ENTREVISTA

Jorge Ialanji Filholini: ‘O artista que não se incomoda com a injustiça, com certeza está no lugar errado’

Autor fala sobre lançamento de edição comemorativa de 10 nos de Somos mais limpos pela manhã, obra finalista do Prêmio Jabuti

Com uma linguagem marcada pela precisão e pela ironia, o autor Jorge Ialanji Filholini estreou na literatura há dez anos, com Somos mais limpos pela manhã, obra finalista do Prêmio Jabuti. Agora, a coletânea de contos ganha uma edição comemorativa, lançada pela EditoRia.

Em entrevista concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil, o escritor fala sobre o reencontro com os temas e personagens que marcaram o início de sua trajetória na literatura. “Eu sempre falei que no primeiro livro eu ‘gritei’ demasiadamente. Ou seja, quis – talvez pelo espírito jovem rebelde e ainda esperançoso – destacar diversas pautas que aconteciam ao meu redor. Sem respiro ou certa coerência de meu lugar na sociedade. Mas é algo que trazemos quando estamos diante de um palco de novidades e possibilidades”, afirmou.

Fotografia de Jorge Ialanji Filholini em preto e branco. Ele olha para a câmera e está na frente de uma estante
Crédito: Divulgação/Vanderbooks

Ao longo da entrevista, Jorge Ialanji Filholini ainda falou sobre a escrita, a metalinguagem e os temas que o angustiam. Confira na íntegra:

Somos mais limpos pela manhã, seu livro de estreia, acaba de ganhar uma edição comemorativa de 10 anos. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti e o colocou em evidência como um importante nome da literatura brasileira contemporânea. Como foi revistar a obra dez anos depois?

Há um bom tempo eu não tinha lido os contos do livro. Eu tinha certa vergonha de correr os olhos nas primeiras frases que criei, histórias, personagens e diálogos. Tinha apenas vinte e cinco anos quando escrevi o primeiro conto que acabou fazendo parte da obra, era As sete borrachadas. Ficava protelando, acreditava que todo livro é uma maratona, com largada e chegada. O que eu já corri, não precisava mais enfrentar.

A ideia, a coragem, de revisitar o livro foi do Marcos Benuthe – agitador cultural, editor e fundador da Ria Livraria – em uma de várias bebedeiras nossas. Eu contei a ele que o meu primeiro livro ia fazer dez anos e que foi graças ao lançamento dele na Mercearia São Pedro que me deu a primordial sensação em ser escritor.

Como já tocamos – eu e o Marquinhos – o EditoRia, selo editorial da Ria Livraria – o próprio Marquinhos deu a ideia de a edição comemorativa ser lançada pela editora da livraria. Originalmente, o livro havia sido lançado pelo maravilhoso e admirável Selo Demônio Negro, capitaneado pelo editor Vanderley Mendonça. Mas eu queria estar mais próximo do trabalho editorial da nova leva, realizar todo o processo gráfico, diagramação e, claro, reedição.

E esse processo mudou radicalmente a forma que eu antes imaginava de revisitar a própria obra. Foi gostoso de reencontrar os antigos contos, o modo que eu os escrevi, como elaborei os personagens e as tramas. Serviu também como aprendizado. Explico, o processo de escrita desse primeiro livro foi feito sem nenhuma experiência de como é escrever um livro. Eu fui na livre forma de desenvolver o enredo, os diálogos, os personagens, assim como os temas. Sem voltar e trabalhar neles com uma visão de editor ou leitor crítico.

Eu sempre falei que no primeiro livro eu “gritei” demasiadamente. Ou seja, quis – talvez pelo espírito jovem rebelde e ainda esperançoso – destacar diversas pautas que aconteciam ao meu redor. Sem respiro ou certa coerência de meu lugar na sociedade. Mas é algo que trazemos quando estamos diante de um palco de novidades e possibilidades.

No entanto, não foi apenas uma revisita em minha escrita de dez anos atrás, foi um reencontro com o Jorge de dez anos atrás que ainda era otimista, talvez feliz. Pobre rapaz.

