Impactos sociais e ambientais da guerra - Le Monde Diplomatique Brasil

UCRÂNIA

Impactos sociais e ambientais da guerra

por Carlos Bocuhy
4 de março de 2022
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Uma guerra nunca foi solução para nada. Causa inúmeros problemas que sequer são dimensionados, e quem paga a conta é o meio ambiente e a população

A ganância envenenou a alma do homem, criou uma barreira de ódio, nos guiou no caminho do assassinato e do sofrimento.

Charlie Chaplin em O grande ditador

 

Guerra é desequilíbrio civilizatório. O musicólogo Henry Barraud dizia que o século XX seria conhecido como “o século da barbárie armada da tecnologia”. Depois de duas guerras mundiais, ele tinha absoluta razão.

Infelizmente estamos ingressando no século XXI assistindo a britzkriegs (guerras-relâmpagos em alemão) sequenciais: a invasão do Iraque em tempo real, o Domo de Ferro antimíssil sobre Jerusalém, a luta transmitida on-line contra o Estado Islâmico, a saga do Afeganistão, o drama dos refugiados da Síria e, agora, a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Esses fatos demonstram a continuidade das guerras que permanecem entre nós, com intensos impactos sociais e ambientais.

Na semana passada a Rússia invadiu a Ucrânia e mais de 1 milhão de refugiados deixaram o país, enquanto centenas de milhares de pessoas saíram de suas casas. A depender das consequências da dominação soviética, mais de 4 milhões de pessoas poderão deixar a Ucrânia. Exemplos históricos de impactos migratórios são muitos, como o êxodo na Síria, com perdas de vidas e imagens que chocaram o mundo.

Os impactos sociais e ambientais de uma guerra são múltiplos e não têm sido devidamente dimensionados.

O planejamento militar objetiva destruir infraestrutura, cadeias de suprimento e provocar pânico e caos no terreno adversário. O adversário somos nós. Tudo o que a humanidade tenta construir a guerra desconstrói. O desenvolvimento passa a ser visto do lado avesso.

A proteção parcial dos civis, por motivos humanitários, evita que a população seja alvo direto. Mas os impactos indiretos provocam sofrimento a todos, sejam crianças ou idosos, sem contar os jovens soldados, de lado a lado. Vidas são perdidas precocemente aos milhares, como está ocorrendo na Ucrânia, além dos casos de mutilação e lesões irreversíveis.

A população sofre ainda impactos com perda de saúde e qualidade de vida. O sofrimento diante da perda de nacionalidade, das referências geográficas, da história, o isolamento, no êxodo dos refugiados, nas perdas e na distância de entes queridos, de amigos e de vizinhos, acaba sendo inevitável. Não há guerra sem perda e sem dor.

Na década de 1930, Stalin apropriava-se da produção de grãos para financiar artificialmente a prosperidade da Rússia e fazer frente à competividade que mantinha com o Ocidente. Como consequência, deixou por anos o povo ucraniano à míngua. A grande fome, conhecida como Holomodor (Holod-fome mor-praga ou morte), levou a população local por vezes à prática do canibalismo.

Os caminhos errôneos trilhados nas desumanidades e os impactos trazidos pelas ambições geopolíticas parecem não ter fim. A humanidade parece não ter apreendido com suas digitais coloniais deixadas sobre os continentes do sul planetário, em especial a África, onde a escravidão causou extremo sofrimento.

Para o meio ambiente não há estado de exceção. Os amargos frutos da dominação e da guerra não podem ser excepcionalizados. Provocam impactos ambientais perfeitamente mensuráveis. No caso da Ucrânia, por exemplo, o avanço militar com deslocamento de grande número de tanques, blindados, veículos pesados, aeronaves de combate, mísseis, artilharia e explosivos lançaram poluição, estilhaços, elementos químicos poluentes e toneladas de carbono na atmosfera, com intensa queima de combustíveis fósseis.

Obviamente, na guerra a contenção da poluição não é prioridade. Resta apenas seu passivo ambiental, com um elevado preço para o ambiente e para a sociedade.

