José Trajano: um operário do jornalismo - Le Monde Diplomatique

FUTEBOL E POLÍTICA

José Trajano: um operário do jornalismo

por Guilherme Henrique e Luís Brasilino
1 de agosto de 2018
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Crítico dos novos tempos na profissão, o carioca fala sobre ódio nas redes sociais, decadência da cobertura esportiva e atuação do Brasil na Copa do Mundo da Rússia

Duas câmeras posicionadas no centro do ambiente transformam a sala de José Trajano em um miniestúdio de televisão. Sobre a mesa de madeira, um roteiro com anotações e uma caneta esperam o apresentador. Às costas do assento vazio, uma estante repleta de livros, com destaque para política, música e cultura. “Estive tão envolvido com meu novo livro que não tenho lido romances, apenas coisas sobre política e história do Brasil”, respondeu ao ser questionado sobre as preferências literárias.

Enquanto terminava as últimas páginas de seu novo romance, intitulado Aqueles olhos verdes, que se distancia do tom autobiográfico das obras anteriores (Procurando Mônica, Tijucamérica e Os beneditinos), Trajano acompanhou atentamente os jogos da Copa do Mundo disputada na Rússia, em especial a atuação da equipe brasileira, eliminada pela Bélgica nas quartas de final, após uma derrota por 2 a 1. “A seleção, na hora que precisou mostrar, não mostrou”, ponderou o jornalista, ressaltando que os comandados de Tite receberam “uma bela lição”.

Aos 71 anos, José Trajano tem atuado em áreas diversas desde que deixou o posto de comentarista na ESPN Brasil, em 2016. A empresa que ele ajudou a fundar em meados dos anos 1990 mudou, assim como o jornalismo esportivo. “Esses dias eu estava em um restaurante, com três TVs ligadas na hora do almoço. Eu olhava e não sabia diferenciar SporTV, ESPN, Band e Esporte Interativo. Todas elas com um bando de homem falando, um letreiro com destaques e a tela dividida ao meio. Todas assim! De modo geral, o que está vencendo na imprensa esportiva é esse formato ao vivo, os engraçadinhos e os analistas, com jornalista mostrando tática e não sei mais o quê”, critica.

A pouca desenvoltura com a tecnologia não o impediu de criar o Ultrajano, plataforma multimídia com quadros especiais e informações que vão do futebol ao cenário político brasileiro. “Quando saí da ESPN, uma moçada que trabalhou comigo me procurou”, comenta. Auxiliado também pelo filho mais novo, ele tem aprendido a suportar a convivência desagradável e, por vezes, intolerante das redes sociais. “Mas eu nunca me escondi e também não vou fugir da raia. Não vou dar voz para filho da puta”, esbraveja.

Vestindo bermuda e chinelo, José Trajano falou ao Le Monde Diplomatique Brasil sobre as agruras e felicidades de uma vida dedicada ao jornalismo, driblando como poucos o saudosismo traiçoeiro e os anseios pelos novos tempos.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Qual é sua impressão geral sobre essa Copa do Mundo?

JOSÉ TRAJANO – Aqueles favoritaços de sempre, como Brasil, Alemanha e Argentina, deram brecha para o surgimento de novas equipes: Bélgica, que quase chegou à final, e a Croácia, de maneira surpreendente, porque tinha feito uma pré-Copa ruim e também por ser um país pequeno. A França já vinha com uma boa expectativa. É uma seleção jovem, com bons jogadores e com pinta de que poderia fazer algo legal.

Foi uma Copa estranha para nós, brasileiros, sob vários aspectos: quando começou, havia aquela coisa: “Vou colocar a camisa amarela?”, “Não estou vendo festa nas ruas…”, e depois essa festa aconteceu em alguns lugares. Aí a história da camisa amarela só para coxinha acabou. “Vou colocar porque sou brasileiro, foda-se!” Mas era um sentimento estranho em relação às outras Copas, levando-se em conta que a última foi aqui.