Os contos de Somos mais limpos pela manhã abordam temas como a violência e as relações familiares de forma bastante original e, por vezes, com certa ironia. Essas características também estão presentes em outros trabalhos seus, como Muqueta. Como e quando percebeu que a ironia desempenharia um papel relevante em suas narrativas?

A ironia vem de berço, minha família é cheia de tratar a vida com ironia. Principalmente, minha mãe. Nunca conheci uma pessoa que trata o cotidiano e até mesmo o perigo com ironia. Foi com ela que aprendi que “tudo na vida se resolve, menos a morte”; “segredo a dois, só se um morrer”; “Estude. Não deixa a sua cabeça virar uma moringa, onde só tem água”; “quem muito reclama a barriga expande”, entre outras, que fui trazendo para a minha escrita, algumas ironias fui inventando, outras fui ajeitando pela forma que imaginava que meu personagem poderia dizer. Mas toda essa ironia foi inspirada em minha mãe. Um jeito de homenageá-la, pois ela que me apresentou a leitura. Me motivou a escrever.

Lembro uma vez, ainda criança, acredito ser na quarta série do fundamental. Eu estava com certa raiva da professora de Português e, durante a aula de produção de texto, acabei escrevendo uma história em que a matava. Isso causou pânico, perturbação, assustou a diretoria inteira do colégio. Claro que esta experiência fez com que minha mãe fosse chamada à diretoria. Enfim, foi um espetáculo de todos dizerem o quanto eu seria um cidadão problemático com essa atitude de matar as pessoas em meu texto. Após o falatório, minha mãe me levou para casa e me apresentou os romances mais “pesados”, aqueles com mortes. Já havia passado da fase dos livros juvenis. E, hoje, após anos daquele meu primeiro texto em que matei alguém, estou aqui, escrevendo e matando muita gente em meus livros. Ironia?

Muitas de suas personagens trazem uma visão bastante crítica e reflexiva a respeito das violências causadas pela desigualdade social. Há no conto Portão eletrônico um momento em que a narradora chega a dolorosas conclusões ao refletir sobre sua própria condição: “Rezar e rezar e rezar. A vida é um tormento. Frustração. O tamanho das minhas orações já toca o céu. E nada de nome limpo. O muro no reboco. O chão trincado. A janela enferrujada. Pia do banheiro rachada. O box de plástico. O chuveiro de ferro. E a frente sem portão”. Esse trecho denuncia a falsa esperança dada por líderes religiosos a pessoas inocentes, mas também evidencia a insatisfação de uma mulher que já não acredita tanto assim nas palavras do pastor. O incômodo diante da injustiça move sua escrita?

O artista que não se incomoda com a injustiça, com certeza está no lugar errado da arte. Eu sigo um pequeno poema do mestre Chico Alvim como mantra, diz assim: “quer ver / escuta”. É exatamente isso que utilizo para a criação das minhas personagens. Meus ouvidos são mais atentos que minha visão.

Eu gosto da interpretação do filósofo francês Jean Pouillon de que o escritor e a psicologia andam juntos na criação de uma obra. Explico, na obra assinada por Pouillon, intitulada O Tempo no Romance, de 1974, ele apontou que “o romance, portanto, é psicologia, e começar por separá-los para em seguida estudar as possíveis relações entre ambos é um absurdo. Seu objetivo é o mesmo: compreender a realidade humana”. Este mínimo trecho já evidencia que o escritor é o psicólogo de seu personagem. Ou seja, é essencial pedir para o seu personagem se sentar no divã e lhe dizer suas angústias, amarguras, sentimentos. O escritor entra dentro de si, que entra dentro de seu personagem. Mergulhar cada vez mais em espiral. Gosto de saber como meu personagem reage no nervosismo, suas manias, seus impasses, suas derrotas, sufocos, se treme as mãos, se sua demasiadamente, se suas pernas são bambas, seus pés são chatos, se coça a barba ao ponto do nervosismo, se puxa o cabelo quando desafiado, muitos e muitos processos que a sessão de terapia mental me ajuda no trabalho de construir meus personagens.

