Homem rendeiro, ou quando é preciso desfazer um ponto para consertar dois - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA – SÁLVIO PENNA

Homem rendeiro, ou quando é preciso desfazer um ponto para consertar dois

por Rodrigo Farhat
13 de dezembro de 2018
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Em entrevista, metalúrgico Sálvio Penna relembra os dias de tortura que sofreu no Dops de Minas Gerais, nos anos 1970

A primeira semana de dezembro foi marcada por três fatos relacionados à ditadura civil-militar brasileira. No dia 3, a Comissão Nacional da Verdade divulgou a identificação da ossada de um sindicalista torturado e morto em São Paulo, feita por meio de exame de DNA. No dia 4, familiares de mortos e desaparecidos políticos, reunidos em Brasília, escreveram uma carta em defesa do trabalho de resgate da memória das vítimas do período compreendido entre 1964 e 1985. Por fim, no mesmo dia, após o governo de Minas Gerais ter anunciado que o prédio onde funcionava o Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (Dops) em Belo Horizonte, tombado em 2013, seria transformado na sede do Memorial dos Direitos Humanos, Casa da Liberdade, o metalúrgico Sálvio Penna esteve no edifício da Avenida Afonso Pena de olhos abertos pela primeira vez. Nos anos 1970, passou cem dias lá. Encapuzado. No local, foi interrogado, recebeu choques elétricos, tapas, pontapés, queimaduras de cigarro e ficou no pau de arara. Nesta entrevista, ele relembra os dias no cárcere.

Diplomatique – Onde você estava nos anos 1960?

Sálvio Penna – Conheci a pobreza de perto e percebi que havia algo muito errado no mundo. Sou filho de um metalúrgico com uma dona de casa. Éramos 8 irmãos. Minha mãe era muito religiosa. Promovia campanhas de caridade e nos obrigava a acompanhá-la nas visitas aos pobres de Sabará (MG), cidade na qual nasci. Foi essa observação da realidade que me fez perceber a diferença entre pobres e ricos. E eu comecei a perguntar o motivo dessa contradição.

 

O que fazia em 1964?

Estudava mecânica na Escola Técnica Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Fui o único filho da família que fugiu do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Meus irmãos cursaram o Senai e foram trabalhar. Essa era a regra na família. Acabei não terminando o curso pois fui expulso antes por militância no movimento estudantil secundarista. Em 1966, fui impedido de renovar minha matrícula. Entre 1963 e 1964, participei da fundação da Ação Popular (AP) em Minas. Era uma organização cristã, mas com uma estratégia voltada para transformações na sociedade brasileira. Buscava a justiça, a ética e a igualdade. Com a expulsão da escola técnica, acabei voltando para Sabará. Fui procurar emprego e virei metalúrgico, como meu pai e meus irmãos, e fui trabalhar na unidade de Sabará da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira (CSBM).

 

Como foram os anos seguintes?

Comecei uma tímida militância sindical entre os metalúrgicos em Sabará e voltei à AP somente em 1968. A organização tinha se transformado em marxista-leninista (APML), com orientação tática maoísta. Tinha uma proposta de luta armada pela tomada do poder no Brasil. Atuava na clandestinidade e na ilegalidade. Em 1970, casado, me transferi para a unidade de Contagem da Belgo-Mineira. Fomos, eu e Ana, minha mulher, morar no JK, um bairro operário localizado atrás da Companhia de Cimento Itaú, hoje transformada em shopping.

 

Como era sua militância?

Continuei a militância no movimento metalúrgico em Belo Horizonte e em Contagem. Fazia oposição à diretoria do sindicato. Participava das campanhas salariais, das assembleias de prestação de contas e das disputas internas. Também militava na reorganização da APML, que tinha sofrido muitas baixas diante da repressão em 1969. Participava da vida interna da organização em uma célula operária. Estudávamos ações no trabalho sindical e de bairro. Também fazíamos estudos teóricos e tínhamos intensa vida social e comunitária. Era o que chamávamos de “trabalho de integração.”

 

Como se deu sua prisão em 7 de dezembro de 1971?

Agentes da repressão invadiram minha casa pela manhã. O Rodrigo, meu primeiro filho, tinha nascido cinco dias antes, mas a Ana já estava de alta médica. O parto, feito com o uso de fórceps, resultou em 33 pontos internos e externos na vagina. Ela estava de cama e era eu que fazia os curativos. Eu também cuidava do Rodrigo. Fui levado para o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), que funcionava no último andar da sede do Dops. A Ana, retirada de casa à noite, foi levada para o Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais, em Santa Efigênia. Rodrigo também foi levado e ficou lá, em péssimas condições. O leite da Ana secou e ela recebia pela manhã uma garrafa de leite em pó e era com ele que alimentava o Rodrigo durante o dia. A Ana também foi torturada fisicamente e as sessões eram acompanhadas pelo médico Jean Paul Nicollas Seeburguer, luxemburguês naturalizado brasileiro e também funcionário da Belgo-Mineira. Ele servia ao Dops de Belo Horizonte. Na minha chegada ao DOI-Codi, fui submetido a vários tipos de tortura: cigarro aceso no ânus, choques elétricos, pau de arara, palmatória, água e refrigerante no nariz. Completamente nu.

Prédio Dops, na avenida Afonso Pena, recebe ato por direitos humanos no aniversário de 53 anos do golpe militar, em 2017 / Lidyane Ponciano / CUT Minas

O que fez depois de sair da cadeia?

