RACISMO NO FUTEBOL

Lionel Messi e o silêncio que grita ao mundo sobre aquilo que não é dito!

A Copa do Mundo deveria ser uma celebração da comunhão, da alegria e da pluralidade, que deveria ser de todos e para todos, em torno do esporte mais democrático e popular do planeta

A Copa do Mundo de 2026 tem sido marcada por jogos históricos, mas também por uma série de controvérsias e episódios de confusão. O torneio é permeado por uma relação, no mínimo, conivente e espúria com as ingerências políticas e práticas discriminatórias do governo dos Estados Unidos, que afetaram a logística e, em alguns casos, até mesmo o desempenho técnico de determinadas seleções em detrimento de outras.

O que mais chama atenção são as ações, os atos discriminatórios de cunho racistas que ocorrem livremente em meio as transmissões e análises das partidas e, sobretudo, nas arquibancadas. Nesse aspecto, têm ganhado destaque as manifestações dessa natureza protagonizadas por parte da torcida argentina. Mesmo sendo brasileiro e torcedor de arquibancada que vivencia atos racistas em estádios, o que se assiste até agora nos jogos envolvendo parcela da torcida portenha é assustador.

Com todo cuidado que se deve, não se pode aqui cair em generalizações, como pontuar que todo argentino é racista ou defende as intolerâncias exercidas por seus conterrâneos. Portanto, o conteúdo dessa análise foge de qualquer tipo de xenofobia ou intolerância. Mas não se abdica de pontuar críticas acerca de uma realidade que se dá ante de qualquer pessoa que esteja acompanhado o maior torneio futebolístico do mundo!

Muito desse fenômeno de extremismo e supremacismo racial, que, em maior ou menor grau, sempre esteve presente na história de todas as Copas do Mundo, adquiriu novos contornos e maior repercussão em nosso país vizinho em razão da ascensão do reacionarismo político, simbolizada pela eleição de Javier Milei à Presidência da Argentina. Esse contexto contribuiu para a naturalização de discursos e sentimentos como o racismo, o supremacismo, a ideia de pureza racial e a xenofobia, convertendo-os, para determinados grupos, em valores aceitáveis e até mesmo em formas de defesa da preservação de um pretensioso ideal eugênico de raça e de nação.

Essa dinâmica se articula, na interpretação aqui apresentada, a um movimento reacionário de alcance internacional. No Brasil, fenômenos dessa natureza passaram a ganhar maior visibilidade desde o início da década de 2010, tendo como um de seus principais marcos a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Desde então, práticas e discursos associados a esse contexto passaram a se fazer presentes com maior frequência em diferentes espaços da vida social e nas mais diversas formas de sociabilidade.

Foto: FIFA

Nesse ambiente, o reacionarismo tende a ser tratado, por seus adeptos, como uma norma a ser seguida e reproduzida, muitas vezes sem espaço para contestação ou questionamento.

O silêncio ante tal fenômeno social, como comprova a História, não é solução para o seu enfrentamento e a sua superação. Deixar que tais ocorrências sejam encaradas como “normais” e “naturais” dentro de uma Copa do Mundo, com nenhuma atitude efetiva para freá-las é no mínimo conivência com aquilo que a humanidade possui de pior e mais desprezível.

Uma coisa é reconhecer que disputas desse nível afloram sentimentos nacionalistas e que, por vezes, situações lamentáveis acabam ocorrendo. Mas é por isso, que ações em contrário devem se dar de maneiras imediatas e contundentes para exemplificar pelo bem comum, em representação pela busca por uma maioria moral de boa convivência humana, para demarcar que práxis preconceituosas não serão toleradas e muito menos aceitas. Nesse sentido, em competições internacionais de seleções e clubes organizadas pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), é fundamental que sejam aplicadas sanções esportivas aos envolvidos – muitas vezes de forma imediata – sem prejuízo das investigações e dos processos que posteriormente possam tramitar nas esferas administrativa, cível e criminal, conforme a legislação de cada país.

Só que nessa Copa do Mundo, talvez por estar ocorrendo em território ao qual um dos países organizadores, os Estados Unidos, está envolvido em uma guerra direta contra um dos participantes, o Irã.  Durante o torneio o país sede procurou afetar a seleção iraniana, não permitindo a sua livre circulação e estadia de sua delegação nas cidades estadunidenses. Além de impedir ou dificultar a entrada de torcedores de países sul-americanos (Colômbia e Equador), caribenhos (Haiti) e africanos (Costa do Marfim, Gana, Senegal e a República Democrática do Congo) – para acompanhar as suas seleções. Situações que não se deram por acaso, mas mostra como uma política discriminatória se manifesta através das falas e justificativas – sem qualquer tipo de pudor – do chefe máximo da nação, Donald Trump. Fenômeno atestado pelo próprio Departamento de Estado dos EUA, que revelou ter aumentado seletivamente a sua taxa de rejeição de vistos para cidadãos de 11 dos 48 países que se classificaram para a Copa do Mundo, em mais de 40%.  Isso nos revela estarmos diante de um torneio de intolerância e discriminação, realizada de maneira pública e explicita. Como o maior espetáculo da Terra.

É uma triste realidade, que evidencia a contradição de se promover, atualmente, a Copa do Mundo como um evento de congraçamento e interação entre diferentes povos e culturas. Uma celebração da comunhão, da alegria e da pluralidade, que deveria ser de todos e para todos, em torno do esporte mais democrático e popular do planeta! Mas, que tristemente, a FIFA, na figura de seu presidente Gianni Infantino, tudo fez em tolerar e em se omitir. Para não desagradar os interesses políticos e ideologias do trumpismo. Em que o lucro e interesses, mas não os mais nobres, estejam postos acima de tudo e de todos.

Um campo fértil para o deleite e desfile dos reacionarismos e preconceitos. Dos indivíduos ou grupos organizados, que se sentiram livres para exercer seus xingamentos e palavras de ordem discriminatórias, seus cânticos e gestuais racistas. Em que torcedores, repórteres e jogadores negros tem sido vítimas constantes de atitudes das piores possíveis. E sendo aí, a partir desse recorte, que se destaca as ocorrências ocorridas, facilmente encontradas – em inúmeras gravações espalhadas pelas redes sociais ou reportagens – em meio a torcida alviceleste.

Realidade, que grosso modo, já fervilhava desde a última copa, tomando ares extremos após a final com a vitória portenha em cima do selecionado francês, ao questionar a nacionalidade e humanidade de seus adversários, devido a ascendência africana e imigrante destes. Os relacionando a uma origem animalesca parental com chimpanzés, com ataques diretos ao seu maior astro Kylian Mbappé. Um cântico racista, supremacista e transfóbico, entoado por sua torcida de forma provocativa, que seria posteriormente retomada durante a comemoração da seleção argentina, após a conquista da Copa América de 2024, na final disputada contra a Colômbia.

O que atesta haver um histórico, uma realidade que se optou em ignorar, mas que ocorre por uma dinâmica sistêmica. Um padrão de atuação, que ao não sofrer as devidas medidas pelos órgãos responsáveis – FIFA, Confederação Sul-Americana de Futebol (COMEBOL) e Asociación del Fútbol Argentino (AFA) – deu a percepção de estarmos envoltos por uma sensação de impunidade. De uma realidade em que você ganha visibilidade, notoriedade e nada lhe ocorre enquanto punição, por você agir de maneira discriminatória ou preconceituosa. Além de que, se caso seja necessário, pode-se justificar tais atitudes em nome de uma “brincadeira” explicada pela disputa e ânimos acirrados, por um jogo de futebol. Ou seja, vivemos em uma época em que o inaceitável, o errado, o criminoso são plenamente acatados e tolerados, através das justificativas mais torpes e imbecis.

