Ciência, fé e o sentido da vida
O silêncio diante da morte revela mais a dificuldade de quem cuida do que a dos próprios idosos, o que a fé pode nos trazer diante disso?
Morrer faz parte de envelhecer, e é um processo que revela nossa humanidade, nossa fragilidade e o valor de cada instante de vida. Para a geriatra mineira Karla Giacomini, a morte no envelhecimento não é apenas um fim: é uma etapa que traz medo, aceitação e esperança. “O medo nasce das experiências passadas ou do desconhecido; a aceitação surge do reconhecimento de uma vida vivida; e a esperança, muitas vezes, da fé, da crença em continuidade e reencontros”, explica.
Os idosos que vivem em instituições, essas emoções se manifestam de formas sutis. Muitos têm limitações de comunicação verbal, especialmente em quadros demenciais avançados, mas mantêm sensibilidade ao toque, à luz e aos sons. Segundo Giacomini, cabe às equipes de cuidado criar uma atmosfera de conforto e serenidade. Ignorar a morte, por receio de causar sofrimento, nem sempre protege: “A ausência de explicações sobre a morte de um companheiro de quarto pode gerar dor profunda e lacunas emocionais”, alerta a médica.
O silêncio diante da morte frequentemente revela mais a dificuldade de quem cuida do que a dos próprios idosos. Muitos profissionais ainda veem a morte no envelhecimento como fracasso, sobretudo em instituições onde os cuidados paliativos são escassos. Essa lacuna, segundo Giacomini, pode levar a mortes marcadas pela obstinação terapêutica ou pela falta de medidas que aliviem o sofrimento físico, emocional, social e espiritual.
A fé e a espiritualidade aparecem como pilares fundamentais. Elas dão sentido, conforto e oportunidades de resolução de conflitos. Para os idosos, viver o fim de vida com fé pode transformar medo em serenidade. Profissionais também enfrentam impactos emocionais e espirituais; alguns encontram força na fé, outros na ciência, mas todos precisam de espaços para lidar com perdas e reconhecer a humanidade do cuidado.

Para Dom Cipriano, monge beneditino do Mosteiro de São Bento em São Paulo, a morte no envelhecimento não é um fim, mas o começo. “Encará-la com fé permite vivê-la com tranquilidade e esperança, como preparação para a vida eterna junto a Cristo. Falar sobre a morte à luz da fé transforma o temor em consciência serena de que a vida continua além do mundo terreno”, afirma. No monastério, o fim de vida é vivido com serenidade, sustentado pela certeza de que a fé não decepciona e pela esperança firme, fundamentada em Cristo.
Unir ciência e espiritualidade revela que envelhecer e morrer podem ser experiências dignas, acolhedoras e cheias de sentido. Cada gesto, cada vínculo e cada momento de fé preparam o caminho para a continuidade da vida, seja na memória, na relação com os outros ou na espiritualidade.
Clécia Rocha é jornalista, natural de Feira de Santana, Bahia, que pesquisa a comunicação como ferramenta de cuidado. Ativista dedicada aos cuidados paliativos, une sensibilidade e compromisso social em suas narrativas. Qualificada como cuidadora de idosos, atua na interface entre comunicação, direitos humanos e cuidado, buscando dar voz às histórias invisíveis e fortalecer o protagonismo humano em contextos de vulnerabilidade.

