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Reino Unido

Finalmente o Brexit!

Acervo Online | Reino Unido
por Rodrigo Francisco Maia
15 de janeiro de 2021
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A saída do Reino Unido da União Europeia significa uma jornada solitária?

No artigo “Pandemia e a globalização da saúde no Reino Unido e Itália” já debatíamos os rumos da pandemia no Reino Unido e como visto, as atitudes tomadas pelo governo Britânico foram e continuam sendo altamente questionáveis. Após meses sob uma situação de contágio descontrolado, o Reino Unido tem sido um dos países com mais dificuldades no enfrentamento da pandemia. Recentemente a nova variante do coronavírus marcou a virada de ano. O que prometia ser um momento de alívio com a aprovação da primeira vacina, foi na verdade um momento de crescimento radical do contágio. Tudo isso junto do Brexit. O fator marcante nesse contexto pandêmico é a economia.

Se passaram cerca de cinco anos entre o referendum que aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia e a realização do acordo de saída. A separação completa não aconteceu, nem vai acontecer. Mas alguns fatores são novos e importantes nesse distanciamento. Primeiro, a mútua dependência é histórica entre o UK e a Europa (ciência, mão-de-obra, mercado, etc.) e tais vínculos não poderiam deixar de existir. Alguns aspectos desse novo momento presentes num documento de 2 mil páginas são:

a produção do UK com destino UE ainda deverá atender aos padrões UE;

regras de viagem mudam (são permitidos até 90 dias de viagens turísticas);

não há mais “freedom of movement” (a liberdade de movimento) que garantia possibilidade de trabalho, investimento e estudo (o famoso programa Erasmus deixa de incluir o UK), para tais atividades é necessário Visto a partir de agora;

um novo sistema de imigração começará a valer no UK baseado num sistema de pontos (segundos as necessidades estabelecidas pelo UK);

a situação da Irlanda do Norte será híbrida (a fronteira com a Irlanda seguirá aberta, ainda que com verificações de entrada e saída de mercadorias)

Como discutido por Fintam O’Toole em artigo na revista The Guardian Weekly (vol.204, n.2, 2021), a participação do UK na UE ao longo de décadas ajudou a eliminar o passado colonialista britânico, bem como foi também uma grande contribuição para a paz num continente que sabia fazer guerras internas como nenhum outro. Apesar dos avanços e contribuições mútuas nessa longa e limitada participação do UK na UE, é possível que agora o UK inicie uma jornada solitária em relação à UE?

Unsplash

Em 2019, a UE contava 52% das importações do UK e 43% do total de exportações, enquanto que os EUA somavam 13% e 21%, respectivamente.[1] Apesar da presença massiva da UE e EUA na economia Britânica, tanto importações como exportações com EUA e UE apresentam uma tendência descrente nas últimas duas décadas. Certamente a tendência decrescente deve se manter com o Brexit, já que muito mais burocracia será necessária para entrada e saída de produtos, pessoas, serviços. Mas não apenas por conta da burocracia que o Brexit gera, mas também pelo fato de que o UK exporta mais para países que não são da UE e esse mercado não Europeu pode substituir o déficit negativo que as relações com a UE criam para o UK.

O saldo da relação importação-exportação entre o UK e UE foi negativo em 2019, enquanto que com países não Europeus o saldo foi positivo e apresenta uma perspectiva crescente.[2] Desde 1999, o total de exportações para a UE passou de 53,8% do total de exportações do UK para 43,5% em 2019; já as importações passaram de 56,1% em 1999 para 51,8% em 2019. Mas sobretudo o que chama atenção é que a balança UK-UE passou de -14 bilhões de libras esterlinas em 1999 para -73,2 bilhões de libras esterlinas em 2019. Já a mesma relação de importação-exportação com países não-Europeus passou de -2,8 bilhões de libras esterlinas em 1999 para 48,7 bilhões em 2019.

Os principais produtos de exportação Britânicos para a UE foram petróleo (e derivados) (11,8% do total), carros (10,2%), equipamentos de transporte (5,8%), artigos manufaturados (5,5%), produtos farmacêuticos (5,4%), máquinas industriais (4,1%), produtos elétricos (4,0%). Por outro lado, o lado que gera o déficit na balança criado a partir dos produtos importados, foram principalmente carros (18,2% do total), produtos farmacêuticos (6,7%), produtos elétricos (4,3%), produtos manufaturados (4,1%), máquinas industriais (3,8%).[3]  Apesar do deficit a longo termo, a presença da UE na economia britânica vai além do Brexit. O Brexit, contudo, retomou de maneira incerta a questão das tarifas em produtos importados e exportados, o que desde já tem gerado o cancelamento de importação-exportação em vários setores, apesar da promessa de que haveria um Brexit livre de tarifas. Assim, a relação UK-UE continuará, certamente, mas com mais empecilhos já a partir de agora.

Se a relação UK-UE vai além do Brexit, a relação do UK com países não-Europeus tende a se intensificar. São várias as razões para isso. Uma delas é essa situação incerta, tarifada e burocrática com a EU (a qual tem gerado deficit). Outra é mais ampla, é a situação mundial. EUA e China hoje travam ainda uma disputa comercial gigante, e o UK não é um pequeno mercado nesta luta. Hoje já se discute se a China já é ou será em breve a potência hegemónica, enquanto isso os EUA apresentam sua decadência em muitos sentidos (a trágica situação pandêmica é, infelizmente, o aspecto mais claro de tal decadência socio, económica, cultural e política). Os EUA representam o maior parceiro económico do UK (20,2% das exportações e 12,6% das importações, por exemplo), ao passo que as relações com a China apresentem considerável crescimento desde 1999.[4] Mas uma maior associação aos EUA em termos económicos significará para o UK uma jornada ao fundo do poço a médio prazo?

Embora a decadência Norte-americana assinale um quadro maior das relações internacionais, a tendência histórico-natural de associação do UK com os EUA se intensificará. Além disso, a presença da China deve seguir o crescimento das últimas décadas, possivelmente de maneira mais acelerada, pois em se tratando dos interesses económicos dos grupos financeiros dominantes tanto China como EUA são de interesse.

Apesar de parecer e ser algo de outra dimensão, o Brexit é um pequeno movimento dentro de uma reorganização do capitalismo, uma reorganização/deslocamento (são vários os nomes) que deve durar alguns vários anos, no qual o que parece certo é a ascensão da China. O Brexit permite então ao UK um movimento mais livre nesse tabuleiro, no qual a promessa é a rápida e extravagante acumulação financeira. É nesse sentido que o Brexit ocorreu, sem mesmo que os grandes grupos britânicos oferecessem alguma resistência imediata – cedo ou tarde as viagens ao oriente iriam recomeçar, mas resta a aliança militar do Atlântico Norte e uma história de relações UK-EUA.

Contudo persiste ainda o problema do home-office. A péssima abordagem do governo britânico à pandemia catalisou os efeitos que essa poderia gerar nas populações mais pobres. Até mesmo a fome voltou a ser um fator presente, certamente dos mais extremos e do qual se pode derivar vários outros problemas sociais. O desemprego aumentou (ainda que as taxas sejam inferiores à de muitos países). O número de pedidos de auxílio desemprego passou de 999 mil pessoas em dezembro 2018 para 2663,7 mil em dezembro 2019. [5] Em 12 de agosto 2020 foi oficialmente anunciado a situação de recessão do UK. Na primeira parte do ano 2020, sobretudo por conta da pandemia, o PIB britânico apresentou a vertiginosa queda de -22,1%.[6] Em dezembro 2020 a situação era de continuidade da recessão. O quadro persiste e não há expectativa de melhora para todo o 2021.

Tanto a pandemia, como o Brexit, já estão cobrando um preço social alto pelos desastres que derivam da estratégia neoliberal do governo do Partido Conservador. Tanto UK como os EUA são, infelizmente, dois grandes casos de falha no trato da situação pandémica.

Com a nova variante do vírus, o contágio está aumentando drasticamente. Nesse momento a situação é realmente difícil nos hospitais superlotados, apesar das restrições máximas (Tier 5) impostas desde o período do Natal em Londres e depois estendidas a todo o Reino. Ainda que se expressem em números, as perdas são humanas, muito para além dos dados económicos. Em geral, os setores mais fragilizados de trabalhadores pagam essa conta que está em nome do governo Boris Johnson.

[1] House of Commons Library. Statistics on UK-EU trade. Briefing Paper n.7851, 2020.

[2] Dados: ONS (Office for National Statistics) series L84Y, e UK-EU trade briefing Paper, 2020.

[3] Dados do HMCR, UK Trade Info.

[4] House of Commons Library, Statistics on UK Trade with China, Briefing paper, July 2020.

[5] Fonte: ONS- Out of work Benefits, K02000001 UK.

[6] Fonte: ONS “Coronavirus and the impact on output in the UK economy: June 2020”



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