REPRESENTAÇÃO É PROTEÇÃO

Imaginação política, infâncias e adolescências

Assim como práticas antirracistas que, por serem improvisadas, informais e realizadas em espaços de convívio doméstico — muitas vezes em resposta às vivências cotidianas das crianças — costumam não ser registradas pelas análises sociológicas dos movimentos sociais, seria possível pensar que também existam, no Brasil, atitudes semelhantes voltadas à prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes? Seriam essas práticas, transmitidas entre gerações, portadoras de uma resistência invisível — de uma potência silenciosa?

“Escola de Letramento Racial”, formação de cinco meses para jovens. Assim diziam os cartazes que nos chamaram a atenção, colocados estrategicamente nas paredes da Redes da Maré, organização de mobilizações comunitárias no complexo de 16 favelas da Zona Norte, do Rio de Janeiro. O ano era 2023 e a nossa equipe de documentaristas procurava respostas para uma pergunta difícil e indigesta: como os diferentes territórios combatiam e preveniam, diariamente, as violências sexuais nas infâncias e adolescências? Ainda não sabíamos, mas naqueles cartazes encontrávamos não apenas um método, mas um diálogo que mudaria nossos rumos estratégicos.

O letramento racial consiste em todo processo educativo-formativo que promove a construção, no sujeito, da capacidade de identificar, reconhecer e agir sobre práticas racistas no âmbito de sua cultura e vida cotidiana. Trata-se de um termo que foi primeiramente utilizado pela socióloga afro-americana France Windance Twine em 2003, posteriormente traduzido no Brasil pela psicóloga Lia Vainer Schucman (2014). Twine descreveu práticas e estratégias de letramento racial realizadas por pais e mães na Inglaterra, que não costumam ser registradas nas análises sociológicas dos movimentos sociais antirracistas, justamente por serem improvisadas, informais, realizadas em espaços de convívio doméstico e em resposta às experiências diárias das crianças.

Provocadas, nos perguntamos: assim como as práticas antirracistas realizadas por esses pais e mães, será que existem atitudes brasileiras equivalentes, transmitidas entre gerações, relacionadas à prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes? Seriam elas portadoras de uma resistência invisível, de uma potência? Seria então viável criar, como estratégia, um “Letramento sobre infâncias e adolescências possíveis”? Mudar a forma como nós, sociedade, concebemos infâncias e adolescências pode reduzir diretamente os abusos? Estávamos dispostas a descobrir. A partir dessas reflexões, passamos a produzir conteúdos de narrativas sonoras e visuais dialogando com uma afirmação: as infâncias podem até estar vulnerabilizadas, mas nunca foram fracas, pelo contrário.

Para exemplificar tal exercício de imaginação política, convidamos à análise de três imagens representativas das Histórias do Brasil. Mais do que um instante decisivo, buscamos aqueles ao redor, dentro e fora do quadro, nos quais decisões, vidas e mortes influenciaram diretamente a proteção e o direito das nossas crianças e adolescentes brasileiros.

Mirar a História ajuda a detectar processos que podem necessitar de intervenção e cura para que a pandemia de abusos, tão normalizada, seja eliminada. Se o assunto é difícil, aqui tentamos olhar para ele novamente, para que se Crie Coragem.

Instante 01

O fotógrafo italiano Vicenzo Pastore se estabeleceu em São Paulo como retratista nos anos 1899. O trabalho comercial em seu estúdio lhe oferecia equipamento e insumos para também documentar a cidade em ações cotidianas. Numa atitude rara para a época, Pastore aproveitava a instantaneidade fotográfica e registrava também pessoas marginalizadas, que faziam da rua o campo de sobrevivência: quitandeiras, vendedores ambulantes e crianças trabalhadoras. O acervo de Pastore oferece pistas raras sobre aquele momento, já que a prática fotográfica comum naquele território e época, quase sempre com foco no outro lado, poderia deixar na História a impressão que esses indivíduos sequer existiram.

Meninos engraxates jogam bola de gude. São Paulo, 1910.

Autor: Vicenzo Pastore

Num plano médio com pouca profundidade de campo, vemos o encontro de dez meninos em frente a uma casa e no meio da rua, onde jogam bolinha de gude. Dois meninos carregam caixas de engraxates nas costas, outro menino se senta no que parece ser uma terceira caixa. O grupo de dez pessoas se divide também pelos pés. No lado direito da imagem, dois adultos e dois meninos, todos os quatro calçados. Enquanto os outros seis meninos, do lado oposto, estão descalços.

São recorrentes as fotografias da época nas quais essas crianças, cujo trabalho era justamente limpar e engraxar os sapatos dos outros, mantinham-se descalços. Desde o período colonial no Brasil, o calçado era símbolo de diferenciação social. Mesmo com abolição da escravidão e a Proclamação da República, o calçado continuou sendo importante sinal de status e, na cidade de São Paulo do início do século 20, permanecia como marca de diferenciação de classes sociais.

