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Ilustração para exportação: uma mostra brasileira na China

por Felipe Machado
2 de setembro de 2011
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Artistas gráficos, designers e ilustradores brasileiros participam do IllustraBrazil, festival que reunirá entre os dias 20 de agosto e 25 de setembro mais de cem obras em Xangai, na ChinaFelipe Machado

Há diversos aspectos culturais que influenciam na percepção da identidade de um povo. A música, sem dúvida, é um dos mais populares, mas há muitos outros. A literatura, a gastronomia e o gosto por determinadas atividades esportivas, por exemplo, representam outras expressões culturais que revelam a identidade dessas pessoas que compartilham uma origem geográfica específica.

Seria possível, no entanto, afirmar que há uma característica visual própria de um país, um estilo que o diferencie dos outros, apenas pelos traços de seus ilustradores ou artistas gráficos?

Se voltarmos no tempo e entrarmos pela porta das grandes escolas de arte, a resposta evidentemente é afirmativa. Difícil imaginar outro berço mais propício para o início do Renascimento do que a Itália do século XVI, assim como seria impossível assistir ao big bang do expressionismo abstrato sem o contexto cultural que brotava em Nova York nos (quase tão) longínquos anos 50. Mas a grande verdade é que o mundo mudou, ficou menor, mais global. E as fronteiras perderam o significado limitador e simbólico que tinham até o final do século XX.

Haveria, então, algum país que conseguiria ficar isolado o suficiente para criar uma identidade visual 100% própria?

Como é de esperar, a Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB) não pretende responder a essas questões com palavras, mas com imagens. A entidade, que desde 2001 reúne mais de duzentos associados, é a organizadora do IllustraBrasil, que já está em sua oitava edição. O evento costuma se alternar entre Rio de Janeiro e São Paulo, mas a partir de 20 de agosto ganha sua primeira edição internacional: a mostra IllustraBrazilreunirá, na galeria The Foundry, em Xangai, mais de cem obras de artistas gráficos brasileiros selecionados especialmente para a ocasião.

Fábio Sgroi, conselheiro da SIB, acredita que existe, sim, um estilo brasileiro, que pode ser reconhecido nas ilustrações principalmente por suas cores e formas. “Como vivemos em um clima tropical, temos a tendência de enxergar a iluminação natural de maneira mais viva e quente do que nos países do Hemisfério Norte, por exemplo. A combinação das cores de nossa vegetação com a luz dos dias claros no país aparece frequentemente em nossas artes, mesmo quando o tema não é tão alegre. Em relação à forma, também optamos por combinações mais orgânicas e impregnadas de movimento”, afirma Sgroi.

O ilustrador Bruno Porto, um dos organizadores da mostra brasileira em Xangai, chegou a essa cidade em 2006, a convite do Departamento de Comunicação Visual do Raffles Design Institute, para dar aulas de Tipografia, Identidade Corporativa e Design Gráfico a alunos chineses. Entre as aulas, trabalhou como consultor para empresas estrangeiras sobre design chinês e ainda sobrou tempo para fazer a curadoria de exposições de cartazes brasileiros e coordenar a 9ª Bienal Brasil de Design Gráfico em Pequim e Xangai.

“Mais do que uma mostra de ilustração brasileira, o IllustraBrazil é uma seleção de diversos aspectos de nossa cultura: natureza, esportes, arquitetura, música, sob o olhar de mais de cem profissionais das artes gráficas. A mostra permitirá que o visitante conheça o Brasil por meio da ilustração.” O evento não terá apenas cunho artístico: além das obras de cunho editorial, haverá espaço para filmes de animação, design de embalagens e peças publicitárias. “Será apresentado um seminário de negócios voltado para editoras, agências de publicidade, produtoras e empresários locais. A ideia é mostrar que o mundo descobriu a ilustração, os quadrinhos e a animação brasileira.” É o caso da graphic novel Daytripper, dos irmãos Fabio Moon e Gabriel Ba, que foram campeões de venda no site Amazon e ganharam críticas positivas no New York Times, ou do ilustrador Luiz Catani, que há duas décadas publica livros infantis na França.

Porto acredita que essa é a hora de os profissionais de criação brasileiros se prepararem para atender a uma demanda estrangeira crescente, uma vez que o Brasil é a “bola da década”, com Copa do Mundo e as Olimpíadas a caminho. “O mundo todo vai querer ‘vender’ Brasil, e temos de deixar claro que somos os mais indicados para isso. A China também passou por algo semelhante, com as Olimpíadas em 2008 e a Feira Mundial de Xangai em 2010.”

A mostra conta com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. Joel Sampaio, cônsul-geral adjunto do Brasil em Xangai, acredita que o evento será essencial para aumentar a sensibilidade dos chineses em relação ao Brasil. “Muitos estudantes virão à exposição. Será ótimo para que tenham um conhecimento mais amplo sobre nosso país”, afirma o diplomata.

O evento terá ainda a participação dos ilustradores Marcelo Martinez e Orlando Pedroso, profissionais e conselheiros da SIB, que darão palestras e promoverão oficinas em universidades locais. “Um evento deste porte no exterior é uma grande vitrine e, ao mesmo tempo, um espelho”, afirma Orlando Pedroso. A imagem que o Brasil quer refletir não tem preço, mas certamente valerá mais do que mil palavras.

Felipe Machado é Diretor de mídias digitais do Diário de S. Paulo e Rede Bom Dia, grupo com jornais distribuídos por dez cidades paulistas. Assina também o blog Palavra de Homem e é autor dos livros Bacana bacana: as aventuras de um jornalista pela Copa do Mundo da África do Sul (2010), Ping Pong: as aventura de um jornalista brasieliro na China olímpica (2008), indicado ao Prêmio Jabuti, e dos romances Olhos cor de chuva (2002) e o Martelo dos Deuses (2007).



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