Não é por acaso, que grupos extremistas de supremacistas e racistas, estejam acolhendo a Argentina como sua seleção de preferência. E isso é um fato posto, nada sutil, aliás, que por si só deveria chamar a atenção de todos. Mas o maior incomodo ante tudo isso, é o silêncio conivente de quem poderia, com uma simples manifestação pública, contribuir para coibir ou, ao menos, constranger de forma contundente esse ativismo racista, que já não se restringe a episódios isolados. Na percepção aqui expressa, trata-se de um comportamento que vem se repetindo desde a Copa do Mundo de 2022 e que ressurge, de maneira recorrente, em competições envolvendo a seleção argentina, especialmente em partidas contra Brasil, Colômbia, Equador e seleções africanas. O que incomoda é o silêncio de quem viu, ouviu e nunca se posicionou ante tais situações… O que incomoda é o silêncio que grita ao mundo de Lionel Messi!

Uma postura que sempre se deu por sua parte, desde os ataques racistas enfrentados por seus companheiros Abidal, Daniel Alves e Samuel Eto’o em seus tempos de Barcelona. Nunca se via uma palavra de repúdio ante tais atos. Nem mesmo de apoio, de maneira publica cobrando ações mais enérgicas e pontuais da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) ou da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA). Podendo haver pontualmente uma declaração aqui ou acolá, mas não em sentido orgânico, volumoso e significativo.

Nem mesmo quando já estava consolidado enquanto o maior futebolista de sua geração. Disparado, o maior jogador de futebol do século XXI. Nunca se posicionou ou mostrou qualquer constrangimento ou incomodo em relação a isso, a tal realidade… Nunca apoiou qualquer ação de grande impacto nesse sentido! Nem uma frase, nem uma imagem! Nada, a não ser mais nada de nada! Nunca fez algo que pudesse colocar em risco o seu prestígio, a sua imagem de “bom moço” que não o envolva em nenhum tipo de confusão. Ou que atrapalhe os seus negócios e contratos.

Nesse mundo cada vez mais globalizado comandado por marcas e bets, ser – pretensamente – isento é um aditivo valorativo financeiramente. Ser amoral é bom para os lucros, muito mais do que ser engajado ou ativo politicamente. Em especial com pautas políticas problemáticas, como por exemplo denunciar e enfrentar o racismo. Mundo mais louco esse, não?

Que fique bem-posto, não está sendo cobrado que Messi tenha um ativismo como Reinaldo, Sócrates (1954-2011), Cantona ou Cruijff (1947-2016). Mas até entre seus pares geracionais, como Cristiano Ronaldo – mesmo com declarações políticas conservadoras nos últimos tempos – ou Sadio Mané, a sua postura é destoante. Jogadores de inconteste excelência, ídolos, vencedores, extremamente competitivos e exemplos de profissionais que nunca se omitiram em se manifestar contra aquilo que consideram nefasto e intolerável. Basta lembrar, por exemplo, as declarações de Cristiano Ronaldo sobre os imigrantes e da pluralidade como elemento legítimo da identidade do povo português, especialmente em sua entrevista concedida após a conquista da Eurocopa de 2016. Da mesma forma, Sadio Mané tem se destacado por sua constante defesa do africanismo e por seu firme ativismo no combate ao racismo e à xenofobia.

O que nos revela, respeitando cada individualidade e personalidade, haver situações em que o silêncio não se pode dar como escudo. E há situações em que sua posição de prestígio e referencial social lhe impõe compromissos éticos e morais que – deveriam se dar para além e muito acima de questões ou tratados comerciais/financeiros – não lhe permite silenciar ante as injustiças do mundo. Não existem inocentes em tempos de intolerâncias e ódio! E vivemos as dores – e escolhas – desses tempos em nossa época!

O silencio de Messi é no mínimo conivente em relação ao, e com o, inaceitável! É um não gritar, um não manifestar de omissão que atesta e legitima os atos dos canalhas e imbecis!

Não se coloca, portanto, em xeque a sua condição técnica exuberante e a sua trajetória enquanto estritamente jogador de futebol. Mas nos dias de hoje, ser atleta de fato, se dá muito além das suas execuções básicas esportivas. É muito mais do que realizar a contento as premissas e habilidades requeridas de seu esporte. Ou de sorrir candidamente para fotos ou dar declarações protocolares. Por vezes emotivas – restritas a feitos de sua carreira ou familiares – mas nunca fora do inesperado. Nunca para além de um mundinho de controle e convivência.

