RESENHA

Os ecos do genocídio indígena em “Nas cidades sou como o fantasma de alguém sem rosto”

Romance publicado pela editora Folhas de Relva marca estreia de André Lisbôa na literatura

A escritora Tina Vieira, finalista do Prêmio Jabuti em 2021, é quem define muito bem o livro “Nas cidades sou como o fantasma de alguém sem rosto”, estreia de André Lisbôa na literatura, ao dizer que a obra “conta um pouco dos males do Brasil e das angústias que habitam cada um de nós”. 

Capa de "Nas cidades sou como o fantasma de alguém sem rosto", de André Lisbôa (Divulgação/Folhas de relva edições)
Capa de “Nas cidades sou como o fantasma de alguém sem rosto”, de André Lisbôa (Divulgação/Folhas de relva edições)

E não é para menos. No romance recém-publicado pela Folhas de Relva há espaço para questões que vão do tráfico de drogas ao garimpo ilegal, do genocídio indígena à corrupção na política. Tudo isso por meio de uma narrativa surpreendente, escrita de forma fragmentada, num diário de viagem.  

O protagonista é um advogado que percorre a América Latina de bicicleta, em meio a belas paisagens e amigos que surgem pelo caminho. Sua jornada, na verdade, logo se revela uma tentativa de fuga do passado traumático, reconstituído pouco a pouco, anotação a anotação. 

O início da narrativa, aliás, tem ares de terror. O prólogo diz que o dono do diário desapareceu na Bolívia em 2019 e que os direitos de publicação de suas anotações foram concedidos a outra pessoa graças a uma decisão judicial – artifício que se assemelha ao utilizado em filmes found footage, como “A Bruxa de Blair”, “Atividade Paranormal” e “REC”. 

Contudo, os elementos de terror sobrenatural não demoram a desaparecer e, gradativamente, dão espaço a algo ainda mais assustador: a realidade. Essa abordagem se torna mais sólida quando o protagonista revela sua recente atuação na defesa de um indígena acusado de assassinar um deputado e outras três pessoas. 

Conforme o ciclista relembra os depoimentos de seu cliente, o retrato de um Brasil violento e desigual ganha forma. Fica nítido – dentro e fora da história – que existe um projeto cuidadosamente planejado para exterminar minorias, seja matando de fato as pessoas ou privando-as de seus direitos mais básicos. A trama foca na perseguição a indígenas, mas em determinados momentos também dá espaço a reflexões sobre machismo e homofobia.  

Todos esses temas ganham ainda mais intensidade a partir de uma técnica literária delicada e bem definida, capaz de utilizar a escrita fragmentada para estabelecer o suspense e fazer ecoar os pensamentos mais profundos sobre as brutalidades cotidianas e estruturais de um país inteiro.  

Assim, “Nas cidades sou como o fantasma de alguém sem rosto” é uma narrativa sobre as muitas travessias necessárias para entender um pouco melhor a complexa estrutura do extermínio. Seu protagonista, alguém que pedala quilômetros todos os dias apenas para não ser alcançado pela culpa, é só mais uma peça num dos jogos mais injustos, cruéis e sórdidos da vida real. E, de certa forma, ele sabe disso.  

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros). Escreve sobre literatura no Jornal Rascunho e na São Paulo Review. 

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