No entanto, trazendo para a história da personagem do conto destacado na pergunta. Sou ateu, não acredito em nada espiritual e me deixa enojado e triste a manipulação de muitas igrejas às pessoas por base de que um invisível irá julgá-las. É quase que criar um personagem para que seja perpetuado a sua dita tradição que não há convicção. E são esses temas tão batidos, porém necessários, em nosso país que gosto de trazer em meus contos. Eu quero mostrar que essas injustiças são cometidas perto do leitor, que não adianta forçar a ruptura, não tenho forças para isso, mas posso, por meio da minha escrita, apontar que algo está errado nesse santo oco que um crente está obcecado em beijar os pés. Se isso não é um prato cheio para psicanálise, para a escrita, então não sei o que é a natureza humana.

Escrever esses personagens e me indignar com a injustiça só me faz continuar. Se eu não consigo derrubar os alicerces de uma igreja, as minhas palavras poderão, pelo menos, trincar as paredes desse tal santuário. E nisto eu sou crente.

Você tem uma rara capacidade de construir frases curtas capazes de ecoar por bastante tempo nas mentes de leitores e leitoras. O conto Dia bom, por exemplo, traz na mesma página três sentenças memoráveis: “toda infância é adulta”, “a casa sempre sabe o próximo passo de seu dono” e “o choro disfarçado é a arrogância da solidão”. Como percebeu que se interessava mais por frases curtas? Qual é a importância da prática para alcançar a profundidade e a precisão em poucas palavras?

Isso vem do mundo veloz em que vivemos. Das músicas, dos filmes, dos sons de vozes que passam por você e deixam apenas um rastro de frase que pode ser uma ideia ou um diálogo. Lembro de eu estar caminhando pelas estações de metrô e uma mãe passou por mim segurando a mão de uma criança. Esta criança, chorando, queria um doce e ela insistia dizendo “Mãe! Mãe! Mãe!”. Até que a dita mãe respondeu “Quem disse que sou sua mãe?” Se isso não é um início incrível de uma história, não sei o que seria. Eu tenho esse diálogo até hoje guardado, acho que essa situação tem mais ou menos dez anos, mas fica dentro de mim, bem envelopada, nas anotações para um dia vir à tona. Ou nunca se tornará uma história. Mas só de ter presenciado isso, me deixa satisfeito em demonstrar que a realidade e a ficção são ruas do mesmo bairro. Se cruzam e se separam, mas estão no mesmo mapa.

Eu trago isso nas minhas frases. Aquilo que o vento pode levar e você pode perder. Diga o necessário e vai embora, não enrole. Eu não gosto de ser enrolado e tenho certeza que o leitor que quero que me leia não gosta de ser feito de bobo. Está aí o que quero dizer, não lhe escondi nada. Tudo é fonte se vier a partir de ti. Contar história não é ser prolixo, é ser verossímil. Escrever é correr risco, e correr o risco é a beleza de ser escritor. Somos agentes secretos da sociedade. Ou melhor, podemos ser ladrões de línguas. O que é dito, escuto e construo do jeito que eu quiser.

Paul Auster escreveu em Diário de Inverno, não necessariamente sendo ele, mas a sua persona autoficcional: “toda vida é contingente, tirando o único fato necessário de que, mais cedo ou mais tarde, ela chegará ao fim”. Enquanto isso não acontece, vou criando as frases na mais concisão possível, arriscando, pois o mundo tem pressa. Eu tenho pressa.

O conto Mataram o narrador é um divertido exercício de metalinguagem, que parece mais atual do que nunca, especialmente quando fala sobre a autoficção e o uso do Dicionário analógico da língua portuguesa por escritores e escritoras. Você imaginava que essa narrativa continuaria tão atual uma década depois?

Depois que “o narrador tinha descido as escadas” no conto O Espelho, de Machado de Assis, eu vi que existia um leque de possibilidades de brincar com a autoficção. O conto Mataram o Narrador foi uma livre inspiração ao conto machadiano. E junto dele uma reflexão do processo de escrita e seus desafios. Ora, e se o narrador começasse a reclamar que ele está sendo usado pelo escritor de forma tão ruim?

A beleza de escrever é que na folha em branco podemos criar o que quisermos. Universos, personagens, matérias ou imatérias – se isso existe, não me importo, criei e está aí na parte branca do papel. Eu escrevi, e aí está. Pronto final. E não ponto. Se eu posso inventar um narrador a reclamar que seu escritor é um incompetente, que seja feito, que crie corpo.