Nessa época houve uma forte repressão à atividade dos engraxates ambulantes por parte dos governantes, sendo proibida de ser exercida nas ruas de São Paulo em 1901. Enquadrados como vadios e desordeiros, a perseguição aos engraxates era parte da rotina da polícia da cidade na década de 1920, quando as práticas populares de vida e lazer das crianças que vagavam pelas ruas tornaram-se objeto de preocupação de médicos-sanitaristas, industriais e autoridades públicas. Estudiosos da época apontam que a rua passa a ser vista como lugar de perigo para as crianças, “a grande escola do mal” que, supostamente, graduava futuros criminosos.

Em contraste com essas narrativas estigmatizantes, a potência desta imagem de infância encontra-se no destaque ao caráter lúdico do cotidiano de quem sobrevivia nos espaços públicos da cidade. A rua, pode ser, sim, lugar de exposição das infâncias à vulnerabilidade. Mas esta imagem vai além: ela complexifica a ideia do espaço público, ao revelar crianças em movimento, protagonistas de si, que impõem a brincadeira ao cotidiano do trabalho e ainda ditam as regras do jogo.

Instante 02

Trabalhadoras e trabalhadores na frente do Cotonifício Crespi, São Paulo, 1915 (data aproximada).

Autor: Edgar Leuenroth.

São centenas de pessoas, mulheres e crianças com pouquíssimas exceções. Juntas, em frente à fábrica do Cotonifício Crespi em São Paulo, por volta de 1915, elas respondem aos chamados do fotógrafo, Edgar Leuenroth, que também atuava como jornalista, arquivista, tipógrafo e líder anarquista na São Paulo do começo do século 20. Ele entendia a importância daquele amontoado e de seus protagonistas, a ponto de gastar material fotográfico, tão raro, para contar a história do dia em que elas se recusaram a trabalhar.

Nesse prédio localizado na Moóca funcionava uma indústria de tecidos. O topo dele carrega a data de 1897, 19 anos depois do suposto fim da escravidão no Brasil. Tempo suficiente para encher as cidades de famílias imigrantes, vindas de uma Europa empobrecida, com promessas concretas de um governo que buscava embranquecer o país, incluindo as linhas de frente das novas indústrias. Não se identifica com facilidade nenhuma pessoa negra ou indígena na foto. Muitas vezes excluídas do trabalho fabril, estavam ali nos arredores do Brás, travando suas próprias batalhas e sem poder trocar estratégia e luta com as línguas faladas por essas pessoas da foto.

As janelas do prédio, que hoje em dia deixam passar luz sobre as caixas de um atacado, mantém um pouco da curvatura arquitetônica que se vê na imagem aqui analisada. Chama a atenção os arcos de vidro, vitrais de uma quase igreja que, na ausência de santos, oferecem molduras para que algumas daquelas mulheres e crianças se inscrevessem na cena. Sem saber, reivindicavam fazer parte da história eternizada na foto. Seus nomes não sabemos. Ficaram as imagens, a paralisação desse dia e o sentimento cristalizado pela imagem.

Edgar Leuenroth foi, ele mesmo, uma criança trabalhadora de limpeza e recados. Será que via o menino que foi, nesses rostos da foto, ou nas reportagens e jornais que fundou e alimentou? Ele não sabia, mas as mobilizações crescentes dessas crianças e mulheres no Cotonifício Crespi formariam o estopim para a Greve Geral de 1917.

Nem todo adulto carrega suas dores de criança em forma de empatia ou olhar atento. Aparentemente, Leuenroth o fez. Foi preso em 1912 por denunciar e mobilizar revoltas contra o Padre Faustino Consoni, que assassinou uma criança depois de estuprá-la no Orfanato São Cristóvão, no bairro do Ipiranga. O clérigo nunca foi afastado, julgado ou condenado. Leuenroth e outros companheiros de causa foram além da denúncia, criaram unidades da Escola Moderna, conceito de educação anarquista e libertária, nas quais as crianças poderiam acessar alternativas de ensino e tratamento às escolas cristãs da época.

Sob o olhar de Leuenroth, três cenas dentro da cena aqui merecem destaque. A primeira é do jovem de boina, inteiro vestido de preto, que aponta para seus pés, como quem reforça e demanda nosso questionamento aqui discutido: corpo é território. A segunda é do trio que, abraçado, protege o menor de todos. Os dois ligeiramente maiores se olham, fixamente, em reconhecimento mútuo e como grupo. Fortes, coesos. A terceira está no centro da imagem, altiva. A menina se destaca só, recusando-se a conformar-se. É a única que, com os olhos, aponta um porvir.

Instante 03

Marcela Reis, estudante, em protesto de trancaço promovido por secundaristas da rede pública. São Paulo, 2015.

Autora: Marlene Bergamo/ Folhapress.