A seleção, na hora que precisou mostrar, não mostrou. “Tite é o maior técnico do mundo! Neymar vai virar o maior jogador do mundo!” Uma seleção que saiu daqui sob aplausos, que tinha recuperado o prestígio. Merda nenhuma! Não vou falar que foi bom o que aconteceu, mas nós tomamos uma bela lição. Transformaram o Tite em um messias, o homem que sabia de tudo, infalível, e o Neymar em um jogador que ele não é, mas que poderá ser um dia, se tomar tenência. Nem tudo são flores.

 

O que você achou da utilização do árbitro de vídeo (VAR)?

Eu não sou contra, mas ainda estou na expectativa para ver como vai continuar. O erro foi colocar a Copa do Mundo como experiência. Se era para testar, que fizessem antes, para que nos acostumássemos culturalmente. O negócio caiu de paraquedas na Copa. Modifica bastante o futebol, o jogo, mas corrige diversas injustiças. Agora, o VAR ainda depende muito de vossa senhoria. Se o árbitro chama o VAR, tudo bem, mas se não chama…

A utilização do VAR é meio desonesta, porque só vai acontecer nas grandes competições. Por exemplo: eu torço pelo América [RJ]. Vai ter VAR na segunda divisão do futebol carioca? E no campeonato do Maranhão? Ceará? Vai ser no máximo o Campeonato Brasileiro, e olha que os times já recusaram. O futebol vai ser diferente de um lugar para o outro, quando deveria ser uma coisa só.

 

Em relação ao jogo, como você viu a questão da posse de bola na Copa? Os times que ficaram menos com a bola venceram os jogos.

O estilo tiki-taka, a posse de bola, já não é mais tão importante. Foi uma Copa do Mundo em que os times estavam preocupados em não perder. As defesas sobressaíram. Thiago Silva e Miranda jogaram muito bem. A defesa uruguaia foi bem, assim como a da França.

 

Ainda sobre o Brasil, faltou alguém na lista dos 23 convocados? Até nisso houve consenso antes da Copa.

Tinha o Arthur [meia ex-Grêmio, atualmente no Barcelona] e o Luan [atacante do Grêmio], que foram campeões da Libertadores. O grande problema foi ter levado jogadores machucados. Todo técnico da seleção brasileira é teimoso. Ele [Tite] é fiel aos atletas, assim como acontecia no Corinthians. Ele convocou jogadores que não poderiam ter ido, não por má qualidade técnica, mas por estarem em má situação física, como o Renato Augusto. O Fred se machucou e continuou por lá. E alguns jogadores não serviram para nada. O que o Taison foi fazer lá? Mesmo com o Douglas Costa machucado, ele não foi opção.

Recentemente vi uma notícia que me surpreendeu. Um integrante da comissão técnica, um dos vários analistas que o Tite tem, disse que a seleção foi surpreendida com a maneira de a Bélgica jogar. Peraí, pô! Todo mundo sabia, até minha avó que já morreu, que a Bélgica não ia jogar contra o Brasil como foi na partida anterior, contra o Japão. Quando o Tite adiantou a escalação, eles colocaram o Lukaku na direita, o Hazard já vinha muito bem pela esquerda… Eu não admito uma comissão técnica, com tanta informação disponível, seja em vídeo, redes sociais, analistas, ser surpreendida em uma Copa do Mundo. Começou o jogo, viu que está ruim, troca!

 

Como você percebeu a reação da população à eliminação na Copa? Parece que foi algo normal, corriqueiro, sem comoção. De onde vem essa descrença?

O pessoal foi meio ingrato com o Tite e os jogadores. A imprensa, principalmente. Mas foi meio estranho mesmo, como se fosse normal perder. Não acho que se deva pegar alguém para crucificar, como fizeram com o Bigode e o Barbosa, em 1950, mas houve uma pasmaceira, um conformismo. É que nós não estamos indo bem em nada. Vivemos um momento muito anestesiado, e isso se refletiu no futebol.

 

Isso tem relação com o 7 a 1?

Acho que não, o 7 a 1 já era. Foi uma vergonha que nunca mais vai se repetir. Quando começou essa Copa do Mundo, a derrota para a Alemanha estava longe. Eu, como sou mais velho, me incomodo muito mais com a derrota para o Uruguai do que com o 7 a 1. Aquilo foi muito mais trágico, porque estávamos em uma final de Copa, com o Maracanã lotado, vencendo o jogo por 1 a 0. Uma tragédia grega. O 7 a 1 foi uma vergonha.

 

 

Ainda sobre a eliminação do Brasil, os jogadores quase não se pronunciaram, a não ser pelas redes sociais. Que análise você faz disso se nos lembrarmos do comportamento dos jogadores de antigamente, que não tinham essas ferramentas, e passaram por desclassificações complicadas, como em 1982 e 1986?

Isso é o produto de uma época. Essa é a geração da rede social, do Instagram. Jogadores que, em grande maioria, moram fora do Brasil. Eles têm a família por aqui, algumas lembranças de quando começaram a jogar, mas o mundo deles é outro. É um mundo de astro pop, vivendo uma vida encantada. Atletas de antigamente ganhavam bem, mas para comprar uns três apartamentos, educar bem os filhos, e só. Hoje, não. Eles acabam vivendo essa realidade paralela dos “parças” e exibicionista.

 

O Neymar começou a Copa com a expectativa de ser um protagonista à altura de Cristiano Ronaldo e Messi, mas não rendeu o esperado. Do ponto de vista técnico, ele tem qualidade para alcançar esses dois atletas?

O Neymar saiu da Copa do Mundo menor futebolisticamente e muito ofuscado em termos de imagem. As agências que cuidam da carreira dele vão ter muito trabalho para limpar a barra, porque ele virou piada no mundo inteiro. Virou palhaçada.

Acredito que o grande problema dele foi ter ido para o Paris Saint-Germain. No Barcelona, ele tinha um time, com Suárez, Messi, Iniesta. Ele foi para o PSG para ser o dono do time. O comportamento exibido lá, brigando com todo mundo, discutindo com o Cavani, foi o mesmo na Copa do Mundo. Agora nem no PSG ele é o primeiro, porque tem o Mbappé e o próprio Cavani, que fez uma boa Copa.

 

Falando sobre a imprensa, como você tem visto a cobertura esportiva? Parece haver um aumento dos programas ao vivo, no estilo mesa-redonda.

Sim, que enchem o saco. Parece que uma pessoa dirige todos. É o marketing. Não de uma emissora, mas de todas, que conversam entre si. Chegaram à conclusão de que precisam ter programas ao vivo, praticamente iguais. Esses dias eu estava em um restaurante, com três TVs ligadas na hora do almoço. Eu olhava e não sabia diferenciar SporTV, ESPN, Band e Esporte Interativo. Todas elas com um bando de homem falando, um letreiro com destaques e a tela dividida ao meio. Todas assim! De modo geral, o que está vencendo na imprensa esportiva é esse formato ao vivo, os engraçadinhos e os analistas, com jornalista mostrando tática e não sei mais o quê. Esquecem que o cara pode ter dor de barriga, o improviso, o talento. São programas muito parecidos. Matérias mais longas, como as do Lúcio de Castro [ex-ESPN e SporTV], sobre ditadura e futebol, por exemplo, estão desaparecendo. O negócio é papo no sofá e os repórteres entrando do clube. Eu não gosto.

 

É o futebol indo para o entretenimento?

Os engraçadinhos estão ganhando vez. Toda emissora tem um piadista, palhaço, que troca a informação pelo gracejo. O sonho dessa gente não é trabalhar com jornalismo, mas conseguir ganhar dinheiro contando piada. O sonho desse Tiago Leifert [apresentador da Rede Globo], quando entrou no jornalismo esportivo, era ir para o entretenimento. Eu falei isso há muito tempo. Já passou pelo Big Brother e agora está fazendo anúncios. Aquele Alê Oliveira [ex-ESPN, atualmente no Esporte Interativo] ganha dinheiro vendendo cerveja, usando camisa com piada machista, homofóbica.

 

Passando um pouco para a internet, onde você tem atuado com o blog, como tem sido a relação com o público? Como você encara a hostilidade em alguns momentos?

