Lígia Souto e a Poética da Finitude: escritora fala sobre obra contemplada no Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura
Em sua estreia literária, a atriz e dramaturga Lígia Souto reflete sobre a ansiedade da espera e o cotidiano em um Brasil à beira do abismo
Lígia Souto, atriz, dramaturga e roteirista paulistana, se lança na poesia com “finde mundo”, publicado pela Editora Patuá. É um livro que se equilibra nas tensões entre a iminência do fim e a continuidade da vida. Contemplada com o Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura de 2023, a obra expõe, com uma escrita despojada e crítica, a angústia de um cotidiano que segue, mesmo diante da expectativa do fim do mundo. Dividido em seções que representam os meses do ano, finde mundo usa de humor e crítica para abordar dilemas existenciais de uma sociedade que vive à margem do caos.

Além de seu trabalho como escritora, Lígia é uma profissional multifacetada, com uma sólida trajetória nas artes cênicas. Formada em atuação e dramaturgia, ela tem no currículo peças premiadas e roteiros para a televisão. Também é editora de teatro em livro na editora efêmera.
Em finde mundo, Lígia traz um olhar poético sobre a sociedade atual e sua própria realidade. Publicada pela Editora Patuá, a obra busca captar as fissuras do cotidiano e inseri-las em uma realidade íntima, política e social marcada por incertezas. Não se trata de uma obra apocalíptica no sentido tradicional, mas de uma meditação sobre a finitude que se faz próxima em meio ao ritmo acelerado da vida moderna.

Abaixo, você confere uma entrevista com a autora sobre as angústias que inspiraram e influenciaram a escrita da obra.
Como o próprio nome indica, finde mundo fala sobre o fim de tudo, a finitude, o fim do mundo. O que motivou você a explorar a temática?
Sinto que essa sensação de “fim” atravessou toda a existência da minha geração. Vivemos o bug do milênio, a profecia maia, o golpe de 2016 no Brasil, a ascensão do fascismo e da ultradireita, o governo Bolsonaro, a pandemia de 2020, a crise climática, o capitalismo e todas as guerras que ele criou. Coisas assim me assustam, me intrigam, desde muito nova. A maior parte do que escrevo acaba então passando por essa ideia de que está tudo sempre por acabar, por explodir, e eu me pego tentando lidar com as sensações de estar diante dessa iminência do fim. Talvez o fim do mundo seja a minha urgência, o que me faz fritar a cabeça, o coração, o que me causa espanto, medo, o que não consigo controlar, não sei. Ou talvez seja o que me fascina, algo pelo qual espero secretamente, ansiosamente, porque não acredito mais no mundo como está e desejo mesmo que tudo se acabe logo. Não sei se é uma sensação coletiva, mas para mim é sempre muito latente. A nuvem de poeira se aproxima, e o que nós estamos fazendo? O que poderíamos fazer? Escrevo para tentar entender – inclusive as perguntas.
Seu livro reúne textos escritos ao longo de dez anos. Como foi o processo de organização e seleção desse material para formar uma obra coesa?
Nunca tinha pensado em escrever um livro de poemas. Escrevia no meu blog, nos meus cadernos, para mim. Sempre fui meio tímida quanto ao que escrevo, hoje penso que deveria ter me utilizado mais de pseudônimos. Foi durante a pandemia que tive o primeiro insight de olhar meus textos para formar um livro, quando uma amiga me procurou porque precisava de um livro para publicar como parte do seu projeto de TCC. Isso me motivou e comecei a reunir todos os materiais que guardava no meu blog, fui digitando alguns manuscritos e redescobrindo textos, identificando padrões, referências, temas e estilos que se repetiam, enfim. Um processo que se mostrou arriscado, porque se reencontrar consigo pode tomar muito tempo – algo que minha amiga não tinha, por isso tomou outros rumos para seu projeto e eu fiquei ali com meus textos, no meio dessa auto imersão. Consegui organizar uma primeira seleção, que enviei para alguns amigos em cujo senso crítico confio muito. Mas passei a sentir uma certa vergonha, um certo medo dos feedbacks, um frio na barriga mesmo. Acabei deixando a ideia do livro de lado e só retomei anos depois, quando o Leo de Sá, que foi um dos que leu o primeiro esboço e depois viria a escrever o prefácio do livro, me falou do Prêmio Carolina Maria de Jesus e me incentivou fortemente a inscrever. Era o gás que precisava para finalizar o projeto do livro. Com um prazo apertado e agora também um olhar mais distanciado, consegui retomar o projeto. Fiz ajustes a partir dos feedbacks, reescrevi alguns poemas e cheguei a uma nova versão, com o título provisório finde mundo. Foi só nesse momento que entendi que se tratava de uma obra “sobre o fim do mundo”, diga-se assim. Ali enxerguei o livro pela primeira vez.
Em que momento você decidiu inscrever finde mundo no Prêmio Carolina Maria de Jesus? O que essa premiação representou para você?
O Prêmio Carolina Maria de Jesus foi minha primeira aposta na literatura. Me inscrevi no último dia e, meses depois, quando soube do resultado, eu nem acreditei. Meu primeiro livro, reconhecido pelo Ministério da Cultura, com um prêmio que leva o nome de Carolina Maria de Jesus. Tudo tão importante, tão grande, tão bonito. Me senti honrada em fazer parte da retomada histórica do Ministério depois do desmonte. Acho que é importantíssimo para um país acreditar nos seus artistas, porque isso produz artistas mais fortes e confiantes, produz artistas que produzem. Posso dizer que ter meu trabalho reconhecido me trouxe uma coragem, que perdi com os últimos anos, para defender o que sou, quem sou: eu escrevo, essa é a minha profissão. Ganhar o prêmio me ajudou a olhar para minhas obras, para tudo o que faço, com mais carinho e mais respeito.
Seu livro reflete sobre a espera pelo fim, mas também sobre a continuidade da vida. O que você espera que os leitores sintam ou levem consigo após a leitura?
Olho para o livro como um diário da sobrevivência cotidiana, que cultivei de forma muito íntima através dos anos. Nele tem amores, tem solidões, tem a inércia frente as condições que a sociedade nos impõe viver, tem o tédio da expectativa pelo fim. Abri esse diário para o mundo sem saber, na verdade, o que os leitores achariam. Por isso até fiquei bem receosa, mas tem sido muito interessante ver as reações sobre o livro. Vejo que de alguma forma as pessoas se reconhecem nessas emoções, nas dúvidas, na rotina da sobrevivência que se sobrepõe ao que sentimos, que abafa o que urge de nós. Por algum tempo me descabelei achando que minha função como escritora era trazer a solução dessas angústias, mas hoje acredito que o mais importante esteja no ato da gente se reconhecer um no outro, de se sentir menos só. É assim que me sinto agora que o livro está encontrando as pessoas, espero que elas se sintam assim também.
Como finde mundo marcou sua trajetória pessoal e profissional? Como essa obra impactou sua relação com a escrita e com o mundo?
O cenário político dessa fase foi o que se desenhou de 2013 até 2023. Foram tantos golpes duros, um atrás do outro, que, em dado momento, cansei. Me isolei. E estive muito introspectiva por bastante tempo. Às vezes com a sensação de que estava me encolhendo, me escondendo. Me afastei das redes sociais, perdi o tesão em tentar fazer parte do mundo. Estava desanimada sobre minha carreira, não queria mais ler nem escrever nada. Tive raiva da arte, criei aversão ao teatro, foram muitos anos tentando construir coisas para chegar naquela sensação de vazio, de nada. Cogitava mudar de área e apagar essa fase “artista” da minha vida. Então veio o finde mundo, me fazendo mergulhar nessa trajetória toda. Sinto que lançar esse livro me tirou da caverna e me libertou de um ressentimento e uma covardia que estavam me embrenhando. Fez eu me reconhecer em meu ofício e acreditar na minha poesia. O finde mundo mexeu um tanto na minha coragem, isso foi e está sendo desafiador e ótimo.
Sua experiência no teatro influenciou sua escrita? Você enxerga alguma relação entre a estrutura narrativa do livro e a dramaturgia?
