Jordânia espera por sua primavera - Le Monde Diplomatique

ORIENTE MÉDIO

Jordânia espera por sua primavera

por Hana Jaber
3 de agosto de 2012
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A poderosa organização Irmandade Muçulmana da Jordânia decidiu boicotar o escrutínio legislativo previsto para o fim do ano. Em questão, uma lei eleitoral que favorece as zonas tribais e, principalmente, a resistência do rei em empreender verdadeiras reformasHana Jaber

(Reis Abdullah bin Abdulaziz Al Saud (Árabia Saudita) e Abdullah II), aliados dos EUA no Oriente Médio)

Amã também está soltando a voz. No bairro de Lweibdeh, Nader, dono de um restaurantezinho simples, não é um comerciante comum: é um reconhecido dramaturgo. “Veja onde foi parar a cultura aqui: eu sirvo coshary [prato egípcio popular] para poder fazer teatro.” O ambiente é animado. Nas conversas, o prato do dia é Agora eu te entendi, peça de teatro que satiriza o discurso do ex-presidente tunisiano Zine al-Abidine ben Ali. O rei Abdullah II em pessoa foi assistir. “Convide-o para um coshary, quem sabe você o convence”, brincam com Nader.

“O reino começou com Abdullah e terminará com Abdullah”, gostavam de profetizar os mais ferozes refratários ao poder hachemita,1 quando, no inverno [no Hemisfério Norte] de 1999, acompanhavam as aventuras da ascensão ao trono de Abdullah II da Jordânia, filho do rei Hussein, após a morte deste. A frase remete ao assassinato de Abdullah I, fundador do reino e pai de Hussein, em 1951. No momento das revoluções árabes, ela volta aos lábios como um mau presságio, mesmo que, durante décadas no mínimo caóticas, a sociedade tenha mostrado coesão.

É preciso dizer que a história do rei Abdullah II com seu povo é a de um desencanto anunciado. Desde que subiu ao trono, só se viu no rei a educação muito britânica, a falta de proximidade com a população e o discurso à nação calcado no do Banco Mundial e da Casa Branca… As posições belicistas e o ritmo alinhado ao de George W. Bush durante a Guerra do Iraque, em 2003, acabaram de arruinar seus esforços para aproximar-se dos súditos. “Esse rei nunca falou conosco, o povo deste país; através de nós, é com os norte-americanos que ele fala” – é isso que se ouve em toda parte.

O efeito de unificação dos slogans do governo – “A Jordânia em primeiro lugar” e “A Jordânia somos todos nós” – não joga em favor do rei. Mais que isso: circulam os mais extravagantes rumores sobre sua paixão pelo jogo e suas dívidas abissais. Verdade ou não, os boatos ganharam força de evidência no imaginário social.

Mas o mal-estar vai além da pessoa do rei. Desde a criação do reino, a história se repete: guerra regional, choque demográfico, afluxo de população. Foi isso que aconteceu em 1948, com a primeira guerra árabe-israelense e a anexação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. O mesmo ocorreu em 1967, com a perda desses territórios, conquistados por Israel, e a chegada de centenas de milhares de palestinos. Novamente em 1990-1991, com a invasão do Kuwait pelo Iraque, a guerra e a fuga de centenas de milhares de palestinos expulsos do emirado. E mais uma vez em 2003, com a invasão norte-americana no Iraque, que viu centenas de milhares de cidadãos irem embora para a Jordânia. Sem esquecer os “eventos” dos anos 1970-1971, nos quais se enfrentaram o poder hachemita e a resistência palestina. Todas as vezes, os mesmos mecanismos de ajuste foram mobilizados: pelo alto, por meio da ajuda internacional, ocidental ou do Golfo, necessária à sobrevivência do reino; e por baixo, graças à solidariedade familiar e das redes de sociabilidade e proximidade geográfica, para absorver os efeitos cotidianos das novas realidades. Assim se escreve no dia a dia o contrato social entre os diferentes segmentos da população e entre a sociedade e o poder.

 

Descontentamento crescente

Mas hoje esses mecanismos emperraram. A renda internacional − que outrora permitiu ao rei Hussein jogar com as divisões da população, particularmente entre seus componentes palestinos e transjordanianos, e sufocar os descontentamentos no sul − secou. As receitas do petróleo − que garantiam a grande parte da sociedade, sobretudo aos palestinos, os subsídios dos migrantes do Golfo − esgotaram-se em razão da substituição dos migrantes árabes por trabalhadores asiáticos. A privatização sem limites, especialmente dos setores de água, telecomunicações e energia, e a criação de zonas francas em diversas regiões do país resultaram no aumento do custo de vida e no abandono da mão de obra local, suplantada por trabalhadores estrangeiros que recebem menos. O afluxo descontrolado, desde 2003, de capitais investidos no setor imobiliário – cujos preços não param de subir – terminou de esmagar a classe média, além de marginalizar a periferia em favor de uma capital hipertrofiada.

O corpo social está dividido. E o desconforto não esperou a Primavera Árabe para se propagar nem para se expressar. Em 1989, uma insurreição que eclodiu em Maan e se estendeu para todo o país permitiu a abolição da lei marcial e a organização de eleições legislativas e municipais. Nos últimos anos, apesar da censura, esse mal-estar também fez que regularmente estourassem casos de corrupção. O mais recente respingou na justiça e despertou a ira da população: as terras de propriedade coletiva da tribo dos hajaya foram requisitadas pelo governo e registradas em nome do rei para “facilitar o reinvestimento”.

O sul, especialmente o triângulo Tafileh-Kerak-Maan, outrora dominado pelo poder hachemita, virou seu calcanhar de aquiles. Dois coletivos principais, a Assembleia das 36 Tribos e a Iniciativa Nacional, agem ali: reuniões, manifestações, confrontos com as forças da ordem, prisão por delito de lesa-majestade… A reivindicação principal da Assembleia das 36 Tribos, que pede ao Estado a devolução das terras dos hajaya, é uma resposta ao tratamento ofensivo que lhes é reservado no diwan(o tribunal): “Hoje, para fazer uma reclamação, um chefe de tribo tem de fazer fila no diwan. No tempo do rei Hussein, não era preciso engolir esse tipo de humilhação”, comenta Yasser Muhaisen, um ativista de Tafileh.

Já a Iniciativa Nacional, herdeira do nacionalismo árabe, mira nas palavras de ordem ligadas ao social e nas reivindicações salariais: greves de professores, trabalhadores dos correios etc. Contra as políticas neoliberais, os trabalhadores da Companhia de Potássio do Mar Morto estão se mobilizando para impedir a venda de sua fábrica a compradores canadenses: “A criação da zona franca de Aqaba deveria nos beneficiar, e não foi nada disso. Agora eles querem entregar o que constitui – com o Exército – a principal fonte de emprego para os habitantes de Kerak. O que impede a empresa canadense de contratar trabalhadores asiáticos, em vez de nós?”, questiona Waddah, advogado e membro do coletivo.

Mais ao norte, a ira das tribos e a hostilidade histórica de uma parte das famílias de origem transjordaniana contra os hachemitas vêm se somar ao peso da Irmandade Muçulmana e da população palestina.

Fato notável: os bairros populares de maioria palestina, especialmente os campos de refugiados, estão calmos. “Pela primeira vez, os problemas são entre jordanianos, e os palestinos não têm nada com isso”, diz uma mulher ouvindo a conversa. Aqui, as pessoas são espectadoras de uma história que não é a sua. Elas a acompanham de perto, atentas, críticas, mas resignadas. E sentem-se vitoriosas por procuração na Tunísia e no Egito, e comparam a repressão na Síria às repressões israelenses em Gaza. “É pior: Bashar está matando seu próprio povo”, indigna-se Abu Anas, enquanto seu irmão, Abu Omar, procura nessa mudança a mão invisível dos Estados Unidos: “Que revolução é essa, em que a oposição tem o apoio do Catar e recebe instruções de Washington?”.