Em 2015, jovens secundaristas ocuparam centenas de escolas em resposta ao projeto do Governo de São Paulo que previa o fechamento de 94 unidades e a realocação de milhares de estudantes.

Com acesso irrestrito aos prédios escolares e livres da tutela constante de adultos, esses jovens reinventaram os espaços de educação, transformando-os em territórios de novos aprendizados, convivências, trocas de saberes e afetos. Entre aulas de teatro e música, rodas de capoeira, oficinas, cine-debates, uso de turbantes pela primeira vez, apaixonamentos e descobertas, floresceram em suas identidades — raciais, de gênero, de sexualidade.

Mesmo após semanas de ocupações, o Governo insistia em manter o plano. Foi então que os estudantes entenderam que precisavam ir além.

Tomados de coragem e com os corações pulsando, agarraram carteiras e cadeiras. Logo esses instrumentos, tão representativos não apenas da forma como o corpo deve estar em sala de aula, mas também de toda uma lógica de saber — onde só um fala e os outros apenas escutam. As carteiras se transformaram em ferramentas de visibilidade e resistência. Enfileiradas, fecharam vias importantes da cidade. Causaram um caos necessário — aquele que sacode, desacomoda, provoca e transforma.

Na imagem, Marcela Reis flutua em posição de super-heroína. De voz forte, tranças no cabelo e punho cerrado, ela se impõe diante de todo um sistema de opressão. De costas para os carros e prédios, olha para suas companheiras e companheiros de luta. Todos se lembram do porquê de estarem ali. Aplaudem, também se levantam.

A imagem histórica de Marlene Bergamo, uma das mais importantes fotojornalistas brasileiras em atividade, nos lembra que, quando há espaço para crescer e se expressar, as descobertas simplesmente acontecem. Na rua ou nas escolas, as potências, a beleza, a empatia e o senso de comunidade sempre estiveram ali.

E se os adultos dessa cena saíssem de seus carros, ônibus e prédios para ouvirem? Para caminharem ao lado? Todo movimento é, também, um convite à transformação.

Imagens de coragem

Três fotografias, duas delas feitas no início do século 20 e a terceira 100 anos depois, em 2015. Em comum, carregam a imagem de infâncias e adolescências protagonistas de sua própria história, conscientes de sua potência. Há, sim, uma tradição de resistência popular a ser identificada, memorada e celebrada: reconhecimento da força que elas sempre tiveram e que inspira nossa luta atual de proteção à elas.

 

Alícia Peres é diretora da Cria Coragem. Graduada em Jornalismo pela PUC-SP e Mestra em Cinematografia pelo Erasmus Mundus Joint Master, atua na produtora Bruta Mirada compondo imagens e narrativas em documentários e ficções. Desde 2008, integra os núcleos artísticos do Impulso Coletivo, Coletivo Quizumba e Cia Dual.

Julia Rufino é co-diretora da Cria Coragem. Roteirista e diretora de cinema pela Academia Internacional de Cinema. É sócia na produtora Cinedas, onde escreve, dirige e monta os produtos audiovisuais de documentário e ficção desde 2012.

Alexandre Kishimoto é coordenador de pesquisa da Cria Coragem. Antropólogo e documentarista, autor da tese “Nem tudo era japonês – Insurgências negro-indígenas no bairro da Liberdade” (em elaboração na UFABC). É coordenador da Esquisito Filmes.

 

Cria Coragem é uma iniciativa do Instituto Çarê que apoia e constroi novas narrativas sobre as infâncias, com foco na prevenção e erradicação ativa da violência sexual infantojuvenil. Atua de forma multicanal e transmídia, criando pontes entre diferentes públicos por meio de conteúdos que promovem infâncias protegidas, potentes e felizes, a fim de transformar a forma como a sociedade concebe e cuida das crianças e adolescentes. A equipe é formada por Alícia Peres, Alexandre Kishimoto, Heloísa Feliciana, Julia Rufino e Luiza Akimoto. Saiba mais em criacoragem.com.br.  

Cria Coragem | Instituto Çarê

Projeto: Podcast Cria Histórias

Fontes:

  • Twine, F. W. (2004). A white side of black Britain: The concept of racial literacy. Ethnic and Racial Studies, 27(6), 878–907. https://doi.org/10.1080/0141987042000268512
  • Rago, Margareth. Do cabaré ao lar: A utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista (Portuguese Edition). Paz e Terra. Edição do Kindle.
  • Santos, André Augusto de Oliveira. ‘Vai graxa ou samba, senhor?’: a música dos engraxantes paulistanos entre 1920 e 1950. 2015. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
  • de Oliveira, Maria Luiza Ferreira. O olho e o chão. Rosenthal, Hildegard. Metrópole/Hildegard Rosenthal; textos de Maria Luiza Ferreira de Oliveira e Beatriz Bracher. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010.
  • Sontag, Susan. Diante da dor dos Outros. (Portuguese Edition) (p. 72). Editora Schwarcz. 2003.
Leia mais sobre o tema: