Israel perde o apoio dos judeus norte-americanos - Le Monde Diplomatique

Israel perde o apoio dos judeus norte-americanos

por Eric Alterman
31 de Janeiro de 2019
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As relações entre o governo de Israel e os judeus dos Estados Unidos estão cada vez mais distantes. Enquanto o primeiro aprofunda sua opção pela extrema direita, os segundos ancoram-se mais e mais no campo progressista, fustigando a ocupação e a colonização – políticas apoiadas pela Casa Branca

A lista de convidados na inauguração da nova embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, em 14 de maio de 2018, era surpreendente. Ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, estavam os pastores evangélicos John Hagee e Robert Jeffress. Hagee considera que Adolf Hitler foi o “braço armado de Deus”;1 Jeffress acredita que todos os judeus estão destinados ao inferno. Um e outro animam a corrente mais favorável a Israel na sociedade norte-americana: a dos cristãos conservadores sionistas.2 Sheldon Adelson e Miriam Adelson também estavam presentes. Esse casal de magnatas do setor dos cassinos é o principal doador do Partido Republicano, para o qual contribuiu com US$ 82 milhões em 2016 e com US$ 113 milhões para as eleições de 2018.3 Ambos demonstram apoio inabalável ao governo conservador de Netanyahu. Por exemplo, a senhora Adelson tornou-se recentemente a editora de Israel Hayom, um folheto de propaganda pró-“Bibi” (diminutivo de Benjamin) amplamente financiado por seu marido.

Em contrapartida, o público não incluía judeus progressistas. Estes não tinham sido convidados para a cerimônia. Eles são, no entanto, maioria nos Estados Unidos: nas eleições de meio de mandato de novembro de 2018, três quartos dos eleitores judeus teriam votado num candidato democrata, de acordo com as pesquisas realizadas na boca de urna.

 

“Os arruaceiros antirracistas”

Donald Trump e Netanyahu não têm em comum apenas o apoio dos cristãos sionistas e do casal Adelson. Ambos gostam de justificar seus fracassos apoiando-se em teorias da conspiração. Eles também se mostram surpreendentemente relaxados diante do crescente antissemitismo na Europa e nos Estados Unidos. Em agosto de 2017, militantes neonazistas desfilavam em Charlottesville gritando: “Não vamos deixar os judeus nos substituírem”. Um dos manifestantes avançou com seu carro sobre uma multidão de opositores antirracistas e matou uma mulher. Como reação, Trump deu as costas a ambos os lados, explicando que as reuniões de extrema direita contavam também com “pessoas muito boas”. Por seu lado, o primeiro-ministro israelense esperou três dias antes de reagir e depois se contentou com um tuíte lacônico que nem sequer mencionava o nome do presidente norte-americano. Ele preferiu deixar para seu filho o cuidado de se dirigir à sua base política, como Trump por vezes faz com sua filha ou seu genro. Os neonazistas “pertencem ao passado. Sua raça está em via de se extinguir”, assegurou então Yair Netanyahu nas redes sociais. “Por outro lado, os arruaceiros antirracistas e aqueles do Black Lives Matter que odeiam meu país (e os Estados Unidos também, na minha opinião) estão se tornando cada vez mais fortes e começando a dominar as universidades e a vida pública norte-americanas.”

Mais recentemente, enquanto um admirador fanático de Trump acabava de assassinar onze judeus em uma sinagoga de Pittsburgh, em 27 de outubro de 2018, representantes do governo israelense se dirigiram precipitadamente ao local do crime sem terem sido convidados. Recusando-se a atribuir qualquer responsabilidade pelo evento à retórica cheia de ódio do presidente norte-americano, eles acusaram mais uma vez a esquerda. Naftali Bennett, ministro da Diáspora e da Educação, chefe do Lar Judaico, um partido nacionalista ultrarreligioso, refutou – sem fornecer a mínima prova – as estatísticas da Liga Antidifamação sobre a ascensão do antissemitismo de extrema direita desde a entronização de Trump. O cônsul-geral de Israel em Nova York, Dani Dayan, invocou, por seu lado, o antissemitismo (imaginário) do líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn. Essas declarações tomavam o caminho oposto da marcha silenciosa organizada pela comunidade judaica de Pittsburgh em sinal de protesto contra Trump. Elas também contradizem as palavras de Jeffrey Myers, o rabino da sinagoga visada, em um sermão curto em 3 de novembro: “Senhor presidente, discursos de ódio levam a atos de ódio. Discursos de ódio levam a isso que aconteceu no meu santuário”.

Todas as pesquisas recentes mostram:4 o fosso se aprofunda entre os judeus israelenses, que levaram ao poder um governo próximo da extrema direita, e seus correligionários norte-americanos, sempre mais próximos do lado progressista. Uma maioria de israelenses odiava Barack Obama; hoje eles adoram Trump e votam em partidos que apoiam a colonização e a ocupação sem fim da Cisjordânia. Por outro lado, uma grande proporção de judeus norte-americanos apoiava Obama e denunciava a colonização.

 

Soldados e fundadores de kibutzim

Estes últimos estiveram por muito tempo divididos entre o progressismo político e o desejo de apoiar Israel. Antes de 1948, a ideia de que um “povo” judeu deveria se encarnar por meio da fundação de um Estado estava longe de ser evidente nos Estados Unidos. Ela desagradava particularmente aos judeus abastados que tinham imigrado da Alemanha, muito influentes nos círculos intelectuais: com frequência membros de congregações reformistas, eles desconfiavam do sionismo porque consideravam o judaísmo principalmente uma religião e não queriam que se pudesse colocar em dúvida seu patriotismo. Depois de 1945, no entanto, sua relutância foi varrida pelo genocídio. Os judeus muito religiosos e tradicionalistas também rejeitavam o sionismo, convencidos de que o advento de um reino hebreu era responsabilidade de Deus, não dos homens.

Nas três décadas seguintes, instalou-se a unanimidade no que se referia ao apoio a Israel. Judeus norte-americanos que podiam falar ao público – jornalistas, intelectuais, líderes políticos, artistas etc. – começaram a celebrar insistentemente o novo Estado, relegando à margem as poucas vozes dissonantes, como as do linguista Noam Chomsky ou do jornalista independente Isador Feinstein Stone (falecido em 1989). Durante essas décadas, ambos continuaram a criticar o tratamento dado por Israel à sua minoria árabe, assim como sua absoluta recusa em buscar uma solução para a situação dos refugiados palestinos.5

A vitória israelense de 1967 constituiu um motivo para celebrações intensas e até de júbilo para os judeus norte-americanos. Assustados com os discursos do presidente egípcio à época, Gamal Abdel Nasser, contra Israel, eles temiam a perpetração de um “segundo Holocausto”. Portanto, viram com bons olhos o esmagamento dos exércitos árabes. “[A Guerra dos Seis Dias] uniu os judeus norte-americanos de uma forma nunca antes vista e deu origem a um envolvimento por parte de muitos judeus que antes não se importavam”, escreveu o rabino Arthur Hertzberg dois meses após o fim do conflito. “Nenhum termo da teologia ocidental permite explicar esse fenômeno. A maioria dos judeus experimenta essas emoções sem saber como defini-las […]. Pode ser que Israel sirva como um catalisador da lealdade emocional em relação ao judaísmo e permita, assim, conservar o senso da identidade judaica”.6 No entanto, uma minoria de judeus, em boa parte jovens simpatizantes de esquerda, escapou dessa tendência, sem dúvida por aderir à leitura revolucionária segundo a qual a Palestina, o Vietnã, a Argélia, Cuba e até a América negra faziam parte da mesma luta anti-imperialista. Mas essa posição quase não tinha ressonância política. Ela não contava com nenhum representante nas organizações profissionais judaicas nem nas sinagogas, muito menos no Congresso ou na Casa Branca.

O vento começou a mudar em 1977, quando o Likud, então liderado por Menachem Begin, pôs fim ao longo domínio dos trabalhistas em Israel. As grandes figuras do Partido Trabalhista posavam de heróis na comunidade judaica norte-americana. Soldados, universitários e fundadores de kibutzim pareciam capazes de “fazer florescer o deserto” com uma das mãos e defender seu país com a metralhadora na outra. Mas Begin estava muito distante desse ideal. Seu formalismo arcaico, sua incapacidade de considerar os árabes com benevolência – ele os via como um povo atrasado – e seu apoio sistemático aos colonos colocaram fim à longa lua de mel entre seu país e os judeus norte-americanos.

