Las Vegas: o impasse norte-americano - Le Monde Diplomatique

URBANIZAÇÃO DA SOLIDÃO

Las Vegas: o impasse norte-americano

por Allan Popelard e Paul Vannier
3 de agosto de 2012
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Considerando que uma vitória em Nevada será decisiva nas eleições presidenciais dos EUA, os principais candidatos gastaram ali recursos que ultrapassam a compreensão. Em Las Vegas, a metrópole do estado e capital do jogo, tudo é desmedido. A começar pelo urbanismo, que isola os indivíduos e corrói as relações sociaisAllan Popelard e Paul Vannier

(Homem observa discurso de Barack Obama na Avenida Strip, em Las Vegas)

A Strip é uma avenida que, ao longo de seus 7 quilômetros de extensão, concentra a maior parte dos cassinos, hotéis e salas de espetáculo de Las Vegas. Dia e noite lotada, cheia de turistas e carros, ela se organiza em um longo corredor no qual passarelas e galerias canalizam o percurso. Das salas de jogos às atrações, o passante se vê envolvido por um circuito saturado de néon e letreiros luminosos. Não espere parar em um bar para recuperar o fôlego: o balcão estará repleto de máquinas caça-níqueis. Nenhum tempo, nenhum lugar é deixado para a divagação secreta da mente. Esse espetáculo total distrai, captura e desorienta os sentidos. O traçado urbano aprisiona e ordena o movimento dos corpos, afoga as pessoas numa multidão anônima.

As atrações não reduzem a impressão de solidão. O cassino é o lugar das separações e das trincheiras. Em suas mesas, os jogadores de pôquer se isolam em sua capa, por trás de seus óculos de sol, no silêncio sussurrante de seu walkman. A poucos passos, é o reinado do simulacro high-tech: os jogadores afundam o olhar confuso no decote de um holograma feminino que distribui cartões virtuais. Roleta, roda da fortuna, jogos “de sociedade”, o cassino parece ser a alegoria de um mundo em que todo sentimento de comunidade afundou, deixando apenas a solidão dos antagonistas; cada jogador, cativo de seu desejo confuso, não tem nem parceiro nem adversário, apenas o acaso e a probabilidade.

 

Desesperança

“No estado de Nevada, a taxa de dependência do jogo é de 6%, o triplo da média nacional”, diz Carol O’Hare, diretora do Conselho de Nevada para os problemas do jogo, organização privada afiliada ao Estado. A prevalência do vício no jogo não é a única anomalia estatística. Coincidência ou não, Las Vegas apresenta outra característica: uma taxa de suicídio entre as mais altas dos Estados Unidos. Esses dois indicadores detonam a imagem festiva da cidade; parecem revelar um abandono total. E a organização espacial pode ser seu fator determinante.

Em muitos aspectos, o lugar lembra uma fábrica. A fileira das máquinas, o espaço otimizado da cadeia de produção. As guirlandas sonoras e o som das moedas coloridas evocam o barulho martelado da sucata e o brilho cintilante dos ferros de soldar. Os jogadores estão em seus postos. Cada um se empenha em ganhar seu salário de sorte. Expressões maquinais, gestos automáticos, reflexos controlados. Os braços estão ligados ao teclado, os olhos fixos no computador. O corpo é um com o aparelho. O chefe, travestido de agente de segurança, mantém a ordem no espaço produtivo. Sob o olhar de centenas de câmeras de vigilância, monitora a manutenção da cadência, o bom funcionamento das máquinas automáticas, a circulação dos fluxos.

“Estamos há muitos anos entre as cinco cidades onde as pessoas mais se matam nos Estados Unidos”, diz MikaelMurphy, legista do condado de Clark, que inclui a cidade de Las Vegas, ao nos receber em seu escritório. Sob seu bisturi, desfila o cortejo fúnebre das mortes violentas do condado: “As pessoas pensam que são principalmente turistas e jogadores que cometem suicídio. Na verdade, a maioria é de moradores”.

Há vinte anos, o saldo migratório de Nevada é o mais forte dos Estados Unidos, e Las Vegas, seu principal beneficiário. Entre 2001 e 2010, a população passou de 1,5 milhão de pessoas para 2 milhões.1 A estrutura do mercado de trabalho incentiva o crescimento demográfico, com uma proporção exagerada de empregos pouco qualificados nos setores dinâmicos da construção civil e da hotelaria, o que ajuda a fazer da cidade do jogo um paraíso para os desempregados.

“As pessoas se mudam para cá para ter um novo começo”, analisa Murphy. “Mas não demoram muito para se dar conta de que sua situação de vida é tão difícil quanto antes.” Além disso, há muitos cujos sonhos foram quebrados pela ruína imobiliária que minou as fundações da economia urbana.

