Fim de semana no parque: vinte anos - Le Monde Diplomatique

RACIONAIS

Fim de semana no parque: vinte anos

por Tiarajú D'Andrea
1 de novembro de 2013
compartilhar
visualização

Algumas obras artísticas mudam a história. Este artigo se propõe a discutir um desses casos. A obra em questão é o rap “Fim de semana no parque”, lançado em 1993 pelo grupo Racionais MC s. A obra foi um divisor de águas na forma de pensar um fenômeno social chamado periferiaTiarajú D’Andrea

Os idos da década de 1990, o pensamento neoliberal mostrava-se como uma formidável máquina de produção de consensos. Seu aparato ideológico foi (e é) sumamente eficaz na reverberação de um pensamento único que glorificava o individualismo, o empreendedorismo e o fim dos direitos sociais. Nesse compasso, a burguesia paulistana comemorava a chegada dos produtos importados, dos shoppings e dos condomínios fechados. Por outro lado, esse mesmo neoliberalismo provocava desemprego, precarização do trabalho, privatizações e ataques aos direitos sociais. Formas clássicas de organização política entravam em crise, como os sindicatos e os movimentos sociais. O PT e as comunidades eclesiais de base (CEBs) aos poucos deixavam os bairros populares. As chacinas se multiplicavam e a periferia de São Paulo entrava numa espiral de violência e medo. A realidade dos mais pobres era desesperadora. No entanto, para o discurso hegemônico, a sociedade havia chegado ao seu melhor momento, afinal, estávamos no “fim da história”. Em síntese, aquele era um tempo histórico em que se via acentuada uma das principais características das formas sociais capitalistas: o descompasso entre a realidade e o discurso que se fazia desta.

No meio desse descompasso é que despontou a obra dos Racionais MC’s. Uma obra que naquele 1993 causou um “terremoto”.1 Um dos segredos desse abalo, segundo seus seguidores, era que o grupo falava a “verdade” e a “realidade”. Afirmar que um discurso fala a “verdade” é apontar que outros não o fazem. A crítica implícita era ao pensamento hegemônico que buscava ocultar essa “realidade”. Em vez de escamotear, os Racionais mostravam com crueza a violência e a pobreza de um local invisibilizado de nome periferia. Publicizar a periferia naquele momento era denunciar uma “realidade” que constituía a sociedade, mas que não era enxergada por esta.

É isso que fez “Fim de semana no parque”. Ao descrever a “realidade” da periferia, o rap denunciava suas mazelas, criticando a sociedade como um todo e desafiando o pensamento único. Observam-se na letra elementos como a presença das drogas, o assassinato dos pares e a pobreza na periferia, mas também o coletivismo e a união dessa população. Há também uma crítica aguda à desigualdade social.

Em várias passagens são nomeados bairros da periferia sul de São Paulo: Parque Santo Antônio, Parque Regina, Parque Ipê, Jardim Ingá, Parque Arariba, entre outros. De maneira inédita, aquele rap nomeava. Tornava visíveis uma população e um território. A partir de “Fim de semana no parque” e de seu sucesso, a periferiapassava a existir de uma forma diferente de como vinha sendo enxergado esse fenômeno.

“Fim de semana no parque” sintetizou e catalisou a força do rap e do movimento hip-hop. Sua gramática explicativa centrou-se em questões como a denúncia das contradições da sociedade e da violência estatal, a busca por uma ética regulatória que ordenasse a vida em um momento de crise social e a superação do estigma contra a população periférica. As ações oriundas da problematização dessas questões desembocaram na explosão de atividades artísticas ocorrida na periferia de São Paulo nos últimos vinte anos, cujo eixo gravitacional são uma série de coletivos culturais. Aquele 1993 sintetizava o começo de um tempo em que a periferia queria contar sua própria versão dos fatos, não aceitando mais mediadores.

Uma das características da potência de uma obra de arte crítica é saber retratar seu tempo. A obra dos Racionais sempre se caracterizou por isso. Se o CD Raio-X Brasil,de 1993, foi um terremoto na cultura brasileira, os títulos lançados posteriormente seguiram essa característica de estar muito bem conectados com aquilo que se passava ao seu redor.

