TENSÕES E PERSPECTIVAS NA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

Globalização, nacionalismo e internacionalismo

É imprescindível adotar uma abordagem crítica, capaz de superar dicotomias simplificadoras e reconhecer a complexidade dos processos históricos e sociais contemporâneos

Na contemporaneidade, poucos temas suscitam tantos debates quanto os processos de globalização, nacionalismo e internacionalismo. Esses assuntos frequentemente assumem o protagonismo do discurso público, convertendo-se em “temas quentes” e moldando a consciência histórica das sociedades. O modo como esses fenômenos são debatidos não só revela as inquietações de cada época, mas também influencia a compreensão do impacto das ações políticas e sociais no presente e no futuro.

Durante os anos 1990, o discurso predominante sobre globalização se impôs de forma quase hegemônica. A literatura especializada, influenciada por autores como Francis Fukuyama (The End of History and The Last Man, 1992; Trust: The Social Virtues and the Creation of Prosperity, 1995) e Kenichi Ohmae (The Borderless World, 1990; The End of the Nation State, 1995), descrevia a globalização como um processo irreversível, diante do qual qualquer resistência dos Estados nacionais seria inútil.

Nessa perspectiva, restava aos governos apenas a adaptação parcial a uma ordem mundial em transformação, marcada pelo declínio da soberania estatal e pelo avanço avassalador das dinâmicas globais. A globalização, então, passou a ser vista como o maior desafio à existência dos Estados nacionais, ora sendo temida, ora almejada, especialmente em países latino-americanos como o Brasil.

Entretanto, essa narrativa revela-se excessivamente determinista e simplificadora. A reflexão crítica foi, muitas vezes, substituída por slogans e respostas automáticas, obscurecendo a real complexidade dos processos subjacentes à globalização. Entre o medo e o fascínio, o debate público latino-americano oscilou, ora enxergando a globalização como ameaça à identidade e à autonomia nacional, ora como promessa de progresso e integração aos padrões do chamado “mundo desenvolvido”.

Crédito: Tim Pierce/Arab Media and Society

Uma abordagem histórica mais rigorosa nos permite questionar esse discurso dominante. Cinco ideias principais sintetizam a visão hegemônica da globalização: a suposta novidade do fenômeno; seu caráter homogêneo e homogeneizador; a crença no progresso e bem-estar universal; a difusão inevitável da democracia; e, finalmente, o enfraquecimento ou desaparecimento do Estado nacional. No entanto, a realidade se mostra muito mais complexa. A globalização, longe de ser um processo linear e homogêneo, manifesta-se de modo desigual e multifacetado, envolvendo dimensões econômicas, culturais, tecnológicas, institucionais e políticas. Ainda que os Estados enfrentem desafios inéditos, continuam a desempenhar papel central nos organismos multilaterais e nas relações internacionais.

Nesse cenário, a intensificação das manifestações identitárias, frequentemente em resposta às dinâmicas globalizantes, evidencia a persistência e a força dos nacionalismos contemporâneos. A Guerra do Kosovo (1998-1999) ilustra exemplarmente essa realidade. A intervenção da Otan, motivada pela tentativa de conter o genocídio, demonstrou tanto os limites do internacionalismo e das instituições multilaterais quanto o vigor das identidades nacionais, especialmente do nacionalismo sérvio. Apesar da derrota dos projetos nacionalistas naquela conjuntura, o conflito reforçou a centralidade das questões identitárias e expôs os dilemas morais e estratégicos das intervenções internacionais.

De maneira ainda mais emblemática, o atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, revelou as vulnerabilidades criadas pela interconexão global. O ataque, planejado e executado por uma rede terrorista internacional, utilizou-se das facilidades proporcionadas pela globalização – como o acesso a sistemas financeiros, comunicações e transportes – para atingir diretamente o coração da maior potência mundial.

O evento não apenas expôs os riscos e desafios transnacionais da era global, como também desencadeou uma forte reação nacionalista nos Estados Unidos, marcada por um sentimento de unidade nacional, endurecimento das políticas migratórias e, posteriormente, por intervenções militares unilaterais no Afeganistão e no Iraque. Tal resposta evidenciou o papel persistente do Estado e das identidades nacionais e os limites do internacionalismo e da cooperação multilateral diante de ameaças complexas e difusas.

A análise da relação entre nacionalismo e internacionalismo revela, portanto, uma correlação mais frequente do que uma causalidade direta. Reduzir o nacionalismo a uma força retrógrada, autoritária ou isolacionista seria um equívoco. Em muitos contextos, o nacionalismo pode funcionar como elemento dinamizador do desenvolvimento, sobretudo quando articulado a projetos democráticos e inclusivos.

Diante dessas considerações, torna-se imprescindível adotar uma abordagem crítica, capaz de superar dicotomias simplificadoras e reconhecer a complexidade dos processos históricos e sociais contemporâneos. O atentado de 11 de setembro, assim como a Guerra do Kosovo, ilustra como globalização, nacionalismo e internacionalismo se entrelaçam de modo tenso e ambíguo, desafiando interpretações simplistas. Somente assim será possível compreender, de fato, as dinâmicas que moldam o mundo atual e vislumbrar caminhos para a construção de sociedades mais justas, democráticas e integradas.

 

Márcio S. de Santana é professor associado do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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