Artigo: Fogo no Ártico - Le Monde Diplomatique Brasil

Aquecimento global

Fogo no Ártico

por Renato Cinco
15 de julho de 2020
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No dia 21 de junho, a cidade de Verkhoiansk, na Rússia, dentro do círculo polar ártico registrou 38ºC. Esse recorde acende o alerta para a possibilidade de ocorrer o “Blue Ocean Event”, ou Evento Oceano Azul, ainda este ano. Esse evento acontece quando praticamente todo gelo oceânico do Ártico desaparece

Quando ouvimos a temperatura de 38º celsius, a imagem que vem à cabeça é de uma praia no Nordeste brasileiro, ou do verão escaldante do Rio de Janeiro. Mas no dia 21 de junho, essa foi a temperatura registrada na cidade de Verkhoiansk, na Rússia. A cidade fica dentro do círculo polar ártico. Isso mesmo, fez 38º graus no Ártico. Gigantescas porções da Sibéria tiveram incêndios florestais.

Esse recorde acende o alerta para a possibilidade de ocorrer o “Blue Ocean Event”, ou Evento Oceano Azul, ainda este ano. Esse evento aconteceria quando praticamente todo gelo oceânico do Ártico desaparecesse. O período de degelo do Ártico só acabará depois de setembro, quando as temperaturas começam a cair. Se o Evento Oceano Azul acontecerá este ano, ainda é incerto. Porém há quase unanimidade entre cientistas do clima que ele será ainda nesta década e ninguém o considera evitável. O Ártico hoje aquece de três a cinco vezes mais rápido do que o resto do planeta. E por que isso importa?

O derretimento do Ártico afetará o clima do planeta inteiro. O gelo tem a capacidade de refletir 80% da luz solar. Um oceano sem gelo reflete apenas 10%. Sem gelo oceânico cobrindo o Ártico, o aquecimento global se acelerará ainda mais. O Ártico é um regulador do clima de todo Hemisfério Norte. Ele garante a atual periodicidade de chuvas e de temperaturas na região. A formação de gelo durante o inverno retira umidade da atmosfera. Os efeitos para a região são imprevisíveis. Por fim, debaixo do gelo Ártico existem toneladas de carbono, vestígios de outras eras em que a região teve outros biomas. Esse carbono irá ser decomposto e entrará para a atmosfera, ampliando o efeito estufa e novamente intensificando o aquecimento global.

Estamos no meio de uma pandemia global que desencadeou uma crise econômica mundial e você está lendo um vereador do Rio de Janeiro falar sobre o Ártico. Claro que parece um assunto distante, ou fora do momento. Será que não podemos esperar as coisas se acalmarem para ouvir mais más notícias?

Infelizmente, não. O mundo sairá diferente da pandemia de Covid-19. Nossa economia precisará se adaptar, à forma como nos comportamos precisará mudar. Muitas inovações já foram adotadas rapidamente por causa das restrições de contato físico. Muitas restrições que pensávamos impossíveis agora se tornaram comuns. Precisamos direcionar essas transformações para conter as emissões de poluentes, parar a extração de combustíveis fósseis e recuperar biomas perdidos, reflorestar regiões e recuperar oceanos.

Mesmo com a pandemia e toda crise econômica, mesmo consumindo menos por força dessas emergências, a redução das emissões de carbono para o ano de 2020 está em 5%, segundo as Nações Unidas. E precisava estar em 8% para evitarmos um aquecimento acima de 1,5ºC, margem considerada mais segura pelos climatologistas.

É nesse momento de crise que precisamos pensar e planejar como reverter a próxima crise que ameaça a Humanidade, o aquecimento global. E diferentemente da desastrosa resposta à pandemia dada pelo governo brasileiro, precisamos planejar saídas baseadas na prevenção dos efeitos mais graves e justiça social, ou seja, medidas que impactem de forma menos gravosa os mais carentes.

O que nós faríamos enquanto sociedade se soubéssemos anos atrás que a Covid aconteceria? Bem, não faltam evidências da urgência do aquecimento global. Afinal, fez 38º graus no Ártico no mês passado.

 

Renato Cinco é vereador do Rio de Janeiro (Psol).



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