ENTREVISTA

Vivência imigrante em Londres inspira crônicas por Sandra Acosta em novo livro lançado pela editora Patuá

Estações – Crônicas de uma vida em Londres é novo lançamento da editora Patuá fala sobre observações do cotidiano, pertencimento e cultura

Sandra Acosta, escritora e mestra em Escrita Criativa, lança Estações – Crônicas de uma vida em Londres, obra que capta a essência da capital britânica por meio de um olhar estrangeiro. Publicado pela Editora Patuá, o livro é dividido em quatro partes – verão, outono, inverno e primavera –, seguindo o ritmo das estações do ano e das estações de metrô que marcaram a trajetória da autora na cidade. O resultado é um mosaico literário que vai desde reflexões sobre grandes eventos históricos, como a morte da Rainha Elizabeth II e a coroação do Rei Charles III, até delicadas percepções sobre hábitos locais, diferenças culturais e a solidão peculiar do estrangeiro. 

A autora, que viveu na capital britânica entre 2022 e 2024, transformou seu processo de adaptação e posterior despedida da cidade em matéria literária. Na obra, Sandra constrói pontes entre o pessoal e o universal, mostrando como a experiência do deslocamento pode ressignificar nossa relação com o conceito de lar. A autora traz influências que vão de Jane Austen a Virginia Woolf, passando por autoras contemporâneas como Martha Medeiros, Elena Ferrante e Claire Keegan. A estrutura do texto reflete a própria experiência da autora como imigrante e viajante: herança de uma família marcada por deslocamentos.  

Estações - Crônicas de uma vida em Londres
Crédito: Divulgação

O que te motivou a transformar sua vivência enquanto imigrante em Londres em um livro de crônicas? Por que optar por esses temas na escrita de um livro? 

Vivi quase três anos em Londres, uma cidade ímpar pela multiplicidade de culturas, possibilidades, origens, facetas. Colocar no papel as histórias que experienciei foi uma forma de lidar com o “luto” e a mudança de volta ao Brasil. Temas como viagens, imigração, mudança e adaptação cultural perpassam tudo o que sou e tudo o que escrevi até hoje. Sou bisneta de italianos e portugueses imigrantes que vieram tentar a vida no Brasil, neta de um caminhoneiro que percorria o país de norte a sul, filha da união de uma brasileira com um colombiano que moram hoje em um motorhome na Europa. O conceito de casa, portanto, adquire uma outra dimensão, amplia-se para aquele lugar em que me sinto bem, perto de alguns livros e das pessoas que amo. Estações fala sobre a ampliação do olhar e da compreensão, a importância de se adaptar a uma nova cultura, a alegria de viver nossas fases em sua plenitude, a mudança/ finitude como inerentes à vida. 

Estações passa por grandes acontecimentos políticos e sociais de Londres. Como você decidiu recortar esses temas e acontecimentos? E por que optar por mesclá-los à vida cotidiana? 

Eu morei em Londres entre 2022 e 2024. Foram anos efervescentes do ponto de vista histórico, sobretudo no Reino Unido: além da euforia do fim da pandemia, houve a comemoração do Jubileu de Platina da Rainha Elizabeth, a morte dela alguns meses depois e a coroação do Rei Charles III. Registrar minhas impressões a respeito desses momentos únicos e a banalidade de outras vivências me pareceu uma forma de não esquecer o que vivi, além de apresentar aos leitores uma versão alternativa da Londres do Big Ben e do Palácio de Buckingham. Fui registrando cada uma das situações que poderiam render uma crônica e, com isso, criei um cronograma de escrita. Comecei a escrever ainda em Londres, mas já sabendo que deixaria a cidade logo em seguida. Terminei o manuscrito em São Paulo. Levei de seis a sete meses para terminar a primeira versão. 

Por outro lado, o que Estações significa para você pessoalmente? 

Estações marca um período bastante único da minha vida enquanto imigrante em Londres. Ele representa a concretização de um sonho, o meu amadurecimento como escritora, uma reconciliação entre as minhas diversas versões, inclusive a da economista-bancária com a artista. Por meio dele, encerro a experiência londrina com um livro, um viva à literatura. Escrever um livro, para mim, é um feito grandioso, uma pequena transgressão à lógica capitalista de que tempo é dinheiro, uma interrupção na mesmice dos dias para contar uma história, uma forma de me conectar ao outro por meio da minha voz. Estações confirma o meu ofício de escrever e o meu desejo de disseminar a leitura a novos públicos. 

Você percebe a evolução da sua voz literária ao longo das obras que já publicou? Como? 

