tolerância religiosa e a paz entre os povos. Despertou a admiração dos que não são religiosos ou crentes. Por isso tantas homenagens e lamentos por sua passagem, em sua maioria das pessoas que não são católicas. Curiosamente.
Jorge Mario Bergoglio veio da periferia do mundo, como ele mesmo disse. Combateu o eurocentrismo clerical tornando-se o primeiro papa não-europeu em séculos, mostrando, por conta disso, uma visão anticapitalista tão aguçada. Em anos de ascensão de governos autoritários, neoliberais, negacionistas e imperialistas, foi voz progressista no mundo. Quem diria que um Papa se tornasse a maior referência progressista nesses tempos…
Agora, a Igreja se incumbe de escolher seu sucessor. A Igreja não, os cardeais. Provavelmente será um papa moderado, que tende a acalmar as polarizações internas do clero. Um conciliador. Um novo “Francisco” dificilmente terá vez neste conclave. Isso reforça a importância desse papa não só para a instituição, mas para o mundo inteiro.
Um papa que amou a ecologia, que preferiu os marginalizados e as periferias, que promoveu a paz, que não se esqueceu do poder de um bom humor, que foi humano e próximo de todos, não poderia assumir outro nome a não ser esse: Francisco.
Railson Barboza é bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Doutorando e Mestre em Política Social (UFF). Imortal da Academia Fluminense de Letras.

