“Maldito petróleo barato!” - Le Monde Diplomatique

ONDA DE CHOQUE PLANETÁRIA

“Maldito petróleo barato!”

por Michael Klare
abril 4, 2016
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Entre agosto de 2014 e meados de 2016, o preço do barril de petróleo caiu 65%. Mais de 250 mil empregos foram suprimidos, com o setor sendo obrigado a renunciar a grandes investimentos ou a adiá-los. Esse abalo planetário enfraqueceu os gigantes da indústria petrolífera e desestabilizou os países exportadoresMichael Klare

 

Argélia, Azerbaijão, Nigéria, Rússia, Venezuela: vários países exportadores de petróleo reagiram à espiral de queda do preço do barril, diminuindo os investimentos sociais financiados por essa fonte, com risco de provocar revoltas populares. Ainda que os preços subam ao longo do ano, dificilmente voltarão ao patamar dos US$ 100 do primeiro semestre de 2014. Os efeitos da queda na cotação talvez continuem se fazendo sentir por mais quatro anos.

Para avaliar a amplitude dessa onda de choque, convém ter presente o papel fundamental desempenhado pelo petróleo na economia mundial, bem como a importância dos preços elevados para a solidez das estruturas empresariais e políticas que sustentam o mercado dos hidrocarbonetos. O petróleo é a mercadoria lícita mais rendosa do comércio internacional e a principal fonte de renda para uma dezena de países. Quando os preços sobem, como entre 2010 e 2014, as empresas petrolíferas colhem lucros colossais, que reinvestem parcialmente em novas infraestruturas e tecnologias destinadas a garantir um crescimento contínuo da produção. De seu lado, os governos dos países produtores aproveitam essa euforia para financiar grandes obras públicas ou outros programas suscetíveis de melhorar as condições de vida da população. Quando os preços caem, ao contrário, as empresas congelam os investimentos, provocando prejuízo à sua produtividade futura. Os governos apertam o cinto da população, pondo em risco a própria sobrevivência.

A crise piorou no final de 2014, quando a cotação do Brent – o petróleo cru de referência para os mercados mundiais – acumulou uma longa e tenaz depreciação. De US$ 115 em 19 de junho, o barril passou a custar US$ 90 no início de setembro e depois US$ 80 no início de novembro. Muitas explicações foram dadas, mas todas se resumem, em última análise, à simples aritmética da oferta e da procura.

A produção desvairada de óleo de xisto e areias betuminosas na América do Norte acrescentou barris ao mercado, e a demanda gerada por uma economia mundial anêmica perdeu fôlego. Enquanto os Estados Unidos se afundavam nas ondas da extração doméstica, os grandes países produtores do Oriente Médio baixavam os preços a fim de conquistar novas fatias de mercado na Ásia, o que só acelerou a queda das cotações.

Diante dessa situação, vários observadores pensaram que a Arábia Saudita e seus aliados na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) iriam concordar em reduzir suas quotas de produção para que os preços subissem, como haviam feito inúmeras vezes no passado. Dessa vez, porém, os sauditas se recusaram a fechar as torneiras, com medo de favorecer os produtores de fora da organização, como a Rússia, o Canadá e os Estados Unidos. Em seu encontro decisivo em 27 de novembro de 2014, a Opep manteve as quotas, continuando a inundar a economia global com um dilúvio de petróleo cru.1 Os preços seguiram caindo.

Para as petrolíferas, esse brusco abalo constitui uma tremenda ameaça a seus lucros e ambições futuras – sobretudo aquelas que investiram pesado em projetos caros de extração no Oceano Ártico, em alto-mar, de areias betuminosas ou óleo de xisto. Como a maior parte desses programas só é rentável a partir de US$ 70 ou US$ 80 o barril, talvez mais, a manutenção da cotação em menos de US$ 50 pode condená-las à bancarrota. Prevendo a catástrofe, diversas empresas apressaram-se em despedir empregados e engavetar projetos.

Nos últimos meses de 2014, a maioria de seus dirigentes ainda contava com um fim rápido do excesso de petróleo e uma retomada econômica iminente na Europa e na China, que estimulariam a demanda e forçariam os preços a subir. Desiludiram-se rapidamente: os produtores americanos de óleo de xisto conseguiram reduzir os custos de exploração e continuaram bravamente a inundar os mercados, enquanto na China a desaceleração econômica aumentava em vez de diminuir. Assim, o preço caiu a US$ 36,61 o barril no fim de 2015 e a menos de US$ 30 em janeiro e fevereiro de 2016.

 

A penúria anunciada não chegou

Num esforço desesperado para deter a avalanche, os dirigentes russos, venezuelanos e sauditas concordaram, em fevereiro, com a estabilização da produção. Mas outros exportadores, como o Irã, que acaba de se livrar das sanções, recusam-se a ir mais devagar. Contudo, os analistas se apegam à esperança de uma reviravolta, pois a produção norte-americana começa a se contrair.

Na ausência de uma certeza, a indústria petrolífera forçou ainda mais a estratégia de contenção adotada no final de 2014. Segundo a agência de consultoria em energia Wood Mackenzie, em 2015 os gigantes do ouro negro suprimiram ou adiaram 68 megaprojetos no valor total de US$ 380 bilhões. Planos de investimentos mirabolantes nas areias betuminosas do Canadá ou em perfurações marítimas em Angola ou no Cazaquistão2 foram abandonados. Numerosas zonas de extração tradicionais foram afetadas. A Douglas-Westwood, outra agência de consultoria em energia, revelou em fevereiro que nada menos que 150 plataformas no Mar do Norte serão desmanteladas nos próximos dez anos.3

Os analistas rivalizam em conjecturas sobre os motivos que impedem os sauditas e seus aliados de tomar medidas eficazes para equilibrar os preços – por exemplo, reduzindo a produção em vez de simplesmente estabilizá-la.4 Alguns aventam uma explicação geopolítica: Riad estaria tentando punir o Irã e a Rússia por seu apoio ao regime de Bashar al-Assad na Síria. Com um pouco mais de verossimilhança, os dirigentes sauditas teriam compreendido que a volta ao petróleo barato não é um fenômeno passageiro, mas o sinal de uma mudança radical de era. Estaria começando um período em que a demanda global jamais crescerá o suficiente para se equiparar à capacidade de produção teórica do setor petrolífero.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tamanho excesso de oferta contrasta com a profecia, feita há poucos anos, de um pico de produção iminente, a anunciar o declínio irreversível das quantidades extraídas e até problemas de abastecimento. Ao contrário, o avanço nas tecnologias de perfuração e a exploração de jazidas de xisto e de outras reservas ontem inacessíveis assinalaram o tempo de uma oferta abundante, embora os objetivos prescritos pela Conferência de Paris sobre o Clima (COP 21) devessem coagir os produtores a deixar boa parte desses recursos sob a terra. No momento em que a indústria se volta para soluções mais ecológicas, a queda dos preços pode desacelerar a transição energética. Mas não conseguirá dissuadir os governos de continuar pesquisando uma maior eficácia energética nem de recorrer cada vez mais às fontes renováveis, cujos preços também estão baixando.

Nessas circunstâncias, a Arábia Saudita julga essencial, para salvaguardar sua posição dominante, impedir os concorrentes estrangeiros de aumentar a produção – ainda que, para tanto, os preços se deteriorem.5 Porém, quaisquer que sejam as intenções ocultas dos protagonistas, essa virada provoca importantes repercussões geopolíticas. A mais evidente: o enfraquecimento dos regimes que baseiam grande parte de seu poder nos lucros do petróleo. Há pouco, essa renda lhes permitia realizar obras faraônicas, equipar suas forças armadas, oferecer serviços públicos, distribuir sinecuras e assegurar alguma influência além das fronteiras. Com ela, consolidavam também o aparelho de segurança interna, frequentemente utilizado para calar qualquer contestação. Mas essa renda quase nunca era aplicada no desenvolvimento de atividades econômicas não ligadas ao setor petrolífero – daí uma monodependência chamada “maldição do petróleo”.6 Confrontados de súbito com o esgotamento de sua cornucópia e dispondo de poucas outras fontes de renda, esses países mergulham numa crise gravíssima.

É o caso principalmente da Venezuela. Até sua morte, em 2013, o presidente Hugo Chávez utilizava as receitas da empresa estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) para financiar ambiciosos programas e serviços sociais em benefício das classes populares. Sua “revolução bolivariana” permitiu melhorar o dia a dia de milhões de pessoas – que se tornaram a base eleitoral de seu partido –, mas não logrou montar uma estrutura produtiva independente do petróleo.

Quando os preços estavam altos, isso quase não tinha importância, pois o maná petrolífero cobria amplamente o custo das importações de bens de consumo e o pagamento da dívida pública. Com o barril vendido a um preço três ou quatro vezes menor, o sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, se vê à frente de um país asfixiado que enfrenta um descontentamento popular cada vez mais forte, mesmo no seio de sua própria base.7 As escolhas arriscadas do governo não conseguiram minorar a crise, que se traduz em uma inflação galopante e na falta de produtos de primeira necessidade. Não surpreende que a oposição de direita, após conquistar a maioria das cadeiras da Assembleia Nacional nas eleições de dezembro de 2015, faça de tudo para derrubar o governo. Com as finanças devastadas pela rarefação das receitas do petróleo e com as reservas de divisas se esgotando, convém não descartar o risco de um calote da dívida e de um colapso geral da economia.8

A Venezuela é um caso extremo, mas outros países produtores enfrentam dificuldades semelhantes. A Nigéria, por exemplo, precisou desvalorizar sua moeda e diminuir suas despesas sociais no mesmo instante em que o regime balançava sob os ataques sangrentos da seita Boko Haram. O país mais populoso da África padece de uma corrupção profundamente enraizada, nutrida pelas rendas do petróleo, que são pilhadas a serviço de interesses privados. O ex-presidente Goodluck Jonathan nunca se destacou pela vontade firme de lutar contra a corrupção, mas os preços elevados do petróleo ajudaram-no a superar esse desafio graças à generosa distribuição de favores. Findo o período de vacas gordas, cada dólar absorvido pelas malversações era um dólar a menos para as despesas públicas mais essenciais, inclusive as das forças armadas empenhadas na luta contra o Boko Haram. Vencido nas eleições de março de 2015, Jonathan cedeu o posto a Muhammadu Buhari, um ex-general que fez campanha prometendo combater a corrupção e acabar com a organização islâmica. Ele prometeu também diversificar a economia. Mesmo assim a Nigéria continua sofrendo por causa da amputação de suas receitas petrolíferas.

Os tempos são igualmente duros para a Argélia e o Azerbaijão, dois países que têm em comum o fato de serem governados há décadas por um clã inamovível, cuja base de poder é a coleta e distribuição das rendas do petróleo. Outrora, uma vez convenientemente servidos os dignitários e os clientes do regime, o dinheiro que sobrava fluía para as massas em quantidade suficiente para conter a agitação social. Hoje, o povo é que sofre primeiro com a mudança de conjuntura. E não deixa por menos: em janeiro, reagindo a uma situação econômica cada vez mais crítica, um movimento de protesto varreu o Azerbaijão.9

Nada semelhante ocorre, por enquanto, na Argélia. Contudo, o descontentamento no seio da juventude, duramente acossada pelo desemprego, provoca aqui e ali conflitos com as forças da ordem, sempre em pé de guerra para sufocar a menor veleidade de revolta.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As autoridades iraquianas enfrentam um desafio ainda mais delicado. A despeito dos episódios trágicos e caóticos que suportou e ainda suporta, o Iraque conseguiu aumentar sua produção de petróleo nos últimos anos, passando de 2,4 milhões de barris por dia em 2010 para 3,4 milhões em 2014. Graças ao aumento das receitas, o primeiro-ministro da época, Nuri al-Maliki, ampliou consideravelmente os efetivos do funcionalismo público, entregando cargos bem remunerados a seus correligionários xiitas. Foram larguezas das quais nem de longe participou a minoria sunita, o que a tornou hostil ao regime e criou condições favoráveis para o advento da Organização do Estado Islâmico (OEI). O novo primeiro-ministro, Haider al-Abadi, esforça-se para, ao mesmo tempo, reconstruir o Exército e recuperar a confiança dos sunitas; mas a queda das receitas petrolíferas não lhe facilita a tarefa. Boa parte do funcionalismo não recebe seus salários há meses. O apoio do qual se beneficiava Al-Abadi corre o risco de desaparecer rapidamente, inclusive entre os xiitas – e isso torna ainda mais incerto o desfecho de sua campanha contra a OEI.11

 

Fim da idade de ouro

Há, finalmente, a Rússia. Comparada aos outros países atingidos pela crise, ela parece bastante estável. O presidente Vladimir Putin continua a gozar de forte apoio popular e dispõe de reservas suficientes para cobrir as despesas do Estado durante um ou dois anos. Ele controla os meios de comunicação e o Exército. Mas os efeitos conjugados da queda das cotações e das sanções europeias deixam o país vulnerável. O rublo não para de perder valor e a economia está em recessão. O povo começa a perceber um declínio significativo em seu nível de vida. Até agora, o governo conseguiu reduzir prontamente ao silêncio toda manifestação pública de desacordo; apesar disso, ela às vezes explode. Em dezembro de 2015, centenas de caminhoneiros bloquearam a rodovia periférica de Moscou para protestar contra o aumento dos pedágios. Em janeiro, servidores saíram às ruas em Krasnodar contra os cortes nos gastos públicos.12 Ninguém sabe se esses episódios isolados criarão um efeito bola de neve, mas semelhante perspectiva não pode deixar de inquietar o Kremlin.

Ainda é muito cedo, sem dúvida, para antever todas as consequências da onda de choque deflagrada em junho de 2014. Mas ela já alterou profundamente alguns eixos fundamentais da ordem mundial. Uma vez reabsorvidos os excedentes atuais, os preços do petróleo acabarão subindo, é claro. Todavia, para as empresas e os governos que estavam acostumados com esse maná providencial, a idade de ouro talvez tenha passado. Apenas aqueles que conseguirem diversificar sua produção e descobrir outras fontes de renda conseguirão se reerguer de forma duradoura.

Michael Klare é professor de estudos sobre paz e segurança mundiais no Hampshire College, em Amherst, Masachusetts, e autor do recém lançado Rising powers, shrinking planet; the new geopolitics of energy, publicado nos Estados Unidos pela Metropolitan Books, e no Reino Unido pela One World Publications.



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