O solo contaminado em Chernobyl sofreu vibrações severas com a passagem de tanques e veículos pesados, liberando poeira com contaminação radiativa que já estava sedimentada no solo.

Veículos pesados atravessaram áreas ambientalmente frágeis, abrindo fogo com artilharia e mísseis. Várias áreas guardiãs de biodiversidade foram impactadas, especialmente as sensíveis áreas úmidas próximas ao litoral, 33 das quais são consideradas de relevância internacional, abrigando 35% da biodiversidade da Europa, com 70 mil espécies de rara e endêmica flora e fauna.

a guerra
(Foto: Levi Meir Clancy/ Unsplash)

Desde a ocupação da Crimeia, em 2014, minas enterradas no solo vêm causando contaminação química com arsênico, mercúrio e chumbo. O Ministério do Meio Ambiente da Ucrânia identificou a perda de 35 áreas onde poços artesianos foram inutilizados em razão da contaminação dos aquíferos, inclusive por destroços e radiatividade decorrente de artefatos militares.

Além disso, o ataque à infraestrutura energética pode ter atingido parte dos quinze reatores nucleares das plantas de geração de energia em funcionamento na Ucrânia, expondo o ambiente à contaminação radiativa. Colossais incêndios em dutos de gás e óleo foram provocados, lançando na atmosfera material particulado carcinogênico. Algumas estações de tratamento de esgoto foram atingidas e coliformes fecais foram liberados nos rios, provocando riscos epidemiológicos que implicam, inclusive, em contaminação na produção de alimentos.

As pessoas mais humildes são as mais vulneráveis aos efeitos da guerra. As implicações econômicas geradas vão do desabastecimento ao aumento do custo de vida, que se reflete não só localmente, mas mundo afora.

A alta do petróleo que alimenta as cadeias logísticas de distribuição de bens e serviços já revela um alto custo. Tomando por base o petróleo, percebe-se que quando a Rússia invadiu a Ucrânia o barril do tipo Brent valia US$90. Após a invasão, o preço saltou para US$105,79, um aumento de 17%, índice que certamente será repassado para as mercadorias.

Os efeitos nocivos da guerra afetam sociedades e o ambiente por muito tempo. O custo da despoluição pode ser proibitivo, especialmente nos cenários de precariedade financeira, pois a guerra é pródiga em legar fragilidades econômicas.

Uma guerra nunca foi solução para nada. Causa inúmeros problemas que sequer são dimensionados, e quem paga a conta é o meio ambiente e a população. Há elevados custos para todos. Todos perdem. Haverá um custo elevado para a Rússia, em vidas humanas e orçamentário.

Ao lado de grandes manifestações em Paris, Londres, Berlin, Nova York e outros, a pressão social de metade da população da Rússia, mais progressista e contra a guerra, enfrenta a polícia e encosta Putin na parede. São Petersburgo demonstrou forte comoção social. Conhecendo as críticas dos movimentos sociais russos de defesa de direitos humanos sobre a administração autoritária de Putin, assim como o sentimento de recalque emocional que assola a Rússia desde a perda de poder com a dissolução da União Soviética, torna-se perfeitamente visível, em Putin, a revolta do modesto espião da KGB que estava sediado em Dresden durante a queda do muro de Berlin.

Com uma história de oportunismo político, Putin ascendeu ao poder com perfil autocrático. Demonstra intenções de revolver o passado e reconstruir o império russo. Não há como não associar este episódio ao cabo da Baviera, Adolph Hitler, que amargou a derrota alemã na primeira guerra mundial para depois anexar à Alemanha a região dos Sudetos tchecos em 1938, sem consultar os próprios interessados. Esse arbítrio inaceitável sobre a autonomia de um povo foi tolerado pelas demais potências para evitar uma nova guerra. De nada adiantou.

Pedro, o Grande, criou no século XVII a marinha russa para enfrentar invasões e saques que ocorriam pelo Báltico. São Petersburgo foi edificada como capital e um bastião contra invasões estrangeiras. Agora, de lá partiu a Marinha para o Mar Negro com a missão de submeter, à força, uma nação independente que não deseja o jugo russo.

