Jornalistas comunistas na luta contra a ditadura civil-militar
No Dia Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação, refletimos sobre a experiência histórica dos jornalistas do PCB, tema de documentário em produção
A ditadura civil-militar se instalou no Brasil em 1964 e durou mais de 20 anos. Durante esse período, houve diferentes fases e formas de repressão contra quem não aceitava o autoritarismo. Entre os que resistiram, estavam pessoas das mais diversas tendências ideológicas e profissões.
Entre eles, jornalistas do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Segundo o jornalista Milton Temer, hoje filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (Psol), e que foi do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante todo o período da ditadura, havia duas palavras de ordem que sintetizavam posições opostas. Uma era “Só a luta armada derruba a ditadura” e a outra, “Só a luta organizada derruba a ditadura”. Ao defender o segundo lema mesmo após o golpe, o PCB foi perdendo sua posição hegemônica entre a esquerda e se tornou a matriz de onde surgiram diversas organizações dissidentes que defendiam a luta armada. Para o partido, no entanto, era a organização social que importava e, para isso, a comunicação tinha papel central.
Quando aconteceu o golpe, a imprensa do Partidão já não era tão robusta como durante um dos breves períodos de legalidade do PCB até então (entre 1945 e 1947). Durante esses anos, o partido chegou a coordenar pelo menos oito jornais diários, nas principais capitais do país, uma agência de notícias, tipografias, livrarias, editoras e o jornal considerado seu órgão central. Ainda assim, o PCB tinha veículos próprios que se mantiveram durante a ditadura em menor quantidade e com mais dificuldade de produção e circulação. O jornalista Fichel Davit Chargel, que havia sido da Juventude Comunista nos anos 1950, trabalhava em dois jornais do Partido quando o golpe de 1964 foi deflagrado.
“Nesse dia mesmo, o dia 1º, eu estava indo lá pra Voz Operária, houve o negócio do golpe, eu estava vendo as manchetes dos jornais apreendidos e falei: ‘Tô fora! Pra quê que eu vou lá? Eu vou ser preso’. Aí não fui não. Mas tinha um movimento já na rua, do pessoal contra o golpe, inclusive muita gente indo ali pela Graça Aranha até atingir a embaixada americana (ali era embaixada mesmo, hoje é consulado). Muita gente invadiu, jogou documento pra fora… Aí claro que a polícia chegou baixando o pau. Bom, conclusão: perdi dois trabalhos, que era o Novos Rumos e o Semanário”.
A fala de Fichel Davit, além de dar certa dimensão da imprensa do Partido e colocar em relevância uma questão problemática para vários dos jornalistas comunistas, o emprego, também colabora para que se contrarie o senso comum de que o golpe ocorreu num marasmo completo. Além da manifestação contra o golpe na Embaixada dos Estados Unidos, para ficar com mais um exemplo do Rio de Janeiro, apoiadores do golpe colocaram fogo na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE). No Recife, o comunista Gregório Bezerra foi torturado publicamente na Praça da Casa Forte, no dia 2 de abril. A cena foi tão marcante que é contada por diferentes pessoas que viveram o período e motivou a advogada Mércia Albuquerque (interpretada no teatro por Andréa Beltrão na peça Lady Tempestade) a defender presos políticos.

Estes são apenas alguns exemplos para lembrar que a ditadura perseguiu, sequestrou, torturou e matou nos mais diferentes lugares do país, nas cidades, no campo, na floresta. Se logo que deflagrado o golpe foram presos, cassados e demitidos militares contrários ao golpe, professores, sindicalistas e integrantes de partidos de esquerda, na sequência, o alvo principal foi a luta armada. Nos estertores da ditadura, novamente os partidos comunistas voltaram a ser o foco. Em 1976, o Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB, dissidência do Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1962) foi dizimado no Massacre da Lapa, quando a ditadura assassinou Ângelo Arroyo e Pedro Pomar e matou João Batista Drummond depois de torturado na prisão.
Já a respeito do PCB, segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, apesar de ter procurado sempre “acompanhar e conhecer o que o partido fazia”, nas palavras do general Ernesto Geisel, a repressão contra ele se concentrou, de maneira sistemática, de 1973 a 1976. Foram onze os militantes do PCB assassinados como resultado da Operação Radar. Um documento confidencial do II Exército, intitulado “Neutralização do PCB”, de março de 1975, listava os nomes de oito dirigentes “pecebistas” cuja prisão causaria grande desarticulação. De acordo com o documento, os principais alvos eram o Comitê Central e os órgãos de imprensa do PCB. Foram mortos ou desaparecidos militantes ligados à imprensa do Partido, como Hiran de Lima Pereira, José Montenegro de Lima (o Magrão) e Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior.
Imprensa clandestina e do exílio
Um dos jornais que o PCB manteve durante a ditadura foi o Voz Operária, órgão central do Partido, que orientava a militância. De 1966 a 1975, foi rodado em uma gráfica clandestina no subsolo de um sítio em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Henrique Cordeiro Filho conta que técnicos do PCB desenvolveram um sistema de circulação de ar inspirado nos túneis feitos pelos vietcongs. “Fizemos o buraco, dividimos lá, para botar máquina, impressora, para botar guilhotina, lugar para botar papel, uma cama, um fogareiro, uma geladeirazinha pequena. Então, descemos a máquina e depois cobrimos e fizemos em cima um galinheiro bem grande, porque ao lado nós fizemos um tanque, colado assim ao galinheiro, para botar água. Colocamos lá pato e tal. E era um alçapão. Você vedava as coisas. Tirava a água, abria. E ali tinha umas escadas que iam dar lá pra dentro, para tirar o material”.
Com a descoberta da gráfica, o Voz Operária passou a ser feito no exílio, com apoio dos partidos comunistas da França e da Itália. O responsável era o jornalista Milton Temer, então exilado na França: “Quem fazia a gráfica para gente era o Partido Comunista Italiano. Então eu levava o material para Via delle Botteghe Oscure, que era a sede do PCI, e lá eu entregava para eles fazerem a impressão. Ou seja, faziam a produção e a impressão, que levava uma semana, que eu ficava em Roma, na casa do Ivan Ribeiro, e depois pegava e trazia de volta pra Paris. Em Paris, a gente tinha o cuidado de fazer a distribuição. Ela não saía de um lugar só. A distribuição era feita através dos postos do correio em todos os subúrbios de Paris, ia uma parte de cada subúrbio, pros endereços aqui no Brasil”. Temer voltou ao país em 1978, sendo anistiado em 1985.
Comunicação para a redemocratização
A eliminação dos opositores, mesmo que atuassem pacificamente contra a ditadura, foi uma política deliberada para não haver grupos de esquerda fortalecidos quando chegasse a abertura. Àquela altura, os militantes da luta armada já haviam sido dizimados. Já o PCB ficou sem suas principais lideranças e uma geração mais jovem e com menos experiência teve que assumir funções organizativas do Partido, que envolviam coordenar reuniões e distribuir o Voz Operária.
Depois das operações contra os partidos comunistas, no fim dos anos 1970, os jornalistas do PCB que trabalhavam na imprensa comercial tentavam cobrir temas relevantes para a sociedade, especialmente no período de redemocratização. Dênis de Moraes, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF), morto em fevereiro deste ano, contou, em 2014, como foi esta experiência no jornal O Globo, onde trabalhou de 1976 a 1988.
“Era o momento propício. O início da abertura, com o lusco-fusco da abertura, o quê que se podia, o quê que não se podia, como é que os jornais iam se adaptar a isso, sem o AI-5 e tudo… Com um presidente da República, um general que dizia que ia fazer, depois foi concedida a anistia, capenga, mas foi. Enfim, era esse o cenário em que o trabalho dentro das organizações de mídia, não apenas n’O Globo, se tornou factível. Agora, claro que com enormes limites. Não tenhamos ilusões e não cedamos a qualquer tipo de grandiloquência. Era um trabalho muito difícil [com ênfase], sob censura empresarial, sob mecanismos de controle ideológico inclementes e diários. O que havia era uma tentativa de burlá-los, isso sim”.
Neste período, em São Paulo, também foi possível esticar os limites impostos até então pela censura e pela autocensura ou apoio dos jornais ao regime militar. Sergio Gomes, fundador da Oboré, foi militante do PCB. Preso e torturado, depois de solto ficou “na geladeira” na Agência Folhas, onde trabalhava. Ou seja, ia para a redação, mas nenhuma pauta era designada a ele. (Descobriu posteriormente que havia sido demitido quando estava preso.) Foi um convite do jornalista Tarso de Castro, um dos criadores do Pasquim, que o tirou de pautas escorregadias e o inseriu na experiência de produção do Folhetim, um caderno da Folha de S. Paulo que tinha cara e conteúdo que lembravam a imprensa alternativa e circulou entre 1977 e 1989.
“Era um projeto muito heterodoxo, porque era um jornal alternativo, era um tablóide, encartado na Folha de S. Paulo, era um jornal da Folha de S. Paulo, mas com o Tarso com uma grande autonomia para decidir sobre a pauta, quem seria entrevistado e tudo o mais. Então era quase como se fosse um jornal de esquerda dentro de um jornal tradicional, e ele circulava aos domingos, que era o dia de maior tiragem. […] E o Tarso de Castro foi chamado pela Folha, pelo Cláudio Abramo, para desenvolver esse projeto chamado Folhetim. E ele passa então a ser editor do Folhetim, que era essa publicação semanal, esse jornal dentro do jornal, de alguma maneira reproduzindo, de outro jeito, o que o Barão de Itararé tinha feito, o Aparício Torelly, lá na década de 30, em que ele cria A Manhã, que é um jornal humorístico encartado dentro do jornal A Manhã, era esse trocadilho”.
O mais importante, porém, era fazer com que as informações circulassem, e qualquer informação que pusesse em xeque o discurso monolítico e autoritário da ditadura era relevante. Milton Temer conta que enviava para os amigos que estavam na imprensa alternativa as matérias que não conseguia publicar n’O Globo ou na Editora Abril. Além disso, foi criado o jornal Notícias Censuradas. Impresso na gráfica do PCB, ele era, como o nome diz, um esforço de fazer circular as notícias que eram proibidas pela ditadura militar. Como era comum aos jornais clandestinos, sujeitos às intempéries da repressão, o formato e a frequência do Notícias Censuradas variava. Oito edições, entre 1973 e 1974, estão disponíveis no Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano (Asmob), abrigado no Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).
Assassinaram um jornalista
Dos 12 jornalistas do PCB presos durante a Operação Radar, feita para “neutralizar” o Partido, um não resistiu à tortura. Nascido Vlado Herzog, na Iugoslávia, em 1937, tornou-se “Vladimir” para abrasileirar o nome. Ele era jornalista, professor, dramaturgo, documentarista e apaixonado por fotografia. Foi torturado até a morte, no dia 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi, do II Exército, onde se apresentou voluntariamente.
De tão absurda, a morte de Vlado, que então era diretor da TV Cultura (nomeado pelo governador Paulo Egydio, da Arena) mobilizou grande número de pessoas e catalisou o movimento pela abertura. Muito próximo da cena cultural da cidade, foi nos teatros, ao fim dos espetáculos, que a notícia do assassinato dele circulou inicialmente. A ditadura inventou se tratar de suicídio, mas ele foi sepultado no centro do Cemitério Israelita do Butantã, o que significa não aceitar esta versão. Alguns dos presos políticos foram liberados para assistir ao ato ecumênico celebrado pelo bispo Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright. A cerimônia se transformou num grande ato político com 8 mil pessoas nos arredores da Igreja da Sé, na capital paulista. Parte dos ex-presos políticos estarão lá novamente, na noite do próximo dia 25 de outubro, 50 anos após o assassinato de Vlado, em ato interreligioso em memória dele.
São homens e mulheres que doaram os melhores anos de sua juventude no combate à ditadura, de forma pacífica, mas ainda assim sofreram as atrocidades do regime autoritário. Defenderam, na prática, a comunicação como pilar da democracia justamente quando era mais perigoso fazê-lo. Tarefa semelhante, com outros desafios e ferramentas, é realizada, nos dias de hoje, em diferentes contextos autoritários também por jovens comunicadores, como nas favelas cariocas ocupadas por forças militares ou na Palestina sob ataque de Israel. A luta pela comunicação é também a luta por memória, verdade e justiça. É a luta para que a sociedade possa ter acesso ao que acontece com os grupos minoritários; para que circule outra visão de mundo, a dos oprimidos, e que possamos viver a utopia de uma terra sem amos.
Mônica Mourão é professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Está realizando o documentário Vozes da Resistência.