O teatro e a dramaturgia estão presentes no meu imaginário, no ato de raciocinar, de construir os pensamentos, na minha forma de ver o mundo. Sou cria deles. Estou sempre tentando enxergar as histórias por trás do óbvio do que está sendo dito. E herdei do teatro a prática de escrever e ler em voz alta para brincar de achar o ritmo, o tom – o que me ajuda muito também a pegar o fio da meada. No finde mundo, fui vislumbrando uma personagem dentro desses poemas-dias, uma história através dos meses, uma dramaturgia poética. Sempre vi teatro na poesia e vejo o teatro nesse finde mundo também.
O que te atrai na poesia como forma de expressão? Você sente que a poesia te permite traduzir sensações e pensamentos de uma maneira que outros gêneros não permitem?
A poesia é capaz de colocar as palavras para dançar, de falar profundezas em poucas palavras, criar odes a grandes vazios. Para mim, é a melhor forma de expressar o inexplicável. Um portal do meu eu para o eu do outro, uma janela do eu para o mundo. Não que outros gêneros não permitam, mas acho que a poesia abraça mais o subjetivo e por isso oferece mais interpretações possíveis de um mesmo texto. A poesia é, talvez, o gênero que mais depende do repertório do leitor para construir o próprio discurso. É uma coisa sozinha com quem escreve e outra coisa junto com quem lê. Acho isso bonito demais.
Como você descreveria seu estilo de escrita? De que forma ele influenciou a estrutura de finde mundo?
Escrevo em fluxo de sentimento, de pensamento, de dentro para fora. Sinto muitas vezes que sou verborrágica, muitas vezes não faço sentido, muitas vezes não entendo o que quero dizer até que tenha dito. Aprendi a respeitar isso não apenas como parte do processo, mas como resultado também. Esse caminho, essa investigação do que é que está se formando ali, o processo de descobrir o que aquelas palavras juntas vão acabar dizendo, isso é o meu texto. Faço esse caminho nas palavras, o leitor o percorre comigo. No finde mundo, vejo isso refletido na atmosfera dos poemas que tentam desvendar as emoções – do presente, do passado, do eterno porvir. O eu-lírico está ali mais tentando entender o que sente do que relatando o que está sentindo.
Sua relação com a escrita começou cedo, como essa relação foi evoluindo?
Sempre fui muito ansiosa por me comunicar, era uma criança que falava muito, inclusive sozinha. Quando cansava de falar, lia todos os gibis e livrinhos possíveis. Assim aprendi a escrever, e escrevia muito. Queria de alguma forma colocar para fora todas as descobertas, dúvidas, pensamentos, ideias. Entendi que, para todas essas nuances, escrever era muito melhor do que apenas falar. Aí fui escrevendo diários e cartas (lembro que mandei uma até para o presidente Lula, em 2003), e com o tempo fui brincando de escrever gibis, histórias, livretos, letras de músicas, fanfics. Fui crescendo, lendo mais, e isso evoluiu para a poesia. Por alguma razão, nunca tinha pensado na escrita como profissão, até conhecer a dramaturgia. Foi a dramaturgia, lá em 2015, que me apresentou a escrita como ofício e tornou a nossa relação (literalmente) oficial.
Você segue algum ritual ou método para escrever ou a sua escrita acontece de maneira mais espontânea?
Hoje, para a minha escrita, acho que o que funciona mesmo é ficar um tempo sem escrever, deixando a coisa se elaborar em mim. Aí escrevo, escrevo, escrevo, então me afasto. Passo um tempo sem ler o que escrevi, lendo outras coisas, escrevendo outras coisas, estudando tarô, isso e aquilo. Depois me debruço na leitura dos materiais, entendendo e redescobrindo as coisas que escrevi com essa nova bagagem que adquiri nesse meio tempo. Basicamente, um processo de imersão dividido em fases, que para mim funciona porque existe o momento do afastamento.
Quais são os seus próximos planos no mundo literário? Você já tem novos projetos literários em andamento? Pode contar um pouco sobre o que vem por aí?
Tenho trabalhado num original de poesia, o caderno de sonhos, que é um livro de poesias sonhadas, e numa dramaturgia que ainda está bem no começo, mas é um projeto que já vem de muitos anos. No momento estou buscando ler mais do que escrever, e também tenho me dedicado a alguns projetos audiovisuais e às produções da editora efêmera. Mas sempre pode aparecer alguma coisa nova, se o mundo não acabar no meio do caminho.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