Em As intermitências da morte, Saramago nos trouxe uma morte personificada, que estava de saco cheio e decidiu fazer greve de matança. Além disso, essa mesma morte se apaixona por um ser humano, o ser humano em que um dia ela irá ceifá-lo. Mas isso não a deixa mal. Ela quer aproveitar, pelos menos por poucos momentos, o que realmente é amar – amar nos ditos humanos. É maravilhoso – o que só mesmo grandes autores conseguem fazer – como Saramago utiliza uma mesma frase para passar duas interpretações. A frase é “No dia seguinte ninguém morreu”. Esta frase abre e fecha o livro. Preste atenção, porém, temos duas conotações, quando usada no início, temos o tom pesado, raivoso, sem piedade ou empatia. Era a personagem na morte com uma sensação melancólica, apresentada na primeira parte. Já no fim, apaixonada, milagrosa, esperançosa com a humanidade, ela decide não matar ninguém, pois nesse momento de êxtase ela está apaixonada e a sugestão que fica em “No dia seguinte ninguém morreu” é em tom poético, apaixonante. Ela não vai matar hoje, ela está amando. Veja que incrível esse insólito na literatura. Quantas vezes temos essas duas sensações que a morte teve e que Saramago trouxe em uma única frase.

Quem indiretamente me apresentou o Dicionário analógico da língua portuguesa foi Chico Buarque. Estão explícitos na epígrafe de Estorvo os diversos significados da palavra que leva o título de seu primeiro romance publicado em 1990. E é o próprio Chico que escreve na abertura do dicionário muito bem pesquisado e desenvolvido por Francisco Ferreira Azevedo. Em um trecho, Chico Buarque diz: “Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas”. E é exatamente o que faço na minha escrita. Eu odeio usar a mesma palavra em uma única frase, sentença ou até mesmo parágrafo. Então, foi graças a esse dicionário que encaixo uma melhor palavra que dialogue com a que disse anteriormente. Veja bem, olha que lindo trocar “ódio” por “ter cabelos no coração”; “cadáver” por “despojo da vida”; “coragem” por “rijeza de têmpora”; “cautela” por “trazer a barba sobre o ombro”; “compromisso” por “lançar uma ponte”.

Além de escritor, você é editor, jornalista e produtor cultural. Em todas essas atividades, seu trabalho está ligado ao meio literário. Em quais aspectos, esse universo o encanta? Em quais, o aborrece?

Eu comecei na área cultural por meio de um site que criei durante a graduação em Letras na UFSCar, em São Carlos. O site chamava Livre Opinião – Ideias em Debate e foi a partir dele que pude conhecer as diversas atividades artísticas que surgiam e aconteciam pelo país. Pude entrar em contato com escritores que eu já admirava pela leitura de seus livros e, entrevistando-os fui criando laços afetivos. Isso me trouxe para a vida que tenho hoje. Já são mais de quinze anos.

Uma pessoa fundamental para que eu continue seguindo nessa estrada cultural foi o próprio Marcos Benuthe, o Marquinhos, que já citei em perguntas anteriores. Ele me forneceu um belo material para eu trabalhar na produção cultural, levando pocket shows, saraus, lançamentos, rodas de conversa, shows, na Ria Livraria. Um lugar maravilhoso para a cultura. E, citando-o mais uma vez, me desafiei ainda mais agora como editor de livros. Era um desejo que eu tinha e o EditoRia proporciona realizar isso. Desde 2023, início do selo até o momento, já lançamos onze obras.

Eu sou uma pessoa que não para quieta. Quer sempre se desafiar, arregaçar a manga e fornecer a arte para as pessoas. No Brasil precisamos trabalhar triplamente para oferecer arte. São poucos os incentivos governamentais. Sim, falta muito incentivo governamental, o que lamento profundamente nesta nova gestão do governo Lula. Então, a gente precisa dar as caras, muitas vezes se humilhar, para criar algo artístico ou que leve às pessoas e as transformem.

A arte para mim é até ambíguo, é arte como meio artístico e arte como forma de aprontar. Temos que ser arteiros para apresentarmos a nossa arte.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

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