PSICOLOGIA POR MEIO DA LITERATURA

Machado de Assis, Narcisismo e imortalidade

A medicina procura salvar vidas considerando que a vida tem muito mais valor do que a imagem, e foi com a ideia de salvar vidas que o médico Freud iniciou a psicanálise

Em Douleur Exquise, Sophie Calle (2003) relata o caso de Maria G., uma mulher de 62 anos que foi acusada por um vigia de supermercado de roubar um potinho de creme de leite e teria sido revistada diante dos outros clientes. Humilhada pela situação, ela retornou para casa sem comentar o ocorrido com ninguém. Dias depois, seu corpo foi encontrado em um canal, e, ao lado dele, havia um bilhete dirigido ao filho, no qual declarava sua inocência e reafirmava, com a gravidade de quem se despede da vida, que não mentia diante da morte. Maria G. não suportou se ver como ladra e, não conseguindo recompor sua imagem, responsabilizou os vigias do supermercado e se suicidou.

A medicina procura salvar vidas considerando que a vida tem muito mais valor do que a imagem, e foi com a ideia de salvar vidas que o médico Freud iniciou a psicanálise. Somente em 1914 veio a descobrir o Narcisismo, que privilegia mais a imagem do que a vida, um modo de pensar que cria dificuldades para qualquer tratamento, incluindo o tratamento psicanalítico.

Em um sentido histórico-religioso, a superioridade da imagem provém do fato de que a imagem é o que perdura após a vida. Deve haver algo mais elevado do que a transitoriedade da vida. Deve haver alguma imortalidade após a morte. Essa imortalidade, Freud alcançou, e era o seu desejo, confessado em carta privada a Fliess de 12 de junho de 1900: “Você acredita que haverá um dia nesta casa uma placa de mármore com esta inscrição: ‘Foi nessa casa que, em 24 de julho de 1895, o mistério do sonho foi revelado ao doutor Sigmund Freud’? Até agora, tenho pouca esperança.”

Em 1925, Freud declarou publicamente que se comprometera a apresentar a obra de toda a sua vida, refletindo sobre o próprio percurso e reconhecendo que a psicanálise havia se tornado o conteúdo central de sua existência. Freud era inconsciente do próprio Narcisismo. A psicanálise foi-lhe útil para compor sua imagem e tratar a sua imortalidade. O tratamento psicanalítico, que Freud criou, o tratamento pela palavra, tem a função de recompor uma imagem perdida, como no caso de Maria G.

Crédito: Marc Ferrez/Wikimedia Commons

Muito antes de Freud associar a cura pela palavra ao princípio homeopático de que “o semelhante cura o semelhante” (Similia similibus curantur), Machado de Assis já explorava essa ideia em sua obra. No conto Rei de Leão (1872), o autor faz referência direta a esse conceito ao afirmar que vence o próprio Deus “com as suas armas”, reconhecendo que o mesmo elemento que fere pode também curar – uma intuição literária que antecipa, de forma simbólica, a lógica terapêutica da psicanálise.

Com o objetivo de manter oculto o seu Narcisismo pessoal, Machado se disfarçava em personagens, e, por meio deles passava nas entrelinhas uma psicologia conceitual, e com conceitos similares aos de Freud, com outros nomes.

Em carta privada a Quintino Bocaiúva, aos 23 anos de idade, em 1862, Machado delineia brevemente seu projeto de uma psicologia por meio da literatura: “… onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade… eis uma ambição própria de ânimo juvenil, e que eu tenho a imodéstia de confessar”. “E, tão certo estou da magnitude da conquista, que me não dissimulo o longo estádio que há percorrer para alcançá-la”. “Até onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança?”

Não é ficção, mas uma carta ao amigo. Machado consumiu uma vida construindo seu projeto.

 

Adelmo Marcos Rossi é pesquisador, psicólogo, autor do livro “O Imortal Machado de Assis – Autor de Si Mesmo” e fundador do Grupo de Pesquisa do Narcisismo.

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