Fui procurar trabalho, alugar casa e retomar minha vida com a Ana e com o Rodrigo, que nem me conhecia. Procurar trabalho era muito difícil, porque boa parte das empresas e indústrias tinha listas de procurados e os empregos exigiam atestado de bons antecedentes. Então, fui trabalhar no comércio. Foi nessa época que ajudei a organizar um grupo de solidariedade aos presos que ficaram na cadeia. A gente organizava denúncias de tortura e fazia campanhas para arrecadar dinheiro, porque muitos não tinham família e outros eram muito pobres. Com os recursos que a gente juntava, eles pagavam advogados e compravam remédios e roupas. Acolher companheiros que saíam da prisão também era tarefa importante. Acabei optando por não voltar para a APML, que estava praticamente destruída. Posso dizer que esse trabalho foi a origem dos movimentos de anistia.

 

Como reconstruiu sua vida?

Éramos intensamente vigiados, seguidos, fotografados e a repressão infiltrava agentes nos movimentos. Isso era claro. Conseguir emprego era difícil. O trabalho e as ações de solidariedade eram fundamentais e, em alguns casos, única salvação. Alguns companheiros que tinham conseguido driblar perseguições e prisões se tornaram pequenos empresários ou diretores em empresas e os usávamos como “agências de emprego”.

 

O que ficou na sua memória sobre os dias que passou preso no Dops?

Fiquei no DOI-Codi em torno de cem dias. Entrei no dia 7 de dezembro de 1971 e fui para a Penitenciária Regional de Linhares, em Juiz de Fora (MG), em março de 1972. Minha condicional saiu em abril de 1973. Não é possível admitir a prisão política, o crime de pensamento. Não se pode ser considerado criminoso por pensar diferente. Não é possível admitir a tortura, os assassinatos e os “desaparecimentos.” O trabalho de denúncia tem que ser incessante, cotidiano, principalmente junto aos estudantes e à juventude. Nossa história ainda está por ser escrita, porque pouquíssimo material ainda está coletado.

 

O que representou a anistia de 1979?

Foi uma vitória parcial das forças democráticas diante do regime militar. Nós nos organizávamos em duas frentes, o Movimento Feminino pela Anistia (MFA) – organizado por famílias e lideranças femininas como Helena Greco e Terezinha Zerbini – e setores democráticos da sociedade e até da imprensa. Além de ampliar a solidariedade material aos presos e suas famílias, o MFA organizava atos, tentava apoio internacional, denunciava prisões, torturas, mortes e desaparecimentos. E começou a organizar também uma primeira lista de torturadores, fato que, de alguma forma, ajudava a acuar o regime. Essa luta foi ampliada com a organização do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA), que conseguiu uma grande unidade na sociedade em torno da bandeira. Praticamente todo o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) se envolveu, assim como o movimento sindical progressista, lideranças, famílias e parte da imprensa brasileira e internacional. Mas a conquista da anistia acabou sendo parcial, porque não tivemos força para evitar a “anistia recíproca”, mecanismo da lei que acabou permitindo que criminosos da repressão e torturadores não fossem punidos. A anistia acabou apagando, de alguma forma, parte da responsabilidade da ditadura e seus agentes na perseguição e assassinatos durante o período de 1964/1985. Isso funciona como uma “supressão” da história, como algo que não pode ser contado.

 

Como o Brasil deve trabalhar a questão da memória sobre o período da ditadura civil militar?

Acho que a juventude deve ser o alvo dessa preocupação. Historiadores, professores e estudantes de universidades e de escolas dos ensinos fundamental e médio têm que ser trincheiras de resistência contra qualquer proposta que venha sufocar o estudo e a discussão de nossa história. Faz parte da minha militância falar em escolas cotidianamente sobre esse período. A criação de centros de memória, como a Casa da Liberdade, no antigo Dops, também é fundamental.

 

Diferentemente de outros países do Cone Sul, o Brasil não construiu políticas de memória, verdade, justiça e reparação. Qual seria o motivo?

Não tivemos ainda um governo que tenha assumido de forma coesa esse compromisso. No presidencialismo de coalizão, a construção de uma unidade em torno dessas bandeiras tem encontrado enorme dificuldade. É normal, inclusive, a participação de políticos que serviram no período de ditadura nesses governos. Também não conseguimos avançar na compreensão da necessidade dessas bandeiras no movimento social. E estamos presenciando agora um fenômeno antigo na sociedade brasileira, a posição de classe do Poder Judiciário, que, na verdade, não tem compromisso nenhum com a justiça, com a verdade e com a reparação. Seu compromisso é com a justiça para os ricos e com a existência de milhões de pobres trabalhando e produzindo para uma minoria de ricos.

 

Você e seus companheiros lutavam pela defesa da justiça social, da liberdade e da democracia. O que sobrou dessa luta?

Construir uma democracia, uma sociedade com justiça, ética e absolutamente igualitária é trabalho para muito tempo. É levantar todos os dias e dar um passo, dois, recuar, avançar de novo. Paciência é uma atitude revolucionária. Uso o exemplo das rendeiras. Quem já as viu tecendo, fazendo renda, sabe disso. Muitas vezes, com o trabalho já avançado, você descobre que errou num determinado ponto lá atrás. Tem que desmanchar tudo até onde errou e começar de novo. É assim. Vou tecendo a minha renda, a minha rede. Quando erro, reconheço e começo de novo.

 

*Rodrigo Farhat é jornalista.



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