Em 1997, um dos anos com maior taxa de homicídios em São Paulo,2 o grupo lançou Sobrevivendo no inferno. É o disco mais dramático dos Racionais. No belíssimo rap “Fórmula mágica da paz”, em meio ao caos daquele tempo, a letra indaga: “A gente vive se matando, irmão. Por quê? Não me olhe assim, eu sou igual a você”.Para então sugerir: “Descanse o seu gatilho, entre no trem da malandragem, o meu rap é o trilho”. Ali, no meio de um discurso que indicava como sobreviver diante de tanta violência, ficava a sugestão: faça rap, faça arte. Entre as possibilidades ofertadas pelo trabalho capitalista ou por atividades ilícitas, foi sendo criada uma terceira possibilidade: produzir arte, que, além de pacificar a quebrada, poderia auxiliar na sobrevivência material. Os Racionais souberam ler esse processo social que os circundava e ser um de seus principais indutores.

Após uma década de desesperança, 2002 renovou os ânimos no país.3 Lula havia ganho as eleições, e o Brasil, a Copa do Mundo.

No plano político, o lulismo começava a se impor como uma forma de governar caracterizada por mudanças sociais sem rupturas.4 Se houve avanços no plano social,é fato também que a propaganda foi mais poderosa do que a real melhora nas condições de vida da população.

No plano cultural, em 2002 foi lançado o filme Cidade de Deus. A partir dele, a indústria do entretenimentopassou a dominar o debate sobre como representar melhor o fenômeno social periferia, roubando o protagonismo até então pertencente ao movimento hip-hop. É nesse 2002 que os Racionais lançaram o álbum Nada como um dia após o outro dia, caracterizado pelo subjetivismo, por certo hedonismo e por reflexões sobre a própria trajetória. Estava implícita em grande parte das letras a contradição vivida pelo grupo com a própria ascensão social. Dois raps representam duas faces desse mesmo dilema. “Jesus chorou” é uma explicação para os periféricos sobre a nova condição social do grupo. Ao serem acusados de traição, a letra aponta que, na verdade, eram eles os traídos ao serem acusados. Por sua vez, “Negro drama” é a crítica ao burguês que os repreendia por terem ascendido socialmente. Com passagens que remetem à escravidão e à luta por reconhecimento por parte dos setores desfavorecidos, o rap virou hino. Com uma eficácia ímpar, com “Negro drama” e já em 2002, os Racionais antecipavam os dilemas provindos da ascensão social de toda uma geração que passou a consumir graças ao lulismo. Em uma classificação formulada fora da periferia, aquele que nos 1990 era o periférico passava a ser denominadoclasse C e, posteriormente, nova classe média.5

Conectados com a realidade histórica na qual se produz uma obra de arte, em 2012 os Racionais lançaram um rap em homenagem ao comunista Carlos Marighella. De certo modo, deram vazão aos incômodos que permeavam uma geração que percebia que muito havia sido feito, mas que faltava bastante a avançar.

A homenagem a Marighella foi, em 2012, a antecipação simbólica das Jornadas de Junho de 2013, outro momento histórico em que o discurso que se fazia sobre a realidade se reconciliou com a própria realidade, assim como havia ocorrido em 1993.

A boa arte sempre antecipa processos históricos. Com rara sensibilidade e verdadeiros sujeitos periféricos, os Racionais MC’s foram e seguem sendo o melhor retrato das angústias, delícias e dilemas de uma geração.

Tiarajú D’Andrea é Morador de Itaquera e corintiano. Doutorando em Sociologia pela USP, é autor da dissertação de mestrado Nas Tramas da segregação: o real panorama da pólis, São Paulo, Departamento de Sociologia (FFLCH – USP), 2008.



Artigos Relacionados

Eleições

A política não cabe na urna

Online | Brasil
por Mariana de Mattos Rubiano
IMPACTOS DA CRISE E DA GUERRA NA ECONOMIA CHILENA

Surto inflacionário agrava a crise alimentar

por Hugo Fazio

Junho de 2022: o plano Biden para a América do Sul

Online | América Latina
por Luciana Wietchikoski e Lívia Peres Milani
PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

A reta final da Constituinte chilena

Online | Chile
por David Ribeiro
ARGENTINA

Isso não pode acontecer aqui...

Séries Especiais | Argentina
por José Natanson
RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral
UMA NOVA LEI EUROPEIA SOBRE OS SERVIÇOS DIGITAIS

Para automatizar a censura, clique aqui

Edição 180 | Europa
por Clément Perarnaud