Gabo, último encontro - Le Monde Diplomatique

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (1927-2014)

Gabo, último encontro

por Ignacio Ramonet
4 de agosto de 2014
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Tinham me dito que ele estava em Havana, sofrendo, não queria ver ninguém. Eu sabia para onde ele ia normalmente: uma magnífica casa de campo, longe do centro. Liguei, e Mercedes, sua esposa, acabou com meus escrúpulos: “Imagina”, disse calorosamente. “É para afastar os chatos. Venha, ‘Gabo’ vai ficar feliz de te verIgnacio Ramonet

 

Sob um calor úmido, na manhã seguinte após combinar minha visita, subi um caminho de palmeiras e cheguei à porta da villa tropical em que estava Gabriel García Márquez. Eu não ignorava que ele sofria de um câncer do sistema linfático e que se submetia a uma extenuante quimioterapia. Diziam que estava mal. Atribuíam a ele uma dilacerante carta de adeus a seus amigos e à vida. Eu temia me encontrar diante de um moribundo. Mercedes veio abrir a porta para mim e, para meu espanto, disse-me com um sorriso: “Entre. Gabo está vindo… Está terminando sua partida de tênis”.

Instalado em um sofá branco na sala, eu o vi chegar pouco depois, em plena forma, de fato, seus cabelos encaracolados ainda molhados da ducha e o bigode bagunçado. Ele vestia uma guayaberadourada, uma calça branca larga e sapatos de lona. Bebericando café gelado, ele me explicou que se sentia “como um pássaro selvagem que tinha escapado de sua gaiola. Em todo caso, bem mais jovem do que aparento. Mas”, acrescentou, “com a idade, constato que o corpo não foi feito para durar tantos anos quanto gostaríamos”. Imediatamente, propôs-me “imitar os ingleses, que nunca falam de problemas de saúde. É deselegante”.

A brisa levantava alto as leves cortinas das janelas, e a sala começou a se parecer com uma nave flutuante. Eu lhe disse todas as coisas boas que pensava do primeiro tomo de sua autobiografia, Viver para contar(2002): “É seu melhor romance”. Ele sorriu e ajustou os óculos de armação grossa. “Sem um pouco de imaginação é impossível reconstruir a inacreditável história de amor dos meus pais. Ou minhas lembranças de bebê… Não esqueça que apenas a imaginação é vidente. Ela é, às vezes, mais verdadeira que a verdade.” Em fundo sonoro, as notas da Sinfonia do Novo Mundo, de Antonin Dvorak, banhavam a sala de uma atmosfera ao mesmo tempo alegre e dramática.

Eu tinha conhecido Gabo lá por 1979, em Paris. Convidado pela Unesco, ele fazia parte, com Hubert Beuve-Méry, o fundador do Le Monde Diplomatique, de uma comissão presidida pelo Prêmio Nobel Sean McBride encarregada de estabelecer um relatório sobre o desequilíbrio Norte-Sul em matéria de comunicação de massa. Nessa época, ele não escrevia mais romances, em virtude de uma proibição que ele mesmo havia se imposto enquanto Augusto Pinochet estivesse no poder no Chile. Ele ainda não tinha recebido o Prêmio Nobel de Literatura, mas já era uma imensa celebridade. O sucesso de Cem anos de solidão (1967) tinha feito dele o escritor em língua espanhola mais universal desde Cervantes. Lembro-me de ter ficado surpreso com sua baixa estatura e impressionado com sua gravidade e seriedade. Ele vivia como um eremita, só deixava seu quarto, transformado em célula de trabalho, para ir até a Unesco.

Revi Gabo com frequência em Paris, em Havana e na Cidade do México. Tínhamos um desacordo permanente a respeito de Hugo Chávez. Ele não acreditava. Já eu via no comandante venezuelano um homem que iria fazer a América Latina entrar num novo ciclo histórico. No resto, nossas discussões eram sempre muito (demais?) sérias: a sorte do mundo, o destino da América Latina, Cuba…

Uma vez, no entanto, lembro-me de ter chorado de tanto rir. Eu voltava de Cartagena das Índias, suntuosa cidade colonial, na Colômbia; ali tinha visto sua villa nas muralhas e tinha discutido com ele. Ele me perguntou: “Sabe como eu consegui essa casa?”. Nenhuma ideia. “Eu sempre quis viver em Cartagena e, quando tive condições, procurei uma casa. Sempre custava muito caro. Um amigo advogado me explicou: ‘Eles imaginam que você é bilionário e aumentam o preço. Deixe-me procurar para você’. Algumas semanas depois, ele encontrou a casa, que era então uma velha gráfica em ruínas. Ele falou com o proprietário, um cego, e ambos concordaram sobre o preço. O velho formulou, no entanto, uma exigência: queria conhecer o comprador. Meu amigo voltou e disse: ‘Será preciso encontrá-lo, mas você não deve falar. Senão, quando ele reconhecer sua voz, vai triplicar o preço… Ele é cego, você será mudo!’. O dia do encontro chegou. O cego começou a me fazer perguntas. Eu respondia com palavras indistintas… Mas, num dado momento, cometi a imprudência de responder com um sonoro ‘Sim’. ‘Ah!’ – ele deu um salto. ‘Reconheço sua voz. Você é Gabriel García Márquez!’ Tinha sido desmascarado… Ele acrescentou imediatamente: ‘Teremos de rever o preço! Agora as coisas mudaram…’. Meu amigo tentou negociar, mas o cego repetia: ‘Não! Não pode ser o mesmo preço. De jeito nenhum…’. ‘Bom, então quanto?’, perguntamos resignados. O velho refletiu um instante e soltou: ‘A metade do preço!’. Não entendemos. Então ele nos explicou: ‘Vocês sabem que eu tenho uma gráfica. E do que acham que vivi até hoje? De edições piratas dos romances de García Márquez!’.”

O ataque de riso de então ainda ressoava na minha memória enquanto, na casa de campo de Havana, eu continuava minha conversa com um Gabo envelhecido, mas sempre muito atento. Ele me falava do meu livro de entrevistas com Fidel Castro.1 “Estou muito enciumado”, dizia rindo, “você teve a sorte de passar mais de cem horascom ele…” “Sou eu”, respondi, “que estou impaciente para ler a segunda parte de suas memórias. Você vai enfim falar de seus encontros com Fidel, que você conhece há muito mais tempo. Ele e você são duas espécies de gigantes do mundo hispânico. Se compararmos com a França, é um pouco como se Victor Hugo tivesse conhecido Napoleão…” Ele gargalhou, alisando as sobrancelhas grossas. “Você tem muita imaginação… Bom, vou decepcioná-lo: não haverá uma segunda parte… Eu sei que muitas pessoas, amigos e adversários, esperam de certa forma meu ‘veredicto histórico’ sobre Fidel. É absurdo. Eu já escrevi sobre ele o que tinha para escrever.2 Fidel é meu amigo; ele sempre será. Até o túmulo.”

O céu tinha escurecido, e a sala, em pleno meio-dia, estava agora mergulhada na penumbra. A conversa tinha ficado lenta, depois acabado. Gabo meditava, com o olhar perdido, e eu me perguntava: será possível que ele não vai deixar um testemunho escrito sobre tantas confidências partilhadas em amigável cumplicidade com Fidel? Teria deixado isso para uma publicação póstuma, quando ambos já não estiverem mais neste mundo?

Fora, trombas-d’água se precipitavam do céu com a potência torrencial das tempestades tropicais. A música tinha se calado. Violentos odores de orquídea invadiram a sala. Gabo de repente tomou a aparência esgotada de um velho leopardo colombiano. Ficava ali, silencioso e meditativo, fixando a chuva inesgotável, companheira permanente de todas essas solidões. Eu desaparecia discretamente. Sem saber que acabava de vê-lo pela última vez.

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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