Stephen Brown, professor de Economia da Universidade de Las Vegas, lembra que, “com uma taxa de desemprego de 13,5%, Las Vegas detém um recorde para uma cidade desse porte nos Estados Unidos”. O Brookings Institution observa que, entre as cem maiores regiões metropolitanas do país, é ali que o aumento da taxa de desemprego foi o maior nos últimos três anos.2 Uma deterioração que o médico legista mede… à sua maneira. “Há dois anos, assistimos a um aumento no número de suicídios-homicídios [quando uma pessoa mata o cônjuge antes de se matar]. Há aqueles que perderam tudo e não sabem para onde ir. Em geral, têm mais de 50 anos. E aqueles que, exaustos, já não se sentem capazes de cuidar de um cônjuge, em especial se este está gravemente doente. Não posso provar nada, mas minha profunda convicção é de que, na maioria dos casos, esses suicídios estão relacionados à crise econômica.”

Desde o final de 2006, os preços da habitação caíram 60,5%.3 Por toda parte, as mesmas placas obstruindo a entrada das casas hipotecadas, os mesmos cartazes de “À venda” florescendo nos jardins. Desi Coleman, de 55 anos, mora em uma dessas ilhotas miseráveis dos bairros do norte, onde a cidade parece a caminho da “cabanização”. Em volta de uma unidade do Exército da Salvação, entre a rodovia e o cemitério Woodlawn, uma centena de sem-teto, sobrevivendo em uma paisagem de terrenos baldios, criou suas tendas nas barrancas da Vegas Drive. Não muito longe dali, moradores cortam com machados as árvores do jardim para fazer toras, enquanto, na soleira de uma porta, o mercado de pulgas dos pobres se organiza: bricabraque de objetos em liquidação, sofá exposto na calçada. “Aqui, como em outros bairros, há muitas pessoas que perderam a própria casa”, conta Desi. “Por exemplo, um dos meus primos, numa rua ao lado… E todo mundo foi afetado. Menos os ricos!”

Com a multiplicação da execução de hipotecas,4 o bairro se desvaneceu. A partida forçada de alguns dos habitantes só veio fortalecer a anomia social que já decorria da forte rotatividade residencial.5

Em Las Vegas, 91% dos habitantes são de outro estado, e 45% declaram a intenção de se mudar.6 No leste da cidade, os bairros compostos de trailers testemunham a hipermobilidade de uma parte da sociedade norte-americana. Robert Schoffield, gerente da Royal Mobile Home Park, estima em 35 mil o número dessas moradias na cidade. Entre os 237 moradores dos trailers de seu parque, existem essencialmente “aposentados e ativos com renda abaixo da média”. Enquanto muitos aposentados optaram por viver dessa maneira, os trabalhadores são frequentemente forçados, de crise em crise, a uma vida itinerante. Em suma, “ninguém é daqui”, explica Murphy, acrescentando: “A taxa de suicídio sem dúvida também tem a ver com isso, com o isolamento dos indivíduos, a falta de apoio de parentes em caso de adversidades, a fraqueza das relações de vizinhança. A grande maioria dos moradores não tem ninguém com quem contar em caso de dificuldade”.

 

“Estratégia de choque”

A distribuição do território não permite de forma alguma combater a solidão urbana. Pelo contrário, ela agrava seus efeitos. Segundo Matt Wray, professor de Sociologia da Universidade Temple, na Filadélfia, e autor de vários estudos sobre suicídio em Las Vegas, “o alto crescimento populacional não foi acompanhado pela criação de instituições locais, como centros comunitários ou escolas. A verdade é que esses lugares teriam ajudado a forjar laços sociais, melhorar a convivência. Sua falta é destrutiva para a sociedade urbana”. A razão para essa lacuna? “A taxa de imposto muito baixa da cidade, que não permite ao município financiar tais instalações.” O estado de Nevada e a cidade de Las Vegas têm, de fato, um dos sistemas de impostos mais baixos dos Estados Unidos: nem imposto de renda, nem imposto sobre herança, nem imposto sobre as empresas.

Colocada sob vigilância pelas agências de rating,7 a municipalidade apostou na “estratégia de choque” para acelerar a liberalização de sua economia.8 Desde 2008, todos os orçamentos públicos receberam cortes: −43,6% para a administração, −27,2% para a justiça, −23,6% para a cultura, −9,8% para a segurança. Escolas, bem como centros culturais e esportivos, foram fechadas. O financiamento de obras públicas foi aplainado pela metade. As autoridades urbanas de agora em diante preferem confiar em parcerias público-privadas, como na operação de revitalização do centro, que visa à criação de uma centralidade que ainda não existe. Por enquanto, a Strip é o espaço para onde convergem os turistas do mundo inteiro, mas não é um local de encontro para os moradores. Eles não têm algo assim, nem na cidade nem nos subúrbios.

De ambos os lados das ruas principais, barreiras fecham o acesso aos condomínios, obrigando a contorná-los. O torrão de terra, a torre, a muralha. Até a grade levadiça. A América reativa as formas e funções da arquitetura medieval. As fortificações das comunidades fechadas, eriçadas com torres, dominam o espaço urbano. Não é possível entrar nesses bairros residenciais sem um convite, sem que o guarda verifique a placa do carro e receba do proprietário uma confirmação por telefone. Cada ilha, cada célula faz a separação.