A invasão do Líbano por Israel em 1982 e o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Shatila acentuaram ainda mais o rompimento. Pela primeira vez nos Estados Unidos, a grande mídia tratou os eventos de uma forma desfavorável aos israelenses. Em uníssono com vários rabinos de renome, o New York Times condenou o cerco de Beirute durante o verão de 1982. Como Anthony Lewis, jornalistas que se proclamavam judeus, influenciados pelo livro A questão palestina, publicado por Edward W. Said em 1979, multiplicaram os fóruns para defender a causa palestina. Jornais progressistas (The Nation e The New York Review of Books, por exemplo) começaram a se confrontar com publicações conservadoras alinhadas à direita israelense, como The New Republic, então liderado por um apoiador incondicional de Israel, Marty Peretz, e Commentary, revista pertencente ao American Jewish Committee, então editada pelo neoconservador Norman Podhoretz. A estreita cooperação de Tel Aviv com a África do Sul e com várias ditaduras latino-americanas – particularmente nos campos militar e de inteligência – acabou por desiludir muitos judeus norte-americanos progressistas.

Em nome do apoio a Israel e de seus próprios interesses econômicos, os judeus neoconservadores muitas vezes tentaram persuadir seus correligionários a desistir do voto democrático. Ansioso por colocar seus compatriotas de volta nos trilhos, Podhoretz perguntava em 2008 em Commentary: “Por que os judeus são progressistas?”7 – uma pergunta já formulada por Milton Himmelfarb na mesma revista em 1967. Segundo ele, essa sensibilidade resultava de um problema de compreensão: os judeus norte-americanos teriam dificuldade em entender seu lugar na sociedade e seriam incapazes de reconhecer os verdadeiros amigos de Israel. Em 2012, a Republican Jewish Coalition, organização judaica conservadora, lançou uma campanha de comunicação chamada “Meus remorsos”, financiada por Adelson e destinada a convencer os judeus norte-americanos a se voltarem para o Partido Republicano. Mas, novamente, a tentativa não alcançou nenhum sucesso.

 

Rejeição em massa à colonização

Em 2013, o Departamento Religião e Vida Pública do Centro de Pesquisas Pew publicou a maior pesquisa já realizada entre judeus norte-americanos (3.500 entrevistas qualitativas, 70.000 questionários preenchidos por computador…).8 Para definir sua identidade coletiva, a esmagadora maioria dos entrevistados citou uma combinação de fatores: práticas religiosas, senso de pertencimento à comunidade, valores humanísticos, disposição de manter a memória do Holocausto, simpatia por Israel, ou mesmo alimentação e senso de humor. Mas ninguém mencionou o apego às políticas conservadoras ou à colonização israelense. Além disso, o apoio a Israel está diminuindo ano a ano, especialmente entre os judeus de 18 a 29 anos.

De maneira mais geral, o Pew Center trouxe à luz uma reversão completa dos simpatizantes democratas. Em 2001, 48% deles apoiavam Israel, em comparação com 18% que disseram ser a favor dos palestinos. Agora, são 35% a apoiar os palestinos, em comparação com 19% para Israel.9 Organizações dirigidas por jovens judeus norte-americanos, como IfNotNow e J Street U (o ramo universitário da J Street), reúnem pessoas que odeiam a ocupação e a colonização pelo menos tanto quanto amam Israel. Leitoras do diário esquerdista israelense Haaretz, elas esperam cooperar com grupos de defesa de direitos humanos e de crítica à ocupação, como Breaking the Silence, The New Israel Fund, B’Tselem, Molad, Peace Now, e a publicação on-line +972.

O governo de Netanyahu, no entanto, parece pensar que pode prescindir do apoio dos judeus e dos progressistas norte-americanos, que às vezes considera traidores, e se contentar com o de Trump e da extrema direita de uma boa parte do mundo.

 

*Eric Alterman é jornalista.

 



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