Horror de “Weapons” prefigura o fracasso do sonho americano, já em colapso
Filme de Zach Cregger coloca o monstruoso parasitário como ameaça social que absorve passado e destrói um futuro, longe dos ideais de liberdade do American Dream
A construção do horror em Weapons (2025) está na corporalidade – isso é, o corpo é a arma que o título sugere. Do sensacionalista A hora do mal, como foi traduzido para o Brasil, temos apenas a referência ao horário (2h17) em que dezessete crianças de uma mesma classe saíram correndo de suas casas em direção “à escuridão”. Falamos de uma classe escolar, mas o termo poderia ser mais amplo: são de uma cidade pequena, casas enfileiradas no melhor estilo subúrbio americano, uma classe média que se prende dentro das possibilidades que o American dream e o American way of life, já falidos, ainda podem proporcionar.

No terror, é comum a presença infantil. Crianças são a ameaça ou a vítima inocente – ou, nos melhores casos, estão em uma zona de indeterminação. É o caso das aparições do hispano-mexicano El orfanato (2007). O clássico Children of corn (1984) apresenta uma seita infantil que se une para o massacre de adultos – com marcas de seu tempo, referências sutis à Guerra do Vietnã. Lembro ainda de The Plague (2006), filme aquém da crítica mas com uma premissa que interessa ao tema: todos com até 9 anos entram em um misterioso coma e, após uma década, já adolescentes, despertam para aniquilar os adultos.
Em Weapons, o mistério está em questão. O episódio é narrado por uma menina: trata-se de um caso real, ocorrido em sua cidade, e que as autoridades preferem ocultar, incapazes de solucioná-lo. Estamos, assim, mergulhados no imaginário infantil, no causo de tom lendário que é lugar-comum dos medos. Diante do desaparecimento insólito das crianças, a busca por respostas se impõe. Zach Cregger encontra a forma para isso: a perspectiva é fragmentada em capítulos, centrados em seis personagens distintos. Cada um deles nos oferece diferentes peças e vamos, pouco a pouco, encaixando-as. O filme segue uma certa estilização do terror, tendência percebida, por exemplo, em Presença (2004) – mas Steven Soderbergh, fixo no ponto de vista da suposta entidade, logo perde o fôlego; felizmente, Cregger não cai na armadilha de sua forma.
O pequeno subúrbio família-margarina de Weapons não tem um forte senso comunitário; prevalece a alienação. O desespero que toma conta da cidade, no entanto, amplia a desconfiança entre os moradores e alimenta a perseguição. No primeiro fragmento, seguimos o bode expiatório. Justine Gandy (Julia Garner) era a professora da turma desaparecida – e principal suspeita. Acusada de conduta inadequada por se “importar demais” e com um pendor para o álcool, ela entra numa espiral autodestrutiva. Em seu carro vandalizado, a palavra “witch” está grafada em letras vermelhas — no melhor estilo A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne. Natural de Salem, na Nova Inglaterra, o autor nos remete à famosa caça às bruxas, que Justine enfrenta. Nesse clima de histeria social, a professora se preocupa com Alex, única criança de sua turma que não foi afetada pelo desaparecimento.
Há no filme um domínio da escuridão – para a qual as crianças correram. Logo de início, é notável que tanto Justine quanto Alex são mostrados de costas: no caso da professora, para expor o quanto ela está socialmente cercada; no do menino, para manter o mistério: por que só ele ficou para trás? O movimento da câmera acompanha o personagem do momento: a professora ameaçada, o pai em luto, o policial que perde a sobriedade, o marginal em fuga, o diretor diante do insólito e, por fim, o menino Alex, com quem os medos da infância ganham forma. Isso se dá com a chegada de Gladys, criatura bruxa-vampira de origens enevoadas – a trama ganha pontos, dando-nos pistas. A menção à tuberculose, por exemplo, remete sua origem ao século XIX, a mesma do American Dream, com a ideia da terra dos livres, repleta de otimismo.
No início, temos apenas vislumbres, que se transformam em visões fragmentárias até finalmente nos serem reveladas por completo. Essas gradações se desenrolam por meio das diferentes perspectivas. Em geral, a atratividade está naquilo que é sugerido. O horror prometido na abertura, com a narração, vai se delineando até tomar forma concreta, algo similar ao que ocorre em Sinners (2025), onde a atmosfera antecede a introdução do sobrenatural.
Entramos no terror com um jump scare discreto, que logo passa à invasão dos sonhos, uma representação do imaginário social. Em seguida, surgem as aparições: uma figura que corre irada, ataca com fúria, olhos esbugalhados, corpo transformado em arma. Então, o grande mal se revela. Essa criatura pouco usa as próprias mãos, sua agressão é pela influência, como em Longlegs (2024). A bruxaria prefigurada na pichação enfim se faz presente: sangue, cabelo, varinha, voilà, a típica bruxa americana. No entanto, o filme tropeça nos clichês da visceralidade corporal, como o vômito de sangue e o cadáver desfigurado. Ainda assim, há um toque contemporâneo. O caldeirão, agora, é um bowl.

Crianças correm de braços abertos, postura rígida que, como compara um pai enlutado, lembra um míssil teleguiado. A construção do corpo como arma funciona melhor quando expressa imageticamente do que quando é dita em palavras; Weapons, focando no mistério, acertaria mais ao privilegiar essa representação. Pouco sutil também é a cena em que Justine dá uma aula sobre parasitas enquanto, em casa, Alex descobre o caráter vampiresco-parasitário da tia Gladys – figura grotesca por excelência, entre vivos e mortos, animalesco e humano. Ela evoca imagens cadavéricas e traços de velhice extrema, como Demi Moore em A Substância (2024) e as diversas versões de Nosferatu. É o fim da inocência: Alex deixa de ser a criança protegida para se tornar cuidador. Sofre com a alienação dos pais e das forças policiais. Passa despercebido pela professora. Seu mundo torna-se opaco, sombrio; impossível não pensar em uma alegoria para o abuso infantil, embora escolher um único caminho interpretativo seja pouco inventivo considerando todas as possíveis portas abertas pelo longa de Cregger.

O monstro Gladys figura uma ameaça social. Weapons ganha novas nuances com uma caça à la Salem. O processo é antropofágico. Em uma subversão do conto tradicional, sob seu próprio feitiço, crianças devoram a bruxa. Assim, o antigo é absorvido; o futuro, roubado, torna-se atravessado por uma destruição voraz, distante de qualquer ideal. A violação da inocência é também o colapso dos últimos resquícios do sonho americano, já carcomido. Pais e filhos se agarram a algo que já se perdeu. Armas foram disparadas; nada será como antes.
Giovana Proença é pesquisadora na área de Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH-USP, na qual dedica-se à literatura estadunidense e às figurações do gótico americano.