E como já ressaltado, este texto não se dá ou deve ser interpretado por um viés xenofóbico contra a população argentina – historicamente tão ativa política e culturalmente importante pela busca da construção de relações humanas mais fraternais e justas em nossa América latina – assim como não se dá como declaração de que Lionel Messi é racista.

Mas, pontua e situa para uma maior reflexão e problematização, que se o maior artista do futebol mundial, líder técnico de sua seleção, mito em seu país, ídolo da juventude mundial. Que é impossível ele não ter ouvido, visto, vivenciado nada nesses anos de vida profissional. Nada nesses anos – por vezes sofridos e dolorosos física e emocionalmente – na seleção platina que tenha lhe chamado atenção como “algo, fora da ordem”, como uma “coisa errada”, em ser dita, em ser feita, gravada e publicada as vezes pelos seus pares, por aqueles que estão contigo! Ele ouviu, presenciou e nada fez – até agora – por anos contra as manifestações explicitas de racismo de seus conterrâneos. Tanto dentro dos vestiários, quanto das arquibancadas.

A noção da ocorrência destes fatos, destas ocorrências, ele sabe, ele viu… Não se pode alegar desconhecimento sobre isso! Pois os cânticos se dão a céu aberto, entoados a plenos pulmões para todo mundo ouvir e presenciar. Sendo o caso contra o Egito na partida de oitavas de final, em que o técnico Hossam Hassan da seleção africana, ativou o protocolo de antirracismo da FIFA – ante as injurias, xingamentos e gestuais racistas direcionadas a sua comissão técnica e equipe no momento da virada da Argentina – recebendo como resposta simbólica, um cartão amarelo como advertência pelo arbitro francês François Letexier devido a sua atitude. Num dos momentos mais constrangedores do torneio até então. Em que ainda não se deu – e nem se dará – justificativa plausível para a não devida implementação do protocolo.

E em vista de tudo aquilo que houve e foi presenciado naquele instante por todo mundo, em especial por quem estava envolvido na disputa travada em campo. Messi sairia muito maior do que já é, se ao final do jogo, quando entrevistado tivesse dito – nem que fossem poucas palavras, módicas até – no sentido de se posicionar e refutar qualquer forma de manifestação discriminatória, de se opor e negar qualquer apoio de torcedores racistas. De que estes meliantes não representam a maioria da sua torcida, de seu povo, de seu país! E o que tivemos? As mesmas declarações protocolares de sempre, acerca da “dificuldade da partida”, “como o adversário nos desafiou”, “como fomos resilientes e lutamos pela vitória”.

Poderia ter se tornado muito maior, muito mais do que já é…

Mas espero piamente que Lionel Messi faça finalmente a coisa certa. Ou que ao menos, até o final do campeonato realize aquela que seria sua maior jogada na carreira, o seu gol mais bonito. O de se manifestar publicamente contra o racismo que assola não só a torcida argentina, mas as relações humanas em todo o mundo! Pois algo me diz que não faltou e não faltará oportunidades para que ele se manifeste nesse sentido, até o final do torneio!

Ele sempre esteve lá, sempre viu e ouviu esse monstro sem fronteiras ficar cada vez maior e mais forte e se espalhando entre os seus! E nunca fez nada para impedir isso! Por conivência? Solidariedade? Medo? Vergonha? Ignorância? Covardia? O fato é que nunca fez nada!

Não nos esqueçamos que o racismo se dá por atuação, mas também por omissão! Aliás, cresce e se torna mais rápido, se espalha cada vez mais longe, a partir da conivência daqueles que preferem se fazer por desentendidos ou desavisados de sua existência. E não existe maior omissão do que a covardia! Por isso que o antirracismo enquanto práxis cotidianas é mais do que necessário. Mas, será que fará algo desta vez?

A vida é feita de escolhas e até agora, suas falas e atitudes nos apontam que teremos mais do mesmo! Queria muito e torço para estar enganado!

A bola está com ele, a decisão é dele…

Mas acredito que, infelizmente, me enganei mais uma vez… E tudo seguirá cada vez pior!

 

Christian Ribeiro é doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/Unicamp.

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