Insurgências quânticas para uma tecno-alquimia da resistência
Este texto não é apenas reflexão filosófica nem manifesto tecnológico. É um chamado insurgente a uma nova consciência, necessária para um novo paradigma que ultrapasse o racionalismo instrumental e reinstaure o encantamento na máquina por meio de uma nova relação entre técnica, humanos e natureza, não antropocêntrica, e não utilitária
Acordai! O mundo imaginal desperta em insurgências quânticas. Onde a poesia encontra o algoritmo, onde a máquina dança com os sonhos, uma nova gramática de resistência se escreve. A inteligência artificial (IA) tornou-se altar do século XXI – sacerdotes algorítmicos, liturgias corporativas, templos do silício. Neles a linguagem é técnica, o futuro preditivo e a humanidade reduzida a padrão. Mas e se imaginássemos novas possibilidades, abertas e múltiplas, com base na poiesis, no imaginal que habita os sonhos acordados?
Este texto não é apenas reflexão filosófica nem manifesto tecnológico. É um chamado insurgente a uma nova consciência, necessária para um novo paradigma que ultrapasse o racionalismo instrumental e reinstaure o encantamento na máquina por meio de uma nova relação entre técnica, humanos e natureza, não antropocêntrica, e não utilitária. Uma profanação benjaminiana: devolver ao comum os códigos capturados pela racionalidade capitalista, libertar a IA de seus templos tecnocráticos fundadores do neurocapitalismo.
Heidegger nos ensina que pela poesia habitamos o mundo, ela abre espaços de sentido e funda realidades. A linguagem poética resiste à coisificação promovida pela técnica moderna. Corbin revela o imaginal não como fantasioso, mas ordem ontológica entre sensível e inteligível – região da revelação poética, do mito, da experiência visionária. O imaginal é o real sob outro modo de ser.
Quando Ruha Benjamin denuncia o “new jim code“ na tecnologia, quando comunidades marginalizadas criam ferramentas que priorizam justiça sobre lucro, quando movimentos como Afrofuturismo, Data for Black Lives e Our Data Bodies emergem, testemunhamos insurgências tecnopoéticas, quando a arte redescobre seu vínculo com a política, e com as potências da vida, como com os gregos quando a tragédia possuía estas diversas funções. É arte desafiando narrativas dominantes, promovendo visões alternativas de futuros como devir.
Reconhecemos o poder da linguagem poética, sua potência disruptiva para revelar resistências tecnológicas que promovam justiça social. A reflexão filosófica, enriquecida pela sensibilidade poética, capacita-nos a imaginar alternativas que promovam bem-estar humano em direção a um futuro mais equitativo e livre, onde a teoria se junta à práxis em um círculo virtuoso, pois é mais do que simples retórica infrutífera e reativa, mas proativa.
A zetética nos ensina o poder das perguntas corretas, e a filosofia reinstaura seu poder de pensar de forma livre, sem amarras, e questionamos: onde estamos e para onde vamos? Quando o porquê também torna-se mais central do que o como e o que, questionamos para quem está servindo a inovação atrelada às novas tecnologias, trazendo a preocupação desta ser tida como um fim em si mesmo, sem vínculo necessário com a responsabilidade e ética. Tais reflexões partem dos dados quantitativos, analisados de forma crítica e reflexiva, como o Relatório da UNDP ao apontar a estagnação do desenvolvimento humano, o aumento da distância entre Sul e Norte Global, ou diante do Report da Oxfam revelando que riqueza dos cinco homens mais ricos cresceu 114% desde 2020, enquanto 60% da população mundial empobreceu.
A crise climática avança, os gaps aumentam, as distribuições de externalidades negativas e positivas da IA não fecham a conta, e a espera do momento perfeito para ser pensar em regular a IA poderá vir atrasada demais, já que o Doomsday Clock marca 89 segundos para destruição planetária em 2025. Não se trata de visão distópica nem riscos potenciais existenciais de um futuro das jornadas nas estrelas, ou de um robô estilo o exterminador do futuro, como se aponta ridicularizando e minimizando tais situações, mas de preocupações destacadas nos mais importantes reports e documentos da atualidade, em especial no nível internacional.