É terrível, porque a burrice está em primeiro lugar. Saiu uma matéria esses dias mostrando que 80% das pessoas que se formam não têm compreensão do que leem. É o que acontece nas redes sociais. Há um preconceito, uma ideia formada sobre mim. Se eu coloco qualquer coisa, a pessoa não vai ler o que está escrito. Pega uma palavra, um detalhe, e destila todo o ódio. Esses dias coloquei no Twitter uma foto do Paulo Soares e do Antero Greco [apresentadores da ESPN], lembrando quando tive a ideia de colocá-los juntos em um programa. Aí você olha os comentários: “Acertou só essa”. Dá vontade de responder: “Não, babaca, eu inventei a ESPN”. E isso ainda é um comentário generoso, porque a maioria é só porrada. É um convívio desagradável. Mas eu nunca me escondi e também não vou fugir da raia. Não vou dar voz para filho da puta.

 

O que você tem sentido de diferença da ESPN para este novo momento? E a utilização das mídias digitais?

Eu sou um zero à esquerda. Computador e celular, só sei o básico. Mas não tinha outro jeito depois que eu saí. Quando deixei a emissora, uma moçada que tinha trabalhado comigo me procurou. Aí começou o Ultrajano. Twitter e Instagram vieram depois. Meus filhos que mexem, me instruem. No meio disso tudo, ganhei um tempo para escrever. Fiz Os beneditinos e acabei de mandar um novo, que terminei no meio da Copa do Mundo: Aqueles olhos verdes. E ainda estou na TVT fazendo um trabalho legal, recebendo convidados. Você tem que se virar para ganhar um dinheiro.

 

Qual é a temática desse novo livro?

Fiz três livros, mesmo nunca imaginando escrever alguma coisa. A trilogia começa com Procurando Mônica, que fala sobre uma paixão juvenil. Depois veio o Tijucamérica, sobre o bairro da Tijuca e o América, e, por fim, Os beneditinos, sobre o São Bento, colégio em que eu estudei no Rio de Janeiro, e o reencontro com meus amigos da época da escola, passando pelo Brasil da década de 1950. Esse quarto livro é diferente, porque não é tão autobiográfico. A história é um pouco baseada no meu avô, que nasceu lá em Rio das Flores. Eu conto a história do Brasil de 1938 a 1962, passando pelo Estado Novo, Getúlio Vargas, o integralismo, a Coluna Prestes, e relacionando com a história das Copas de 1938 e 1950.

 

Todos esses livros passam por um Rio de Janeiro que não existe mais. Como você vê a cidade atualmente?

Muita preocupação. É um Rio abandonado, violento, com um prefeito de quinta categoria. O Luiz Fernando Pezão [MDB] é um governador que não existe. Sob uma intervenção fajuta, espécie de cortina de fumaça que não resolve nada. Casos emblemáticos não resolvidos, como o da Marielle Franco e do Anderson. A última vez que estive lá, senti as pessoas meio amedrontadas, cada uma contando um caso de violência. É triste.

 

Como você vê as eleições deste ano?

Acho que será uma das piores de todos os tempos. O Congresso tende a ficar pior do que já é. As bancadas do boi, da bala e os evangélicos vão se eleger porque possuem poder econômico para isso. Há um desgaste muito grande com os políticos; colocam todos no mesmo saco, como se todo mundo fosse filho da puta e safado. Tem muita gente boa por aí. Tem esses aproveitadores, como Datena, Luciano Huck. O Bolsonaro é um perigo para o país, apesar de achar que ele não tem tamanho para ganhar uma eleição. No Rio de Janeiro, o Romário está liderando as pesquisas para governador. Onde é que já se viu? Todo dia você vê notícia do Romário falando que pegaram carro dele não sei com quem, apartamento no nome da irmã…

 

Como surgiu a ideia de o ex-presidente Lula ser comentarista do seu programa?

Pensei: “Porra, precisamos de algo diferente. Por que não o Lula?”. Entrei em contato com pessoas próximas a ele e perguntei o que elas achavam. Como ele podia escrever cartas, levaram minha sugestão. Ao término de cada jogo, ele escrevia a análise e dava para o advogado. Isso ia para um assessor, que me encaminhava.

Aí começaram a falar que tinha algo por trás, esquema com o partido. Porra, parece que você não pode ter uma ideia! Acharam que a coisa tinha surgido do Lula para mim, inverteram tudo… Pena que acabou, por causa da lei eleitoral. O jornalismo ainda é feito de boas ideias.

 

*Guilherme Henrique e Luís Brasilino são jornalistas.



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