“Las Vegas é a cidade que funciona 24 horas! Eu amo isso!”, exclama o senhor Butch, de 61 anos, nativo da cidade. “Quero comprar alguma coisa às 2 da manhã? Vou lá! Quero ir a um restaurante às 3 da manhã? Vou lá! Aqui você pode ir aonde quiser, quando quiser.” A urbanidade abatida de Las Vegas é a da exploração contínua do tempo. Mas nessa cidade não restam para os moradores urbanos expropriados nem os lugares nem os momentos que partilhavam em comum.

A nova economia do setor terciário, que atualmente representa a esmagadora maioria dos postos de trabalho nos Estados Unidos, promoveu o consumidor à categoria de um novo ator da transformação social. Ex-centro de produção mundial, os Estados Unidos aos poucos se tornam um mero espaço de consumo. No entanto, nessa sociedade em que o consenso consumista parece ter substituído os antagonismos de classe, os trabalhadores não desapareceram. Desde os anos 1990, o desenvolvimento da indústria do jogo levou à construção de novos cassinos, cada um mais gigantesco que o outro. Ali, várias centenas ou milhares de trabalhadores estão reunidos no mesmo local. Ainda que as dinâmicas de povoamento tendam a dispersar os moradores pela cidade, a nova geografia dos assalariados faz emergir, ao longo da Strip, concentrações propícias a formas inéditas de organização sindical.

 

Esperança sindical

Entre 1950 e 1980, “Las Vegas era uma daquelas cidades onde tínhamos em relação aos sindicatos uma imagem caricatural, corrupta e ‘mafiosa’”. Durante esse período, os funcionários sofreram com o funcionamento dos sindicatos norte-americanos, que faziam as condições e os salários dependerem de acordos descentralizados, realizados no local de trabalho entre empregador e empregados. A corrupção sindical e a repressão patronal destruíram a solidariedade local. Demorou algum tempo para construir e organizar nos espaços do Sunbelt um “movimento empregado” dotado de uma força comparável à do movimento dos trabalhadores de cidades do Meio-Oeste. Um movimento capaz de se opor à regressão salarial que viu o crédito ser substituído pelo salário e a “liberdade” do consumidor prevalecer sobre as condições dos trabalhadores.

Nos escritórios da seção 226 dos Culinary Workers (empregados de restaurantes), a presidente do sindicato, Geoconda Argüello-Kline, recorda: “No início dos anos 1980, estávamos em péssimas condições, e os trabalhadores dos cassinos tinham problemas com suas direções. Eles então sentiram necessidade de se organizar e de lutar”. A renovação começou em meados dos anos 1980. “Em 1984, foi feita uma greve muito difícil, que reuniu 18 mil trabalhadores. Nos anos que se seguiram, houve um esforço para estabelecer comissões em cada cassino. Depois, em 1991, sobreveio a greve no [Cassino] Frontier. Durou seis anos, quatro meses e dez dias.” Desencadeada quando da negociação do acordo coletivo para os funcionários do hotel, essa greve foi a mais longa e uma das mais importantes que os Estados Unidos conheceram desde 1945: 20 mil grevistas desfilaram pela Strip, e uma marcha de 500 quilômetros através do Deserto de Mojave permitiu colocar sua causa na mídia.9 E, finalmente, a vitória em 1998. Uma luta que “mostrou às empresas que os trabalhadores eram capazes de se organizar, que sabiam por que estavam lutando e que estavam unidos na luta, por suas famílias, por condições de vida dignas”.

Em Las Vegas, o sindicalismo representa a única esperança de colocar um freio na lógica de exploração. “Tomemos o caso do Station”, continua Geoconda. “Nesse cassino, os trabalhadores decidiram se organizar, porque lá você pode trabalhar por trinta anos e não ter aposentadoria. Você não tem segurança do emprego, você precisa pagar US$ 100 por mês pelo seguro-saúde. Você pode medir a diferença entre a condição desses trabalhadores e a de nossos sindicalizados. É muito grande.”

Hoje, 90% dos empregados dos cassinos são sindicalizados. Os Culinary Workers contam com 150 mil membros, 5 mil a menos do que em 2008. “É verdade que a crise econômica afetou a economia de Nevada”, conclui Geoconda, “mas nossos membros estão protegidos. Eles continuam a se beneficiar de sua aposentadoria e de um seguro-doença gratuito para eles e suas famílias. Tudo isso não mudou com a recessão. Os empregados mantêm a segurança do emprego. O sindicato forma um escudo protetor em torno deles.”

Como outrora aconteceu com Detroit na época da grande indústria, Las Vegas, na era da economia dos serviços, aparece como uma cidade combativa e altamente sindicalizada. Para além da cenografia privatizada de seu território, para além do mau gosto e do kitsch dos consensos forçados, ela desvela a modernidade da sociedade norte-americana: a de um espírito de resistência e de um sentido de ação coletiva que sobreviveram a todas as tentativas de anular a solidariedade salarial, de erigir a atomização da sociedade em princípio de organização socioespacial. Instalados no meio do deserto, no oco de picos vermelhos e de montes cor de malva, seus trabalhadores seriam os pioneiros de um novo gênero?

Allan Popelard  é geógrafo na Universidade Paris-VIII.

Paul Vannier é escritor.



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