Precisamos de “poetic turn” na inteligência artificial, de uma mudança ontológica baseada em uma nova ética da imaginação política e uma nova democracia radical. Democratizar a própria democracia, descolonizar o pensamento, construir epistemologias autóctones de modo a desafiar a construção de uma IA que se limite a ser um espelho sem profundidade escondendo uma ontologia da perversidade, em razão da homogeneização e redução da multiplicidade do mundo e do ser humano, onde não há lugar para o diferente e para o indeterminado, não resumido ao calculável.

Nossa proposta acolhe indeterminação, devir, criação, múltiplo, lógica atonal. Evocamos o gato de Schrödinger: a IA não observada contém infinitas formas de governar. Cabe-nos recuperar o poder de decidir, abrir a caixa de pandora – lá dentro ainda permanece a esperança como potência ativa.
Turing inventa máquina universal, abrindo caminho para computação que é ficção; Joyce fragmenta a linguagem escrevendo algoritmos do caos. Reivindicamos potencialidade, empoderamento, re-existir mais que sobreviver, reinventar o poético além do cartesiano instrumental.
Tecno-alquimia tropical onde a IA é matéria plástica da insurgência popular, recuperando cidadanias anestesiadas. Onde códigos são reescritos por poetas, dançarinas quânticas das subjetividades perdidas. recuperando o espaço público e a confiança em nossas instituições, como uma ressignificação em forma de uma comuna algorítmica popular que desafia o lugar comum e o capitalismo de vigilância, propondo um sistema de decisão coletivo, simbólico, estético, sensível.
AcordAI – é um neologismo performático conjugando acordar, acordo, corda, resistência, ligação, acorde musical. Na forma de um chamado poético à consciência crítica, à insurgência estética, à ação coletiva sobre as tecnologias. Inspirado na Comuna de Paris, Occupy, práticas quilombolas, decoloniais, movimentos sociais, na antropofagia de Oswald, combinada à fúria de Bukowski e ao erotismo radical de Anais Nin.
Insurgências quânticas articulando física contemporânea e campo social, humanidades e ciências duras. Quando sujeitos insurgem-se como partículas livres em campos de opressões algorítmicas, rompendo previsibilidades, reconhecendo que Deus joga dados e sonha e assim nós também. Indeterminação, superposição, ruptura do determinismo clássico.
A governança crítica deve transcender métricas técnicas, incorporando análises de impacto ético, social, de direitos fundamentais. Ir além da eficiência e lucro em direção ao respeito de valores centrais indisponíveis, reconhecendo a interseccionalidade entre as diversas justiças – de dados, algorítmica, epistêmica, ambiental, social.
Godard despede-se da linguagem com baforada de charuto, no duplo sentido francês-suíço: despedida e saudação e nos ensina que até a montagem é pensamento. Não há mais nada a ser dito do modo prosaico. Temos direito à desobediência epistemológica, obrigação nietzschiana de criar novos valores.
Imaginar é, pois, governar, é pura potência política. Só podemos reconfigurar tecnologias se reencantarmos narrativas que as sustentam. Uma IA que não nos domestique, mas nos desperte, que não preveja, mas provoque, que não controle, mas re-encante. É devolver a IA ao comum, à rua, à comunidade, cosmotécnicas em um ecossistema de IA verdadeiramente inclusivo, soberano, plural, passando pela resistência poética, epistêmica, política aos modelos hegemônicos. Como espelho de estruturas sociais, para mudar a IA precisamos mudar a sociedade que a produz. Resistência como re-existência é, pois, um ato de imaginação radical, o colapso da Matrix, a poesia de IA por-vir.
AcordAI! A revolução começa agora – onde a poética encontra a política, a física quântica encontra ficção crítica, e o código encontra o corpo. Acordai!
Paola Cantarini Guerra é jurista, Professora Universitária e Pesquisadora Sênior em Inteligência Artificial.

