Lélia Gonzalez e o pacto racial do desenvolvimento
O pensamento de Lélia Gonzalez desvela o pacto racial que sustenta a modernidade latino-americana e inspira as marchas contemporâneas pelo Bem Viver
O discurso do desenvolvimento consolidou-se na América Latina como a narrativa hegemônica que prometia resgatar a região do atraso histórico legado pela colonização. Sob a retórica do progresso, ergueram-se infraestruturas, portos, estradas e barragens que simbolizavam a inserção subordinada dos países latino-americanos na economia global, ao custo da devastação ambiental e da expropriação social. Cada ciclo de crescimento econômico reafirmou, sob novas formas, a dependência estrutural e a desigualdade racial herdadas do período colonial. A antropóloga e filósofa negra Lélia Gonzalez identificou que o desenvolvimento, longe de constituir um processo neutro ou universal, opera através de uma articulação entre capitalismo, patriarcado e racismo na produção de hierarquias sociais. Em sua análise, o ideal de modernização funciona como mecanismo de legitimação de um projeto racializado e patriarcal de sociedade, que disfarça a exclusão estrutural sob a aparência de progresso e racionalidade técnica.
Nos anos 1980, Gonzalez denunciou que racismo e sexismo não eram resquícios do passado, mas dimensões estruturais da sociedade brasileira. Mostrou que a pobreza não é uma anomalia a ser corrigida, mas condição necessária à acumulação capitalista. O sistema depende de uma reserva permanente de trabalhadores precarizados – e, na América Latina, essa reserva tem cor, gênero e território.
Ao reinterpretar a categoria de “massa marginal”, formulada por José Nun, Gonzalez revelou que os “marginais” da modernização são, em sua maioria, pessoas negras. O desemprego, a informalidade e o subemprego não resultam de falhas de mercado, mas da própria lógica racial que define quem pode ascender e quem deve permanecer à margem. Durante o “milagre econômico” brasileiro (1968–1973), enquanto o PIB crescia, as favelas se multiplicavam e a concentração de renda atingia níveis históricos.
Mas Lélia Gonzalez também antecipou uma crítica mais ampla: a de que o desenvolvimento latino-americano é a continuidade do colonialismo por outros meios. O projeto de modernização, ancorado na dependência externa e na exportação de recursos, perpetua a hierarquia entre centros e periferias. A autora denunciou o mito da democracia racial como o dispositivo ideológico que sustenta essa estrutura: uma ficção de harmonia que silencia o racismo e neutraliza as reivindicações por justiça social.
Essa crítica ressoa nos debates sobre o neoextrativismo, conceito que descreve a nova face do velho modelo colonial. O economista equatoriano Alberto Acosta define o extrativismo como uma forma persistente de acumulação baseada na exploração intensiva de recursos naturais para exportação. No neoextrativismo, a extração é gerida pelo próprio Estado, que a justifica como meio de financiar políticas sociais. O resultado, porém, é um paradoxo: em países ricos em petróleo, minérios e florestas, cresce também a pobreza, a violência e a degradação ambiental.
Eduardo Gudynas chamou esse fenômeno de “maldição da abundância” – quanto mais se extrai, mais desigual se torna a sociedade. Maristella Svampa, por sua vez, fala em “consenso das commodities”: a aliança entre governos, corporações e elites locais que transforma territórios em zonas de exploração, enquanto comunidades inteiras perdem o direito de existir em seus próprios espaços. O território deixa de ser lugar de vida para se tornar depósito de recursos.
No Brasil e na Colômbia, essa racionalidade assume contornos dramáticos. O avanço do agronegócio, da mineração e da energia hidrelétrica intensifica a destruição ambiental e expulsa populações negras e indígenas de suas terras. Na Colômbia, a vice-presidenta Francia Márquez Mina – liderança negra oriunda do Pacífico – vem denunciando esse modelo em textos recentes, como Plan de buen vivir o alternativas al desarrollo para el Pacífico. Ela mostra como regiões riquíssimas em biodiversidade convivem com os mais altos índices de pobreza e privação. Uma colonialidade energética que revela a continuidade do saque sob novas formas.
No Brasil, a expansão do agronegócio e das monoculturas ameaça comunidades quilombolas e povos tradicionais, transformando-os em “excedentes sociais” de um mercado que mede o valor da vida em toneladas exportadas. Essa dinâmica repete o padrão denunciado por Gonzalez: o desenvolvimento como processo de subdesenvolvimento seletivo.
A crítica de Lélia Gonzalez permanece vital porque antecipa essa leitura estrutural. Para ela, a pobreza e a marginalização das mulheres negras não são efeitos colaterais do desenvolvimento, mas expressões diretas de um sistema que articula colonialismo, racismo, patriarcado e capitalismo. O crescimento econômico baseado na destruição de territórios e na exploração de corpos racializados é uma política de morte, sustentada por uma epistemologia que separa a humanidade entre os que consomem e os que são consumidos.
Superar esse modelo exige mais do que redistribuir renda: requer redefinir o próprio sentido de bem viver. As resistências das mulheres negras, indígenas e quilombolas encarnam essa alternativa: nelas, o cuidado, a solidariedade e a ancestralidade não são romantizações do passado, mas projetos de futuro.

Lélia Gonzalez e o Bem Viver em marcha
O legado teórico e político de Lélia Gonzalez ressurge com potência na mobilização das Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver. Em 2015, mais de 100 mil mulheres negras ocuparam Brasília para denunciar o racismo estrutural, a violência institucional e a persistência das desigualdades históricas que atravessam o corpo social brasileiro. Dez anos depois, em 25 de novembro de 2025, elas voltarão às ruas. A II Marcha Nacional das Mulheres Negras já se articula em todo o país com o propósito de inscrever a reparação como política de Estado e de afirmar o Bem Viver como princípio ético, político e civilizatório. Essa agenda contemporânea condensa o núcleo mais profundo da crítica de Gonzalez: a recusa em naturalizar a pobreza e a marginalização das mulheres negras como efeitos colaterais inevitáveis do progresso. Em sua perspectiva, a superação do subdesenvolvimento não pode ser reduzida a estratégias de crescimento econômico, pois implica o rompimento com o pacto colonial que articula capitalismo, patriarcado e racismo como engrenagens interdependentes de exploração e dominação.
Marchar, nesse sentido, é mais do que reivindicar direitos: é instaurar uma epistemologia da vida diante de uma racionalidade que historicamente opera como racionalidade da morte. Ao evocarem o Bem Viver, as mulheres negras não aspiram à integração na ordem vigente – questionam seus fundamentos e anunciam a necessidade de reinventar o mundo sobre bases outras, nas quais o valor da existência não seja medido pela capacidade de produzir, explorar ou acumular, mas pela possibilidade de coexistir e cuidar.
Eis a herança viva de Lélia Gonzalez: converter a crítica em insurgência, a teoria em prática coletiva, o pensamento em movimento. Em suas palavras e nas ruas que voltam a ser ocupadas, ecoa a certeza de que não haverá emancipação possível enquanto a humanidade continuar assentada sobre a exclusão racial, a violência patriarcal e a ilusão desenvolvimentista.
Yoná dos Santos é doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM-USP) e autora da tese “O lócus fraturado da pobreza: uma crítica à feminização e à mensuração da pobreza de mulheres periféricas em São Paulo e Cali a partir de epistemologias críticas e decoloniais”.