Mas começa a haver uma distância em relação às organizações políticas dominantes. Chega-se a ironizar a reviravolta, a propósito da rebelião síria, de Khalid Meshal, líder do Hamas palestino. Após afirmar lealdade ao regime sírio, o líder tomou distância quando chegou ao Catar e alinhou-se à posição da Irmandade Muçulmana. Do mesmo modo, o encontro entre Meshal, um emissário do Catar, e o rei Abdullah II, em janeiro de 2012, poucos dias após a visita do monarca hachemita a Washington, suscita especulações sobre uma instalação permanente de refugiados palestinos na Jordânia, que seria financiada por Doha: “O que esperar de um líder político que deixou a Síria para voltar a Gaza após reunião com o emir do Catar e o rei da Jordânia?”, pergunta Abu Omar.

Já a Irmandade Muçulmana tenta captar a insatisfação das ruas para se posicionar como ator político inevitável, o que não se dá sem choques, e não apenas com o governo, mas também com as tribos (especialmente em Mafraq, com as tribos bani hassan, em dezembro de 2011) e outros coletivos de oposição. Khalil, um jornalista próximo à Iniciativa Nacional, exalta-se: “Não é gente de confiança. Eles captam as demandas da população e falam por ela, depois ditam um programa diferente. Estamos organizando um comício em frente ao Ministério do Interior: eles organizam outro, ao mesmo tempo, diante da embaixada síria… Na tentativa de apropriar-se do movimento de protesto, eles o torpedeiam. E se é para ter islamitas no poder, não, obrigado!”. Assem, advogado de seus 40 anos, vê a situação de outra perspectiva: “Eu conheço bem os islamitas: meu pai foi um deles. Na Jordânia, sua história não é a mesma que em outros países. Eles sempre estiveram associados ao poder, que, por sua vez, se apoiou neles, e têm a envergadura regional e internacional que a oposição liberal não tem. De resto, eles são obrigados a compor. Se falharem, perdem lugar; qual é o problema?”.

 

O futuro incerto

Mas a excitação geral e as discussões sobre o futuro não escondem as incertezas. O coletivo Monarquia Constitucional parece o mais consciente do maior perigo que espreita o reino: o de desintegração. Jamal, um de seus membros fundadores com três militares de alta patente, teve nos últimos anos muitos problemas com o regime. Ele esquadrinhou o reino, encontrando-se com todos os coletivos, chefes tribais e atores influentes no campo político nacional e até internacional, para reuni-los em torno da ideia de uma refundação da Constituição segundo o modelo da monarquia britânica, na qual é o Parlamento, e não o rei, que nomeia o governo. “Não há outra saída para preservar o país. Devemos dar à população a possibilidade de decidir seu destino. Outras questões virão depois. Qualquer outra solução teria um custo alto demais. Como os hachemitas já não estão mais em odor de santidade, e o rei criou praticamente um vazio familiar ao seu redor, seria quase impossível substituí-lo por um de seus irmãos… E por que criar uma república? A ideia de viver em um reino tranquiliza a população. Veja o que acontece nas repúblicas, na Síria ou no Iêmen.”

Enquanto espera, o rei parece não apreciar a gravidade da situação. Demora a pôr em prática as reformas prometidas e troca frequentemente de primeiro-ministro, sempre acusando o anterior de ineficiência e incapacidade de assumir a questão da corrupção, que o governo, o Parlamento e a justiça vão empurrando um ao outro. Ele ganha tempo vigiando de canto de olho o destino do regime sírio. Enquanto isso, os preços dos combustíveis e da eletricidade vão às alturas.

Ao fim, o café oferecido aos manifestantes das primeiras passeatas: daqui por diante a prioridade é a resposta da segurança. No dia 25 de março de 2011, em Amã, as forças da ordem desceram o porrete nos manifestantes e os acompanharam até o hospital. Em novembro de 2011, estouraram incidentes em Ramtha; a repressão foi severa. Em seguida, o dispositivo endureceu ainda mais. Fala-se em um aumento espetacular dos efetivos de policiais, designado à repressão de revoltas. As manobras militares com os Estados Unidos e quinze outras nações, em maio, chamadas de Eager Lion, são mais uma demonstração de força. Fala-se também em divergências de fundo entre os serviços militares e os de inteligência, que seriam favoráveis a uma mudança. Fala-se, fala-se… Mas sabemos que palavras são levadas pelo vento.

Hana Jaber é Pesquisadora associada da Catédra de História Contemporânea do Mundo Árabe, Collége de France, Paris.



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