Imperialismo e a crise da imaginação
Em contextos de crise internacional, reaparecem velhas respostas travestidas de pragmatismo. Diante do acirramento de conflitos, da instabilidade geopolítica e do enfraquecimento das promessas de segurança global, soluções baseadas na ampliação do poder militar voltam a ser apresentadas como inevitáveis e racionais

Os acontecimentos recentes envolvendo Estados Unidos e Venezuela reativaram, no debate público e acadêmico, a defesa do armamento nuclear como resposta à instabilidade internacional. Volta a circular a ideia de que a proliferação de armas atômicas seria um instrumento racional de equilíbrio, inclusive para países do Sul Global. Trata-se de uma formulação conhecida, reiterada em análises estratégicas, colunas de opinião e tradições consolidadas das Relações Internacionais, segundo a qual a ameaça mútua de destruição total funcionaria como garantia de paz. Se todos estiverem armados até os dentes, ninguém ousará atacar. Essa proposta revela uma crise da imaginação. O aumento contínuo dos gastos militares, que bate recordes ano após ano, não produziu um mundo mais seguro. A expansão do aparato militar convive com a incapacidade de reduzir desigualdades globais ou enfrentar crises sistêmicas como o colapso ambiental.
A dificuldade de conceber outras formas de organização do mundo que escapem à lógica do sistema interestatal moderno e à reprodução do capitalismo global gera pânico. Esse terror se manifesta em demandas por respostas rápidas e soluções supostamente técnicas e racionais. É nesse terreno que os ideais clássicos do realismo[1] em Relações Internacionais recuperam força, com a proposta, aparentemente pragmática, de que países do Sul Global deveriam desenvolver arsenais nucleares como estratégia de dissuasão, reproduzindo a lógica de poder das grandes potências globais. Essa formulação ignora que o imperialismo, conforme elaborado por Lênin, não é atributo de determinados Estados, mas uma fase estrutural do capitalismo. Portanto, é um erro achar que a atuação imperial se restringe aos Estados Unidos ou mesmo ao Ocidente. Não obstante, reduzir o problema à distribuição de capacidades militares entre Estados desloca o foco das relações sociais que sustentam a acumulação global. A consequência dessa leitura é a substituição da crítica ao imperialismo por uma disputa entre projetos armamentistas concorrentes.

A lógica que defende o armamentismo estatal desconsidera o imperialismo como forma precária de extrativismo, isto é, superexploração econômica e o reduz a um problema de poder bélico ou demonstração de força. A proliferação de armas nucleares não interrompe as diversas e novas formas de violência demandadas pela acumulação de capital. É necessário recolocar os interesses de classe no centro da análise. Historicamente, enquanto saúde, educação, literatura e artes permanecem subfinanciadas, os gastos com militarização e estratégias de defesa nacional atingem patamares exorbitantes. Em vez de sustentar que Venezuela, Colômbia ou Brasil devam desenvolver arsenais nucleares, o debate deveria se concentrar na construção de autogoverno, na organização da classe trabalhadora e na solidariedade internacional.
A mesma crise do pensamento opera no debate ambiental quando soluções capitalistas e individualizadas são apresentadas como resposta a problemas estruturais. A aposta nos veículos elétricos ilustra esse deslocamento, pois são vendidos como alternativa ecológica, enquanto preservam o núcleo do problema ao manter intacto o modelo de mobilidade baseado no transporte individual, na expansão urbana desigual e na dependência de cadeias globais de extração mineral. A questão não deveria ser quem detém o direito de explorar a natureza, se o petróleo deve ser nosso ou se o comprador será Estados Unidos, China ou Rússia. Como lembra Sabrina Fernandes, há caminhos possíveis para a superação dos combustíveis fósseis, pois impossível é um mundo habitável pautado no consumo vigente. Soluções capitalistas para problemas capitalistas apenas deslocam o impasse. O colapso ambiental é tratado como falha tecnológica a ser corrigida por escolhas individuais de consumo, enquanto permanecem fora do debate a precariedade da mobilidade urbana, o colapso do transporte público, o abandono da malha ferroviária e a subordinação das políticas urbanas aos interesses do capital automobilístico. Há grupos que lucram com a exploração do petróleo, com a expansão do armamento nuclear e com respostas simplificadoras; certamente, não se trata de nossa classe, a maioria da população.
Notas
Gostaria de agradecer à pesquisadora Izadora Xavier do Monte, cujas trocas, diálogos e provocações inspiraram este texto.
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias é doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Referências
https://www.intercept.com.br/2025/12/04/combustiveis-fosseis/
FISHER, Mark. Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
LÊNIN, Vladimir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2021.
WALTZ, Kenneth N. Why Iran Should Get the Bomb: Nuclear Balancing Would Mean Stability. Foreign Affairs, p. 2-5, 2012.
[1] O realismo em Relações Internacionais parte da premissa de que os Estados agem em um sistema internacional anárquico, orientados pela busca de poder, sobrevivência e segurança, tratando a guerra como possibilidade permanente da política.


Muito boa argumentação. Mas, fica a pergunta: quem está em perigo existencial, Venezuela o Ira ou a Coreia do Norte?