No Brasil o episódio contou com o protagonismo desastroso de Jair Bolsonaro em sua visita a Moscou. Emprestou solidariedade a Putin, com a finalidade de garantir insumos agrícolas para sua base eleitoral, os setores mais retrógrados do agronegócio brasileiro. Sua negativa posterior em pronunciar-se diante da violação dos direitos à liberdade da Ucrânia demonstrou uma dúbia “neutralidade”, o que não ocorreu com nossos vizinhos Uruguai, Paraguai e Argentina. Felizmente, ao final, o Itamaraty deu sinais de vida na Assembleia Geral da ONU, retomando a tradição diplomática brasileira de respeitar a soberania das nações.

No saguão das Nações Unidas de Nova York, os representantes dos países se defrontam com a magnífica obra Guerra e paz, do brasileiro Candido Portinari. O arranjo da disposição dos enormes painéis, em duas seções, mostra a guerra para quem entra e a paz para quem sai, assim como deve fazer a boa diplomacia. Portinari nunca viu sua obra na ONU. Os Estados Unidos, em meio ao macartismo, impediram sua entrada por causa das suas convicções ideológicas e laços com o comunismo – e infelizmente sua vida não durou, intoxicado pela contaminação química de sua obra.

O mundo tem de encontrar formas pacíficas de garantir a liberdade dos povos, independentemente de diferentes visões ideológicas. É preciso garantir a independência das nações para que seus povos possam desfrutar, de forma responsável, da riqueza de seus campos e subsolos férteis, livres das garras ambiciosas dos déspotas de plantão.

Neste momento de alta tecnologia balística intercontinental e poderio aéreo, ao mesmo tempo em que Putin critica a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e rejeita uma possível instalação de mísseis próximos de sua fronteira, parece esquecer-se que em 2018 anunciou com alarde o lançamento do míssil balístico intercontinental RS-28 Sarmat, qualificado como “indetectável” e “sem limitação de alcance”.

Essa escalada é perigosa e suicida. Alegando críticas das potências do Ocidente, Putin provoca uma escalada nuclear ao determinar, no último domingo, estado de prontidão para seu arsenal atômico.

Seria muito mais desejável, econômico e civilizado o gradual desarmamento das nações, sem mísseis em qualquer lugar, próximos de fronteiras ou não, incluindo dispositivos “indetectáveis” e “sem limitação de alcance”. É preciso que o espaço dessa gananciosa dominação, permeada por medo e simulações, ceda espaço a uma saudável, progressista e humanitária cultura de paz.

É absolutamente condenável o caminho que vêm trilhando as grandes potências com gastos em armamento, incluindo os membros da Otan. Atualmente são gastos em todo o mundo cerca de US$ 2 trilhões anuais em armas, enquanto a humanidade clama por alimento, saneamento, preservação e conservação ambiental, ao mesmo tempo que o planeta mergulha na crise do aquecimento global, para o qual se alega falta de recursos em sucessivas cúpulas climáticas.

É condenável o uso da força e da violência para subjugar países contra a sua vontade, independentemente das narrativas que possam surgir de lado a lado. Como dizia Winston Churchill, na guerra a verdade é tão preciosa que precisa ser escoltada por mentiras. É da mais alta prioridade combater os falsos argumentos e as fakes news – e criar um escudo cibernético.

Uma das questões mais importantes nestes tempos sombrios é manter a lucidez. O sentimento de rejeição à política externa norte-americana ou russa tem levado por vezes à uma inversão de valores, desconsiderando a atual situação que envolve princípios humanitários.

Há enorme quantidade de vidas humanas em risco e diretamente atingidas pela guerra. Quando se avoca a análise do processo histórico, pode-se considerar causalidades. É preciso priorizar os cuidados com as vulnerabilidades humanas e ambientais e assumir uma posição firme em defesa da vida.

É preciso buscar as questões éticas, de essência, para exercer o humanismo. É preciso olhar para a população, para as crianças, para os mais vulneráveis – e assumir como prioridade os traços de humanidade que distanciam a civilização da barbárie.

 

Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).



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