Inteligência artificial, crédito privado e o retorno do capital fictício
A economia global não atravessa apenas uma oscilação conjuntural: há uma desaceleração estrutural longa, posterior à crise de 2008, que restringe a capacidade do sistema de produzir prosperidade social ampla
A economia mundial atravessa uma zona histórica de instabilidade que já não pode ser compreendida apenas pelas categorias tradicionais de recessão, inflação ou ciclo financeiro. Há algo mais profundo em curso: uma crise de reprodução do próprio modelo de acumulação capitalista, cuja capacidade de produzir riqueza permanece enorme, mas cuja capacidade de distribuir estabilidade, segurança social, emprego digno e futuro coletivo se mostra cada vez mais reduzida. O capitalismo não está paralisado; ao contrário, move-se intensamente. Mas move-se por meio de contradições crescentes: concentração, financeirização, endividamento, guerra, precarização do trabalho, bolhas tecnológicas, adoecimento psíquico e destruição ecológica.
A próxima crise do capital talvez não comece com a imagem clássica de operadores financeiros em pânico, telas vermelhas e manchetes anunciando a queda de um banco sistêmico. Talvez ela já tenha começado em lugares mais silenciosos: no jovem norte-americano que trabalha, recebe salário e ainda assim não consegue pagar aluguel, comida, transporte, saúde e dívidas; na família europeia que calcula se ainda conseguirá permanecer na própria casa; no trabalhador que adia consulta médica; na juventude que retorna ao quarto dos pais porque a independência se tornou economicamente impossível; no adulto que já não sonha com ascensão social, mas apenas com sobreviver ao mês seguinte.
Esses acontecimentos, aparentemente privados, são sinais públicos de uma crise histórica. A economia mundial ainda é narrada por indicadores agregados – PIB, inflação, juros, bolsas, endividamento, produtividade e comércio internacional –, mas a crise real aparece antes no corpo social. Ela aparece quando o salário deixa de sustentar a vida, quando a moradia se converte em ativo financeiro antes de ser direito humano, quando a juventude perde a perspectiva de futuro e quando o progresso tecnológico convive com o adoecimento psicopatológico de quem trabalha.
O dado mais revelador do presente não é a existência isolada de uma bolha, mas a convergência entre baixo crescimento global, valuations elevados, crédito opaco, concentração monopolista, promessa tecnológica inflada e deterioração das condições concretas de reprodução da vida. Em 2008, a crise nasceu da transformação da moradia popular endividada em ativo financeiro global. Agora, a crise que se anuncia parece nascer de outra forma de promessa: a expectativa de que a inteligência artificial produzirá lucros futuros tão extraordinários que justificariam a valorização presente de grandes conglomerados tecnológicos, fundos, semicondutores, data centers, empresas de energia, plataformas digitais e estruturas de crédito conectadas a esse novo ciclo.
A semelhança com os subprime não está no ativo específico. Não se trata, agora, de hipotecas imobiliárias residenciais de baixa qualidade embaladas em derivativos complexos. A semelhança está na lógica. Em ambos os casos, há uma promessa futura convertida em riqueza presente. Em ambos os casos, o risco é deslocado, empacotado, disfarçado e distribuído por estruturas financeiras pouco transparentes. Em ambos os casos, a ideologia dominante repete a mesma frase histórica de todas as bolhas: “desta vez é diferente”.
A UNCTAD, no documento Global growth expected to slow to 2.6% through 2026, publicado em 3 de dezembro de 2025, projetou que a economia mundial crescerá apenas 2,6% em 2025 e 2026, abaixo dos 2,9% de 2024, abaixo da média pré-pandemia de 3% e muito abaixo da média de 4,4% observada antes da crise financeira de 2008–2009. Esse dado é decisivo porque demonstra que a economia global não atravessa apenas uma oscilação conjuntural: há uma desaceleração estrutural longa, posterior à crise de 2008, que restringe a capacidade do sistema de produzir prosperidade social ampla.
Essa leitura é reforçada pela própria UNCTAD em seu relatório World Economic Situation and Prospects 2026, publicado em 8 de janeiro de 2026, segundo o qual o crescimento global permanece lento e desigual entre regiões. O documento projeta expansão de 2,7% em 2026 e 2,9% em 2027, ainda abaixo da média pré-pandemia de 3,2%, com crescimento fraco na Europa e restrições adicionais em países em desenvolvimento por dívida elevada e choques climáticos.
Esse é o primeiro elemento de semelhança com 2008: a economia real perde fôlego enquanto a economia financeira continua criando narrativas de valorização.
Antes, a narrativa era a de que o mercado imobiliário norte-americano continuaria sustentando a expansão do crédito. Agora, a narrativa é a de que a inteligência artificial abrirá uma nova era de produtividade, lucros e automação capaz de justificar preços crescentes dos ativos. A tecnologia é real, mas a pergunta decisiva é outra: a rentabilidade futura será suficiente para sustentar a capitalização presente?
Toda grande bolha nasce de uma verdade parcial. A bolha ferroviária nasceu de uma transformação real dos transportes. A bolha da internet nasceu de uma transformação real da comunicação. A bolha imobiliária nasceu de uma necessidade real de moradia. A eventual bolha da inteligência artificial nasce de uma tecnologia real, com potencial profundo de reorganizar produção, serviços, linguagem, vigilância, logística, educação, finanças e gestão do trabalho. Mas a existência de uma inovação verdadeira não impede a formação de uma bolha. Ao contrário: as grandes bolhas modernas costumam nascer justamente quando uma inovação real é capturada por expectativas financeiras desmedidas.
O problema, portanto, não é dizer que a inteligência artificial “não existe” ou que não terá efeitos econômicos relevantes. O problema é perceber que o mercado pode estar antecipando, de forma exagerada, uma massa de lucros que ainda não se realizou socialmente. Parte considerável da valorização associada à IA depende da expectativa de produtividade futura, da expansão de data centers, do consumo crescente de energia, do domínio de semicondutores e do controle monopolista de plataformas. Se essa expectativa for frustrada, mesmo parcialmente, a correção de preços poderá atingir não apenas empresas de tecnologia, mas também fundos, fornecedores, credores, seguradoras, bancos, mercados de energia e cadeias globais de investimento.
A segunda semelhança com 2008 está no crescimento de uma estrutura financeira paralela, opaca e insuficientemente testada. O nome contemporâneo dessa zona de risco é private credit, ou crédito privado. Depois da crise financeira global, os bancos foram submetidos a regulações mais rígidas. Parte do risco saiu do sistema bancário tradicional e migrou para fundos, gestoras, seguradoras, veículos privados, private equity e outras formas de intermediação não bancária. O risco não desapareceu. Apenas mudou de endereço.
O Financial Stability Board, no relatório Report on Vulnerabilities in Private Credit, publicado em 6 de maio de 2026, advertiu que o setor de crédito privado apresenta vulnerabilidades decorrentes de sua complexidade, alavancagem e interconexão com bancos, seguradoras e empresas de private equity, podendo amplificar choques em cenários adversos. O FSB também destacou riscos ligados à opacidade de avaliação dos ativos, à qualidade de crédito dos tomadores, aos descasamentos de liquidez, à concentração setorial e ao fato de que o setor ainda não foi testado em uma desaceleração econômica prolongada.
Essa advertência é central. Em 2008, muitos títulos hipotecários pareciam seguros porque estavam estruturados em camadas, avaliados por modelos sofisticados e distribuídos por instituições globais. Hoje, muitos ativos de crédito privado parecem estáveis porque não são negociados diariamente em mercado aberto, porque são avaliados por modelos internos e porque a ausência de marcação transparente reduz a percepção imediata de volatilidade. Mas estabilidade aparente não é estabilidade real. Às vezes, é apenas falta de visibilidade.
A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que o boom do crédito privado começou a esfriar, com desaceleração acentuada na emissão de empréstimos de direct lending nos Estados Unidos, queda de fluxos de investimento, aumento de pedidos de resgate e preocupação com a qualidade de crédito, especialmente em setores como software. Esse dado recente reforça que o crédito privado não é uma abstração técnica distante: ele já apresenta sinais de tensão concreta.
Se a inteligência artificial é o rosto luminoso da nova promessa, o crédito privado pode ser sua engrenagem subterrânea. A IA aparece nas capas dos relatórios como futuro; o private credit aparece nas notas técnicas como risco. A crise pode nascer exatamente da conexão entre essas duas dimensões: expectativas tecnológicas exageradas e estruturas financeiras ilíquidas, opacas e altamente conectadas.
A presença dos imóveis comerciais completa o quadro. O setor de escritórios, shopping centers e propriedades corporativas sofreu alterações estruturais depois da pandemia, com expansão do trabalho híbrido, queda de demanda em centros urbanos e necessidade de refinanciamento sob juros mais altos. Ele talvez não seja o epicentro da próxima crise, mas pode funcionar como uma falha geológica secundária: um canal de contágio para bancos regionais, fundos imobiliários, seguradoras e credores privados.
A diferença em relação a 2008 é que a próxima crise talvez não tenha um único rosto. Não precisa haver um novo Lehman Brothers. Pode haver uma crise em camadas: primeiro, revisão das expectativas de lucro da IA; depois, queda das ações de tecnologia, semicondutores, nuvem e infraestrutura digital; em seguida, aperto no crédito para startups e empresas dependentes de financiamento barato; depois, inadimplências no private credit; por fim, pressão sobre bancos regionais, seguradoras, fundos e mercados de imóveis comerciais.
Esse encadeamento revelaria uma verdade incômoda: a economia contemporânea está novamente sustentada por promessas de valorização futura. Só que agora a promessa não está ancorada na casa própria financiada do trabalhador norte-americano, mas na inteligência artificial monopolizada por poucos conglomerados globais.
A terceira dimensão da crise é a monopolização. O capitalismo contemporâneo já não se parece com a imagem liberal da livre concorrência entre empresas autônomas e dispersas. Ele se organiza em torno de plataformas, oligopólios, fundos, patentes, infraestrutura digital, propriedade intelectual, controle de dados e domínio de cadeias logísticas. A inteligência artificial intensifica essa tendência porque exige escala gigantesca: poder computacional, energia, chips avançados, nuvem, bases de dados e capital intensivo. Poucos grupos conseguem competir nesse nível.
Da perspectiva marxista, isso é decisivo. A monopolização opera como contratendência à queda da taxa de lucro. Quando a concorrência pressiona margens, quando a composição orgânica do capital aumenta, quando os investimentos necessários se tornam cada vez maiores e quando o trabalho vivo é relativamente reduzido pela automação, o capital busca recompor sua rentabilidade por meio de mecanismos extraordinários: monopólio, renda tecnológica, patentes, precarização, redução salarial, financeirização, apropriação de fundos públicos, expansão imperial e endividamento.
Mas essas contratendências não eliminam a crise. Elas apenas a deslocam. O capital consegue preservar lucros elevados no topo, mas ao custo de fragilizar a base social que sustenta a demanda, o trabalho, a legitimidade política e a coesão democrática. É por isso que os lucros podem coexistir com estagnação. É por isso que bolsas podem subir enquanto a vida concreta se torna mais insegura. É por isso que a produtividade tecnológica pode crescer junto com adoecimento, desemprego, informalidade e medo.
A quarta dimensão é geopolítica. A economia mundial está cada vez mais atravessada por guerras, sanções, disputas energéticas, rotas marítimas, semicondutores, terras raras e rivalidades industriais. A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que a Organização Mundial do Comércio identificou sinais de desaceleração do comércio global de bens, apesar da resiliência inicial em 2026. O barômetro do comércio de mercadorias da OMC recuou de 102,3 em janeiro para 101,7, ainda acima da tendência, mas já indicando perda de fôlego. A notícia também registra que a demanda por componentes eletrônicos ligados à IA ainda sustenta parte do comércio, mostrando a ambiguidade do momento: a IA atua simultaneamente como motor parcial de crescimento e como possível núcleo de vulnerabilidade financeira.
Esse ponto é fundamental para uma leitura crítica. A crise econômica contemporânea não é apenas crise de mercado; é crise de hegemonia. Quando a valorização produtiva encontra limites, a disputa geopolítica se torna mecanismo de reorganização da acumulação. Tarifas, guerras, sanções, subsídios industriais, controle de semicondutores, militarização e disputa energética deixam de ser eventos externos à economia. Passam a ser parte da própria economia política do capitalismo em crise.
Mas há uma quinta dimensão, talvez a mais decisiva para compreender o sentido humano da crise: a incapacidade crescente de manutenção básica da vida, inclusive nos países centrais do capitalismo. O Federal Reserve publicou, em 13 de maio de 2026, o relatório Economic Well-Being of U.S. Households in 2025, baseado na pesquisa Survey of Household Economics and Decisionmaking, realizada em outubro de 2025. O relatório informa que, embora a situação geral dos adultos tenha permanecido relativamente estável, o bem-estar financeiro piorou entre jovens adultos, famílias de baixa renda e adultos negros. A instituição também assinala que aumentos de preços permaneceram como a preocupação financeira mais comum entre adultos norte-americanos.
Esse dado precisa ser lido politicamente. Quando jovens adultos em uma das economias
mais ricas da história relatam piora de bem-estar financeiro, não estamos diante de mero problema individual de planejamento. Estamos diante de uma crise estrutural entre salário, custo de vida, dívida, moradia, saúde e instabilidade ocupacional. Quando a juventude trabalha e ainda assim não consegue pagar suas contas, o problema não está apenas na educação financeira do indivíduo. Está na arquitetura econômica que tornou a vida comum mais cara do que a renda ordinária.
A Europa confirma essa mesma tendência. A Eurofound informou, em 14 de janeiro de 2025, com base na pesquisa Living and working in the EU 2024, que 30% dos respondentes relataram dificuldade para fechar as contas, contra 22% em 2023. Na Grécia, esse percentual chegou a 55%. O dado revela que, mesmo depois de alguma melhora nos indicadores macroeconômicos, a inflação acumulada e o custo de vida corroeram a resiliência financeira dos lares europeus.
Aqui a crise econômica ganha rosto humano. A juventude, que deveria ser o tempo da travessia para o futuro, torna-se o tempo da suspensão: suspende-se a saída de casa, suspende-se a formação de família, suspende-se a maternidade ou paternidade, suspende-se o projeto de vida, suspende-se a esperança. O capitalismo prometeu que desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico levariam a mais liberdade individual, mobilidade social e segurança material. Mas a realidade contemporânea mostra jovens mais qualificados vivendo mais inseguros; trabalhadores empregados incapazes de pagar contas; famílias adiando cuidados médicos; adultos retornando à dependência familiar; moradia convertida em privilégio.
É nesse ponto que o tema do adoecimento psicopatológico causado pela superexploração do trabalho deve ingressar no centro da análise. A crise contemporânea do capitalismo não se manifesta apenas como queda de crescimento, instabilidade financeira ou bolha de ativos. Ela aparece também como sofrimento psíquico massificado. Antes de se tornar crise aberta dos mercados, ela aparece como ansiedade, depressão, burnout, pânico, insônia, exaustão, medo de demissão, perda de sentido e colapso subjetivo diante de uma organização do trabalho que exige disponibilidade total, produtividade crescente e adaptação permanente.
O capitalismo contemporâneo já não explora apenas a força física do trabalhador. Ele captura sua atenção, sua linguagem, sua criatividade, sua afetividade, sua capacidade relacional e até sua esperança. O trabalhador não vende apenas horas de trabalho. Vende energia psíquica, disponibilidade emocional, velocidade de resposta, capacidade de absorver pressão e disposição para transformar sofrimento em desempenho.
A psicodinâmica do trabalho, especialmente a partir de Christophe Dejours, permite compreender que o adoecimento mental não nasce apenas de uma fragilidade individual. Ele emerge da relação concreta entre sujeito e organização do trabalho. O sofrimento aparece quando há ruptura entre o trabalho prescrito e o trabalho real; quando o trabalhador é impedido de mobilizar sua inteligência prática; quando o reconhecimento desaparece; quando a cooperação é substituída pela competição; quando metas abstratas, rankings, algoritmos e comandos gerenciais negam a experiência concreta do trabalhador.
Essa perspectiva permite superar a leitura moralizante do adoecimento. Não se trata de um indivíduo fraco diante de um mundo exigente. Trata-se de um mundo organizado para exigir mais do que o corpo e o psiquismo podem sustentar. A superexploração do trabalho não deve ser compreendida apenas como aumento da jornada ou redução salarial direta. Ela se expressa também na intensificação invisível do trabalho: metas inalcançáveis, cobrança permanente, vigilância digital, disponibilidade fora do expediente, medo de substituição tecnológica, precarização contratual e responsabilização individual por problemas estruturais.
É aqui que o capitalismo flexível revela sua violência específica. Sob a promessa de autonomia, mobilidade, inovação e empreendedorismo de si, ele transfere ao indivíduo os riscos da instabilidade sistêmica. A empresa flexibiliza custos, vínculos, equipes, jornadas e metas; o trabalhador absorve ansiedade, culpa, insegurança e adoecimento. A flexibilidade do capital torna-se rigidez psíquica para quem trabalha. Aquilo que aparece nos relatórios empresariais como eficiência aparece na vida concreta como colapso nervoso.
A inteligência artificial intensifica essa contradição. Ela poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento e libertar tempo humano. Mas, sob comando monopolista e financeiro, tende a ser incorporada como tecnologia de corte de custos, vigilância, substituição, aceleração e controle. A IA não chega, para a maioria dos trabalhadores, como promessa de descanso. Chega como ameaça silenciosa: “serei substituído?”, “meu trabalho ainda terá valor?”, “quantas tarefas a mais terei de cumprir agora que a máquina aumentou a produtividade esperada?”.

Essa é a conexão mais profunda entre crise financeira e adoecimento mental. O capital fictício antecipa lucros futuros; a organização do trabalho antecipa sofrimento presente. O mercado precifica uma produtividade que ainda não se realizou; a gestão cobra do trabalhador uma performance que seu corpo e sua mente talvez não consigam sustentar. Assim, a bolha da inteligência artificial não é apenas uma bolha de ativos. É também uma bolha de expectativas humanas insuportáveis.
A crise psicopatológica do trabalho não é uma externalidade do capitalismo contemporâneo. Ela é parte de seu modo de funcionamento. A depressão, a ansiedade, o burnout e o pânico não podem ser reduzidos a categorias clínicas isoladas quando aparecem massivamente em ambientes organizacionais marcados por metas agressivas, competição interna, medo, assédio, invisibilidade e ausência de reconhecimento. O que aparece como diagnóstico individual muitas vezes é a forma clínica de uma violência social.
Essa talvez seja uma das violências mais sofisticadas do capitalismo contemporâneo: produzir sofrimento estrutural e depois privatizar sua explicação. O que é social aparece como psicológico. O que é político aparece como clínico. O que é exploração aparece como falta de resiliência. O que é organização patogênica do trabalho aparece como fragilidade pessoal do trabalhador.
Contra essa inversão, é necessário recolocar o adoecimento mental no centro da crítica econômica. A crise do capitalismo é também crise da alma trabalhadora. O sistema exige que o indivíduo seja permanentemente produtivo em uma economia permanentemente instável. Exige serenidade em meio à ameaça, criatividade em meio ao medo, engajamento em meio à exaustão, flexibilidade em meio à precarização. Depois, quando o trabalhador adoece, o mesmo sistema o trata como problema individual, custo previdenciário, baixa produtividade ou falha de adaptação.
O que está diante de nós, portanto, não é simplesmente uma possível “bolha da IA”, entendida como fenômeno financeiro isolado. A bolha da inteligência artificial é expressão de algo mais profundo: a tentativa do capital de encontrar uma nova fronteira de valorização num momento de baixo crescimento estrutural, saturação de mercados, concentração monopolista, instabilidade geopolítica, pressão sobre a taxa de lucro e colapso subjetivo da força de trabalho.
A inteligência artificial aparece, nesse contexto, como promessa de salvação produtiva. Mas, sob o comando do capital, tende a se converter também em tecnologia de vigilância, intensificação do trabalho, substituição de empregos, controle algorítmico, precarização e concentração de poder. A máquina poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento, ampliar capacidades humanas e liberar tempo social. Mas, subordinada à acumulação privada, tende a chegar ao trabalhador como ameaça, meta, corte, monitoramento e ansiedade.
A contradição é brutal: a sociedade produz instrumentos técnicos capazes de ampliar a liberdade humana, mas os organiza segundo uma lógica que amplia a dominação econômica. Essa é a diferença entre desenvolvimento das forças produtivas e emancipação social. Uma tecnologia revolucionária pode se tornar socialmente regressiva se estiver aprisionada pela forma-mercadoria.
A bolha mais perigosa, portanto, talvez não seja apenas a financeira. A bolha mais profunda é ideológica: a crença de que o capitalismo poderá resolver, por meio de uma nova tecnologia, contradições que são sociais, políticas e históricas. A inteligência artificial pode aumentar produtividade, mas não resolve a desigualdade se os ganhos forem apropriados por monopólios. Pode automatizar tarefas, mas não garante redução de jornada se o poder permanecer nas mãos do capital. Pode reorganizar a produção, mas não elimina a exploração se a propriedade dos meios tecnológicos continuar concentrada.
Se houver uma crise, ela provavelmente será narrada como excesso de entusiasmo, correção de mercado, falha regulatória ou problema de liquidez. Mas essa explicação será insuficiente. A crise será, antes de tudo, o momento em que o capital fictício criado em torno da promessa tecnológica encontrará os limites da produção real de valor. Será o instante em que o futuro antecipado pelos mercados exigirá comprovação no presente – e talvez descubra que grande parte da riqueza precificada era expectativa, não substância.
Em 2008, a crise revelou que milhões de contratos hipotecários não poderiam sustentar a pirâmide financeira construída sobre eles. Na próxima crise, talvez se revele que a inteligência artificial, embora real e poderosa, não consegue sustentar sozinha a massa de expectativas, dívidas, valuations e monopólios erguidos em seu nome.
O roteiro possível é conhecido: primeiro, uma correção nas empresas mais valorizadas; depois, retração de investimento; em seguida, inadimplência em empresas frágeis; depois, pressão sobre fundos de crédito privado; por fim, intervenção estatal direta ou indireta para evitar contágio sistêmico. Mais uma vez, os ganhos terão sido privatizados, enquanto as perdas buscarão abrigo no Estado, no orçamento público, no desemprego, na austeridade e no sofrimento social.
A questão decisiva, portanto, não é apenas prever qual bolha vai estourar. É compreender por que o capitalismo precisa produzir bolhas sucessivas para continuar funcionando. A resposta está na própria lógica da acumulação: quando a valorização produtiva encontra limites, o sistema antecipa valor futuro por meio de ativos financeiros; quando a renda do trabalho não sustenta a demanda, expande o crédito; quando a concorrência reduz margens, intensifica a monopolização; quando a legitimidade social se desgasta, recorre à guerra, à austeridade e ao nacionalismo econômico; quando o trabalhador adoece, privatiza o sofrimento e o converte em diagnóstico individual.
A próxima crise, se vier, não será um acidente externo ao capitalismo. Será uma manifestação de sua racionalidade interna. O capital não entra em crise porque deixa de funcionar. Entra em crise porque funciona de acordo com sua própria lógica: acumular, concentrar, antecipar, explorar, deslocar e, quando necessário, destruir valor para reconstruir as condições de uma nova rodada de acumulação.
A inteligência artificial não é o inimigo. A tecnologia não é o problema em si. O problema é uma civilização que transforma cada avanço técnico em instrumento de acumulação privada, cada ganho de produtividade em ameaça ao trabalho, cada inovação em monopólio, cada crise em oportunidade de concentração e cada promessa de futuro em ativo financeiro.
A próxima bolha pode estar na IA financeirizada. O mecanismo de contágio pode estar no crédito privado. A falha secundária pode estar nos imóveis comerciais. Mas o núcleo da crise é mais profundo: o capitalismo global já não consegue oferecer à humanidade uma promessa universal de progresso. Consegue produzir máquinas inteligentes, mas não consegue produzir uma sociedade racional. Consegue organizar redes planetárias de dados, mas não consegue garantir saúde, moradia, trabalho digno e estabilidade democrática. Consegue antecipar lucros futuros, mas não consegue assegurar futuro à vida.
Essa é a verdadeira crise: não apenas a queda possível dos ativos, mas a queda concreta da vida abaixo de seu mínimo humano. E quando a vida já não cabe no salário, quando a juventude já não cabe na promessa, quando a tecnologia já não cabe na esperança e quando o trabalho já não cabe no psiquismo, a crise deixa de ser previsão econômica. Torna-se experiência histórica.
Essa crise já começou.
Flaviano Correia Cardoso é advogado humanista, pesquisador independente, escritor e ativista global.
Fontes e documentos utilizados
UNCTAD — “Global growth expected to slow to 2.c% through 202c”
Publicado em 3 de dezembro de 2025. Dado utilizado: projeção de crescimento global de 2,6% em 2025 e 2026, abaixo de 2,9% em 2024, abaixo da média pré-pandemia de 3% e muito abaixo da média de 4,4% anterior à crise financeira de 2008–2009.
UNCTAD — “World Economic Situation and Prospects 202c”
Publicado em 8 de janeiro de 2026. Dado utilizado: crescimento global projetado em 2,7% em 2026 e 2,9% em 2027, ainda abaixo da média pré-pandemia de 3,2%, com crescimento desigual e restrições em países endividados e vulneráveis a choques climáticos.
Financial Stability Board — “Report on Vulnerabilities in Private Credit”
Publicado em 6 de maio de 2026. Dado utilizado: alerta sobre vulnerabilidades do crédito privado, incluindo complexidade, alavancagem, interconexões com bancos, seguradoras e private equity, opacidade de valuation, qualidade de crédito e descasamentos de liquidez.
Reuters — “Signs global trade in goods is starting to slow, WTO says”
Publicado em 5 de junho de 2026. Dado utilizado: barômetro do comércio de mercadorias da OMC recuou de 102,3 em janeiro para 101,7, indicando desaceleração relativa do comércio global, ainda parcialmente sustentado por componentes eletrônicos ligados à IA.
Federal Reserve — “Economic Well-Being of U.S. Households in 2025”
Publicado em 13 de maio de 2026. Dado utilizado: bem-estar financeiro geral relativamente estável, mas com piora entre jovens adultos, famílias de baixa renda e adultos negros; aumentos de preços permanecem como principal preocupação financeira.
Eurofound — “Living and working in the EU 2024” / comunicado sobre dificuldade de fechar as contas
Publicado em 14 de janeiro de 2025. Dado utilizado: 30% dos respondentes relataram dificuldade para fechar as contas em 2024, contra 22% em 2023, chegando a 55% na Grécia.

