Interseccionalidades para a vida e não para a morte
Racismo, machismo, misoginia, capacitismo, colonialismo e empobrecimento continuam definindo quem acessa direitos e quem permanece à margem
Em 12 de agosto, celebramos o Dia Internacional da Juventude, instituído pelas Nações Unidas para dar visibilidade aos direitos das juventudes e reafirmar seu papel na construção de sociedades mais justas. Falar de juventude exige reconhecer sua pluralidade, suas identidades, territórios, trajetórias e experiências.
Enquanto a ONU considera jovens as pessoas entre 15 e 24 anos, no Brasil o Estatuto da Juventude reconhece a faixa etária de 15 a 29 anos. São cerca de 46,5 milhões de jovens, o equivalente a 21,8% da população brasileira (PNAD Contínua/IBGE). Esses números representam vidas, sonhos e direitos que precisam ser garantidos no presente para que o futuro seja menos desigual.
O reconhecimento da juventude como sujeito de direitos é recente. A criação da Secretaria Nacional de Juventude, do CONJUVE e a aprovação do Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013) consolidaram direitos fundamentais, como educação, saúde, cultura, trabalho, participação social e sustentabilidade. No entanto, a distância entre a legislação e a realidade permanece marcada por profundas desigualdades.
As interseccionalidades mostram que raça, gênero, território, deficiência, orientação sexual e condição socioeconômica não apenas se somam: elas multiplicam desigualdades historicamente produzidas. Hoje, 7,9 milhões de jovens estão fora da escola sem concluir a educação básica; sete em cada dez são negros. Cerca de 9 milhões não estudam nem trabalham, e 65% dos jovens na informalidade também são negros (PNAD Contínua). A pobreza, o desemprego e a exclusão seguem tendo cor, território e classe social.

As desigualdades são ainda mais severas entre juventudes indígenas, quilombolas, rurais e periféricas, além de jovens com deficiência, migrantes, refugiados e aqueles privados de liberdade. Jovens mulheres enfrentam, além das desigualdades de gênero, a gravidez na adolescência e, muitas vezes, a maternidade solo. São juventudes frequentemente invisibilizadas pelas políticas públicas.
Essas realidades revelam que racismo, machismo, misoginia, capacitismo, colonialismo e empobrecimento continuam definindo quem acessa direitos e quem permanece à margem. O direito ao território é central nesse debate. Cidade, aldeia, quilombo, campo e periferia não são apenas espaços geográficos; são lugares de pertencimento, identidade e memória. Sem território não há raízes; sem raízes, dificilmente floresce o futuro.
Garantir educação de qualidade, inclusão digital sem apagar ancestralidades, trabalho digno, cultura, participação política e proteção social significa reconhecer que nenhuma juventude é vulnerável por natureza. As vulnerabilidades são produzidas por escolhas históricas e políticas.
Essa geração também enfrenta a crise climática, herdando os impactos de um modelo de desenvolvimento que aprofundou injustiças sociais e ambientais. Ao mesmo tempo, carrega conhecimentos ancestrais, criatividade e potência para construir novos modos de bem viver.
As pesquisas Juventudes Fora da Escola (2024) e Juventudes, Educação e Projeto de Vida (2020) mostram que a maioria dos jovens deseja concluir os estudos, conquistar autonomia e transformar sua realidade. Para que esses sonhos não sejam interrompidos pela violência e pela exclusão, é indispensável enfrentar o racismo estrutural, demarcar terras indígenas e quilombolas, promover inclusão, combater o feminicídio, prevenir a gravidez na adolescência, erradicar o trabalho infantil e fortalecer políticas para juventudes migrantes e refugiadas.
Direitos humanos não são despesas; são investimentos. O orçamento público precisa financiar a vida, e não a exclusão.
Inspirada no tema deste ano – “Contextos diferentes, aspirações comuns” – acrescento: contextos diferentes, aspirações comuns para o Bem Viver. Neste 12 de agosto, jovens negros e periféricos do Distrito Federal lançam a campanha Perifa nas Urnas, convocando a sociedade a votar com consciência das desigualdades e das interseccionalidades. É um chamado por representantes comprometidos com a justiça social, a justiça fiscal e a justiça climática. Porque as juventudes não são o futuro. Juventudes são o agora.
Dyarley Viana é assessora política do Inesc.

