‘Eterna fantasia’, de Danichi Hausen Mizoguchi: a coragem diante do colapso
Romance ‘Eterna Fantasia’ recém-publicado pela editora Dublinense aborda acontecimentos políticos no Brasil a partir de 2013
Com o início do julgamento de Bolsonaro e outros réus por tentativa de golpe de Estado, revisitar os acontecimentos políticos ocorridos no Brasil nos últimos anos torna-se um exercício bastante importante, ainda que um tanto desafiador.
E é exatamente em 2013, um ano crucial para tudo que viria a acontecer no país, que se inicia a história de Eterna fantasia, romance de Danichi Hausen Mizoguchi, recém-publicado pela Dublinense.
A obra acompanha Maria, uma psicóloga que trabalha em uma ONG de direitos humanos no Rio de Janeiro. Entre idas a bares, debates acadêmicos e a atuação profissional, ela percebe que tem algo diferente acontecendo em cada canto.

Os protestos de 2013, antes vistos como uma esperança para mudanças reais no país, agora reúnem inúmeras pautas contraditórias entre si e possibilitam o surgimento de aberrações como o MBL.
Nas eleições de 2014, uma vitória apertada de Dilma Rousseff em cima de Aécio Neves acende um alerta que alguns insistem em ignorar. Mas o pior viria nos anos seguintes: uma birra do PMDB, um grande acordo nacional e o afastamento da presidenta sob acusação de pedaladas fiscais. Não é sobre isso, Maria sabe.
Também percebe que sair de casa agora é mais perigoso. Os homens se exaltam quando falam sobre o “mito”. Fazem, em alto e bom som, comentários que antes eram restritos a ambientes privados. Já não temem qualquer tipo de represália.
Cercada pelo avanço da extrema-direita, Maria alterna momentos de esperança e de decepção. Luta da forma que pode, mas a sensação de impotência passa a acompanhá-la com cada vez mais frequência – especialmente porque no trabalho, as coisas não estão muito diferentes.
No amor, por outro lado, vai tudo bem. Encontra em Sofia uma parceira para conversas, cervejas, descobertas, sexo e – acima de tudo – o enfrentamento dos momentos difíceis que atravessam juntas.
Aqui, o afeto se torna essencial para que não se deem por vencidas, apesar do assassinato de Marielle Franco, da prisão de Lula, das fake news sobre o “kit gay” e do que dizem as pesquisas eleitorais.
Em Eterna fantasia, Danichi Hausen Mizoguchi apresenta um relevante retrospecto histórico a partir do olhar de uma personagem bem construída, com diversas camadas e contradições internas, como cada um de nós.
O texto com poucos pontos coloca leitores e leitoras em ambientes marcados pela urgência e pela claustrofobia. Mas o trabalho do autor com a linguagem não para por aí. Danichi Hausen Mizoguchi alterna narradores, constrói diálogos memoráveis e trabalha metáforas nada óbvias.
O escritor ainda evidencia erros cometidos pela esquerda (seja por inocência ou por arrogância), como a insistência pelo discurso intelectualizado ou a constante afirmação de que Bolsonaro não tinha chances reais de um dia ser eleito.
Com uma narrativa envolvente, Eterna fantasia é um livro essencial para compreender a história recente do Brasil e um ótimo exemplo da literatura que se dedica ao enredo e à linguagem com o mesmo rigor.
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