Antes deste livro, escrevi duas obras: Pra que varanda se a vista é feia? (Editora Letramento, 2021) e Poemagem: poesia e colagem pra viagem (Editora Arpillera, 2023). O primeiro é um livro mais cru, onde misturo gêneros e mostro o entusiasmo/ingenuidade de quem começa a escrever. Mas ali já existem os primeiros textos de viagem, um embrião de tudo o que escreveria posteriormente. Já Poemagem é resultado do período que estudei na Universidade de Coimbra, quando fui mais a fundo na poesia, tanto na análise quanto na experimentação criativa. A busca por uma linguagem alternativa para meus textos me levou a complementá-los com as colagens, encontrando um caminho interartístico de expressão sobre meus destinos de viagem que, de certa forma, coincidem com quem sou. Acredito que Estações revela uma maturidade artística mais consolidada e consciente de suas escolhas estilísticas e temáticas, uma evolução natural (e esperada) dentro da minha carreira como escritora. 

O que você gostaria que o leitor sentisse ou descobrisse ao ler Estações? 

Minha escrita é simples, sem ser banal. Ela é fruto da minha bagagem cultural e acadêmica, seja por meio dos estudos, das viagens, dos trabalhos, das pessoas que conheci. Desejo que, por meio do meu livro, as pessoas tenham um momento de leveza, encantamento e descontração dentro de suas rotinas e, quem sabe, passem a se interessar pela leitura de outros livros. Como fio condutor do livro, escolhi a imagem transitória das estações, tanto em relação ao tempo, já que as estações do ano são tão marcadas e vividas em sua plenitude na cidade, quanto ao espaço das linhas de metrô e de trem, usufruídas ao máximo pela população local. O livro então é dividido em quatro seções – verão, outono, inverno e primavera – e cada crônica apresenta a estação de metrô ou trem onde se passa a ação. 

O que te atrai no gênero da crônica e por que decidiu que ele seria central na escrita de Estações? 

A crônica é um gênero literário que me acompanha há um tempo, desde 2018, quando fazia as oficinas de crônicas da escritora Ivana Arruda Leite. Por meio dos textos curtos, tento captar algumas sutilezas do cotidiano e colocá-las em destaque. Sendo uma imigrante em Londres, era mais fácil notar o que era diferente à cultura brasileira, sem deixar de lado aquilo que nos aproximava também. A ideia em Estações é mostrar, por meio do meu olhar naquele momento, naqueles lugares, que Londres pode ser extraordinária e banal, intensa e pacata, esfuziante e serena.  

Quais autoras e autores marcaram mais fortemente sua trajetória criativa? 

Sou influenciada pela escrita de inúmeras escritoras contemporâneas brasileiras, como Giovana Madalosso, Nara Vidal, Lorena Portela, Natalia Timerman. Além disso, internacionalmente, sou fã da escrita de Elena Ferrante, Rosa Montero e Claire Keegan. Com relação aos clássicos, Jane Austen, as irmãs Bronte e Virginia Woolf sempre me acompanharão em tudo o que escrever. Com relação às crônicas, considero que meu estilo se aproxima ao da Martha Medeiros, pelo seu tom leve, simples e delicado. Ela também escreve sobre viagens em sua série de livros “Um lugar na janela”. 

Quando olha para a sua trajetória, qual é a lembrança mais antiga que reconhece como um início da sua vocação literária? 

Antes, considerava que meu início na escrita foi em 2017, ao me inscrever em uma oficina de crônicas em São Paulo. No entanto, após alguns anos como escritora, reconheço que escrevo há muito mais tempo. Eu era uma criança que escrevia cartas e tinha amigas espalhadas pelo mundo: Grécia, Japão, Estônia, Portugal. Fui instigada pela minha própria história familiar, uma vez que meus pais se conheceram por meio de cartas, ela em São Vicente (litoral paulista) e ele em Bogotá (Colômbia). Por muitos anos, escrevi sobre meu dia a dia na escola e no meu tempo livre para crianças que não conhecia, recebendo em resposta descrições sobre a vida em outras partes do mundo. Eu amava.  

Quanto a projetos futuros: o que podemos esperar? 

Por agora, estou escrevendo o meu primeiro romance. Além disso, em breve teremos a publicação do meu 1º livro infantil, Ana e os nomes grávidos (Editora Orlando). Pretendo lançar, também, um livro experimental de poesia e memórias sobre o Caminho de Santiago, entre outros projetos artísticos e literários. 

  

Amanda Magalhães é jornalista, pesquisadora, escritora, Mestre em Comunicação e Temporalidades pela Universidade Federal de Ouro Preto. Transita, pesquisa e atua no jornalismo cultural e nas produções audiovisuais. É autora de 5 obras literárias, com destaque para o romance “Do verbo corresponder e o que vem antes”, lançado pela Editora Urutau em 2020.  

Leia mais sobre o tema: